Lapso freudiano?
forças ocultas?
distracção?
conspiração?
oposição?
sentido de humor?
liberdade de expressão?
atentado ao estado de direito?
ou será apenas que o fulano das apresentações passou-se?
E quem inventou esta mirabulância de uma iniciativa energética para Portugal fosse rotulada com a sigla “re new able”? re, new, able?? “a inspirar Portugal”?
18 Março 2010 12:49 — por ma-schamba em Hugo Pratt
[Hugo Pratt, Mino Milani, Sandokan. Le Tigre de Malaisie, Casterman, 2009]
O Sandokan de Pratt foi-me uma bela surpresa pois desconhecia a sua existência. Lamentavelmente inacabado, pois obra abandonada e perdidos os originais no início da década 1970 quando parira Pratt a “Balada do Mar Salgado” e depois se metera a dar vida ao Corto pelos quatros cantos do seu mundo. Ficou assim interrompido este Sandokan, cujos traço e tom são evidentemente dessa época, gloriosa. Uma pena, pois quero acreditar que se apenas interrompida a obra teria sido terminada em tempos posteriores, tão adiantada se apresentava. Aliás, a história do desaparecimento das pranchas e sua posterior descoberta, já após à morte do autor, narrada na introdução do livro, parece excessivamente rocambolesca. De qualquer forma mostra o estatuto de “arte menor” que a BD teria ainda nesses tempos - 40 e tal pranchas de Pratt, então já um autor de renome, perdidas assim nos escombros de uma revista?
Este Sandokan é espantoso. Vigorosamente orientalizado, novidade então nas representações das célebres aventuras, sendo a obra anterior à série televisiva infanto-juvenil que viria a popularizar o herói sob o fenotipo de Kabir Bedi, mas a questão vai bem para além do mero aspecto. Em Pratt Sandokan, o supra-sumo do herói romântico aventureiro de Salgari, aparece como um consciente resistente anti-colonial – e não o era também Cranio, pacientemente sob as ordens do “Monge” aguardando a sua hora, e a do seu pan-povo, na “Balada do Mar Salgado”,
Extrema ainda a representação de Yanez, o português que Salgari postou junto a Sandokan, seu amigo dilecto – e não deixa de ser significante que em finais de XIX para Salgari o mais “transitável” dos europeus fosse um português. Aqui se Yanez aparece com os traços fisionómicos que em Pratt são os do seu Corto (e dele próprio), tem ainda a sua portugalidade extremada – onde foi ele representado como aqui?
Um livro que caminhava para fabuloso. E assim ficou.
É amanhã que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.
Para além de ter que andar às voltas para arranjar o delapidado telhado do meu repositório de caixotes de livros em Alcoentre City, fui arredado dos meus deveres cívicos maschambianos por um interessante episódio que creio que transmite algo profundo sobre esta curiosa cultura portuguesa que nos imerge.
Em algures perdido na internet, desde Dezembro que mantenho um “blogue”, primariamente sobre desporto moçambicano, que vou alimentando com o que tenho e mais umas esmolas fotográficas que mãos caridosas me vão enviando. Só que, mercê dos meus rodopios de globetrotter, as coisas que tenho estão algo caoticamente guardadas em caixotes um pouco por toda a parte.
Há poucos dias, ao levar um caixote para a arrecadação do prédio onde levo precária existência em Cascais City, dei com uma série de documentos que aproveitei para rever e seleccionar para colocar no tal de Delagoa Bay. Distraí-me com o tempo e acabei por ficar na tal arrecadação uns 40 minutos. E depois voltei para cima com uma pilha de papéis.
O apartamento de Cascais é um daqueles modernos, chiquérrimos, acabados de fazer e com todos os requintes de malvadez que se possam pensar, sistemas de alarme, de ventilação, videoporteiro, construção térmica da mais recente, antisísmica, elevadores, um bruto parque com piscina, court de ténis, clubhouse (em português diz-se … clubhouse) ligações de telefone, internet, televisão, fichas por todos os lados, tudo novo. A vizinhança é do mais in possível, e tirando os 30% que simplesmente não pagam as quotas do condomínio aparentemente porque não podem prescindir das férias de inverno na neve, é tudo do mais conceituado possível. Famílias brasonadas, novos ricos, carros do melhor. Até os seus cães são de raças catalogadas.
