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“Terras de Angola” em Lisboa

(por AL ainda embrulhada em mãe e avó)

Foi com uma colagem do meu amigo e pintor Miguel Barros que me estreei aqui no maschamba. Actualmente a morar em Angola o Miguel tem-se inspirado nas cores e nas paisagens angolanas, que lhe valeram quadros muito, muito belos. Estão agora expostos em Lisboa, na Fundação Sousa Pedro no Chiado ate dia 11 de Março. Não percam!

Arte Africana em Lisboa

(por AL apressada)


Do nosso leitor Nuno Salgueiro Lobo vem-me a informação que a galeria lisboeta Influx Contemporary exibe actualmente uma exposição colectiva de artistas Africanos contemporâneos, oriundos de diversos países, incluindo Angola e Mocambique.

Pretende-se com esta exposição estimular um outro olhar sobre a Arte Africana:

A maioria das pessoas ainda associa a expressão ‘arte
africana’ às formas ‘tradicionais’, a chamada (erradamente)
de ‘arte primitiva’ ou tribal: objectos utilizados em cultos e
rituais ancestrais que encerram em si uma aura de
misticismo e espiritualidade. ‘Arte africana’ normalmente
significa ‘passado’.
Mas, as coisas em África mudaram muito entretanto…

Pelo que me foi dado ver no site da galeria, vale com certeza a pena dar um salto ao Lumiar.

(N)A “Pátria Amada”

  • Lisboa

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

Dizer

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

avc

3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.

paulo duarte

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

pai natal

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….

stuyvesant logo

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

Corcunda de notre dame

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

asterix

8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

Artis

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….

onesimo marx e darwin

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)

sporting logo

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.

fnac

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

Charme Discreto da Burguesia 2

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

Ler Dezembro 2009

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

jornal i

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…

fontes pereira de melo

17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

Amalia

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? –  é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!

sahara ocidental

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …

Liceu Camões

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.

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22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).

Korda6Korda5 Mão de Fidel

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

Korda1 - mulheres

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

gravata

23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

Escaparate

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a  “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.

coppola tetro

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

jose policarpo

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …

Homem em Furia

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”

record

29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …

cafe bica

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

PResepio

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).

enchidos

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

PortoVintage

33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …

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34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

Jornal de Letras 1

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).

Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

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36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

jpt

O Top 50 da World Press Cartoon 2009

World Press Cartoon

É uma arte simpática ainda que por definir – talvez mesmo por isso. “Cartoons”? Caricaturas? Cartões? Cartuns? Enfim, o problema das línguas recentemente fixadas, sem passado (nem antecedentes filológicos) de escrita – como é o caso do português -, é exactamente este, o da a incapacidade de encontrar no seu património palavras que possuam as capacidades descritivas e analíticas para anunciar os fenómenos actuais. Entenda-se, faltam conceitos a estas línguas que ascendem à modernidade para a esta descrever e compreender. Está pois de parabéns o Instituto Camões por este esforço para aprofundar o português, alargando-lhe os horizontes.

É uma arte simpática esta do “cartoonismo”, sempre apelando ao sorriso, quantas vezes crítico – isto se exceptuarmos a sensibilidade de alguns idolatras, por vezes mais excitáveis. Com efeito a quem desagradará a apresentação de uma exposição de “cartunes” (ou “cartuns”), ainda para mais uma selecção mundial, o Topo (perdão, Top) 50 do ano 2009?

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Também por isso a minha visita a esta exposição (a secção 2009 no Instituto Camões, a secção de 2008 está na Mediateca do BCI e ainda não vi). Muito honestamente para me desiludir. Claro que há boas “caricaturas” (perdoe-se-me o estrangeirismo, são efeitos das estreitas masmorras de uma língua involuída). Mas nesta selecção há um grande conservadorismo formal no conjunto – esta obra de Cao Gomez será disso a excepção mais relevante. Porventura, e sendo uma selecção do que o ano ofereceu internacionalmente, será esse conservadorismo efeito da produção, mas é um pouco inquietante.

