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A "Europa" devastou Portugal

por jpt, em 17.04.14

 

 

Passeia-se por Portugal e tudo, mas mesmo tudo, foi "co-financiado pela União Europeia", os dísticos são omnipresentes. Não há dúvida, a "Europa" (ou seja os alemães mais os eurocratas) devastaram o país. Uns malandros.

 

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publicado às 18:09

A Queda do Império Romano

por jpt, em 17.04.14

 

 

"Depilação Completa" homem 30 euros (cerca de 1200 meticais). Práticas rituais em Portugal, algures a norte do rio Mondego.

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publicado às 18:05

 

 

Rio de Onor, homenagem merecida a um vulto que marcou aquela célebre comunidade raiana.

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publicado às 17:48

Curandeirismo

por jpt, em 17.04.14

 

 

Portugal, 2013, algures a norte do rio Mondego.

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publicado às 17:43

Portugal

por jpt, em 17.04.14

 

 

Proponho uma particular atenção  para os prémios destinados aos vencedores deste torneio de sueca (2013).

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publicado às 17:41

A Europa

por jpt, em 17.04.14

 

 

Estação ferroviária "Jean Monnet", perto de Mirandela.

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publicado às 17:40

O "bom" "povo" português

por jpt, em 17.04.14

 (Comício do Partido Socialista na "Fonte Luminosa" em Lisboa, Julho de 1975: o não-povo de Raquel Varela na rua)

 

Bloguista em pousio Paulo Pinto Magalhães divulga uma crítica de António Araújo ao livro da historiadora Raquel Varela, "História do Povo na Revolução Portuguesa, 1974-75". O texto está no blog do crítico (e em versão mais reduzida no jornal "Público"). Raquel Varela é uma estrela em ascensão no seio dos comunismos portugueses e também, porque por ora conjunturalmente útil, na social-democracia de esquerda. Conheci isso há alguns meses aquando de uma sua desaustinada participação num programa televisivo sobre o "empreendedorismo" (e aludi ao quão descabelada fica a sua imagem, comparando-a com a visão sobre essa matéria tida por um homem com a densidade intelectual e o percurso de cidadania como teve Mário Murteira). Então a truculência de Varela correu a internet portuguesa, colhendo apoios múltiplos, demonstrando que tudo o que se opõe ao actual governo é recolhido como um "must", como se mosto de futuro desejado, mesmo que afinal mero vinagre.

 

Convém ir ler a crítica agora feita. Dois pontos logo me saltaram à vista:

 

a) a forma como a autora delimita ideologicamente o que é o "povo" (um conceito moral, positivo, que na prática [não sei se no livro está explícito mas aposto que não estará] é apenas o velho classe-em-si vs classe-para-si), e como dele expele tudo o que não corresponde ao seu (dela) ideário político revolucionário. Lembrando-me um antigo postal que aqui meti

  

 

Trata-se de um excerto do "Cenas da Luta de Classes em Portugal" de Robert Kramer. A recordar o cerco à Assembleia (Constituinte, então), em 12 e 13 de Novembro de 1975, feito fundamentalmente pelos operários de construção civil. Como notei no postal de então o pequeno trecho de filme tem vários interesses, sendo um dos quais a expressão em viva-voz, nos manifestantes de rua, da delimitação ideológica (e pragmática) do que é o "povo", do que é a "entidade positiva". Como escrevi então (e é mais perceptível para quem tenha paciência para ver o pequeno trecho):

 

"Tem interesse, também pelos sotaques audíveis (que vão desaparecendo). Mas também pelos tons da época, o ódio de um dos locutores (veja-se a partir dos 3.53). Mas o mais interessante nestes pequenos 5 minutos é o facto de apresentar, em versão voz popular, o busílis das reclamações do poder por via das demonstrações de rua. "Isto é povo", é a palavra de ordem incessantemente repetida, a reclamação de que aquela parte é a totalidade (que se casava então com a reclamação da unicidade, coisa da história). O "povo", entidade básica do poder está ali, tudo isso lhe dá a legitimidade. Depois tudo se explica assim. Um manifestante mais radical diz (4.00) "Povo é isto ... Povo é os que trabalham ..." e ao seu lado um outro, talvez confuso, talvez menos doutrinado, complementa "Povo é toda a população portuguesa ..." para imediatamente ser interrompido pelo anterior (4.07) "Qual toda! A população reaccionária não é povo ...".

