Posta a um Amigo – A Celebração da Vida

Há alguns dias fiquei desconcertada com a notícia do falecimento do pai de um amigo. Não fazia ideia do sucedido. A questão é que, quando novamente o encontrei, as circunstâncias não eram propícias à manifestação de sentimentos pesarosos e limitei-me a proferir “um abraço forte pelo sucedido”. Ele entendeu.

O que não lhe disse foi que considero, e estou em crer que ele também considerará, a morte como um estágio natural da vida e acredito que a devemos ritualizar com certa dose de alegria. Se, por um lado, o sucedido faz-nos sentir tristemente impotentes perante a natureza das coisas – curioso que neste caso podemos falar sem pejo da dicotomia natureza/cultura – por outro lado, sentimo-nos mais próximos dos parentes/amigos que faleceram e lembrarmo-nos dos bons momentos que com eles passámos.

Que o digam os mexicanos, que imortalizaram esta ‘passagem’ com grande dose de ironia. No dia 1 de Novembro, o México celebra de forma exuberante a famigerada senhora da foice e apressa-se a rejeitar toda a carga negativa que lhe está inerente.

Esta forma única e alegre de contacto com os antepassados é renovada a cada ano. No entretanto, é nosso dever celebrar intensa e quotidianamente a Vida. Com paixão, entusiasmo e alegria. E é imperioso que o façamos porque o resto é tudo igual, tanto faz.

VA


Share

Memória fotográfica: A Viagem

Tocou o telefone. Era preciso lá voltar. A convite da Presidência da República. Iríamos acompanhar a visita do Presidente às zonas afectadas.
Acabávamos de regressar de dez dias duros, de milhares de km. A subir e a descer o Rio. Muito sofrimento alheio. Tristeza nos rostos, culturas arrasadas. Sem frutos. Só água, muita água.
Mesmo assim, sentia-me privilegiado por ter assistido.
Do ar, no conforto de um helicóptero, muitas vezes a baixa altitude, quase tocando aquele imenso lençol, toda aquela visão apocalíptica parecia-me o que de mais bonito havia visto.
A natureza no seu máximo esplendor. Brutal, cruel e ao mesmo tempo de uma beleza assombrosa.
Sete da manhã no Aeroporto Internacional de Maputo. Mudança de planos, afinal o Presidente segue directo para Tete, com ele a imprensa estatal. TVM, Rádio Moçambique e o «domesticado» Notícias.
Nós, não. Vamos antes para a Cidade da Beira onde nos juntaremos a alguns jornalistas. E depois de machibombo até Caia. No dia seguinte, sim, veremos «O Chefe», assegura o assessor da Presidência que nos acompanha.
Questionámo-nos quanto ao que iria acontecer, criando cenários. O mais certo é um apelo à ajuda internacional. A Cruz Vermelha Moçambique já o havia feito dias antes. Canalizando alguns fundos para os seus cofres, para fúria das outras organizações humanitárias na região, incluindo a protecção civil local.
Chegámos à Cidade da Beira. Depois de várias horas de espera, partimos enfim. Ambiente ruidoso. Dois moçambicanos juntos fazem uma festa, mais de quatro, uma rave.
À chegada, desorganização. Estão à procura de sítio para dormirmos. A casa do professor nigeriano, ausente em férias escolares, está livre. Vamos para lá. Quase há pancada pela única cama e pelos dois sofás pequenos. Não, aqui não. Não nos preocupemos. «Há de se resolver.»
A noite cai, a solução tarda. A única hipótese é a escola, vão-nos arranjar uma sala com colchões. É só uma noite. Amanhã se quisermos levam-nos a Chupanga. Zona alta onde foi colocado o acampamento para os deslocados. Mas, temos que estar de regresso impreterivelmente às nove para não nos cruzarmos com a delegação do Presidente…
Trocamos olhares cúmplices. Sentimo-nos enganados, manipulados. «O que estamos, então, aqui a fazer?»
Já é tarde quando chegamos ao restaurante, a comida acabou. Venha uma dose de batatas fritas em forma de puré oleoso e duas cervejas mornas. Um luxo.
De regresso à escola. Vale-nos o cansaço. Caio a dormir quase de imediato no pequeno colchão que me foi dado, depois de fortes saraivadas de repelente para os mosquitos. Se não apanhar malária hoje, decerto nunca apanharei.
Despertar às cinco e trinta para a prometida viagem a Chupanga. Esse fim do mundo que já conheço de visitas anteriores. Onde miticamente jaz o corpo de Mary Livingston, mulher do famoso explorador, aqui falecida vitíma de Malária.
São 60 km de tenebrosos buracos agravados pelo desconforto do machibombo.
Não desanimamos, é mais uma oportunidade para ver. Registar. Um imenso acampamento onde apesar de tudo reina uma organização quase natural.
De volta dos depósitos de água, reservatórios de cor azul e laranja, sujos de uso, sobre as cabeças das mulheres. Barulhentas. Corcundas, de crianças envoltas em capulanas. Olhares mortiços e narizes ranhosos. Um pouco mais longe, outras mais crescidas, de aspecto saudável, a correrem atrás de uma bola de trapos.
Os homens na higiene diária, alguns de escova de dentes em punho. Indiferentes. Como se o mundo não tivésse desaguado sobre eles dias antes.
É já debaixo dos protestos da rapariga do protocolo para que nos despachemos, estamos a violar o acordo, que vejo o Presidente da Nação. A preto e branco, em pose de Estado. Debaixo daquele braço triste. Como que omnipresente.
Regressamos a Caia. A pequena vila transformada em epicentro da ajuda. Mais tarde a esperada conferência de imprensa. Aguardamos todos, barulho nos ares. Ao longe. Como pequenas moscas, os helicópteros que transportam aquela enorme e rica comitiva.
Os guarda-costas à frente. Atropelam e empurram a população curiosa. Uma mulher, em passos ébrios, fura o muro protector. Em segundos está agarrada ao Presidente. Braços esquerdos levantados, mãos coladas. Juntos rodopiam, ao som de uma orquestra imaginária. Os repórteres de imagem acotovelam-se para captar o imprevisto.
Gravadores em punho, expectativa. Não, não vão pedir a ajuda internacional. Está tudo controlado. É com orgulho que viu o trabalho feito por moçambicanos.
Também eu, como que contagiado, rejubilo do brio moçambicano.

PSB


Share

“Quem perde são os moçambicanos”, sem acesso às colagens das filhas do Ricardo Araújo Pereira

As colagens lusófonas de Ana Macedo são abordadas a partir dos 13 minutos desta edição do Governo Sombra (João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira. Este último anuncia a sua intenção de trazer mais colagens a Moçambique. Feitas pelas suas filhas.

jpt


Share

Ainda a Maçonaria. E os Rolling Stones

Nos últimos dias ouvi uma boa mão-cheia de maçónicos dizerem que “os presidentes americanos” ou “a família real inglesa” e outros que tais são da maçonaria, como se esse apelo anglo-saxónico comprovasse a justeza da organização.