Por outro lado há um conservadorismo na atribuição de prémios, um “correctismo” explícito, muito alinhado, uma linha (ideológica, não fujamos à palavra) que está presente no conjunto apresentado. Digamos que esse correctismo (exponenciado no primeiro prémio, um moralismo cansativo, sem particular alcance estético-humorístico) é o conteúdo da exposição, tão unânime é ela na abordagem ao mundo de 2009. Propositado? Intentando desenhar um unanimismo na imprensa mundial, do olhar o mundo na época? Acredito que sim, e esse é a pior das características que tal exposição poderá apresentar, e a mais desaconselhável para que seja patrocinada e apoiada, entenda-se, apresentada.

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Em regime pessoal tenho a notar que a visitei acompanhado pela minha filha (7 anos) presumindo que ela teria particular prazer com estes “robertos inanimados”. À entrada logo anunciou que iria escrever no livro da exposição – um direito cívico ao qual aderiu há já uns anos. E avançámos. Atrasei-me eu, e parei diante deste … “cartão” de Kuczinski (que sob todos os pontos de vista vale bem mais do que a peça de sacristia aldeã que ganhou o primeiro prémio). E ela, já bem lá à frente, algo desinteressada na sua rapidez, vendo-me parado voltou atrás e diz-me “este é o que eu prefiro, vou escrever isso, posso?”. Eu sorri, entre o agrado surpreendido com a nossa total concordância – para mais presumindo que aquela cloaca desenhada não estaria a lembrar à Carolina o “engenheiro” (em regime de “cartoon”, claro) Socrates e todos os bloguistas que, de modo colectivo ou pretensamente individual, se afadigam em tecer-lhe loas, ou por outra, em desinfectar-lhe o discurso – e cumpri-me pai (em regime “cartune”?) num “claro, mas primeiro acaba de ver a exposição, no fim escreves o que quiseres”. Ela seguiu em frente, eu fiquei um pouco ali ao “cartão” de Kuczinski a elencar o Rol d’Elos que se lhe justificaria associar.

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E logo vem a correr, a chamar-me num “também gosto daquele, anda ver“. E lá fui eu ver esta “Revolução“, para comprovar que sim, que há obras que são correctas sem serem “correctas”, assim polissémicas, apropriáveis por quem não sabe jogar xadrez nem percebe exactamente o que é “revolução” nem suspeita que haja “revolucionários” que dizem haver um sentido exacto e obrigatório para essa palavra – que, aliás, só conhece disso das estrelas e planetas, andarem às voltas e revoltas uns relativamente aos outros. E aí sim, num sentido “correcto”, entenda-se astronomicamente necessário.

Saí deliciado. Mas não com a exposição. (Proveniente, com toda a certeza, de umas quaisquer igrejas luteranas, suas morais e expiações.)

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A Igreja de Troufa Real

11046_181639004722_181630479722_2780687_5308326_n(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)

por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)

Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.

A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.

O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.

A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.

Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.

A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.

Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.

Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.

Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?

O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.

Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.

Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?

Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.

Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).

Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.

Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.

Sobre o Valor do Dinheiro ou Um Acto de Fé

(por AL em 17 Nov 2009) -

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Aqui há muitos, muitos anos, estava eu de passagem por Genebra quando me vem parar às mãos uma revista, cujo nome já esqueci, que tinha um artigo que me prendeu a atenção. Falava de um pintor norte-americano que pintava dinheiro; pintava notas de dólar com as quais transaccionava bens e serviços. Tudo teria começado por um serendipismo, quando uma empregada de café propôs ao nosso artista trocar o café e o donut que ele acabara de consumir pela nota de 1 dólar que ele tinha acabado de pintar na toalha de papel. O total da conta eram 99 cêntimos e o nosso artista, James Stephen George Boggs de sua graça, recebeu ainda 10 cêntimos de troco.

Foi este o primeiro dia do resto da sua vida. Passou a pintar notas de dólar, francos, marcos, pesetas… Ou seja, passou a “imprimir” a sua própria moeda com a qual tem pago bens e serviços, numa completa subversão do establishment monetário. As suas notas não eram vendidas (por si) a coleccionadores mas tão somente transaccionadas e Boggs encorajava as pessoas a fazerem-nas circular, pagando com elas outros bens ou serviços adquiridos a terceiros. Tentativas de o processar por falsificação têm sido inúmeras mas vãs, uma vez que não havia pretensão de falsificar moeda internacionalmente reconhecida e ambas as partes envolvidas na transacção estavam cientes do que se estava a trocar: uma pintura de dinheiro pelo bem consumido ou serviço prestado. Apesar disto Boggs viu toda a sua arte e bens serem penhorados pela United States Secret Service Counterfeiting Division em 1990 e tem-se debatido desde então para que esta o processe, ou lhe devolva os bens.