Voltando à história: depois de apanhar uns papéis e fotografias, subi para o meu apartamento. Eram cerca das 5 horas da tarde. Quando cheguei ao meu escritório, pousei os papéis e senti-me um pouco adoentado, de uma forma curiosa. Fiquei cansado, sonolento, com dores nos músculos e alguma dor de cabeça. Expedito, meti-me na cama e quase imediatamente adormeci.
Dormi 25 horas seguidas.
Enquanto estava na cama, a Patroa quase que entrou em pânico, pois alguém dormir de repente 25 horas seguidas sem comer e completamente fora da norma era preocupante, especialmente dado que eu dissera que me sentira mal.
Quando acordei, no dia seguinte às seis horas da tarde (dantes, após me tentarem acordar duas vezes, tinha ameaçado de morte quem me acordasse mais uma vez), tentei rever o que se tinha passado. A minha suspeita foi que algo acontecera quando eu estivera na arrecadação que fica na cave. A Patroa telefonou a uma coisa chamada Protecção Civil e aos Bombeiros de Cascais, para virem ver o que se passava.
Também me queria levar a um hospital para ser observado, o que recusei: estava vivo e não estava para estar sete horas sentado numa sala para aparecer um daqueles médicos estafados eslovaco-ucranianos dizer impacientemente que fosse para outro hospital, onde depois de mais sete horas me mandariam para casa tomar três comprimidos de não sei o quê que levaria mais uma hora de caça a uma farmácia aberta.
Gosto da ideia de que, já que tenho que morrer, ao menos que o faça em paz e nos meus termos.
Mas o que acontecera? Afinal, a cave do meu hipermoderno, chiquérrimo prédio, onde fica a arrecadação, tem extintores, sistemas de detecção de fogos, de detecção da presença excessiva de monóxido de carbono e sistemas automáticos de ventilação.
Só que, descobri depois, há mais que cinco anos que está tudo desligado.
Pura e simplesmente.
E ninguém sabe o que se passa e ninguém é responsável.
Os senhores da Protecção Civil, mediante um aparelhómetro que traziam com eles, fizeram uma medição dos níveis de monóxido de carbono presente na cave onde eu estivera, que indicou a presença desse gás tóxico várias vezes acima do nível considerado perigoso.
Enquanto lá estavam, e antes de sair tudo a correr dali, inspeccionaram a cave do prédio e detectaram uma relativamente longa lista de infracções, qualquer delas susceptível de resultar em perigo, dano ou morte.
E aqui entra em acção o portuguese national-porreirismo.
O que é que fizeram estes senhores?
Rigorosamente, nada.
Disseram qualquer coisa como “olhe, sabe, a lei regula estas coisas todas e prescreve pesadas multas para estas infracções e de facto o senhor podia ter morrido aqui em baixo, mas por outro lado estas situações são comuns por todo o país e além disso não fazendo nada dá tempo ao seu condomínio de activar os sistemas e fazer com que sejam tomadas medidas correctivas por parte dos condóminos. E assim não pagam multas e resolve-se tudo na mesma, amigavelmente”.
Ou seja, não faziam nada e isso era na realidade fazer-me um favor.
E foram-se embora.
Ora, como é mais ou menos comum , e é de lei, o prédio tem um condomínio constituído. Como somos todos muito ricos e todos muito ocupados, ninguém quer tomar conta dos seus assuntos e por essa razão pagamos uma pequena fortuna para alguém de fora administrar os assuntos, o que basicamente se tem cingido a cobrar as quotas e tentar (infrutiferamente) cobrar as ditas aos tais 30 por cento de condóminos que nunca pagam nada. O que não é problema pois como somos todos ricos, subimos o valor das quotas e assim cobrimos os custos do prédio, pagando no processo os tais 30% dos que não pagam, mais uma senhora advogada para administrar o prédio (em resumo, para ir atrás deles) mais (este ano) 700 euros para calmamente ir empurrando as sucessivas e aparentemente falhadas acções de pagamento pelos tortuosos corredores dos tribunais aqui do burgo.
Anda-se nisto há anos.
Preocupada com a eminência gorada de uma viuvez e algo escandalizada, a Patroa mandou um e-mail à tal senhora doutora administradora do condomínio a dar conta do sucedido e a urgir a tomada de medidas imediatas para acautelar contra o que se estava a passar na cave.
E o que fez a senhora administradora?
Nada.
Nem se dignou responder a dizer qualquer coisa como “olhe,veja lá, li a mensagem, que chatice”, ou sequer tentar a cortesia de fingir que está preocupada, não tanto comigo, mas com o bem-estar e segurança de quem lhe paga umas massas precisamente para tratar destes assuntos.
