Noticia o sítio da Rádio Voz da Planície, que opera lá para os lados de Beja (104.5 MHZ na banda FM mas também emitem na internet) que decorre uma exposição de pintura dos artistas moçambicanos Butcheca e Clemente e Lucas Tsamba, na Biblioteca de Ourique, no deep Alentejo, até ao dia 8 de Setembro.
Segundo os srs da RVP, “Trata-se de uma mostra que retrata também a vida e a cultura das tribos do Sul de Moçambique, através de várias pinturas a óleo. As obras expostas misturam a técnica a óleo com elementos naturais, como a terra e a palha.”
Como de costume a Bienal do Muvart provoca conversas com os artistas. Ontem no Museu Nacional de Arte decorreu a primeira com Vera Albuquerque e Maimuna Adam [no próximo sábado a conversa ocorrerá no atelier de Fornasini]. Um pequeno grupo discutindo arte pública e os trabalhos das artistas. Mas também, e como quase sempre quando aqui se aborda a “arte contemporânea”, se levantou a questão “arte”, do que é isso, o que a define ou substancializa.
Não serei eu, que apenas a olho, e sem particulares instrumentos de pensamento, que me porei a dissertar sobre isso em cima de um qualquer estrado. Não me parece que haja algo de intrínseco que a defina, uma qualquer característica própria, recenseável, que possa ser afixada. E procurada por qualquer catalogador, qual detective. Isso de “arte” não passará de um consenso, consoante “quem está”. Atribuímos ou não o epíteto. Sossego-me assim.
Mas também me irrita muito, ainda que de um modo não normativo, a extrema arrogância do impensamento que remete a característica “artística”, o seu fundamento, para o acto intencional do autor. Isso do, explícita ou implicitamente, se afirmar que é arte o que o intenta. Um falso relativismo, que não é mais do que um falso intelectualismo, forjado e sustentado na “autoridade” – não tanto dos (candidatos a) artistas mas fundamentalmente na autoridade estatutária (ditatorial) dos “intelectuais”: críticos, galeristas (funcionários) públicos ou privados, curadores [funções, aliás, que se misturam recorrentemente - hoje "galeras-me" amanhã "curo-te", para a semana "criticamo-nos"]. Caímos, quase sempre, no domínio da sociologia. E, mais profundamente, no campo da ideologia, do “correctismo”. Nunca do intelectualismo, sempre a questionar a sua própria produção.
Um caso típico deste “arrivismo” (ditadura intelectual) nesta muito bem conseguida Bienal – está de parabens o MUVART, e em particular Jorge Dias -, e nisso “obra” excêntrica porque contrastante com as restantes devido ao seu radical défice de suporte programático é um filme de Jorge Rocha, “Arroz de condelipas e omelete de algas“: alguém a cozinhar o arroz e a omelete, com o argumento de que a receita é nova. Meu argumento de crítica? Fuck (ou seja, foda-se)! Ao nível da “obra” apresentada.
O problema geral reside sistematicamente na base intelectual do pretendido: um falso (porque paradoxal) relativismo. Um aparente sem limites que não passa de uma acantonar ideológico. Ou seja a conjugação de olhares, de obras, é muitas vezes (claro que nem sempre) sustentado por abordagens intelectuais (normalmente a cargo de curadores) com textos a la carte, com retóricas falíveis que procuraram justificar a posteriori as obras colectadas, não surgindo assim como programas mas sim como justificatórias. Por vezes isso surge mesmo com textos teoricamente esburacados, não apenas manipulatórios: recordo que as duas itinerantes “contemporâneas” que mais recentemente passaram em Maputo, de origem institucional portuguesa, surgiam sustentadas com textos teoricamente muito frágeis: um, trabalhando “identidades raciais” de modo totalmente descontrolado, de um modo que faria corar qualquer candidato a licenciado em Antropologia; um outro que definia “pós-colonialismo” como marco de calendário, algo espantoso. Isto produzido ao mais alto nível do país. Mas mais do que a ”plasticidade” conceptual é o autoritarismo ideológico deste meio profissional, disfarçado de relativismo que se sublinha. Da minha recente ida a Portugal três exemplos
Uma apresentação de Carolina Caycedo no Centro Cultural de Belém, obras de 2007-2009. É o “valor estético”, esse velho mito, destes nylons cosidos à mão que os levou àquelas paredes? Nada, nem foi essa a intenção da artista. São as frases, os slogans: “não pagues impostos“, “nem deus, nem patrão, nem marido“, etc. Peço desculpa da minudência, as obras são dos últimos três anos. Dá para ver o carácter de ladainha envelhecida do discurso? Já agora, e porque não é obviamente a dimensão paradoxal discursiva que a artista intende, dá para ver o vazio intelectual de quem afixa “confiem uns nos outros“ conluiado com ”não paguem impostos“. Dá para ver o registo do impensamento atrás da “atitude”? Ou a equação “anarquismo=arte” é a “essência substantiva” de arte, esta afinal intrinsecamente definível por via da adesão a uma corrente política?