Diz Boggs que uma nota mais não é que uma pintura num pedaço de papel e que o seu valor não passa de um acto de fé: acreditamos que a nota realmente vale o que diz valer. Como a recente crise financeiro veio demonstrar, Boggs não está provavelmente longe da verdade. Resta-me dizer que Boggs não parece ter conquistado grande notoriedade como artista excepto, oh ironia das ironias!, na Suíça!

Sobre Boggs e sua Arte ver:

As Boggs’ Bills
Consumer Mutineers (movimento inspirado em Boggs)
Biografia de Boggs
Exemplo de uma transaccao Boggs
Literatura inspirada por Boggs
Boggs e a Crise Financeira

Sobre o Preço das Coisas

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por ABM (Cascais, 17 de Novembro de 2009)

Aos exmos leitores que não estudaram economia, e num first do Maschamba – e inteiramente grátis e absolutamente sem quaisquer truques – vou em seguida passar uma das mais importantes lições de economia que consegui aprender na vida, que incluiu quatro anos de licenciatura e dois de mestrado em Finanças em boas escolas norte-americanas (tipo das que nunca fecharam em 200 anos), seguido de 25 anos de trabalho em empresas privadas a fazer contas, algumas de cabeça (não destoando da Escola Primária Rebelo da Silva onde aprendi a ler, a escrever e a contar e na Rua dos Aviadores, onde muito do que aprendi não pode aparecer nestas páginas para não incriminar ninguém).

Cuidado que a lição é muito rápida e acho que é por isso que tanta gente pensa que entende mas depois não entende, especialmente em certas partes de Portugal.

Prontos?

Então aqui vai:

O preço de uma coisa é o valor que alguém estiver disposto a pagar por ela.

Todo o capitalismo ocidental, os Descobrimentos, a descoberta da penicilina e acredito que partes da Bíblia e elementos das mais ferozes teorias marxistas, para não falar nas negociações de jogadores de futebol para o Sporting e outros clubes menos importantes que o Sporting (ou seja, nos termos do nosso Estatuto, todos os outros) podem buscar a grande matriz dos seus postulados na frase que acima referi. É o busílis, o ponto de partida e o de chegada para tudo o que tem que ver com a economia onde todos nós, por mais esforçados, beatos ou vigaristas que sejamos, nos inserimos.

E esta semana surgiu um bom exemplo disso.

No mercado de arte contemporânea mundial há dois eventos que marcam o ano e tomam ao pulso em termos de como vai o mundo e quem anda a fazer o quê em termos de compras e vendas. Especialmente em ano de recessão como tem sido 2009.

Um é o leilão do Christie’s e o outro é o leilão do Sotheby’s, ambos na cidade de Nova Iorque.

Que se realizaram a semana passada nos respectivos cantos daquele burgo, ambos atraíndo a habitual panóplia de ricaços, riquérrimos, podres de ricos e outros afins, que inescapavelmente nos recordam quão pobres somos e ainda que a arte é também um produto como a carne do talho, que se vende, neste caso a quem der mais.

Um dos quadros postos à venda, acima reproduzido, data de 1962 , é da autoria de Andy Warhol e chama-se, para quem não adivinhou ainda, “200 notas de um dólar”. É uma pintura feita à mão sobre tela acrílica, de…duzentas notas de um dólar. Verdade, contei-as todas. É grandita, aí do tamanho de um espelho de saloon.

Agora, eu não tenho nem de perto nem de longe o faro artístico do JPT e da nossa Baronesa e de muitos (a maior parte?) dos exmos da comunidade Maschambiana. Para mim um quadro bonito comprado numa quinta feira à noite por 300 Meticais a um miúdo à porta do Piri-Piri em Maputo ainda é um quadro bonito. Aliás tenho um assim. Pode não ser representativo de uma qualquer cosmicidade espiritual ou da fase 4.2 da carreira do pintor que o pintou ou ainda do momento plástico-artístico da pintura mundial na altura em que foi feito. Acho bonito e para mim o argumento mais ou menos esgota-se aí.

