Casamento

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Formas cosmopolitas de ser tio …

Jornais (ainda …)

Doze anos depois um atleta portugues ganha um titulo olimpico. O quarto na historia do desporto portugues. E coincidindo (rematando?) com uma viva polemica nacional sobre a qualidade da representacao patria e da justeza do dispendio de dinheiro estatal.

Pela ocasiao o jornal Record, o segundo mais antigo desportivo do pais, um dos jornais mais vendidos e lidos , constitui esta bela capa, dedicada ao jogador espanhol Reyes chegado agora ao clube Benfica…

Jornalismo lumpen? Ou … jornalismo lumpen.

De costas para o Tejo

um jantar tambem bloguistico. Mas nao so.

Lumpen, jornais e blogs, acordo ortografico e coisas assim …

Tudo isso vem a cabeca quando Nelson Evora ganha o ouro no triplo-salto dos Jogos Olimpicos e o jornal Publico - o “jornal de referencia” ao que sempre ouvi dizer - tem um enviado a Pequim chamado Hugo Daniel Sousa, de profissao jornalista, a escrever (duas vezes) que para que Evora chegasse a campeao olimpico foi necessario “delapidar o diamante”. Paulo Querido, a um profissional da palavra escrita que bota isto a gente chama-lhe o que? “Lumpen”?

Amigos Até ao Fim

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John Le Carré, Amigos Até ao Fim (D. Quixote, 2004, tradução de Helena Ramos e Artur Ramos)

É uma injustiça feita ao autor. Mas depois de ler “Um Espião Perfeito” tudo sabe a pouco: a perfeição não se pode repetir?

Será a trama que não é tão cativante - ainda que a ideia da Contra-Universidade Global seja uma delícia, a fazer-nos olhar para o lado e a ver quais a desejariam, quantos a sonhariam … Mas são os personagens centrais que deslustram, o torno Le Carré não os burilou o suficiente: Ted Mundy será apenas mais um, até algo cinzento, esquissado, até confundível com outros protagonistas que Le Carré criou. Qual a particular originalidade deste adornado filho de major “das Índias” alcoólico e decadente e de uma ausente criadita, que sempre lhe foi narrada como nobre inglesa? Crescido apenas com o amor de uma ama paquistanesa, num quartel recôndito? Um desvalido “ex-aluno do liceu comuna e ex-universitário de Oxford esquerdelho, que se tornara um falhado, um anarquista; um arruaceiro berlinense que, após uma sova bem merecida, fora posto na fronteira ao raiar da aurora; um professor não-qualificado expulso por libertinagem que criou uma situação falsa num jornal de província antes de se instalar no Novo México como aspirante a romancista, esgueirar-se de novo para Inglaterra e perder-se nos meandros sem esperança da burocracia das artes: um falhado dos pés à cabeça.” (179-180). Apenas mais um in-between na galeria de Le Carré, como quase sempre. E ainda mais frágil o desenho do seu contraparte (o autor precisa de pares na sua articulação romanesca) Sacha, uma personagem-dínamo que não ganha consistência. A fábrica Le Carré não está aqui no seu melhor, os exemplares produzidos vêm algo alquebrados.

Ainda assim, o prazer Le Carré, ainda que com suspense mitigado e que as costumeiras sombras que perpassam as suas gentes surjam muito iluminadas. Fica, para além do nojo por este fundamentalismo cristão que vem dominando a América, a fantástica pancada no Blairismo, essa injusta etapa início-de-milénio para um Reino Unido que já foi grande, a merecer outros modos, outros meios. Que se o podre sempre existiu assim será demais:

É a impaciência da velhice a manifestar-se cedo demais. E a raiva de ver o mesmo espectáculo vezes sem conta. (…)

É a descoberta, ao chegar aos sessenta, que meio século depois da morte do Império, aquele país tão mal governado pelo qual ele tinha feito qualquer coisa fora conduzido para combater outros povos, graças a um lote de mentiras, só para agradar a uma superpotência de renegados que pensa poder tratar o resto do mundo como se fosse o seu quintal.”

Por terras de …

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Encontrá-lo-ei? Encontrar-me-ei …?

69 De Puta Madre

Mosteiro de Alcobaça com bastantes turistas. Junto ao túmulo de Inês um popular, trintão, com o seu amigo. Calções verdes Adidas, daqueles muito anos 80s, curtos, e t-shirt de dístico 69, com De Puta Madre atrás e à frente. Sou eu, ateu, que lhe digo “V. não tem respeito nenhum”. Ele algo atrapalhado “é só um t-shirt, que importância tem?”.