[Pedi na recepção do CCB um local onde deixar a minha pateada diante desta indigência. A recepcionista ficou aflita (não conhecia a palavra "pateada") e, depois de esclarecida, lá me propôs o "livro de honra", ao qual humildemente me recusei, ou o "livro de reclamações", manifesto exagero. Ou seja, o pessoal entra e sai, e cala-se. Pior, concorda - ainda que de impostos em dia, cônjuge pela mão, e desconfiando do mariola do lado. É "arte", um bocadinho ao domingo à tarde ... depois a vida continua, "Malato ao fim dia, Domingo Desportivo depois de jantar". Arte Contemporânea?]
Segui à Fundação Calouste Gulbenkian. Ali encontrei isto
“Liberdade Quando o Povo” [das razões do letreiro da obra na Gulbenkian ser trilingue (inglês, português e espanhol) mas encimado com o título em versão inglesa em maiúsculas só me pode ocorrer de que é uma surpreendente mostra de que o provincianismo atacou a prestigiada fundação sediada na capital portuguesa], uma obra Barthélémy Toguo – um artista muito interessante, diga-se.
A obra, mas mais do que ela própria a sua selecção (ou encomenda), é paradigmática de um “olhar arte” que é um nada relativista (afinal) “definir arte”. Como se vê na fraca fotografia estamos diante de um monte de entulho submergindo homens, expressos em hirtos braços de manequins (o tom piroso da obra é lateral ao meu resmungo). No centro está um poste encimado pela bandeira nacional do país representado, no qual, como ali é realisticamente mostrado, o povo (os tais bracinhos) é esmagado pela tirania (o tal entulho). Arte, apesar dos bracinhos de manequim. Olhando um futuro sem entulho.
Agradou-me esta intervenção no parque da Gulbenkian. E, enquanto em família fotografava a obra (a petiz Pimentel Teixeira aparece lá atrás), perguntei-me: isto podia representar os nómadas ciganos em Portugal desde há décadas esmagados pela política e polícia estatal portuguesa, sempre sedentarizando-os (submergindo-os a um literal – os andares dos prédios de habitação social - e também a um metafórico entulho – a agressão cultural). Caberia com toda a certeza no próximo ciclo Gulbenkian, ou numa sequela em outros locais, porventura menos importantes.
Mas se alguém juntasse um entulho similar e pusesse como seu suporte discursivo (porque é sempre disso que se trata) ” subúrbio pequeno-burguês destruído pela heroína consumida pelos seus descendentes, traficada por ciganos” [os pirosos bracinhos de manequim porventura picotados qual junkies, que estamos no regime realista] isso não seria considerado pela intelligentsia artística como arte, seria obscurantismo, preconceito, reaccionarismo, implicaria esgares e risos, até reclamações de superioridade cognitiva (estética?). Ou seja, sob a ditadura curadorística (aliás, curandeirística) “arte” sim, mas apenas segundo o obscurantismo sociológico (ideológico) a que se adere.