Na sequência deste meu “A maçonaria em Portugal” e como ando a ler este livro não posso deixar de citar, assim comprovando o quão bimbos vão esses convidados das televisões. Cheios de títulos e de amigos … que os levam à televisão:

“[Em 1964] O Variety Clube era um círculo restrito, a cúpula do showbiz. Maçonaria? Instituição de caridade? Ninguém percebia muito bem, mas eram os gajos que mandavam no meio. Uma máfia inglesa do showbiz, estranhamente arcaica. E a nossa missão era foder-lhes o esquema. Continuavam a mexer os seus pauzinhos. Pessoas como o Billy Cotton, a Alma Cogan. Era incrível a influência que aquelas celebridades – pouquíssimas delas com algum real talento – tinham sobre as coisas. Eles decidiam quem tocava onde, fechavam portas, voltavam a abri-las – se te portasses bem. Felizmente os Beatles já lhes tinham dado uma boa lição. O seu declínio começava a tornar-se evidente e quando tiveram de se haver connosco já não sabiam para que lado haveriam de virar-se.” (Keith Richards, “Life”, Theoria, 2011, pp. 172-173)

Pronto, e para não se ficar por aqui, deixo isto. Outros ritos:

jpt


Share

Região de Nampula, Moçambique

©miguel valle de figueiredo


Share

Crisemprego

Ilustracao de Michael Vincent Manalo

Apercebi-me esta semana da dimensão da crise, diz-me uma amiga com consternação. Lá no Instituto abrimos duas, duas vagas para administrativos em part-time. Recebemos 240 candidaturas, incluindo 16 doutoramentos e cerca de 60 mestrados. Um part-time administrativo com 550 euros de ordenado, imaginem! Tem-me sido duro este processo de selecção.

Duro nada!, diz logo amigo também presente e sempre lúcido, Duro era teres à tua frente 240 curricula para fazeres despedimentos.

Verdade, mas compreendo bem a minha amiga e comisero com ela. Contratar alguém é uma ocasião feliz, deveria ser uma ocasião feliz. Mas quando a escolha de dois implica a exclusão de tantos com tanta preparação e pouca oportunidade esvai-se a ocasião feliz, intui-se a esperança posta em cada carta e adivinham-se as dificuldades escondidas em cada curriculum. São dois sins e 238 nãos – um rácio impossível!

AL


Share

Qual é o animal mais parecido com o Sporting?

Q: qual é o animal mais parecido com o Sporting?
R: hum … assim não sei. O leão?
Q: não, é o golfinho. De vez em quando aparece cá em cima, faz umas brincadeiras. E depois mergulha lá para baixo …

(esta não posso meter no “És a Nossa Fé!”)~

jpt


Share

Simposium ma-schamba

Decorreu ontem, 24 de Janeiro, o 1º simposium ma-schamba 2012, a primeira vez em que a totalidade dos agentes se congregou. A reflexão ocorreu ao jantar, realizado no “Cantinho do Aziz”, afamado restaurante moçambicano (ao Largo do Caldas). As temáticas foram abrangentes mas fundamentalmente centradas na luta contra o anonimato bloguístico.

jpt


Share

Eusébio

O King faz hoje 70 anos. Parabéns e longa vida.

jpt


Share

A maçonaria em Portugal

 

(um postal escrito há já algum tempo que só agora tenho tempo de publicar, algo requentado)

Muito a propósito a nova colectânea de Umberto Eco “Construir o Inimigo e outros escritos ocasionais” (Gradiva, 2011), em particular o artigo inicial que nomeia o livro. Um texto ligeiro – mas um “ligeiro” em Eco não equivale a “leve” -, com toda a certeza fruto do seu trabalho para a realização do recente “O Cemitério de Praga”. É uma breve abordagem histórica ao “modelo recorrente da criação do inimigo”, entendendo Eco que este processo constitutivo da alteridade inimiga é fundamental para a vigência do contrato social interno e encontrando-lhe características particulares na modernidade europeia. Não vou discutir essa questão recorrente na antropologia (ainda que me pareça que Eco é por demais funcionalista nessas breves páginas). Interessa-me mais a coincidência de ler este livro exactamente quando em Portugal se discute a maçonaria de modo tão veemente, muito por causa das obscuridades em torno de uma das suas secções (a agora célebre “loja Mozart”) e respectivos negócios e influências [abordadas, por exemplo, aqui e aqui].

Nestas semanas alguns assumiram-se  maçónicos, defendendo a virtude daquela crença [como José António Barreiros, Ricardo Sá Fernandes ("Eu, cristão e maçon") ou Henrique Monteiro, director do institucional Expresso]. Outros (até a ministra da Justiça) exigem o desvendar dessa(s) organização(ões), o que se afigura ilegal. Há quem fale da maçonaria tal como ela “anda por aí”, como o faz José Pacheco Pereira (Encontros Imediatos de Terceiro Grau com as Maçonarias).

Há um mal-estar generalizado com a influência da maçonaria, ainda que esta não se conheça com exactidão. O qual polui o discurso público, dando azo a dislates (um péssimo momento do cardeal de Lisboa ao comparar a proposta dos políticos assumirem a sua crença maçónica com o “ser do Sporting ou Benfica” – já agora lembro que qualquer dirigente ou árbitro desportivo tem que anunciar a sua pertença/simpatia clubística). Parece-me óbvio que este desconforto virá do semi-secretismo, dos hábitos esconsos do sistema maçónico e da fama (e proveito) dos mecanismos de entreajuda que abriga … Ou seja, o desconforto deriva da maçonaria influenciar o social não sendo realmente escrutinável nem tampouco o intentando.

Não tenho uma visão demoníaca do maçonarismo, algo que vem de família: o meu avô paterno era maçon e dele herdei algumas relíquias maçónicas, feitas jóias de família. Para além dessas memórias domésticas construí a minha imagem do maçonarismo nas aventuras de Pierre Bezukhov e chega-me Tolstói conjugado com a minha “visão do mundo” (algo weberiana) para olhar com distância tais propósitos. Por isso ao questionar a influência das maçonarias na sociedade actual não me parece necessário estudar com afinco a história maçónica como exige José Adelino Maltez em dia de petulância (enquanto publicita o seu livro sobre a crença a que pertence).

E assim vejo esta discussão portuguesa. Uma sociedade aflita com a crise financeira e económica que desvenda um fracasso desenvolvimentista, uma crescente desilusão com as suas elites políticas. E que agora, atiçada por uma tramóia na tal loja Mozart (das tantas que têm surgido noutros locais e organizações), produz um inimigo que causa coesão, qual bode expiatório, ainda por cima incrustado nas elites. Um  inimigo semi-interno (de dentro mas relativamente desconhecido), suficientemente esconso para surgir como externo, suficientemente próximo para surgir como responsável pelo “estado da arte” nacional. É também disso que se trata com este protesto contra a maçonaria.  Um exagero. Populista. Por isso a actualidade da leitura de Eco … sobre “a produção do inimigo”.