Sou eu ateu que pergunto na entrada do mosteiro, onde pagamos, aos quatro funcionários, de quem é a tutela. Mista, também do Estado. Se assim é também é minha. Daí que lhe pergunto, frisando o meu ateísmo, como permitem um imbecil  vestido de 69 De Puta Madre entrar na igreja. Duas pessoas na bicha concordam, nada mais. Os quatro entreolham-se, lamentam ser poucos, dizem não ter visto. Impssível. Apenas não quiseram actuar. De Puta Madre. Para o patrício imbecil, claro. Mas também para a cáfila de funcionários do mosteiro. Que não têm desculpa . Nenhuma.

Bloguismo e jornais

Critiquei o Paulo Querido por um texto que aglutinava uma grosseira generalização de argumentos de alguns bloguistas com uma tentativa de colocar nos bloguistas o ónus (demagógico) de atacar práticas securitárias da polícia portuguesa. O mal bloguista, chamemos-lhe assim, uma demagogia anti-governo.

Acabo de ver um pacote de jornais portugueses. Os de “referência” (Diário de notícias, Sol, Expresso, Público) questionam essas práticas em bloco. Da festividade pós-abate do assaltante do BES a ressaca traz a crítica jornalistica dos polícias portugueses (disparam, dizem eles). O Correio da Manhã traz uma contracapa emotiva acompanhando um cadastrado fugitivo há oito anos que se foi entregar à cadeia de onde tinha fugido. Chega choroso pois a polícia matou-lhe um filho de 12 anos que o acompanhara no último roubo “fui roubar ferro para comer”, afirma. E para ensinar a prole na nobre arte do furto e da escapada às autoridades. Entrega-se dizendo que quer prender os polícias que o tentaram parar…. Para demagogia não está mal mas que esperar do Correio da Manhã? Neste caso apenas que acompanhe a demagogia extrema de Fernanda Cancio no artigo vs a polícia no Diário de Notícias da passada sexta-feira - “Somos todos vítimas” eis o lamento da conhecida jornalista.

Será que Paulo Querido refaz o seu pensamento - que a demagogia anti-policial e anti-governamental é não o apanágio dos bloguistas mas sim o xuxu da imprensa portuguesa (até dos mais surpreendentes).

Já agora - há tempos nos comentários do ma-schamba referi que o jornalismo português abunda em lumpen. Paulo Querido mandou-me levar no cu (grosso modo, “your ass”). O Publico de sexta-feira dá a contra-capa e o Diário de Notícias dá as centrais nesse mesmo dia: em 2040 as minorias raciais nos EUA serão a maioria, dado o crescimento demográfico dos “afroamericanos”, dos “asiáticos”, dos “hispânicos”. O Público é incapaz de reflectir sobre estas categorias “raciais”, apenas transcreve uma postura absolutamente superficial. O Diário de Notícias vai mais longe, proclama que em 2040 os “brancos” serão uma minoria nos EUA. Para o director do DN, para os seus adjurntos, para o chefe de redacção, para a senhora jornalista que assinava a peça, os “hispânicos” não são “brancos”. Eu, jpt, eles todos, a Ana Ortiz, a Jennifer Lopez e o resto da rapaziada será o quê?

“Your ass” para mim, Paulo Querido? Puro Lumpen, puro lixo, pura indigência. O lixo demagogo agora vs-polícia, (até o ministro Rui Pereira vem, timorato, dizer que não está contente). E os imbecis ignorantes, que se devem achar ameríndios. Yanomanis da praça do Chile, Sioux de Telheiras. Um atraso mental. Pobre Lumpen, camarada Marx, se misturável com esta tralha.

O Nosso GG em Havana

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Pedro Juan Gutiérrez, O Nosso GG em Havana (D. Quixote, 2007, tradução de Magda Bigotte de Figueiredo)

De quando em vez brota mais um escritor de moda. E vai acontecendo com os latino-americanos, muito a jeito por questões mais ou menos políticas. Há alguns anos foi-me enchida (e por minha culpa também) a casa de pequenos e manuseáveis livros - tinham essa vantagem - de Luis Sepulveda. Uma maçada trivial, diga-se. Mas não só latino-americanos, também toca aos anglófonos (normalmente a área ideológica dos elogiadores é outra: tem muito a ver com os ícones upstairs downstairs e Che Guevara, uns sonham-se myladys outros comandantes, e transpõem isso para o que dizem dos livrecos). Nisso de anglófonos lembro-me do espanto ao ler o muito incensado e premiado “Amsterdam” de Ian McEwan. Tinha uma trama qualquer, que esqueci, mas que foi completamente previsível. E tinha em fundo e superfície um nada. E tanta tralha, e in e out-blog, que lera no elogio …