Finalmente, visitei “Tudo o Que é Sólido Dissolve-se no Ar: o Social na Colecção Berardo” (uma vantagem, textos trilingues – português, inglês, francês – mas encimados com versão maiúscula em português. Afinal é em Lisboa.). Não vou dissertar sobre as razões que justificam aquela particular recolecção do acervo local, ou seja quais as ligações encontradas naquelas obras que “convocam problemáticas do quotidiano que enunciam uma crítica do real” (texto do desdobrável que acompanha a exposição). Tudo bem, mas também não adianta muito sobre os critérios. Dá para tudo, no fundo (na prática, se quisermos, o que não o faz?). Mas fiquei com uma dúvida, à qual nem meus livros nem o google me conseguem responder. A exposição é apresentada pela instância curadora como partindo do “Manifesto do Partido Comunista” de Karl Marx e Friedrich Engels, o título é uma citação da obra. De início surgem uns painéis de teóricos (e práticos) revolucionários, o substrato teórico deste olhar crítico. Um desses painéis de arautos do marxismo revolucionário é este
Quem é este Max Weber? Interessa-me. Pois se é aquele que eu conheço, ali metido entre os revolucionários marxistas, sem um rodapé que seja de contextualização, justificação, discernindo olhares, é o caso típico do texto (congregação) a la carte, aposteriorística, que vai montando e remontando, congregando e recongregando. E que permite juntar coisas sem mais. A tal aparência relativista, no fundo.
Ou então é outro Max Weber. E há que o conhecer – mais que não seja a frase é muito interessante.
Adenda 1: VA, comentadora residente do ma-schamba usa esta caixa de comentários para me esclarecer sobre o “Max Weber” em causa, assim me sossegando (apesar do homem não ser um teórico dos alvores revolucionários). São as vantagens do bloguismo.
Adenda 2: Dada a necessária adenda 1 regresso ao texto e vejo que me faltou a conclusão que quis colocar. Ancorar uma concepção de “arte” numa particular noção de “emancipação” como sua justificação é arte sacra. Daí o reaccionarismo radical que habita tantas das aparentes rupturas. Aqui gostaria de dar um exemplo, até já antigo: trazer, expondo-o, um lavatório ao Maputo da primeira década de XXI. “A burguesia já foi espantada” deste modo há muito tempo. Reproduzir esse “ecce homo” agora, aqui, é nada mais do que neo-colonialismo (“para quem é [ex-colonizado] basta”). Ou puro conservadorismo.
[Mapa-mundi de Paolo del Pozzo Toscanelli (Florença, 1397-1482)]
Da imprensa (re-blogada) portuguesa chegam dois textos sobre a temática “cultura”. Leio algumas reacções adversas ao texto de Pacheco Pereira sobre o “culturalês”: um patois que JPP deliciosamente exemplifica em adenda. Mas são ambos textos pobres, típicas ilustrações do velho ditado “com a verdade me enganas” – em Portugal há no campo artístico estratégias (retóricas) de distinção/legitimação que são vácuas e até pungentes? E depois? Onde não as há (houve)? A estratégia ilustrada é acarinharmos o cânone – em particular se vetusto – e pontapear a mole “cultura actual” para as traseiras do quintal? Chamando a carrinha da Câmara Municipal (ou do Conselho Municipal, se em Moçambique onde questões similares se podem levantar ainda que com diferentes incidências – e em semana de inauguração da importante Bienal do MUVART a questão da “legitimidade artística” regressa aqui à actualidade) para carregar tal tralha para a lixeira? Ou é debater, polemizando, os conteúdos propostos e as estratégias assumidas, combatendo e/ou promovendo as apropriações, as legitimações? Uma pena tudo isto, a vertigem polemista conduz JPP a um reducionismo, a um “politicismo”, que não cola com a sua densidade.
Mas empobrecedor é também o facto de que se sobre esse seu ditirambo recaem algumas (indignadas) atenções e um par de gargalhadas concordantes já sobre este texto de Manuel Maria Carrilho se escuta o eco do silêncio. Exactamente onde se avança o olhar político sobre a cultura, sobre virtualidades e potencialidades da prática cultural, assim convocando elaborações (e obras, já agora). Mas aí a facilidade do protesto ou da risonha anuência já não cola. Também por isso o tal … inteclar generalizado.