Mas não demonizar a maçonaria não significa conforto com a sua  constante presença. Há décadas que ouço histórias sobre a sua influência nos grandes, médios e pequenos assuntos do Estado (e da sociedade). Nisso haverá algumas mistificações, alguns exageros e algumas verdades. Acima de tudo convirá realçar o desajuste da prática maçónica com o que se afirma ser o seu horizonte histórico, os valores do dito “iluminismo”: o progresso através de uma sociedade democrática e racional. A sociedade aberta, o real inteligível, com os poderes e características explicitados (daí a vontade cientista e objectivista do iluminismo). Hoje sabemos que a opacidade relativa é condição do social mas isso não se coaduna com as práticas de coalisões esconsas que o hábito maçónico exige, uma sobrevivência que não é apenas anacrónica mas também paradoxal face aos seus afirmados objectivos.

Pois a sociedade aberta, isso que se quer na democracia, não se coaduna com os deveres e as práticas das entreajudas implícitas. Claro que há múltiplas formas de redes sociais, coligações, coalisões, disso se faz a vida. Mas tendem a ser explícitas (ou explicitáveis) e escrutináveis. O tendencial semi-secretismo das maçonarias implica que há um conjunto de factos sociais (as tais entreajudas e tantos dos objectivos perseguidos) cuja lógica escapa aos que os rodeiam. E é isso o oposto do tais valores iluministas que homens como José Adelino Maltez têm surgido na imprensa a reclamar como património maçónico.

Há quem reconheça alguns “maus usos” da prática maçónica (como Ricardo Sá Fernandes evocando a loja P2 italiana), apontando-os como degenerescência. Mas não é essa a questão pois todas as formas organizacionais podem implicar alguns surtos de criminalidade, de fuga aos valores orientadores. Ela não se coloca ao nível das radicais excentricidades, malévolas, mas sim do normal funcionamento. Ou seja, a questão não se prende com uma loja (Mozart ou P2, por exemplo hipotético) que cometa temíveis ilegalidades mas com as práticas comuns dos que se consideram dentro do ideário maçónico. Nestas assistimos ao tráfego de influências, ao controle de recursos, à pressão sobre os múltiplos poderes, económicos, políticos, culturais. Processos a que os externos não têm forma de aceder e compreender, de se lhes associar ou combater. E são esses processos, normais na vida maçónica, as entreajudas esconsas, tendencialmente incompreensíveis para os restantes cidadãos, que são antidemocráticas. O resto, os tais crimes, são coisas judiciais e “acontecem nas melhores famílias”.

Narro dois exemplos, um antigo e outro actual, que julgo esclarecedores de uma presença inoportuna que obsta à racionalidade democrática:

Em 1997 era adido cultural em Moçambique. Entre outras tarefas cumpria-me acompanhar os processos de cooperação na área do ensino e da investigação científica entre Portugal e Moçambique, numa época de grande desenvolvimento das relações bilaterais. O presidente Sampaio visitou o país e tive então uma longa conversa informal (na esplanada do Polana, lembro) com um membro do governo sobre as possibilidades de cooperação em várias áreas. O qual, discutindo a cooperação científica, referiu um projecto ministerial de reorganização de um conhecido instituto de investigação, de larga tradição em estudos africanos e com património científico invejável em várias áreas. Mas já então muito anquilosado. O projecto parecia bom, reforma orgânica, concentração em três áreas científicas, dotação orçamental virada para trabalho de terreno, rejuvenescimento de quadros. Mas tudo esbarrava na resistência da sua direcção. E pouco havia a fazer, dizia-me, pois o presidente era “conterrâneo do Guterres e maçónico”. “Então e o nosso primeiro não convence o vizinho?” perguntei, amistoso. Mas a questão não era verdadeiramente essa, como me foi dito, “o homem é da maçonaria, é intocável e incontornável”.

Não duvidei. Trabalhara para a secretaria de estado da Cultura, baseado durante um ano e meio na Torre do Tombo. E  nesse meio de historiadores muito se falava da maçonaria, de como os seus membros controlavam os recursos disponíveis para investigação, para acesso à carreira académica, nos juris de mestrado (então ainda um grau importante) ou doutoramento, nas publicações, nas eleições para orgãos académicos, etc. Algo que hoje, 20 anos depois, continuo a ouvir de  em várias áreas científicas. Entenda-se, não são discursos tidos por gente marginalizada, por hipotético ressabiamento. São académicos bem sucedidos, integrados. E sistematicamente surpresos com aparentes incongruências nos funcionamentos institucionais, nas racionalidades, nos agrupamentos, nas des-hierarquizações incompreensíveis. Entenda-se bem, e para isso eu “traduzo”, no controle dos recursos económicos e simbólicos disponíveis.

Se a maçonaria estará presente na política, na economia, etc, ela está viçosa na academia, moldando o funcionamento destas instituições, favorecendo os seus membros seja internamente seja no acesso à “praça pública” (e aos recursos que esta possibilita). Em formas que ultrapassam a mera solidariedade intelectual e o convívio  científico. Repito, moldando o controle dos recursos disponíveis. E isto não acontece através daquelas pérfidas lojas que agora são apupadas, não por aqueles que violam os seus princípios e que José António Barreiros diz ser preciso varrer. Mas sim pelos “normais”, pelos homens comuns maçónicos, devido ao seu modo de funcionamento e aos objectivos que perseguem. Adversos, repito, à democracia e à inteligibilidade do real que eram (d)os seus objectivos históricos.

Depois há as dimensões simbólicas que violam os princípios do Estado. É absolutamente inaceitável o que se sabe agora de José Magalhães, gastando o erário público com a sua paixão maçónica, um desvario arrogante, a arrogância do proprietário, como se dono dos bens comuns. O que deveria significar o fim da sua carreira pública (política e não só).

Mas não está só nessa atitude. Para exemplo actual coloco abaixo um conjunto de imagens. Sei que assim vistas de pouco servem, sustentam um argumento infalsificável. Pois quem quiser dizer que os motivos que mostro são maçónicos poderá fazê-lo, quem tal quiser negar também. Ainda assim aqui fica a ilustração: esta é a nova reitoria do ISCTE, uma universidade pública líder em gestão e ciências sociais em Portugal e local de origem do poder socialista que governou a última década e meia. E na qual, diz-se, as listas para os orgãos dirigentes se agregam em torno de diferentes lojas, para tendencial incompreensão dos restantes eleitores. As paredes em aparente design geométrico, a mesa que evoca o célebre olho, etc. Assim tornando um local público um lugar de conforto para os crentes.