 

É exactamente, sem mudar uma vírgula, o que Varela, quarenta anos depois e na calma da skholè, pensa. Não pode deixar de surpreender o acolhimento que isto continua a ter, paradoxal mesmo face ao que as pessoas que a aplaudem, realmente pensam e ... praticam. Mesmo que de quando em vez partam para manifestações "indignadas".

 

b) Também espantosa (em discurso de historiadora) a forma como agrega os "retornados" a um não-povo (parte que apenas é referida no texto crítico no blog), "ressaibiado" e "cúmplice da Pide", como tal expulso previamente a qualquer análise, a uma componente positiva da sociedade portuguesa. Lembra-me outro postal antigo meu, feito a propósito de uma polémica sobre um livro brotado do racismo de esquerda português. 

 

Então também deixei algo de que me lembro agora ao ver os tratos de polé que a historiadora dedica à complexidade da sociedade colonial portuguesa. Cito um excerto porque o postal é longo (quem quiser aceder à totalidade bastará clicar):

 

"A construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então). O qual por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa ...

 

A primeira é topológica: sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do "bom colono" até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do "português" (ainda que esta concepção resvale transversalmente - e surpreendentemente? - na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos).  

 

[E] um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do "explorador dos pretos". Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, pela muda mágoa da derrota. Nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a "sociedade colona" e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados).

 

Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana. Trata-se de uma higienização, homogeneizadora e auto-mitificadora, que a apresenta como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo). Assim o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um "Outro" (pouco)interno, o colono. Esta aversão foi e é produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que desse modo simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.

 

Falar dessas memórias tem sido desde esse tempo  não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos "neste" ou "naquele" lado. Quase sempre encastrados na areia.

 

Os discursos sobre o passado colonial (...) levantam reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.

 

Mas para além dessa fractura "sistémica" entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse "luto colonial" como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona.

 

Por um lado através da afirmação da sua "sobreportugalidade", por parte das vozes mais saudosas da "gesta nacional", considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.

 

E, por outro lado, pela afirmação a da sua "importugalidade", a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias e exploradas) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. (...)

 

Essa excentricidade, esse verdadeiro "expatriamento" dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da "sobreportugalidade" da população colona não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da "bestialização" (...) é mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.

 

Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, pela sua sobreportugalidade ou pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas."

 

Não há, realmente, nada de novo sob este sol. Nem na academia "orgânica" ("indignista" hoje, comunista sempre). Nem na fúria "laicadora" dos "indignistas" de agora, tantos deles clientes sossegados do ontem, saudosos do amanhã.

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publicado às 10:38

(Sviatoslav) Richter, o grande russo, explica porque é que muitos (e bons) pianistas evitam Chopin como o vampiro a cruz e também porque outros, uns que se arriscam, são boa companhia nos elevadores ou nalguma esplanada.

 

 

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publicado às 08:36

Lucas Coelho e a CPLP

por jpt, em 13.04.14

 

 

Há dias meti um postal, bem intencionado, sobre a "interacção" cultural entre Moçambique e Portugal. Nele está ainda a ligação para agradáveis declarações de Mia Couto, saudando a boa qualidade da actual "cooperação" cultural entre os dois países. Distingo os termos pois no jargão "cooperação" remete para articulações sob quadros institucionais (estatais ou não-governamentais) algo diversos da "interacção" entre profissionais das áreas, neste caso culturais. A distinção pode ser ténue, porosa, mas quem acompanha o sector de actividade percebe, de imediato, o que se pretende apartar.

 

Há muitos anos que estou afastado dessa área, não tenho grande informação. Ouvindo o mais que respeitável Mia Couto surpreendi-me um pouco, ficando esperançado que esteja correcto. Descreio um pouco, por razões múltiplas. No topo das quais sempre coloco um problema ... cultural. Pois as características sociológicas da administração pública portuguesa são um grande obstáculo ao estabelecimento de políticas de cooperação, muito em particular nos sectores da acção cultural. Mas concedo, bastar-me-á aceder a um documento indexando projectos estruturantes (efectivamente) realizados em algumas áreas culturais para rever este meu cepticismo. E fá-lo-ei com grande prazer.