Para a maior parte dos meus ilustres, ricos e ocupados vizinhos, neste momento o assunto nem sequer existe. E como as minhas relações com eles são as mais normais e correctas possíveis entre quaisquer vizinhos em Portugal – com uma excepção, metade não sei quem são e quanto à outra metade conheço-lhes todos os defeitos e nenhuma qualidade – o assunto fica no ar.
E o fantástico é que, em resumo, apesar do que aconteceu e do perigo que já se sabe estar ali em baixo, e de ter sido dado conhecimento aos directamente envolvidos e responsáveis, nada se fez, ninguém é responsável, e no fim eu vou ainda ser visto como o vizinho que veio da África e que anda a chatear os outros por causa destas coisas.
Afinal, quem me mandou estar na cave do meu prédio num fim de tarde?
Noutro sítio onde já vivi, um país anglo-saxónico imenso e com um oceano de cada lado cujo nome não vem para o caso, o Sr. da Protecção Civil local interditaria as caves imediatamente, fazia um aviso formal ao condomínio a dar conta do que tinha constatado e avisava que a cave ficaria fechada até se proceder à tomada de medidas para proteger as pessoas. E dava um prazo para se estar em conformidade.
Na bela e civilizadérrima Cascais, nada aconteceu e creio que vou ter que mandar outra mensagem à senhora doutora administradora a dizer qualquer coisa como “olhe, sôtora, desculpe lá qualquer coisa, e já agora, e se não se importa, mas a sra por acaso reparou num imeilezinho….?”.
Alternativamente, sempre posso ir à minha arrecadação com um escafandro de mergulhador.
[João Bénard da Costa, Nós, os Vencidos do Catolicismo, Edições Tenacitas, 2003]
Edição em livro de um texto publicado no jornal Independente em 1997. Em registo de memórias pessoais fica o percurso de uma franja da burguesia lisboeta católica oposicionista ao Estado Novo, um núcleo que veio a ser conhecido como “católicos progressistas” (apesar do seu desgosto pelo termo), e do seu progressivo afastamento face à hierarquia católica, primeiro, e ao próprio catolicismo, depois. Um retrato de época muito interessante – e não só por aqui se encontrar traçada a juventude de inúmeras personagens que vieram a ser relevantes nas décadas seguintes na sociedade portuguesa. Também nisso denotando a influência que a igreja católica tinha à altura no país e na formação das suas elites.
Deixo três excertos. O primeiro, referente à juventude do autor, que poderá ser extrapolado (e que, porventura, ele-próprio terá extrapolado ao longo da vida) como visão do mundo bem para além do “cristianismo” a que se refere directamente, e que assim aborda a rábula do “lado correcto”, do raciocínio bipolar ainda hoje tão recorrente em Portugal; o segundo, que resume o incómodo sofrido por Bénard da Costa (e seu grupo?), teórico-teológico; e um terceiro que não escolho por qualquer anacrónica comicidade mas porque deixará entrever da justeza e pertinência de tantas das posições da igreja católica apostólica romana face à sociedade contemporânea:
“… cedo, demasiado cedo na vida, aprendi que as ameaças ao cristianismo não vinham de um só lado, mas de dois. Só aparentemente opostos.” (21)
“O Concílio – pensava eu nesse tempo – ao introduzir … a noção essencial de Igreja como Povo de Deus (completando o tradicional conceito de Corpo Místico) vinha dizer a cada cristão que cada um de nós era Igreja … contruída com pedras vivas, numa comunidade de pessoas em que Cristo era o factor unitário, o valor vital fundamental, a norma viva e o único princípio de autoridade. Esse factor, esse valor, essa norma, esse princípio, deixavam de residir na Hierarquia ou no Clero e passavam a estar em cada um de nós. Daí que eu alargasse muito o conceito, então em voga, de “fim do constantinismo”. Em vez de ver nele, apenas, o fim da identificação da religião com o Estado ou o fim da identificação do cristianismo com uma civilização, eu via também na expressão o fim da identificação da fé individual com a fé na Igreja, o fim de uma visão dela como superestruturaa, que envolvesse, protegesse e sustentasse cada um dos seus membros. Secularmente, a Igreja abrigara-se sob a protecção do Estado para se defender. Secularmente, também, o cristão abrigara-se sob a protecção da Igreja com idêntico intuito. Chegara a altura de abandonar ambos os abrigos …” (88-89)
“Foi o caso da pastoral sobre a Modéstia Cristã, que deu origem a um dos episódios que mais recordo desses tempos. No verão de 56, os bispos resolveram dissertar sobre a dita modéstia, julgando chegada a altura de se unirem aos cabo de mar para acabarem, nas praias, com homens de tronco nu e mulheres de fatos de banho de duas peças (ainda não se falava de biquinis). Evidentemente, o assunto era ingrato … Se já ninguém tinha muita pachorra para enfiar uma camisola interior quando o cabo se aproximava, menos ainda se considerava que o assunto devesse merecer a atenção do venerando episcopado.” (31)
Está disponível a última edição Gazeta do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade Eduardo Mondlane. Para além das informações contidas realce para uma interessante entrevista com Ana Loforte dedicada ao percurso da Antropologia no Moçambique independente.