E nisso tudo o desconforto de todos aqueles cidadãos, ali funcionários, alunos ou visitantes (como eu) face a (mais) este ultraje à laicidade e imparcialidade das instituições públicas. A esta arrogante agressão à democracia. Cometida por aqueles que são, repito, o “homem comum” maçónico.

Qual o mal de tudo isto? Para além disso do controle dos recursos sociais? O mal desta presença maçónica vai muito além disso, que trapalhadas e apropriações têm muitos autores e dínamos. O mal maçónico no Portugal democrático é o medo que as maçonarias produzem, induzem, reproduzem. E com o qual se reproduzem. As pessoas têm medo de afrontar, de combater, de discordar daqueles que sabem ou julgam maçónicos. Das represálias, dos empecilhos que irão sofrer. Está esse mal nos maçónicos, que o conhecem e o utilizam, por mais que se afirmem democráticos e livre-pensadores (é paradigmático o arrobo másculo de Henrique Monteiro no seu texto do Expresso não disponível em formato digital). Mas também está esse mal nas próprias pessoas, aqueles que refreiam as suas (o)posições, assim refeitos salazarentos timoratos.

O que fazer com os maçónicos? Com toda a certeza que não demonizá-los, como nas últimas semanas. Pois isso implica manchetes, gritarias e depois o silêncio, produzido por outros assuntos, outras primeiras páginas. Mas sim des-demonizá-los e afrontá-los. Não pela denúncia, não por exigências ilegais. Mas sim pela nossa entreajuda, aberta, explícita, cidadã. Ostracizá-los (aos óptimos, aos bons, aos comuns, aos facínoras). Têm redes de entreajuda implícitas? Afrontemo-las. É difícil, sei bem: exigiria feitos sobre-humanos como, por exemplo, não contratar o advogado Ricardo Sá Fernandes ou o advogado José António  Barreiros, não ligar ao blog do Paulo Gorjão (que acabo de ler dizendo-se maçon), não comprar o Expresso do Henrique Monteiro ou os  livros de José Adelino Maltez, não fazer donativos à AMI do Fernando Nobre, não votar nas listas do José Magalhães (ou comprar os jornais onde escreve), não deixar os filhos estudar no ISCTE, etc. Alguns destes serão bons homens, outros talvez nem tanto. Mas “paga o justo por aquele que se entreajuda”.

Mas isso, sei-o bem, é impossível. São actos muito difíceis. Mais fácil é dizer mal da maçonaria, em pequenas conversas. E continuar a afagar os maçons. E a pagar-lhes. E a ter medo deles.

jpt

 


Share

Pedro Rosa Mendes e o papel da imprensa estatal

Há algum tempo o ministro português Miguel Relvas esteve em Maputo. Assisti a um excerto da sua estada, transmitido em directo pela imprensa estatal (RTP-África) e nada gostei. Não gostei da impreparação intelectual, do tipo de propaganda a confundir-se com o trabalho de relações externas. A prejudicá-lo, ainda para mais. Estou há anos demais em Moçambique para desperceber que não é assim. Disse-o então, no debate em que participava o ministro (e o ex-ministro Morais Sarmento). Escrevi-o no blog, logo depois, para desgosto de patrícios. Notei também que a imprensa estatal recebe instruções do ministro, segundo as próprias palavras de Miguel Relvas.

Soube há dias que o ministro iria a Angola e que a imprensa estatal (a RTP, através do programa “Prós e Contras”) se associaria a essa visita. Tive curiosidade em ver qual o registo, tanto para perceber as mutações nas entoações em contextos diferentes como para reconhecer as continuidades de um olhar sobre África que está, manifestamente, impreparado. E também para ver como a imprensa estatal continua o seu trabalho “oficial”, apertada pelo espartilho da mera anuência face ao poder político. Mas não pude ver, o meu pai morreu na véspera, todo o resto perdeu sentido.

Sei agora que Pedro Rosa Mendes falou sobre essa visita a Angola, criticando o papel da imprensa pública portuguesa (é aconselhável ouvir este texto, para não dizer que é obrigatório). Rosa Mendes critica a situação angolana. E critica o seguidismo da RTP. Sabe-se também que este texto, inserido numa coluna de opinião na estatal RDP (Antena 1), implicou o cancelamento desse programa (artigo do Público transcrito aqui).

Tudo isto é inaceitável, pura censura. Porventura denotando o seguidismo do poder português ao capital angolano. Colocando de novo a questão do papel, e da sua liberdade, da imprensa estatal, muito em particular quando se debruça sobre as relações internacionais portuguesas e os seus caminhos diplomáticos. Mas, mais ainda, levanta também, por mais meandros e desmandos que venham a ser agitados, a questão sobre a prática política deste governo e deste ministro. O qual, é o momento de o lembrar, afirma dar instruções à imprensa estatal.

Não se governa sem democraticidade, isso não faz parte deste nosso regime. Seja em momentos de cruzeiro seja (ainda menos) em momentos de extrema complexidade, como os actuais. Para os mais arreigados defensores deste governo convirá lembrar o governo anterior e os efeitos degenerativos que a arrogância antidemocrática foi causando.

Esta intrusão escandalosa na liberdade de imprensa tem um conclusão: Relvas não tem lugar no governo de Portugal. Nem ele nem os que como ele vão. Como os senhores da RDP, a transmitirem as ordens.

jpt


Share

Jimmy Hagan

As declarações do presidente Cavaco Silva (que de modo absolutamente original exerce as suas funções em regime de “part-time”) sobre a(s) sua(s) reforma(s) lembraram-me o até mítico treinador Jimmy Hagan. Que há 40 anos não só tanto venceu em Portugal como introduziu no país o seu vigoroso e letal “no commments”.

jpt


Share

“As compotas do Pedro”

 

O nosso co-bloguista Pedro Sá da Bandeira surge na edição do Diário de Notícias de ontem (21.1.2012), em artigo ilustrado pela fotografia que reproduzo acima. Ali se explica (também) o pousio bloguístico em que ele se encontra, dedicado às suas urgentes e literais machambas. O Pedro, meu amigo e compadre (por via da amizade sororal das nossas filhas), é repórter fotográfico, trabalhou durante anos no “Record”. Partiu para os EUA e depois para Moçambique, onde trabalhou com assinalável sucesso. E fez ainda exposições individuais. Do seu trabalho realço a exposição “Vai Fazer Bom Preço” em 2008. Uma coisa raríssima, um olhar destipificador, uma marcha contra o exótico e a despersonalização, um momento de inteligência perfeitamente excêntrico ao comum do olhar português sobre África.