 

Dito isto. Foi sonoro o acontecido na semana passada em Lisboa, na entrega do prémio APE a Alexandra Lucas Coelho. A escritora fez um discurso abrasivo, no qual articulou literatura e política, e criticou duramente o presidente da república e o governo. Simpatizo com as gentes das artes e letras afrontando os poderes políticos e, mais ainda, os económicos. Gostei do acto. Certo que discordo de algumas coisas que a autora disse (um erro factual, aquele de que o PM actual mandou os professores emigrar, uma coisa que não aconteceu; uma interpretação muito reducionista sobre o "local" do salazarentismo na sociedade portuguesa; e uma visão muito ... sincrónica das maleitas da sociedade), mas nisso cada um interpreta como vê.

 

Como se tornou público, após o discurso da escritora ripostou o secretário de estado da cultura, algo a despropósito. Os adeptos do actual governo gostaram, mas é óbvio que gostaram mal. Um membro de um governo não se comporta assim, muito menos numa sessão protocolar. E se quer ripostar (erro) arranja um registo adequado. Mas enfim, cada um riposta como quer. E pode.

 

O enorme burburinho causado chamou-me a atenção para outra coisa. Pois nesses mesmos dias acontecia em Maputo a IX reunião de ministros da cultura da CPLP, acto que ocorre em cada dois anos. Na qual, com toda a certeza, as questões da "cooperação" cultural (e concomitantes efeitos indutores da "interacção") foram discutidos, planeados e, talvez, melhorados. Ao nível multilateral e nos âmbitos bilaterais. E presumo que, dada a ênfase linguística que esta cooperação vem tendo, terão sido discutidas questões ligadas à dinamização do "português" língua.

 

Acontece que o nosso governo não considerou importante a reunião e não esteve presente. E o responsável pelo sector, em vez de aqui se ter apresentado, foi-se para a cerimónia de um prémio literário (por mais estimável que este seja) arranjar um banzé daqueles, chamando sobre si a atenção. De todos e, como tal, dos seus congéneres reunidos em Maputo. 

 

É óbvio que há aqui qualquer coisa descalibrada. E, infelizmente, tudo isto só sublinha o meu cepticismo sobre as possibilidades da tal "cooperação". 

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publicado às 23:22

jpt, comunista

por jpt, em 13.04.14

 

 

Uma pequena história, pessoal, que só ontem ouvi, narrada por uma amiga que também a presenciou. Adorei-a, não resisto a partilhá-la.

 

Há pouco mais de um ano o então ainda candidato a presidente do Sporting, o nosso Bruno de Carvalho esteve em Maputo e realizou uma sessão de esclarecimento/mobilização, que culminou num jantar. Lá estive, como relatei aqui. O momento ocorreu num conhecido restaurante, grande para que coubesse a "moldura humana" esperada. A casa começara nos idos de 1990s, aberta por um patrício que vim a conhecer, e que a tornou célebre, pela boa gastronomia portuguesa e pelas fartas doses. Tornou-se uma instituição na cidade, algo barulhenta a mais para o meu gosto, mas recompensadora para a esfaimada clientela . Depois o fundador, adoentado, trespassou-a, e as gerências sucederam-se. 

 

Assim, aquando da visita do Bruno de Carvalho, há alguns anos que não ia lá. A sessão correu bem e sentámo-nos à mesa, os cento e tal sportinguistas, para o repasto que era também convívio e congregador. Eu ali ombreando com alguns amigos. Passado um demasiado bocado serviram-me um derivado de bovino recozido, intragável. Espantado, olhei em volta, inquiri a outros convivas se seria azar meu. Que não era, pois a tralha era igual para todos. Irritei-me. Sem exagero, já comi muita porcaria pelos recantos onde andei mas nunca apanhara nada similar. De mau-gosto gastronómico, de preguiça culinária. E de falta de respeito pelo momento e pelos participantes. Reclamei para o pequeno comité circundante, "isto é uma falta de respeito", por nós e pelo Sporting, "uma vergonha". Que me calasse eu, que o (novo) dono estava à mesa (mesmo ao lado do candidato, ainda por cima), esbracejaram-me. Isso ainda me irritou mais, deixei o dinheiro da conta ao amigo do lado e fui-me embora sem comer, frisando que aquilo era uma vergonha.