Nessa óptica, confesso que aquele quadro de 200 notas de 1 dólar do Senhor Warhol passou-me completamente de lado. Para mim em princípio não valeria um prato de caracóis numa qualquer tasca da Trafaria cheia de moscas.

Por isso fiquei surpreendido de saber que o dito cujo havia sido comprado em 1986 por um casal de coleccionadores que vivia em Londres pela obscena quantia de …. 385 mil dólares.

Isto no tempo em que o dólar ainda valia alguma coisa.

Mas o casal, de apelido Karpidas, pelos vistos estava a ficar velho ou talvez curto na carteira e decidiu leiloar o seu Warhol no leilão da Sotheby’s da semana passada.

O que refiro a seguir está mais ou menos descrito numa curta peça do Economist desta semana, sobre como decorreu o leilão deste quadro.

Mas antes: o exmo. Leitor que tome um segundo e olhe lá para cima e pense quanto pagaria por aquilo, mesmo se lhe saísse o jackpot do Euromilhões.

Ok.

Cito: “o leilão foi aberto por Tobias Meyer, leiloador-mor do Sotheby’s, com um valor de base de 6 milhões de dólares. Imediatamente, Alex Rotter, um especialista do Sotheby’s que representava um cliente ao telefone, logo ofereceu 12 milhões de dólares. O preço escalou em incrementos de um milhão de dólar tão depressa que era difícil seguir de onde vinham as licitações”.

No fim, um cliente anónimo, representado por um tal Senhor Vinciguerra, e que se presume não ser o Senhor Joe Berardo, ganhou a corrida pagando…. 39 milhões de dólares que, mais a comissão da Sotheby’s e impostos, perfez um total de 43.7 milhões de dólares.

Li que em 1986 a compra daquele quadro por 385 mil dólares já fora basicamente um escândalo. O que não pensaram e disseram do casal Karpidas. Pelo menos fora o preço mais alto pago por um Warhol enquanto o artista ainda estava vivo.

“O preço de algo é o preço que alguém está disposto a pagar”.

O que é que esta gente viu no quadro, muito honestamente, muito sinceramente, por mais que eu olhe lá para cima…não sei. Aquilo parece-me ser uma mera, reles, banal pintura de duzentas notas de um dólar.

E a si?

Cores e Amores

Minhas cores da minha África

(por AL na chuva de Lisboa em 16 Nov 2009)

Foi uma fotografia tirada pelo meu amigo Miguel Barros que me deu inspiração para a minha estreia aqui na Maschamba. Hoje trago um pequeno vídeo feito por ele a partir de uma colagem dos seus quadros e com os quais ele evoca África. De tanto que a ama, chama-lhe minha, nesse possessivo de apaixonado que não deixa lugar a dúvidas. E eu aqui partilho o vídeo e o amor a essa África de paixões incendiadas, denominando-a assim nossa

Ruínas em Fotografia

Um sítio fotográfico espantoso: Yves Marchand e Romain Meffre – Detroit arruinada, fábricas e cinemas arruinados.

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Ruins are the visible symbols and landmarks of our societies and their changes, small pieces of history in suspension. The state of ruin is essentially a temporary situation that happens at some point, the volatile result of change of era and the fall of empires. This fragility, the time elapsed but even so running fast, lead us to watch them one very last time : being dismayed, or admire, making us wondering about the permanence of things. Photography appeared to us as a modest way to keep a little bit of this ephemeral state.

Inacessibilidade Blogal

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[Edward Curtis, "Chefe Apache"]

 

E continua, há mais de uma semana que quase sempre o tal Apache me afronta deste modo: 

 

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Do pós-colonial, e lembrando uma exposição

São as vantagens de ter tido bons professores. Há um quarto de século tive um desses, excelente, que muito me ensinou – e bem mais do que na altura eu julguei ter aprendido – sobre história da antropologia. Nesses caminhos bem me lembro de uma sua intervenção a propósito de um então muito em voga “Sobre as Sociedades Pré-capitalistas” onde desfez – assim como quem não quer a coisa – essas conceptualizações/periodizações assentes nos “pré” e “pós”, coisas que, vim a sabê-lo, que por mais voltas retóricas que se façam assentam sempre em teleologias e essencialismos. Ou então, em não sendo mesmo o caso, não servem para nada.