É um profissional com este valor que, regressado a Portugal por razões familiares, encontra um mercado profissional desgraçado, prisioneiro da sub-remuneração, o estertor do jornalismo como existia, o desbaste da sociedade que conhecíamos. Profissionais primeiro proletarizados, depois sub-proletarizados. O PSB, à sua maneira, suave e sem procurar os píncaros, recusa a lumpenização. E tem a extrema coragem de procurar outros caminhos, de se reinventar. Um naco de terra de família, mãos à obra na produção agrícola e na sua transformação. Um must de dignidade nestas suas compotas, as “compotas do tio” como eu insisto, risonho, em intitular. Em vénia. Viva o PSB!!

 

Ele fez zoom à fruta da quinta da avó

Do congresso norte-americano para a Quinta de São Romão, em Setúbal, vão cinco anos. Pedro Sá da Bandeira, 41 anos, é fotógrafo. Estudou no Cenjor, estagiou no desportivo Record e colaborou com títulos como o El País, o Le Monde, a revista Edit ou o jornal de Washington The Hill. Foi ainda correspondente da agência Lusa em Maputo, Moçambique. Além do fotojornalismo, Pedro trabalhou como fotógrafo para a Organização das Nações Unidas, a Fundação Gulbenkian e a USAID – Agência de Cooperação para o Desenvolvimento do Departamento de Estado americano.

De regresso a Portugal, depois de quatro anos nos Estados Unidos e outros tantos em Moçambique, Pedro não encontrou o mesmo mercado que em 2002, ano em que saiu do País. “Escolhi a fotografia porque gostava e porque queria uma profissão que não me obrigasse a estar fechado num escritório. Passava as manhãs a ler jornais, a história do jornalismo era-me familiar. Tinha a quinta da família, e comecei a arranjar as coisas, não naquela coisa idílica de ir para o campo, mas para ter, no fundo, melhores laranjas para comer em casa. Rapidamente comecei a ter o que queria na fotografia – andar ao ar livre – e passei a ir para Setúbal quase todos os dias. Depois, é esta economia de sobrevivência: tinha lá uma ameixeira. Quando vi as ameixas a cair, decidi fazer uma compota”, conta.

Até ao ano passado, a casa da avó de Pedro servia apenas para férias e fins de semana. Primeiro, o fotógrafo decidiu recuperar o laranjal – que produzira frutos até ao governo de Cavaco Silva e permitira à família comercializar laranjas. Mas Pedro não ficou pelo pomar: começou a fazer compotas de fruta e plantou uma horta com legumes da época. “Ervilhas, rúcula, tomate… agora só como tomate produzido por mim…”, esclarece.

Mas como é que um fotógrafo profissional troca as lentes e as objetivas pela enxada? Não troca. Pedro continua a levar a máquina fotográfica para todo o lado e tem documentado o crescimento e a produção da horta. Além disso, continua a trabalhar como fotógrafo sempre que surgem trabalhos – como aconteceu em 2011, quando foi contactado pelas Nações Unidas para fotografar o trabalho State of World Population Report.

“A fotografia continua, mas procuro-a menos, sempre à espera de uma resposta. Não desisti da profissão, mas, de momento, ser fotógrafo não está a garantir-me qualquer tipo de rendimento. Não é que o que eu estou fazer esteja, mas pelo menos todas as semanas faço uma sopa com os meus legumes.”

O sucesso das compotas de fruta da época – que Pedro cozinha e coloca em frascos esterilizados – já não se resume a pessoas da família: o fotógrafo pensa apostar na venda dos produtos em mercados, depois do sucesso que as suas compotas fizeram no Natal.

“Há muita concorrência, por isso tenho apostado em pequenos pormenores. Por exemplo, a baunilha que uso é francesa e as receitas são as mais tradicionais.”

Com um investimento que ronda os 500 euros mensais, entre “combustível e sementes”, a venda de compotas ainda não cobre todos os custos de produção, mas Pedro quer prosseguir com o projeto, a par da fotografia. Para isso, tem fotografado a horta e espera poder vender as fotografias emolduradas. “É assim… As voltas que a vida dá.”

Entre ervilhas, espinafres, couves-flores, brócolos e tomate, Pedro Sá da Bandeira decidiu mudar de vida. Ou como o próprio escreveu numa carta, “se calhar, o futuro passa por aí. Por nos reinventarmos”.

Retrato

Pedro Sá da Bandeira nasceu em 1970 e tem dois filhos. Frequentou o curso de Relações Internacionais mas optou por ser fotógrafo, por não se imaginar a trabalhar “num escritório”. Entre 2006 e 2010, colaborou com a agência Lusa na delegação de Maputo, Moçambique. Em 2009, expôs o trabalho realizado em Moçambique no Instituto Camões. Vende cada frasco de compota por 5 euros.

jpt


Share

O Acordo Ortográfico e os pobres leitores do Diário de Notícias

 

“(Des)Acordo Ortográfico separa os “maquisards” dos “vende-pátrias”?” é o título de um palavroso artigo no Diário de Notícias de hoje, escrito por Oscar Mascarenhas e dedicado ao Acordo Ortográfico, dele não desgostando e minorando as críticas e os motivos das críticas (tal como reduzindo-as à preguiça dos escribas, por essa nada atreitos à mudança de hábitos … ortográficos). No meio daquele caudal de palavras detecto que o autor afirma que este acordo resulta num estado ortográfico onde se vão  “escrevendo … as palavras como são pronunciadas”. Como tal só posso concluir que há uma pronúncia de português. Universal.

Não sei quem é Óscar Mascarenhas, o autor deste total dislate em texto muito convicto de si mesmo. Apenas leio que é o provedor dos leitores do Diário de Notícias. Pobres leitores, providos de defensores com esta … pronúncia. E tamanha preguiça … intelectual.

jpt


Share

no És a Nossa Fé!

Keith Richards

Não sou leitor nem de biografias nem de autobiografias, não me interessam. Mas não consegui resistir a este “Life” de Keith Richards (Theoria, 2011: do razão da não tradução do título só a editora poderá avançar as suas ignaras razões).

Li boas recensões mas não é por isso que acolhi o livro. O homem é um ícone, tudo isto é só rock n’roll mas eu gosto. Depois, realmente, o texto está interessante, ritmo e conteúdo, como o homem tem olhado o mundo. Nas últimas semanas tenho lido muito pouco. E por isso estou ainda no segundo capítulo, na chegada à puberdade, em Dartford, tendo deixado para trás uma crua e eficiente visão da Inglaterra pobre do pós-guerra, a reconstruir-se. Não é só o keef, the riff, e o livro vale(rá) bem mais por isso.