 

Conta-me agora a minha amiga: o então dono, vendo o conviva a ir-se embora, assim basto desagradado, rematou para quem o podia ouvir: "esse tipo? é um comunista! é um comunista! toda a cidade sabe disso! o que ele quer sei eu ...".

 

Uma delícia.

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publicado às 21:28

Sentido! (aliás, silêncio)

por jpt, em 11.04.14

 (Fanfarra da Armada, 1952, imagem da Revista da Armada)

 

(Em Portugal os militares que fizeram o 25 de Abril exigem a palavra nas comemorações parlamentares das quatro décadas de democracia. Têm, decerto, algum recado para a assembleia eleita. E querem-no dar no sítio dos eleitos).

 

Em 1926, do porquê cada um diz da sua justiça, e na continuidade de um hábito de "pronunciamentos" militares, mais uma vez a tropa se levantou, em Braga, contra o governo do momento. Vontade antiparlamentar e antidemocrática, diz-se, mas também decerto contra o caótico "estado das coisas" de então. Daí em diante, mas mais raro do que na I república, alguns oficiais tentavam "pronunciar-se" mas com insucesso. Durante 48 anos foi assim: primeiro a austeridade regeneradora, o Acto Colonial, Deus Pátria e Autoridade, e Fátima cada vez maior, os melhores das massas para África, alguns deles, dezenas, irreverentes, para morrer em Cabo Verde, a açorda e a bolota para o resto do povoléu. A "neutralidade" diante de Franco e outros, com distinções corporativas entre germanófilos (alguns até excursionistas à frente leste) e anglófilos (meio barrados nas futuras carreiras). Durante 48 anos foi assim, as hesitações diante do fim da guerra mundial, alguns em torno do capitão de áfrica Norton de Matos, algum apreço pelo generalíssimo Delgado. Mas sempre o apoio, estrutural, ao regime, militares e para-militares escorando a anacrónica ditadura. Embarcando e escoltando os tardios colonos aos milhares, arregimentando os mancebos do povo, a este colocando em sentido. Depois percorrendo as áfricas várias, com competência guerreira, verdadeira, em guerras estúpidas, injustas e injustificáveis.

 

Décadas passaram, a vez aos mais jovens, filhos da pequena-burguesia, entrados nas academias militares nos 50s e 60s, voluntários formados para manter aquilo. Mantendo aquilo, reforçando aquilo, ressuscitando aquilo. Um dia foram-lhes aos privilégios, de classe, de carreira. Estavam cansados, cansados, exaustos, de anos de guerra, repararam então. Movimentaram-se. Finalmente, décadas depois, encontrando, como é óbvio, um cadáver no lugar do regime, cadáver adiado pela sua radical cumplicidade. Que não era tal, mas apenas desconhecimento, vieram a dizer, reclamando-se enganados ao longo das vidas e da história, como se estupores fossem. Desestuporados um dia? no verão de 1973?, mas apenas quando a sua carreira se abriu aos "chicos", aos filhos do "povo".

 

Movimentaram-se as Forças Armadas. O "povo", meio adormecido, também naturalmente temeroso das repressões, aproveitou as fardas e armas e ombreou. Pelo fim daquela tralha. Festas, homenagens, e ei-los graduados em "gloriosos". Depois mais uma década de tutela, sobre esse povo e seus eleitos. Porque aos militares cumpre "pronunciarem-se" sobre os rumos desse povo, mancebos (e agora mancebas), reservistas e antigos combatentes. Perfilados ou a perfilar. E assim se apagou diante de todos a estrutural articulação com o Estado Novo. Pelo menos 30 anos de salazarentismo a mais. Mais aquilo do ultramar, pasto de glórias e feitos.

 

Pronunciaram-se há quarenta anos? Veio a democracia? Mais do que tudo, veio a paz (essa de que ninguém fala quando comemorando, pois tudo se coliga para apagar os nacos mais fedorentos da história)? Veio o fim do tolo "império"? Muito obrigado. De seguida, que lhes fazer? Regresso ao quartel. Um ou outro busto na freguesia de origem.