Desabafo que vem a propósito deste O Nosso GG em Havana, que me chegou muito recomendado. Cubano exo-Castro, desbragado, mito boémio etc e tal, o autor rende. Dele já lera “Carne de Cão”, sexo desbragado (os protagonistas - ronda de alter egos - gostam de fornicar na água do mar) e muito rum, alguma piada adolescente. Daí que me deixei ir na onda, 10.80 euros a menos no orçamento familiar também não é tanto assim.

Começa grotesco, um tal de George Greene arriba a Havana, é confundido com Graham Greene, e envolve-se com um travesti histriónico com uma pila de 40 cms. Escusado será dizer que negro, Gutiérrez tem uma fixação em pilas negras que chega a ser pungente. Depois arranja (arranjará?) um enredo policial, traz o verdadeiro Graham Greene à cidade, em descanso do gestação do “Quiet American”. Aí Gutiérrez acalma o grotesco - mas não o tom etnográfico sobre os pirilaus afro-cubanos - e dedica-se a uma ficção ensaística, misturando de forma paupérrima uma inenarrável trama pró-espionagem com uma explanação sobre o cerne de Greene/Fowler (o protagonista do Americano Tranquilo), enceta o “Factor Humano”, e remata as constantes deambulações entre o bem e o mal que o velho, e verídico, Greene dirimiu ao longo da vida.

Enfim, o livro é uma mera merda. Nem vale o desabafo. Este só encontra causa ao ver os elogios, seja na escrita de jornal, seja até em quem mo recomenda. Vamos ler coisas de jeito? Resistir ao marketing? Ao comercial e ao político. Livros não faltam. E na política, francamente, antes o Fidel Castro …

Marias Deste Nosso Mundo

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Marias Deste Nosso Mundo” (Ndjira, 2006), de Maria Helena Massena Ferreira. Médica pediatra do Hospital Central, professora universitária (presumo que jubilada), de ascendência portuguesa e em Moçambique desde os anos 50, quando aportou já mãe à então colónia. Na nota biográfica descrevendo-se como de um núcleo familiar oposicionista (”Democratas de Moçambique”?, não está explícito).

Sem objectivos literários, em parte memorialista, o livro consta de 5 pequenas histórias (e um poema), das muitas que a médica terá para recordar. Esse o seu interesse, o eco da permanência das “doenças da fome” - tantas vezes esquecida quando no seu avatar subnutrição -, elas descritas bem como a sua constância no mundo infantil. E a memória dos efeitos desestruturadores das redes familiares que a guerra teve, de como potenciou não só as doenças como a incapacidade dos núcleos familiares se reproduzirem.

É um texto sobre mulheres, e sobre a sua fragilidade estrutural (Marido sem amor / Maria humilhada / O desgaste de sofrer) [p. 54], mães e avós tentando fazer medrar as suas crianças. E do esforço da médica, uma postura iluminista, tanto no olhar sobre práticas e concepções outras, tão presentes no sul e centro - os diagnósticos por imputação de feitiço, as madrastas “madrastas”, símbolo da desestruturação das parentelas, os cuidados maternais em linha matrilinear chocando com a lógica patrilinear, etc. - que tanto penalizam as mulheres e sua prole.

Interessante ainda, exemplo geracional, a memória grata sobre os anos 80, o “tempo do carapau e do repolho” como aqui se diz. Ainda que aflorando de modo breve lá está o elogio dos mecanismos colectivos de gestão e a, ainda hoje algo surpreendida, descoberta do tradicionalismo afinal não tão-revolucionário - pelo menos em questões cosmológicas e de género - dos grupos dinamizadores, formas de base da administração pública de então.

Na sua linearidade retórica um testemunho interessantíssimo. Sobre a saúde infantil, sobre o mundo das relações de género. Mas também sobre o processo de constituição do Estado-nação.

Ryszard Kapuscinski em Angola

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Ryszard Kapuscinski, Another Day of Life (Penguin, 2001 [edição polaca de 1976]) é o relato da estadia do autor em Angola entre Setembro e Novembro de 1975, o fim da colónia, o começo do país. Acompanhando o êxodo português e o (re)começo da guerra. Uma grande reportagem em livro precioso.