Há poucos dias lembrei-me dele no meio das inúmeras conversas que tentavam preencher o gélido e longo velório do meu pai. Um familiar, atento e querido, a perguntar-me, com cuidados de jurista pois “não vão os diabos tecê-las”, se eu estou certo do que aqui escrevi. Sim, totalmente, na medida do que foi anunciado, disse-lhe. E, mas isso não lhe disse, está tudo no Richards:

“… a minha avó Eliza … foi eleita vereadora [trabalhista] … e em 1941 tornou-se presidente da câmara de Walthamstow. Ascendeu … na hierarquia política. Vinha de uma família de trabalhadores de Bermondsey, e praticamente inventou os serviços de assistência à criança em Walthamstow. Um espírito verdadeiramente reformador. Devia ter um feiti[o]zinho tramado. Tornou-se presidente da Comissão para a Habitação numa das freguesias que tinha um dos maiores programas de fomento à habitação social do país, e a Doris [mãe de Richards, nora de Eliza] sempre se queixou de que era tão austera que não permitiu que ela [e] o Bert recebessem um apartamento da câmara depois de se casarem: recusava-se a dar-lhes prioridade na lista de espera. “Não te posso dar uma casa. És a minha nora.” (48)

Realmente, é só rock n’roll mas eu gosto …

jpt


Share

Concurso de blogs

O Aventar lançou um concurso de blogs. Trata-se de votar nos melhores blogs portugueses num conjunto alargado de categorias. Serve para conhecer (ou lembrar) uma série muito alargada de blogs, centenas deles repartidos por 30 categorias a votação. Justifica a visita.

Uma chamada de atenção especial para a categoria “Melhor Blog Estrangeiro de Língua Portuguesa” onde está aberta a votação ao Blog da Gorongosa. E, já como bloguista interessado, apelo aos clis no És a Nossa Fé!, um blog no qual participo.

jpt


Share

Amanhã inaugura individual de André Almeida e Sousa

Um desafio, para quem possa comparecer.

jpt


Share

Três artigos sobre o Acordo Ortográfico: a resistência continua

Um belo artigo de João Pereira Coutinho publicado na “Folha de São Paulo” que transcrevo, tendo-o encontrado no Delito de Opinião:

“Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?

Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?

A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extra-terrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.

Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil.

Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.

Questão de educação.

Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.

A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.

A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.

Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?

Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.

Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.

Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.

Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.

Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.

A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.

Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.

Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.

Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.

De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?”

No Expresso também Pedro Mexia publica um bom texto sobre o assunto (que encontro no Blog à Portuguesa)

Antiga Ortografia

Fulano escreve “de acordo com a antiga ortografia”, diz o aviso que acompanha estas crónicas. Eu agradeço que o “Expresso” me permita a objecção de consciência face ao chamado Acordo Ortográfico, e percebo que indique quem segue ou não as novas regras, para evitar confusões; mas suspeito que esta fórmula foi inventada por alguém que pretende colar aos dissidentes o vocábulo “antiga”, como se nós escrevêssemos em galaico-português. Como se a língua que a maioria dos portugueses ainda usa se tornasse por simples decreto “antiga”: antiquada, decrépita, morta.

Eu não sou pela “antiga ortografia” por caturrice. Estou contra o “acordo” porque me parece uma decisão meramente política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural. Os legisladores impuseram aos falantes uma “ortografia unificada”, que, dizem, garante a “expansão da língua” e o seu “prestígio internacional”. Mas a expansão da língua passa por uma política da língua, que Portugal, por exemplo, não tem tido, ocupados que estamos em fechar leitorados no estrangeiro, em aplicar uma abominável terminologia linguística nas escolas, em publicar um lamentável Dicionário da Academia, em expulsar Camilo dos currículos enquanto o substituímos por diálogos das novelas. Quanto ao prestígio internacional, lamento informar que foi o sucesso económico, e não a “língua de Camões”, que transformou o Brasil numa potência.

Não é este “acordo” que vai trazer expansão e prestígio ao português. Contenta uns “acadêmicos espertos e parlamentares obtusos”, como escreveu um colunista brasileiro, e alguns editores, que têm bom dinheiro a ganhar com esta negociata. Mas é difícil imaginar que alguém acredite que vem aí uma “unificação da língua” só porque se legislou uma “unificação da grafia”. Um brasileiro continuará a falar uma língua muitíssimo diferente do português de Portugal, diferente em termos de léxico, de sintaxe, de fonética. Um português, com um exemplar do Acordo debaixo do braço, bem pode perorar em Iraguaçu, que alguém lhe continuará a perguntar “oi?”, pois não percebeu metade. E isso não tem problema algum, a “lusofonia” não vale pela unidade mas pela diversidade, pelo facto de haver um português europeu, africano, americano e asiático. E ninguém é dono da língua: nem os brasileiros por serem mais, nem os portugueses por andarem cá há mais tempo, muito menos uns académicos pascácios que dicionarizaram “bué” e “guterrismo”.

É significativo que o próprio “acordo” reconheça o fracasso do projecto de “unificação a língua”. Dadas as flagrantes diferenças entre o português e o brasileiro, os sábios são obrigados a admitir a existência de duplas grafias, uma cá, outra lá [África, para estes iluministas, é paisagem]. Pior ainda, introduzem uma “grafia facultativa” que estabelece como termos lícitos tanto “electrónica” como “eletrónica”, “electrônica” ou “eletrónica”. O linguista António Emiliano deu-se ao trabalho de enumerar em livro os erros, contradições, imprecisões e dislates desta lei iníqua. Leiam-no. E não digam que ninguém avisou.

A minha recusa deste “acordo” não é casuísta nem temperamental. Não se trata apenas de não gostar de ver os espectadores transformados em bandarilheiros “espetadores”; de não perceber como é que os habitantes do “Egito” não são “egícios”; de ficar estupefacto com o “cor-de-rosa” com hífen e o “cor de laranja” sem hífen; de prever os imparáveis espalhanços de um “pára” do verbo “parar” que perde o acento e talvez o assento. É isso mas é mais que isso: eu discordo veementemente do critério fundamental do “acordo”: a primazia da fonética sobre a ortografia.

É verdade que todos falamos antes de sabermos ler e escrever, mas quando aprendemos essas competências sofisticadas interiorizamos uma língua diferente da falada, que nalguns casos nem tem exacta correspondência fonética mas que se liga a uma memória histórica e cultural. Quando aprendemos a ler, fixamos a forma gráfica das palavras, uma forma que memorizamos e que nos acompanha a vida toda, de modo que nunca mais lemos letra a letra, mas reconhecemos de imediato uma grafia aprendida há muito, “antiga”, sim, muito antiga. A ortografia não é uma transcrição fonética, nem podia ser, dadas as variantes do português falado. Ou nas pronúncias regionais. Como escreveu Emiliano, não vamos criar uma “ortografia do Alto Minho” só porque a pronúncia de Caminha é diferente da pronúncia de Cascais. Ou de Curitiba.

E não me digam que são pouquíssimas as palavras alteradas: procure quantas vezes neste jornal aparece ação, ator, atual, coleção, coletivo, diretor, fato, letivo, ótimo, e repare que são algumas das mais usadas. É por isso que o cavalo de Tróia das “consoantes mudas” deve ser denunciado. Em primeiro lugar porque não são mudas coisíssima nenhuma: abrem as vogais precedentes, e numa língua danada por fechar vogais. Depois, porque não são inúteis, ajudam a distinguir termos homógrafos e indicam a etimologia de palavras afins. Fazem sentido, ao contrário do “acordo”.