O nosso maschambeiro fotógrafo MVF e o nosso maschambiano pintor (e contribuinte por procuração) – o Miguel Barros – juntaram cumplicidade e memórias da Ericeira para partilharem connosco. Eles, melhor que eu, se explicam:
MARESIAS
Para o Miguel Barros, pintor, e para o Miguel Valle de Figueiredo, fotógrafo, a vontade de fazer uma exposição conjunta não é nova, mas por voltas da vida, só recentemente foi encarada como possível. Questões várias se levantaram, e a primeira delas – a mais importante – prendia-se com a escolha de um tema que fosse comum aos dois amigos e em que as imagens de um e outro fossem de algum modo complementares. E que tema? Goa? Era possível… Ou Índia mais genericamente? Mais complicado mas ainda assim… E Brasil? Mas qual? Lisboa? Talvez um dia…Portugal das pedras antigas ou o quê afinal? Um tema desligado de geografias? Mar, retratos? Afinal a escolha era tão mais fácil quanto óbvia: Ericeira. A Ericeira desta e de outras amizades, das praias e dos mergulhos revigorantes naquele mar bravo e franco, a Ericeira das cumplicidades e de lugares que se conhecem de cor, a Ericeira das mil e uma noites e das manhãs de névoa, a Ericeira que vai mudando com o tempo do mundo e com as vontades dos homens, a Ericeira que trazemos na memória, dos alvos telhados e das rochas nas Furnas, dos gelados da UCAL e dos queques da Gama, do pão quente a horas pouco cristãs lá no Norte depois das danças no “Ouriço”. A Ericeira dos antigos “banheiros” que nos ensinaram que o mar não é para se ter medo mas que temos de o respeitar, das batatas fritas e dos bolinhos quentinhos na Praia do Sul, dos patins em Santa Marta e da esplanada do “Xico”. A Ericeira de tantos outros sítios, de tantas histórias, aventuras e paixões e à qual se volta sempre nem que seja numa conversa.
De tudo o que lembramos e de tudo o que se foi e vai transformando, há, no entanto, uma coisa única e imutável, bem conhecida de todos os devotos da Ericeira e que, finalmente, serviu de título a esta mostra:
O “cheirinho a maresia”
Miguel Valle de Figueiredo
Lisboa, Julho de 2010
Aqui fica o convite para os leitores maschambianos
e mais umas fotos das obras que irão estar expostas – dois olhares e duas artes. Vamos então à Praia do Peixe. Primeiro, com o Barros dos Miguéis….
Foi com uma colagem do meu amigo e pintor Miguel Barros que me estreei aqui no maschamba. Actualmente a morar em Angola o Miguel tem-se inspirado nas cores e nas paisagens angolanas, que lhe valeram quadros muito, muito belos. Estão agora expostos em Lisboa, na Fundação Sousa Pedro no Chiado ate dia 11 de Março. Não percam!
Do nosso leitor Nuno Salgueiro Lobo vem-me a informação que a galeria lisboeta Influx Contemporary exibe actualmente uma exposição colectiva de artistas Africanos contemporâneos, oriundos de diversos países, incluindo Angola e Mocambique.
Pretende-se com esta exposição estimular um outro olhar sobre a Arte Africana:
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
É uma arte simpática ainda que por definir – talvez mesmo por isso. “Cartoons”? Caricaturas? Cartões? Cartuns? Enfim, o problema das línguas recentemente fixadas, sem passado (nem antecedentes filológicos) de escrita – como é o caso do português -, é exactamente este, o da a incapacidade de encontrar no seu património palavras que possuam as capacidades descritivas e analíticas para anunciar os fenómenos actuais. Entenda-se, faltam conceitos a estas línguas que ascendem à modernidade para a esta descrever e compreender. Está pois de parabéns o Instituto Camões por este esforço para aprofundar o português, alargando-lhe os horizontes.