Empenhado, o tom e as previsões do seu tempo, a parte datada do texto: a FNLA é apresentada como constituída por canibais, dela se ouve a voz de um soldado (aprisionado) lamentando-se enganado por promessas de futura bolsa de estudos e sabedor do errado em alinhar com tal movimento. O MPLA é a “república”, os movimentos outros são invasores. Os portugueses são narrados em tons crus ainda, no fim, louvados por terem ajudado o MPLA - a abertura in extremis do aeroporto para as tropas cubanas. E a estadia que termina com uma visita, cortesia de admirador, a Agostinho Neto, o poeta, ali citado, e tratado com as pinças - apenas saudado, não questionado - “para não o magoar”, um triste episódio, até cândido na sua explicitação, onde Kapuscinski intervala o seu jornalismo. [Não deixa de ser engraçado ver a narrativa da sua viagem com a militantissima equipa da RTP, de Luís Alberto Ferreira. E queixamo-nos nós hoje em dia da falta de objectividade …].

Tudo isto será coisa do seu tempo, historicamente compreensível. Não tanto o seu posfácio, de 2000, com uma pequena cronologia comentado do percurso angolano: “Has anything changed? Unfornately, not much. Yes, the Cubans have departed. As have the South Africans. But the Angolans are still there - it is their country: a country divided, torn apart, ruined by civil war, whose central government has been consumed for three decades by the rebellion of Jonas Savimbi” (147). De longe, em décadas, Kapuscinski não mudou o seu olhar. Mudou o mundo, tanto se desvendou. Mas nada disso aqui se ecoa.

Sabe-se que o autor é louvado pelo seu conhecimento de África e pelo seu particular olhar. The Shadow of the Sun ganhou-lhe esse reconhecimento. Muito pela verve, respeitável, mas também pela abordagem, o (muito antropologizável, já agora) modelo “europeu entre africanos”, recusando os nichos dos “brancos em África”, nesse seu conforto apartados do real e do seu entendimento. Também por isso seria suposto o leitor surpreender-se com “The Bantu language has no future tense; the concept of the future doesn’t exist for the Bantu people, they are not tormented by the thought of what will hapen in a month, in a year” (103) - e eu regresso ao pobre jovem FNLA aprisionado, aterrorizado numa guerra na qual se alistou em troca de uma possibilidade de estudar. No futuro. Não seria bantu? 

É esta metade da sensação provocada por este Another Day of Life. A constatação de que a empiria nem sempre aclaram, a desilusão do preconceito presente, por melhor que seja o estilo. Sobrevalorizado Kapuscinkski? Sempre me pareceu, um pouco a auréola do andarilho - o “on the road in Africa” diverso do “once I had a farm in Africa“.  A cada leitor o seu sonho, o seu éxotico … Mas acima de tudo sobrevalorizável na comparação com o habitualmente pueril discurso europeu sobre os contextos africanos.

Mas há outra metade da sensação provocada pelo livro. A capacidade de observação (observar não é entender, nem sempre) do autor, e a bela prosa. Um aeroporto em pânico “acolhendo” a população colona em desespero, a barbuda e licenciosa tropa portuguesa auto-demitida e, de antologia, uma Luanda metida em contentores, páginas antológicas sobre a descolonização portuguesa:

Everybody was busy building crates. Mountains of boards and plywood were brought in. The price of hammers and nails soared. Crates were the main topic of conversation - how to build them, what was the best thing to reinforce them with. Self-proclaimed experts, crate specialists, homegrown architects of cratery, masters of crate styles, crate schools, and crate fashions appeared. Inside the Luanda of concrete and bricks a new wooden city began to rise. The streets I walked through resembled a great building site. I stumbled over discarded planks; nails sticking out of beams ripped my shirt. Some crates were as big as vacation cottages, because a hierarchy of crate status had suddenly come into being. The richer the people, the bigger the crates they erected. Crates belonging to millionaires were impressive; beamed and lined with sailcloth, they had solid, elegant walls made of the most expensive grades of tropical wood, with the rings and knots cut and polished like antiques (…)

The crates of the poor are inferior on several counts. They are smaller, often downright diminutive, and unsightly. They can’t compete in quality; their workmanship leaves a great deal to be desired. While the wealthy can employ master cabinetmakers, the poor have to knock their crates together with their own hands. For materials they used odds and ends from the lumber yard, mill ends, warped beams, cracked plywood, all the leftovers you can pick up thirdhand. Many are made of hammered tin, taken from olive-oil cans, old signs, and rusty billboards; they look like the tumbledown slums of the African quarters. (…)