Dizem os acordistas que a nova ortografia “simplifica” e “facilita a aprendizagem”. Toda a gente sabe o que significa “facilitar a aprendizagem”, e os resultados que isso deu no ensino. E se a intenção é “simplificar”, que tal escrevermos todos em linguagem de telemóvel? Por mim, continuarei antigo.

E um outro artigo sobre o assunto, de Bagão Félix. O desconforto continua, a discordância também.

A língua, escrita ou falada, é a expressão viva da evolução social. Particularmente num mundo sem fronteiras, com novas formas de comunicação e de relação.

O português – a 5ª língua nativa mais falada – não foge a essa regra.

Mas uma coisa é a absorção de modificações que se vão verificando, outra é a sua imposição por decreto. O Acordo Ortográfico é o produto não de uma evolução natural e impregnada na prática, não de uma necessidade de defesa e promoção linguísticas, mas tão-só a imposição de iluminados, que o Estado avalizou, menosprezando posições diferentes e ignorando a voz do povo soberano.

O Acordo é também uma expressão de submissão às maiorias populacionais. Neste caso, do Brasil. Esquece-se que uma língua se enriquece na diversidade e se empobrece na “unicidade” por forçada via legal. Claro que há sempre prosaicas justificações mercantis (interesses?) em sua defesa e há quem vá ganhar com tudo isto.

Imagina-se o Governo britânico a uniformizar a grafia de vocábulos escritos nos Estados Unidos ou Austrália (v.g. “realise”/”realize”, “center”/”centre” ou “labour”/”labor”)? Ou o castelhano a adaptar, por lei, a escrita de certos vocábulos na Argentina?

Pequeninos geograficamente, teimamos em ser pequeninos patrioticamente. Dizia sabiamente Fernando Pessoa: “A palavra escrita é um elemento cultural, a falada apenas social”.

Adivinhem o que se quer dizer com “não me pelo pelo pelo de quem para para desistir”? Na rejeitada e antiga grafia escreve-se: “não me pélo pelo pêlo de quem pára para desistir “

Já não nos chegavam os agravos à nossa língua nas tv e textos públicos, eis que os tornam agora obrigatórios. Os “supônhamos” e “houveram” de braço dado com os “suntuosos” e os “contrassensos”.

Enfim, a lógica da batata. Ou da ” (H)ortografia”.

jpt


Share

A lusofonia e o acordo ortográfico segundo António Cabrita


Uma bela entrevista de António Cabrita à revista brasileira “Pausa”. Sobre ele próprio. Sobre poesia, poetas, cinema. A situação das áreas culturais em Moçambique e Portugal, etc. Tudo isto a propósito das suas frenéticas publicações (o Cabrita acaba de publicar três livros) em particular o romance “A Maldição de Ondina”, publicado no Brasil.

Sublinhando esta recomendação para que se leia a entrevista aqui transcrevo a visão do António Cabrita sobre dois temas que têm sido recorrentes aqui no ma-schamba: a lusofonia e o acordo ortográfico.

Está muito bem o Cabrita.

 

O que você acha do acordo ortográfico e da chamada lusofonia.

O acordo não me ofende nem me arrefece. Como dizia o Deleuze há que gaguejar na língua para que a língua no seu próprio interior se torne bilingue, isto é, cito-o, o multilinguismo não é apenas a posse de vários sistemas mas antes de tudo a linha de fuga ou de variação que afecta cada sistema impedindo-o de ser homogéneo. Isto que sublinho é o que me importa no manejo de uma língua, é o que sempre foi feito por alguns e é o que continuará a ser feito, e isto não há acordo que o impeça. Agora, há o aspecto político da questão e aí é claro que o acordo existe para favorecer a indústria do livro brasileira, o resto são balelas.

Quanto à lusofonia manifesto reservas. Não sei como é no Brasil mas em Portugal fala-se em lusofonia como um efeito hipnótico que levaria logo a uma bacalhauzada entre os falantes de português. Para Moçambique é um termo controverso, associado ao neo-colonialismo. E de facto é preciso perguntar que sentido faz falar em «lusofonia» num país em que só oito por cento dos seus habitantes é que tem o português como língua mãe. Mesmo que o português seja a língua oficial, os códigos e as performances da língua aqui são distintas, verificando-se um crescendo de contaminações das línguas nativas e do inglês na textura do português, assim como a presença de deslizes semânticos que introduzem variações quer de significado, quer sintácticas, que tornam a sua tradução uma história de diferimento e não um rastro contínuo. Aparentemente falamos a mesma língua, mas os códigos e protocolos da língua e os valores dos seus significados são tão díspares que nos sentimos num perpétuo território estrangeiro, o qual está minado pelos equívocos e mal-entendidos com que a aparência de uma língua comum, transparente, tornou bélico o terreno.
A lusofonia é uma cortina de fumo para que as embaixadas possam não falar entre si de coisas concretas, urgentes e necessárias. Com o álibi dessa suposta base identitária faz-se de conta que está tudo bem para não se investir em nenhum tipo de comprometimento sério.

É como Prémio Camões. Em 2001 fui ao Brasil, tinha acabado de lançar Inferno, que escrevi em parceria com a Maria Velho da Costa, a quem fora atribuído o prémio há 2 anos atrás. Fui a várias editoras brasileiras tentar vender esse e outros livros dela. Ninguém sabia quem ela era. O eco do Prémio Camões não tinha saído das embaixadas. É patético. Não entender a inocuidade disto é grave, desajustado e redutor. Por isso a lusofonia lembra-me a deselegância de estar a martirizar uma noiva, na véspera do casamento, falando-lhe obsessivamente do antigo namorado que ela faz tudo para esquecer.

O imaginário lusófono é como o sentimento da queda no Paraíso bíblico: há um misto de culpa, de rejeição e de tremenda atracção pela Eva. O aparente decoro da Eva não nos deve deixar impotentes, e convém voltar a fecundá-la, com a diferença de que agora pode ser ela a tomar as rédeas do jogo, tendo o papel activo na função. É preciso aceitar a troca das posições no leito para que a coisa volte a animar. Enquanto não se entender esta coisa primária, a lusofonia não passa da simulação das erecções de um anão ao espelho. O Eduardo Lourenço já disse tudo sobre esta matéria no seu devido tempo, mas como os políticos portugueses não têm mais nada a oferecer senão retórica agarram-se à miragem.

jpt


Share

A desonra

O jornal Público ecoa a discussão que partiu deste meu postal. Cita-o e refere-me. Nisso, e presumo que sem malícia, comete uma incorrecção pois diz-me indignado. Não o estou, não só porque me repugna a actual ideologia (e concomitante praxis) do “indignismo”, algo que já referi no blog. Mas porque o caso não me indigna. Irrita-me, uma diferença que não é só de palavras. Irrita-me a pequena esperteza? Nem tanto, irrita-me a ignorância “lusófona” que nela habita.