Daí que quando ouço falar nessa moda perene do “pós-colonial” fico com os cabelos eriçados. E em verdadeiros roncos quando discorrem, doutorais (ou phdais), sobre a “ambiguidade” peculiar de tais “contextos”. Pois, raios os fulminem, qual o “contexto” [singular] onde não há “peculiares” “ambiguidades” [plurais]?

Vem isto a propósito de um “rascunho” de “post” que para aqui foi envelhecendo, dedicado à

exposição colectiva “Troca de Olhares” que foi apresentada no Instituto Camões – Maputo há um ou dois anos (acho que em 2007), uma produção do próprio Instituto Camões, com curadoria de Isabel Carlos integrando obras de Ângela Ferreira, Francisco Vidal, Maria Lusitano e Vasco Araújo, com algumas obras curiosas e outras nem tanto, mas apelando acima de tudo ao diálogo com a ideologia (falsa consciência, a la Marx) que ali as unia.

[Ângela Ferreira, "Portugal é Sensacional", Escultura, 1999]

Lembro-me de que na altura pouco apreciei o conteúdo – a obra acima reproduzida é o caso inverso – , nada gostei do texto introdutório do catálogo e menos da intervenção da curadora, a qual aqui acabou por reduzir o “chapéu de chuva” do “pós-colonialismo” a uma questão de calendarização/periodização. Vim para casa, reproduzi as imagens (estas) e imaginei-me, com esta desculpa, a agredir a tralha “pós-colonial”. O tempo passou, o saber escasseou, a memória e o interesse também, e o “rascunho” foi ficando para trás, aliás, lá para o fundo. E já nem me lembro do que queria então dizer e do que, do como, não tinha gostado.

 Hoje ao ler este O Rei da Machamba, de Cristina Ferreira de Almeida lembrei-me deste “pré-post” abandonado, em particular desta obra,

[Ângela Ferreira, "Hortas nas Auto-Estradas (A Reforma Agrária)", 2006]

então vista como reflectindo a “pós-colonialidade”, sua encarnação iconográfica pois “o local para esta encarnação iconográfica não é de todo inocente: são as hortas plantadas nas bermas das auto-estradas, território de ninguém que os habitantes, nomeadamente de origem africana, dos subúrbios de Lisboa foram cultivando …” (Isabel Carlos, catálogo, p. 10), manipulação a la carte do real, mitificação que tanto me tinha irritado, olivalense crescido entre-hortas que sou.

Mas ainda bem que desde então nada escrevi. Pois nunca teria sido tão explícito” e eficaz como este  Rei da Machamba. Para o texto e sua autora fica esta última foto.

Uma exposição nas férias

(outro “rascunho” já antigo, coisa de uma exposição vista no Natal passado em Lisboa – que ainda assim coloco pois entrada prometida a alguns alunos, e se calhar por isso o tom um bocadinho pedagógico, até irritantemente pedagógico, noto agora no post-post)

“Olhares Cruzados Sobre Arte e Islão”, José Alberto Ribeiro (coordenador), Inês Fialho Brandão (curador) na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves.

Exposição sobre a Arte Islâmica, problematizando a pertinência da utilização desta denominação, tamanha a variedade de contextos históricos, artísticos, geográficos que nela se agrega, eurocentricamente [cristamente]. Em si a exposição (não o catálogo, muito interesante) é um pouco palavrosa, defeito não só do didáctico-problematizador, mas também de um trago de actualidade ideológica que a atravessa. Ainda assim é de visitar a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves (Lisboa, na Av. Fontes Pereira de Melo) e comprar o catálogo.

“Trago de actualidade ideológica”? Com efeito, por mais interessante que seja a questão da representação antroponómica nas artes dos contextos islâmicos e, muito em particular, a do profeta Maomé, esta problemática surge não diria desgarrada mas obviamente ligada à questão relativamente recente das “caricaturas dinamarquesas”, dando alguma estranheza (em meu modesto entender) ao conjunto exposto.