É uma arte simpática esta do “cartoonismo”, sempre apelando ao sorriso, quantas vezes crítico – isto se exceptuarmos a sensibilidade de alguns idolatras, por vezes mais excitáveis. Com efeito a quem desagradará a apresentação de uma exposição de “cartunes” (ou “cartuns”), ainda para mais uma selecção mundial, o Topo (perdão, Top) 50 do ano 2009?
Também por isso a minha visita a esta exposição (a secção 2009 no Instituto Camões, a secção de 2008 está na Mediateca do BCI e ainda não vi). Muito honestamente para me desiludir. Claro que há boas “caricaturas” (perdoe-se-me o estrangeirismo, são efeitos das estreitas masmorras de uma língua involuída). Mas nesta selecção há um grande conservadorismo formal no conjunto – esta obra de Cao Gomez será disso a excepção mais relevante. Porventura, e sendo uma selecção do que o ano ofereceu internacionalmente, será esse conservadorismo efeito da produção, mas é um pouco inquietante.
Por outro lado há um conservadorismo na atribuição de prémios, um “correctismo” explícito, muito alinhado, uma linha (ideológica, não fujamos à palavra) que está presente no conjunto apresentado. Digamos que esse correctismo (exponenciado no primeiro prémio, um moralismo cansativo, sem particular alcance estético-humorístico) é o conteúdo da exposição, tão unânime é ela na abordagem ao mundo de 2009. Propositado? Intentando desenhar um unanimismo na imprensa mundial, do olhar o mundo na época? Acredito que sim, e esse é a pior das características que tal exposição poderá apresentar, e a mais desaconselhável para que seja patrocinada e apoiada, entenda-se, apresentada.
Em regime pessoal tenho a notar que a visitei acompanhado pela minha filha (7 anos) presumindo que ela teria particular prazer com estes “robertos inanimados”. À entrada logo anunciou que iria escrever no livro da exposição – um direito cívico ao qual aderiu há já uns anos. E avançámos. Atrasei-me eu, e parei diante deste … “cartão” de Kuczinski (que sob todos os pontos de vista vale bem mais do que a peça de sacristia aldeã que ganhou o primeiro prémio). E ela, já bem lá à frente, algo desinteressada na sua rapidez, vendo-me parado voltou atrás e diz-me “este é o que eu prefiro, vou escrever isso, posso?”. Eu sorri, entre o agrado surpreendido com a nossa total concordância – para mais presumindo que aquela cloaca desenhada não estaria a lembrar à Carolina o “engenheiro” (em regime de “cartoon”, claro) Socrates e todos os bloguistas que, de modo colectivo ou pretensamente individual, se afadigam em tecer-lhe loas, ou por outra, em desinfectar-lhe o discurso – e cumpri-me pai (em regime “cartune”?) num “claro, mas primeiro acaba de ver a exposição, no fim escreves o que quiseres”. Ela seguiu em frente, eu fiquei um pouco ali ao “cartão” de Kuczinski a elencar o Rol d’Elos que se lhe justificaria associar.
E logo vem a correr, a chamar-me num “também gosto daquele, anda ver“. E lá fui eu ver esta “Revolução“, para comprovar que sim, que há obras que são correctas sem serem “correctas”, assim polissémicas, apropriáveis por quem não sabe jogar xadrez nem percebe exactamente o que é “revolução” nem suspeita que haja “revolucionários” que dizem haver um sentido exacto e obrigatório para essa palavra – que, aliás, só conhece disso das estrelas e planetas, andarem às voltas e revoltas uns relativamente aos outros. E aí sim, num sentido “correcto”, entenda-se astronomicamente necessário.
Saí deliciado. Mas não com a exposição. (Proveniente, com toda a certeza, de umas quaisquer igrejas luteranas, suas morais e expiações.)
(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)
por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)
Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.
A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.
O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.
A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.
Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.
A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.
Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.
Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.
Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?
O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.
Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.
Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?
Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.
Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).
Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.
Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.
Aqui há muitos, muitos anos, estava eu de passagem por Genebra quando me vem parar às mãos uma revista, cujo nome já esqueci, que tinha um artigo que me prendeu a atenção. Falava de um pintor norte-americano que pintava dinheiro; pintava notas de dólar com as quais transaccionava bens e serviços. Tudo teria começado por um serendipismo, quando uma empregada de café propôs ao nosso artista trocar o café e o donut que ele acabara de consumir pela nota de 1 dólar que ele tinha acabado de pintar na toalha de papel. O total da conta eram 99 cêntimos e o nosso artista, James Stephen George Boggs de sua graça, recebeu ainda 10 cêntimos de troco.
Foi este o primeiro dia do resto da sua vida. Passou a pintar notas de dólar, francos, marcos, pesetas… Ou seja, passou a “imprimir” a sua própria moeda com a qual tem pago bens e serviços, numa completa subversão do establishment monetário. As suas notas não eram vendidas (por si) a coleccionadores mas tão somente transaccionadas e Boggs encorajava as pessoas a fazerem-nas circular, pagando com elas outros bens ou serviços adquiridos a terceiros. Tentativas de o processar por falsificação têm sido inúmeras mas vãs, uma vez que não havia pretensão de falsificar moeda internacionalmente reconhecida e ambas as partes envolvidas na transacção estavam cientes do que se estava a trocar: uma pintura de dinheiro pelo bem consumido ou serviço prestado. Apesar disto Boggs viu toda a sua arte e bens serem penhorados pela United States Secret Service Counterfeiting Division em 1990 e tem-se debatido desde então para que esta o processe, ou lhe devolva os bens.
Diz Boggs que uma nota mais não é que uma pintura num pedaço de papel e que o seu valor não passa de um acto de fé: acreditamos que a nota realmente vale o que diz valer. Como a recente crise financeiro veio demonstrar, Boggs não está provavelmente longe da verdade. Resta-me dizer que Boggs não parece ter conquistado grande notoriedade como artista excepto, oh ironia das ironias!, na Suíça!
Aos exmos leitores que não estudaram economia, e num first do Maschamba – e inteiramente grátis e absolutamente sem quaisquer truques – vou em seguida passar uma das mais importantes lições de economia que consegui aprender na vida, que incluiu quatro anos de licenciatura e dois de mestrado em Finanças em boas escolas norte-americanas (tipo das que nunca fecharam em 200 anos), seguido de 25 anos de trabalho em empresas privadas a fazer contas, algumas de cabeça (não destoando da Escola Primária Rebelo da Silva onde aprendi a ler, a escrever e a contar e na Rua dos Aviadores, onde muito do que aprendi não pode aparecer nestas páginas para não incriminar ninguém).
Cuidado que a lição é muito rápida e acho que é por isso que tanta gente pensa que entende mas depois não entende, especialmente em certas partes de Portugal.
Prontos?
Então aqui vai:
O preço de uma coisa é o valor que alguém estiver disposto a pagar por ela.
Todo o capitalismo ocidental, os Descobrimentos, a descoberta da penicilina e acredito que partes da Bíblia e elementos das mais ferozes teorias marxistas, para não falar nas negociações de jogadores de futebol para o Sporting e outros clubes menos importantes que o Sporting (ou seja, nos termos do nosso Estatuto, todos os outros) podem buscar a grande matriz dos seus postulados na frase que acima referi. É o busílis, o ponto de partida e o de chegada para tudo o que tem que ver com a economia onde todos nós, por mais esforçados, beatos ou vigaristas que sejamos, nos inserimos.
E esta semana surgiu um bom exemplo disso.
No mercado de arte contemporânea mundial há dois eventos que marcam o ano e tomam ao pulso em termos de como vai o mundo e quem anda a fazer o quê em termos de compras e vendas. Especialmente em ano de recessão como tem sido 2009.
Um é o leilão do Christie’s e o outro é o leilão do Sotheby’s, ambos na cidade de Nova Iorque.