Os leitores habituais deste ma-schamba poderão compreender o desconforto que sinto. Blogo há oito anos. O ma-schamba tem sido também a minha catarse, a catarse da minha indignação (agora sim) diante do governo traidor de Sócrates e daqueles que o apoiaram, mesmo que a todo o custo. E da minha indignação diante do impacto na sociedade portuguesa, tão apoiado e potenciado pela comunicação social, da perversa pantomina bloco de esquerda.

Obscuro cidadão fico abalado ao ler hoje no jornal o meu nome misturado com a gente e as iniciativas do Bloco de Esquerda. É um momento mau da minha vida. Uma verdadeira desonra.

Que eu poderia ter evitado. Teria bastado o silêncio.

jpt


Share

O incómodo

Razões pessoais têm-me afastado do blog. Hoje por email e sms avisam-me que o Expresso e o DN ecoam os meus postais sobre Jorge Braga de Macedo (explicitamente aqui, implicitamente aqui ) e o contador sitemeter acusa um inusitado número de visitantes. Sobre isto um esclarecimento e um lamento.

O texto sobre JBM insere-se num abordagem ao actual ressurgimento lisboeta da ideia “lusofonia”, da qual ele é paladino através do seu slogan “lusofonia global” e motriz através da sua aparente recuperação para pensar a política externa pelo actual governo. Entenda-se, a ideia não presta. Por mais que possa parecer sedutora a gente cultural e politicamente inepta. Ou seja, nada disto tem a ver com a recente colocação de JBM na EDP, a qual desconhecia quando escrevi aquele último postal, explícito.

E ainda o lamento. Os textos foram publicados e como qualquer outro deles sou responsável mas não proprietário. E como tal são ecoados por quem os queira ecoar. Acontece que chegam milhares de leitores via as ligações que Daniel Oliveira lhes fez, tanto no Expresso como no Arrastão. E isso incomoda, sinto-me como se estivesse com sarna. Não por razões ideológicas ou políticas. Mas porque esse bloguista é um canalha, um vil caluniador. Já em tempos aqui narrei da minha desilusão por não ter tido a coragem moral de lhe dar a sova que merece. O texto de Daniel Oliveira no Expresso é um monumento de hipocrisia, “É-me desconfortável falar da vida familiar de qualquer pessoa. Até porque odeio que falem da minha.” diz. O verme, que não me conhece, cruzou Maputo acusando-me de actos etica, deontologica e, acima de tudo, intelectualmente inaceitáveis, o de criar barreiras aos meus colegas portugueses que querem trabalhar em Moçambique – para alguns isso poderá parecer pouco, pois para mim é acusação inaceitável -, intentando apoucar-me e prejudicar-me no meu meio, onde vivo, onde trabalho, onde me socorro. E fê-lo, ainda que diga não gostar de falar de família, apenas por torpes razões familiares, pois reproduzindo a ingratidão, a desonestidade e a perfídia de um seu cunhado, também ele bloguista, também ele antropólogo. Também ele assim.

Confesso que prefiro o amor paternal, mesmo que induzindo actos algo criticáveis, de Jorge Braga de Macedo a esta vilania, a este canalha, cheio de patois moralista mas imbuído da mera solidariedade de parentela.

Entretanto há milhares a ler aquilo. E os bandoleiros que com ele vão. Pobre gente.

jpt


Share

Aquilo que não se consegue combater

Interessante a coluna de José António Lima no “Sol” desta semana: o que não se consegue é reduzir o mundo autárquico, as clientelas partidárias. Grande redução dos rendimentos das famílias, austeridade, venda das empresas públicas, críticas generalizadas às estratégias fiscais das grandes empresas. Mas no poder descentralizado, na III República, não se toca. Nem o austero governo, nem a indignada oposição. Está tudo dito.

jpt


Share

O texto de Nataniel Ngomane sobre a noção de “lusofonia”


O texto de Nataniel Ngomane sobre “lusofonia” publicado hoje na edição moçambicana do jornal “Sol”. Para justificada leitura. (Recordo que pressionando as imagens elas engrandecem, permitindo a leitura).

jpt


Share

Nepotismos idiotas

Imediatamente abaixo falei de “nepotismos idiotas”, referindo-me a uma execrável e indigente exposição, uma acção de propaganda disfarçada de “arte contemporânea” que aqui colheu o desagrado generalizado. Pela sua mediocridade e pelo seu conteúdo. Um trabalho, rasteiro, de Ana de Macedo.

Ora isto assim não vale nada. E já não tenho idade para meias palavras. O que se passa é que aquela “intervenção artística” foi apresentada em Maputo com o patrocínio do Instituto de Investigação Científica e Tropical. Aqui vivo há quinze anos, tenho acompanhado, primeiro profissionalmente e depois como amador, a vida cultural da cidade e nisso também as realizações chegadas de Portugal. Nunca esse Instituto havia patrocinado alguma intervenção artística. Até agora. Acontece que a autora do escolar trabalho, Ana de Macedo é filha de Jorge Braga de Macedo, presidente do referido IICT.

Acontece ainda que o ex-ministro ressurgiu na praça pública no último ano, primeiro como “coordenador” de um falhado projecto de “diplomacia económica” (os 4 grandes cérebros foram incapazes de conjugarem as extremas inteligências), depois como aventado presidente de um super-instituto público (qualquer coisa como o IAPMEI e o AICEP unificados, algo tramado para tramar Portas, acho), afinal, e pelo menos por enquanto, ressuscitado como comentador televisivo, dedicando-se a explicar o que fazer em termos de economia e finanças públicas. A explicar o presente e a aventar um futuro.

Em todos esses âmbitos convirá recordar – e não só pela gigantesca crise em que o país se deixou cair – que Jorge Braga de Macedo é um homem que nas suas funções públicas (estatais) faz favores à sua filha. Convirá lembrar isso para pesarmos bem o valor das suas palavras e a lisura dos seus procedimentos. E para nos lembrarmos de que o que o país precisa, também, é do fim dos nepotismos. Destes, idiotas. E também dos outros, mesmo que inteligentes.

Deselegante, este postal? Deselegante é gastar o dinheiro do Estado, mesmo que meros “amendoins”, a pagar coisas às nossas queridas filhas, umas viagenzitas, umas estadias, um curriculozito, umas realizaçõezitas.

E deselegante é tanbém as estações televisivas chamarem esta gente (e pagar-lhes) para discutir o presente e o futuro do país. Pois é destes que temos que nos livrar. Dos papás e das filhotas. E do resto da família alargada.

jpt


Share