["Maomé com os Seus Netos na Mesquita"; "Fiéis Num Pátio" (da direita para a esquerda) - Ilustrações do Baharistan de Jami. Aguarela opaca, tinta e ouro sobre papel (33 cm de altura X 20 cm de largura), Uzebequistão Shaybanida, Bucara, completado em 1547-1548]

Estas representações iconográficas (ainda por cima em plena mesquita) – pertença do Museu Calouste Gulbenkian -, aquilo a que um leigo poderá chamar “arta sacra islâmica” são irresistíveis para um argumento. O do caracter construído de todos os dogmas, em especial daqueles que surgem como dotados de fundamentação sagrada ou absoluta. E de como eles são meras opções (mas não por isso ilegítimos) numa história sempre contraditória. E que a escolha racional de os respeitar significará, sempre e obrigatoriamente, o complemento do conhecimento da sua formulação.

Arte Étnica

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Ixelle, bairro de Bruxelas, dito “Matongué”, cognome atribuído devido à elevada percentagem de população de origem africana que aí habita. O monumento, ali colocado por oferta de uma organização benfeitora [e aparentemente sem nomeação do(s) autor(es)], é explícito. Uma estátua de homem feita de material militar reaproveitado.

Até que ponto esta (óbvia) institucionalização do reproveitamento de armas enquanto matéria-prima artística, projecto(s) e corrente artística que tem vindo a ser muito apoiada por organizações não-governamentais e religiosas, não significa o reificar de uma visão de África e a consolidação de uma “arte étnica”, também ela padronizada, em formas e conteúdos, em modalidades de recepção? Uma “áfrica” a pacificar, uma “áfrica” homogénea, uma “áfrica” onde a comunicação artística é literal, portanto uma “áfrica deficitária”. A leitura do largo bruxelense parece-me óbvia. (Eu, pela minha sensibilidade, neste registo prefiro o ébano.)

Elogio do Barbeiro (II)

El Barbero del Papa, de Diego Velázquez da Silva, pintor luso-espanhol de XVII, de quem hoje se cumpre o aniversário.

Infantilizar o Passado?

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O Metro de Londres excluíu um anúncio contendo esta pintura que publicitava uma exposição de Lucas Cranach na Royal Academy. O argumento foi explícito, o nu feminino pode ofender sensibilidades: «Devemos ter em conta os milhões de viajantes diários do metro e procurar não ofender ninguém», justificou-se a empresa de Metro (gente decerto parida de um bolbo).

Nisso estou completamente de acordo com o Francisco: isto é medo (e pouca vergonha) de ofender os passageiros “multiculturais”, aceitar o ponto de vista de quem pode achar “blasfema” esta pintura. Acima de tudo concordo que “Mais do que uma vergonha, é uma filha da putice”.

Muito menos apreciáveis são outras iras sobre o assunto. Ainda que ache piada à retórica do Lutz afirmar «É impensável que um quadro clássico possa chocar» – que tem vindo a ser desenvolvido no …bl-g- -x-st – é uma falácia. Intelectual e politicamente pior do que os argumentos timoratos do Metro de Londres.

Afirmar que a arte clássica não pode chocar é um argumento à mão de semear para esta contestação. Mas é censório, irracional. Aceitá-lo implica afirmar limites racionais para a leitura intelectual do passado, sua compreensão, para o “diálogo” com o passado (um diálogo mitigado, é óbvio). Ou seja, afirmá-lo implica dizer que pode haver interacção sensitiva mas não reflexão abrangente. Afirmar que o passado artístico não pode chocar (“não pode”, o registo do dever-ser) significa que nos desperta, porventura, o eros, o sensitivo, o emocional (e este nem tanto, pois é chocável), um tanto de espanto. Mas não a razão.

Isto é a exotização do passado. A infantilização do passado. Nisto o Passado é o Outro, só compreensível e analisável nos seus valores, olhável de longe com apreço ou menosprezo consoante o feeling do dia. Isto é, em absoluto, o discurso “multicultural” impensado. Típico da esquerda europeia mal-pensante dos nossos dias (já agora, filha do apartheid boer).

A arte passada pode chocar – ainda que tenham mudado os valores e os contextos. É (também) essa a sua grandeza. E (também) por isso mesmo é preciso manuseá-la, pendurá-la, observá-la. Chocarmos. A nós e aos outros. Sem censores – fundamentalistas islâmicos ou esquerdalhada europeia correctista. Ou melhor, também por causa deles.