Thanks to the abundance of wood that has collected here in Luanda, this dusty desert city nearly devoid of trees now smells like a flourishing forest. It’s as if the forest had suddenly taken root in the streets, the squares, and the plazas” (13-16)

E depois a guerra, uma frente sul incognoscível, indetectável de tão mutável e porosa, a qual narra até à fronteira. O ambiente de espera aquando da batalha de Luanda, angustiante (talvez premonitório de outros desesperos): “Oscar, who had been at the limits of his strenght, now drunk, called out in despair, “If this is what independence is like, I’ll blow my brains out!” (122). Mais do que tudo nessas andanças narrando locais e captando uma galeria de homens, estupenda, vibrante, combatentes ou sofredores, até heróicos no seu desprendimento quotidiano, quase como se tudo aquilo fosse, afinal, normal. Aí a grandeza do livro, da escrita do autor, como nos apaixona em meia dúzia de linhas por essa gente que cruza.

Termina a narração com a retirada sul-africana, uma cena épica, visitável, imaginável: “Pieter Botha … passes his army in review as it returns from war across the border bridge over the Cunene River. Although the soldiers cross the bridge in silence, there is a lot of shouting and screaming in the vicinity, since at the same time the FNLA and UNITA units that until that moment had accompanied the white South Africans soldiers are throwing themselves into the river en masse and splashing across towards Namibia. Many drown in crossing. But the war has ended, the democracy of the front has ended; and the law of segregation applies again: Passage across the bridge is for whites only” (147). Um mundo em estertor, esse que ainda teria duas décadas.

Kapucinski é zarolho? É! Mas um belíssimo zarolho …

Lisboa

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[Fotografia encontrada aqui]

Muito a propósito do primeiro aniversário de um simpático blog.

Bloguismo no Expresso

Um texto particularmente infeliz: é fácil fazer uma caricatura grosseira dos argumentos alheios almejando induzir deduções alheias. Mas não serve.

Nota: a ironia não se anuncia. Pratica-se. Os que a pretendem alcançar mas precisam de se explicar são intelectos desprovidos do gene do humor.

A revolução cultural do macua galáctico

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Até que enfim: ainda que isto não me faça esquecer de uma célebre substituição de Paulo Torres por ele realizada (será possível que algum dia isso me venha a acontecer?) exulto com Carlos Queiroz, agora sim digno do cognome Macua Galáctico. A não convocatória de Ricardo para a selecção nacional de futebol,  79 jogos (!) depois, imagine-se! é uma verdadeira revolução cultural que Queiroz acaba de provocar no meu país. Tardia. Mas fundamental. Viva o Macua Galáctico!

Blogs e jornais

Em Portugal há alguns anos os jornais ignoravam/plagiavam os blogs. O tempo, que tudo pode, alterou procedimentos. Foi ele que trouxe o blogo-digest, a criação de elos nos sítios dos jornais, o (hum …) pré-aviso das matérias publicadas e, por fim mas não o menos importante, os recrutamentos de bloguistas. 

Na vaga bloguística inicial (2003) muitos jornalistas se incluíram, outros vieram a mudar, muito legitimamente, de opinião. Mas o mal-estar de alguns abencerragens mantém-se, quebrado que foi o seu oligopólio da palavra pública - quantas vezes suportado num muito mediano capital cultural. É uma coisa corporativa, nada mais. Que insiste, cônscia ou inconscientemente, em confundir nuvens e velhos deuses.

Há pouco li no Sound+Vision (blog que julgo ser de jornalistas) a denúncia do impensamento reinante (claro) no mundo hobbesiano do bloguismo, esse que “repele qualquer possível réstea de solidariedade humana - via Certamente!, o qual recentemente já ecoara a denúncia deste mundo de pulhas, corajosamente afrontado por Ferreira Fernandes.

Hoje [via A Natureza do Mal] ascendo a mais uma denúncia deste sub-mundo, “territórios onde vivem o anonimato, a calúnia, a usurpação de autorias e a impunidade”, agora por Miguel Sousa Tavares.

Tenho por aí dezenas de entradas refilando com o anonimato opinativo, mas nem é essa a principal questão. Gosto e acarinho a minha coluna de elos. Recíproca (e não só) e percorrida, para fugir à monotonia dos blogs preferidos (os quais também vão mudando). Mas não está ela tão bem cuidada como a coluna do LNT. Repare-se nela, enorme e atenta, em cada blog o nome do seu autor(es).

Onde está o anonimato generalizado? A calúnia omnipresente? “O teclista lobo do teclista”?

É dizer-lhes, aos ilustres jornalistas, “a teclas loucas …”.