Que se realizaram a semana passada nos respectivos cantos daquele burgo, ambos atraíndo a habitual panóplia de ricaços, riquérrimos, podres de ricos e outros afins, que inescapavelmente nos recordam quão pobres somos e ainda que a arte é também um produto como a carne do talho, que se vende, neste caso a quem der mais.
Um dos quadros postos à venda, acima reproduzido, data de 1962 , é da autoria de Andy Warhol e chama-se, para quem não adivinhou ainda, “200 notas de um dólar”. É uma pintura feita à mão sobre tela acrílica, de…duzentas notas de um dólar. Verdade, contei-as todas. É grandita, aí do tamanho de um espelho de saloon.
Agora, eu não tenho nem de perto nem de longe o faro artístico do JPT e da nossa Baronesa e de muitos (a maior parte?) dos exmos da comunidade Maschambiana. Para mim um quadro bonito comprado numa quinta feira à noite por 300 Meticais a um miúdo à porta do Piri-Piri em Maputo ainda é um quadro bonito. Aliás tenho um assim. Pode não ser representativo de uma qualquer cosmicidade espiritual ou da fase 4.2 da carreira do pintor que o pintou ou ainda do momento plástico-artístico da pintura mundial na altura em que foi feito. Acho bonito e para mim o argumento mais ou menos esgota-se aí.
Nessa óptica, confesso que aquele quadro de 200 notas de 1 dólar do Senhor Warhol passou-me completamente de lado. Para mim em princípio não valeria um prato de caracóis numa qualquer tasca da Trafaria cheia de moscas.
Por isso fiquei surpreendido de saber que o dito cujo havia sido comprado em 1986 por um casal de coleccionadores que vivia em Londres pela obscena quantia de …. 385 mil dólares.
Isto no tempo em que o dólar ainda valia alguma coisa.
Mas o casal, de apelido Karpidas, pelos vistos estava a ficar velho ou talvez curto na carteira e decidiu leiloar o seu Warhol no leilão da Sotheby’s da semana passada.
O que refiro a seguir está mais ou menos descrito numa curta peça do Economist desta semana, sobre como decorreu o leilão deste quadro.
Mas antes: o exmo. Leitor que tome um segundo e olhe lá para cima e pense quanto pagaria por aquilo, mesmo se lhe saísse o jackpot do Euromilhões.
Ok.
Cito: “o leilão foi aberto por Tobias Meyer, leiloador-mor do Sotheby’s, com um valor de base de 6 milhões de dólares. Imediatamente, Alex Rotter, um especialista do Sotheby’s que representava um cliente ao telefone, logo ofereceu 12 milhões de dólares. O preço escalou em incrementos de um milhão de dólar tão depressa que era difícil seguir de onde vinham as licitações”.
No fim, um cliente anónimo, representado por um tal Senhor Vinciguerra, e que se presume não ser o Senhor Joe Berardo, ganhou a corrida pagando…. 39 milhões de dólares que, mais a comissão da Sotheby’s e impostos, perfez um total de 43.7 milhões de dólares.
Li que em 1986 a compra daquele quadro por 385 mil dólares já fora basicamente um escândalo. O que não pensaram e disseram do casal Karpidas. Pelo menos fora o preço mais alto pago por um Warhol enquanto o artista ainda estava vivo.
“O preço de algo é o preço que alguém está disposto a pagar”.
O que é que esta gente viu no quadro, muito honestamente, muito sinceramente, por mais que eu olhe lá para cima…não sei. Aquilo parece-me ser uma mera, reles, banal pintura de duzentas notas de um dólar.
Foi uma fotografia tirada pelo meu amigo Miguel Barros que me deu inspiração para a minha estreia aqui na Maschamba. Hoje trago um pequeno vídeo feito por ele a partir de uma colagem dos seus quadros e com os quais ele evoca África. De tanto que a ama, chama-lhe minha, nesse possessivo de apaixonado que não deixa lugar a dúvidas. E eu aqui partilho o vídeo e o amor a essa África de paixões incendiadas, denominando-a assim nossa…