Tesouros do Museu Benaki

Já não vou ter tempo para me deitar aqui a escrever sobre este must das minhas férias natalícias. Na corrida lisboeta, entre museus e galerias (bem, e não só …), aqui estanquei maravilhado: ainda estará aberta? esta “Os Gregos. Tesouro do Museu Benaki” na Fundação  Calouste Gulbenkian. Pois se abaixo já resmunguei sobre a produção iconológica que muita da arte contemporânea quer assumir – talvez ignorância minha, talvez insensibilidade, mas tantas vezes me faz falta um puto a exclamar “o artista vai nu“. Confesso a minha irritação intelectual e vazio sentimental diante de um tipo que põe círculos de arame na parede e dizer – atenção, ter que dizer – que aquilo significa qualquer coisa (no caso as fronteiras do mundo actual), o que me faz suspirar quando alguém acha que uma obra de arte se explica até um ponto final (enquadra-se, dá-se pistas, interpreta-se, e com isto tudo também reduzindo a liberdade de quem olha/pensa, mas determina-se?). Bem tudo isto para dizer que a irritação com a Gulbenkian – o Junho passado era um monte de areia no chão, francamente os burgueses já foram espantados o suficiente deste modo, uma tralha a fazer-me lembrar o lavatório que “Réplicas e Rebeldias” do Instituto Camões trouxe há anos a Maputo, coisas tão contemporâneas como tipos a pintar à Turner ou à Columbano nos dias de hoje, mas pelo menos estes últimos sem a arrogância dos iniciados. Ou, neste caso, seria por ser “Arte Contemporânea” para o 3º Mundo? -, a irritação com a Gulbenkian, dizia, se desvaneceu por completo. E bastou isto

Estatueta Feminina.” Mestre do Fitzwilliam. Período Cicládico Inicial II (c. 2700 – 2300 a.c.). Mármore branco (20,7 cm X 5,9 cm)

Arame Artístico …


“Desenho na Parede” (2006) de Adel Abdessemed

[incluído em Um Atlas de Acontecimentos na Fundação Calouste Gulbenkian. (Fotografia de Marc Domage, reproduzida do catálogo da exposição)]“Como foram as férias?” Boas – mas chegado de longe, surpreendido quando me querem explicar o linear. Ou, até, quando dele fazem círculos.

António Ole

Então que tal foram as férias?” durante o abraço duplo daqui ou o beijo duplo das realmente educadas, “Um bom ano!”, no “até breve.”

Tríptico de Quissama
fotografia montada em alumínio
3x(150×100 cm)

Tríptico de Massangano
fotografia montada sobre alumínio
3x(150×100 cm)

Foram muito boas: António Ole na Galeria 111, em Lisboa

Manda(-me) quem sabe: Glen Baxter.

John Berger, Albrecht Durer, Taschen, 1994

(ilustração da capa: Jeune Lièvre, 1512, aguarela e guache)

La vie dans la nature permet de reconnaître la vérité des choses” [Tratado sobre as proporções, cit.in p.76]

(Les jumelles siamoises de Ertlingen, 1512. Tinta-da-china)

(La grande pièc de gazon, 1503. Aguarela e guache)

(Autoportrait avec bandeau, sans date)

(Marie allaitant l’Enfant-Jésus, 1512)

(Mains qui prient, 1508)

(Catherine la Mauresque, 1521)

(Buste d’un nègre, 1508)

(Rhinocéros, 1515)

Albrecht Dürer, 1526. Philipp Melanchthon, Staatliche Museen Kuperstichkabinett, Berlin [imagem reproduzida aqui]

Lucas Cranach, o Velho, Philipp Melanchthon

Adenda:

Philipp Melanchthon [I]
Philipp Melanchthon [II]
Philipp Melanchthon [III]

[Albrecht Durer, Erasme de Rotterdam, 1520. Fusain sur papier, 37,3x27,1 cm. Paris, Musée du Louvre, Cabinet des Dessins (imagem reproduzida de John Berger, Durer. Aquarelles et Dessins, Taschen, 1994)]

[Albrecht Durer, Portret van Erasmus, 1526. Rijskmuseum (imagem reproduzida daqui]

[Hans Holbein, the Younger, Erasmus of Rotterdam, About 1538. Woodcut, 11 3/16 x 5 7/8 in. (28.4 x 15.0 cm), National Gallery of Art, Washington, D.C. (imagem reproduzida daqui)]