 

Mas querem ainda, agora, amanhã, falar, exigem pronunciar-se sobre o rumo do "povo", na assembleia do "povo"? Voltemos à "primeira forma": sentido (silêncio)! A gente não lhes recorda o garbo de cadete, a fidelidade de jovem oficial, as campanhas de África (que não eram estupores, eram oficiais formados), o respeitinho de caserna sobrevoando o pobre país. A gente esquece, di-los "oficiais de Abril". E concorda em esquecer que eram oficiais em Janeiro. Orgulhosos. A gente esquece tudo isso. E, em troca, eles calam-se. E o bonito mito continuará, para os cromos da pequenada (que já não existem), para os jogos electrónicos da pequenada, para os manuais da história do 7º ano da pequenada.

 

Insistem em falar? Então convirá dizer-lhes, e à pequenada. O regime eram eles, também eles. Os gloriosos (se é que há glória humana) eram outros. Os milicianos convocados para lhes obedecer (e substituir) na puta da guerra. A soldadesca arregimentada. Os tipos da geração dos meus irmãos que se baldaram para o estrangeiro, dando "glória" à palavra desertor. As nossas mães e avós (algumas também deles). O "povo" sem férias nem salário mínimo nem escola, nem divórcio (já agora), baldando-se para o estrangeiro sem ser em low cost e skype à mão de semear. Os tipos do Manuel da Fonseca e os do Nuno Bragança. O meu pai, a chorar de comoção, de liberdade, ao regressar a casa no 28 de Abril.

 

Desrespeito os militares? Nada disso. Muito os respeito, os do meu país democrático. Sem pronunciamentos. E também muito respeito os anteriores, homens de qualidades. Másculas, como se dizia antes, quando disso não havia vergonha. Respeito tanto que nunca os penso estupores. Por isso os sei assim: trabalharam para um regime que os desrecompensou. Cansaram-se e acabaram com ele. Agora? "Siga a Marinha", mas sem pronunciamentos.

 

É a minha exigência. Que eles se calem. Para que eu possa contar a "história da carochinha" à minha filha.

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publicado às 10:05

No feedly (8)

por jpt, em 10.04.14

 

 

"Experiência Antárctica", de José Xavier, cientista português descrevendo o seu "terreno": directamente para o rol de compras.

 

- As comemorações dos quarenta anos da democracia em Portugal: no 2 ou 3 coisas. Certíssimo.

 

- Especulação imobiliária? A gente fala de Maputo, mas veja-se a abjecta prática lisboeta (tutelada pelo simpático comentador televisivo António Costa), narrada no Estado Sentido.

 

- Há muitos anos coloquei aqui um texto de de António Jacinto Pascoal (que mo enviara) sobre o poeta cabo-verdiano João Vário, que eu desconhecia. Agora vejo um texto de hmbf sobre o autor. E ainda não li o poeta, algo a ultrapassar.

  

- O comportamento do secretário de estado da cultura português na entrega do prémio da APE foi mau, demasiado mau. Mude-se o governante.

 

- Para os sportinguistas: Pedro Correia está a fazer uma série sobre as apressadas críticas à actual presidência do clube que os "barões" do clube se aprestaram a fazer, logo após a sua eleição. Convém ir ler, recordar. Para quando eles vierem, de novo, reclamar o clube que arruinaram.

 

- Uma entrevista a Marc Augé, a que chego via Ler.

 

 

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publicado às 18:44

Um texto

por jpt, em 09.04.14

 

 

Há um bom par de anos (como comprova a fotografia, onde apareço numa mesa onde estavam alguns bons e respeitados amigos) participei num encontro aqui em Maputo. Não correu nada bem, terá sido a minha pior apresentação oral. Talvez devido ao texto, não devidamente preparado, não estaria eu bem seguro dele. Nem confortável no evento. E também por estar doente, então, apesar de nada hipocondríaco, suspeitando de coisa grave que afinal não existia. Enfim levou isso, a desilusão própria, a que o texto ficasse nas catacumbas dos computadores. Passado uns anos voltei, refiz, então sem limites físicos (de tempo de apresentação ou daqueles malditos "caracteres" da tecnocracia paperística que devasta a dita academia). Ficou um bocado autobiográfico. 

 

Passados mais uns anos, e porque me ando a divertir na rede Academia (um filão de bons textos), que é um sítio livre - entenda-se, sem "laiques" e sem "abstracts and key-words" (e antes os laiques da "superficialidade" facebuquista que estes servilismos da densidade "intelectual") - acabo de colocar esse texto na minha conta. É este "O deslustre da antropologia (em Moçambique)", e aqui fica a ligação para quem tenha paciência para o assunto.

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publicado às 20:26

O discurso

por jpt, em 08.04.14

Alexandra Lucas Coelho acaba de receber o prémio da Associação Portuguesa de Escritores para Romance e Novelas. Leio o seu pujante discurso da ocasião, multipartilhado no facebook. Multipartilhado e multicomentado/aplaudido, saudado. Como é óbvio não vejo as (por agora) centenas de partilhas e milhares de comentários mas numa diagonal no seu próprio mural noto algo, não surpreendente mas sintomático. O discurso contém uma belíssima abordagem à escrita (e à leitura) e ao que a escritora entende pelo conteúdo de um romance e o seu de romancista: "Sou mais do lado Moby Dick, até ao trespassar da última carne, a do caçador. Moby Dick agora sem género, ou transgénero. Moby Dick-Orlando, homem e mulher, humano e animal, deus e demónio." O aplauso geral sobrevoa isso, como se despiciendo - apesar de se tratar da aceitação de um prémio literário. E centra-se na subsequente veemente proclamação política da escritora. Não venho criticar isso (que, aliás, procede das próprias afirmações de Lucas Coelho, que liga escrita e política). O que me é significativo é contrastar isso com a ideia generalizada da "morte dos intelectuais", da desfunção social dos intelectuais-artistas (por excelência o romancista, qual demiurgo) nas sociedades actuais. O que o impacto imediato, fervilhante, deste discurso está a ter revela o contrário. Revela (pelo menos aparenta) que há vontade de vozes sedimentadas que reflictam e verbalizem, e não apenas o "tudologismo" quodiano, sublinhado a amarelo dos comentadores da imprensa (já agora, também algum dele premiado pelas excelências literárias).

 

Concordo eu com o que a escritora afirma? Sobre o que diz da literatura? Gosto. Sobre o que diz da situação política? Umas coisas sim, outras coisas não. O que é normal. Gosto, acima de tudo, que haja quem diga o que pensa. De forma articulada, como esta. E, acima de tudo, não sublinhada.

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publicado às 15:34

Sobre o Ruanda

por jpt, em 08.04.14

 

 

Sou amigo do Fernando Florêncio há vinte e cinco anos, desde o final da nossa licenciatura. Depois partilhámos algumas andanças. Se há defeito que tem é a qualidade da discrição. E tanto a noto agora, quando tantos efemeridam os vinte anos exactos da macro-desgraça do Ruanda. Pois neste mundo em que agora quase todos nos "montramos", até info-histriónicos, imagino-o a encolher os ombros, lá pela lusa Atenas. Não é pose, o homem é mesmo assim.

 

Mas ele que me desculpe, finto-lhe a maneira. Logo a seguir ao mais escatológico dos momentos da nossa vida o FF passou dois anos no meio do vulcão. Entre 1994 e 1996 esteve no Ruanda, mergulhado num trabalho duríssimo, e cheio de responsabilidades. Daqueles que magoam. Tanto que não há analogias ou imaginação que nos possam fazer compreender. Voltou de lá sem pinga daquele "olhem para mim aqui", aquele másculo oco de tantos tipos "de terreno" que a gente vai vendo por aí.

 

Não há, com toda a certeza, em Portugal (e em português) quem tenha podido abordar a situação com a sua densidade. Por isso mesmo deixo aqui ligação para um texto que publicou na revista Cadernos de Estudos Africanos, uma reflexão mesclando uma visão histórico-antropológica com a vasta e intensíssima experiência que ali teve: "Uma História de Violência Sobre as Brumas des Virunga. Morte e Poder no Ruanda". Vinte páginas para compreender aquela desgraça e seu contexto abrangente.

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publicado às 08:46


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