[Hans Holbein, o Novo, Erasmus, 1523. Oil on wood, 43 x 33 cm. Musée du Louvre, Paris (imagem reproduzida daqui)]

[Hans Holbein, o Novo, Erasmo de Roterdão, 1523. (imagem reproduzida daqui)]

[Hans Holbein, the Younger, Erasmus of Rotterdam, c. 1528-1532. Oil on wood; 7 3/8 x 5 3/4 in. (18.7 x 14.6 cm). Robert Lehman Collection, 1975 (1975.1.138)]

Olhares Estrangeiros

CapaOlharesEstrangeiros.jpg

Em Lisboa a exposição Olhares Estrangeiros. Fotografias de Portugal, a colecção da Caixa Geral de Depósitos, germinada na (já tão distante) Europália. Registo que no ano passado também encontrei uma série de exposições fotográficas de estrangeiros sobre Portugal, Magnum. Um interesse geral pelo olhar alheio? Uma angústia enfartada do espelho próprio, viciado já, vicioso? Seja.

Também concordo com Jorge Calado, e não só nas fotografias:

Quem vê mais e melhor? Quem está dentro e conhece as circunstâncias, ou quem vem de fora sem preconceitos [hum ... descreio eu, jpt] nem – assim se espera – más vontades? O bom-senso aconselharia a confiar no olhar estrangeiro, mais distante e por isso, também, mais independente.” (p. 19)

Uma bela exposição. Fotógrafos estrangeiros, entre os quais Ricardo Rangel, representado com dois célebres símbolos do Império (“O Porteiro do Moulin Rouge” e Lavabos) e estrangeirados. Uma boa mescla e uma boa atitude. Entre muitos reproduzo (pobremente, sem o vigor exposto) o Portugal que reconheço. O de sempre.

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[Henri Cartier-Bresson, Lisboa, 1955]

Sogobó – Máscaras e Marionetas do Mali

Para quem está em Portugal, e distraído, Sogobò – Máscaras e Marionetas do Mali é uma belissima exposição em Lisboa (Museu Nacional de Etnologia), há já um ano. Só agora a visitei, ainda bem que chego a tempo. Esplenderosa.

Pena a falta de material informativo acompanhando a exposição – fiquei como boi olhando o palácio. Mas que palácio!!! Certo que há um bom catálogo, mas caro. Todos os visitantes o comprarão? Decerto. A folhinha A4 explicativa, fotocópia nas instalações do Museu bastaria, “para pobre bacalhau basta”.

E eu não sou especialista, talvez aqui passe algum, mas intitular “Jannus” uma máscara do Mali numa exposição no Museu Nacional de Etnologia é o quê? O regresso ao difusionismo? Haverá museólogos ou antropólogos nos leitores do Ma-Schamba? A caixa de comentários anseia-vos.

Actualização: muito agradeço o comentário aqui deixado, totalmente esclarecedor. “Janus” refere o local originário da máscara em questão, uma localidade da região de Mahina próxima da fronteira com o Senegal.

Posso resmungar a coincidência, uma máscara bi-facial originária de uma localidade africana chamada Janus? Uma armadilha, um “falso amigo” sem dúvida.

Ainda bem, a excelência desta exposição não mereceria (como não merece) outra explicação. (Espero, sinceramente, estar no próximo Natal em Lisboa para poder comprar o catálogo nos generosos saldos que o IPM organiza, pelo menos organizou este ano transacto.)

Edward S. Curtis

No Os Cavaleiros Camponeses … reprodução do trabalhos de Edward S. Curtis. Excelente. Agradecimentos pela indicação, belissima.

Não resisto a também reproduzir algumas imagens, até para acicatar a curiosidade de quem por aqui passe.

edwardscurtis1.jpg

Sacred Buckskin – Apache

edwardscurtis2.jpg Haschebaad – Navaho

edwardscurtis3.jpg

Maternity Belt – Apache

Do estatuto da arte e do artista. No Superflumina um interessante texto sobre o estatuto da arte e do artista, em diálogo com as (também interessantes) declarações de Paulo Cunha e Silva, director do Instituto de Artes português. Há ali matéria para um debate, para além dos costumeiros (maus)humores sobre arte contemporân ea.