17 Março 2010 12:01 — por ma-schamba em Cosey, jpt
Desde o início da minha puberdade, com o icónico Jonathan na Tintin semanal, que Cosey me acompanha – uma companhia ao ritmo das suas narrativas, lentas, pausadas, vivendo no espaço longo. Talvez por isso só agora compro e leio este Orchidea (Witloof, 2003 [1999]). Para ser surpreendido nisto de mais de três décadas depois Cosey continuar a tocar no que mais fundo me passa na vida, anseios, sonhos e medos. Assim mesmo. Isto exactamente no momento – juntos, a mão no ombro. Coincidência? Ou o coseyiano destino?
A propósito de uma reunião em prol do desenvolvimento Bono está nestes dias em Maputo. O muito oficioso jornal “Notícias” assim noticia o encontro do Presidente Guebuza com o milionário Mo Ibrahim (aqui celebrizado pelo prémio atribuído há anos ao ex-Presidente Joaquim Chissano) e o cantor dos U2, celebérrimo activista de causas desenvolvimentistas. Vai uma gargalhada por Maputo, tudo a rir da “ignorância” dos jornalistas que esquecem a super-estrela aqui deslocada, apagada do título e reduzida na pequena legenda a mero “acompanhante”.
Enganam-se. Não há qualquer ignorância. Há sim uma cosmologia a funcionar, uma explícita hierarquia. Está, literalmente, na cara. E não tem, rigorosamente, piada nenhuma.
AO, leitor veterano e silencioso do ma-schamba, enviou-me ligação para os dois primeiros números da revista Tempo (Setembro de 1970), inteiramente digitalizados. Aqui ficam as respectivas capas (com o particular interesse do segundo número ser encabeçado por Mário Barradas, então figura central do teatro local) e as ligações para quem queira ler (e ver) as revistas – uma preciosidade.
O mesmo Grão-Comentador do ma-schamba, Umbhalane, conhecedor da minha adesão ideológica ao mundo barbeiro e do meu apreço por barbearias populares, enviou-me excelentes fotografias que encontrou no blog Beijo-de-Mulata. As excepcionais características dessas imagens, publicadas na entrada “nomes que dizem tudo”, tornam obrigatória a sua reprodução. Aqui está uma barbearia num bairro de Nampula.
Nesta entrada falou-se de um monumento aos combatentes da I Guerra Mundial, sito na Ilha de Moçambique. O qual eu não recordei de imediato. Umbhalane, aqui comentador residente, aprestou-se então a enviar-me fotografias do referido monumento, ainda hoje colocado no jardim fronteiro à actual pousada. Bem como fotografia do padrão na ponta da ilha, pastiche mandado colocar por Sarmento Rodrigues no final do período colonial e eloquentemente retratado na referida exposição de Leitão Marques. Aqui ficam as fotografias e os agradecimentos ao emérito comentador cá de casa.
Bento XVI, topo da hierarquia da igreja católica apostólica romana e chefe de estado do Vaticano, desloca-se a Portugal este ano, também no intuito de ir em peregrinação a Fátima, local onde os crentes daquela congregação religiosa (e não só) acreditam terem acontecido aparições milagrosas. Do meu incómodo face a esta visita ao local dessa superstição politicamente induzida em pleno ano de comemoração do centenário da regime republicano português já aqui o explicitei. Sem radicalismos a República deveria ter intentado transferir a visita para o ano subsequente. O simbolismo pode não ser tudo … mas é quase tudo.
A propósito desta visita encontro um grupo no facebook: Nós, laicos, não queremos pagar a visita de Ratzinger a Portugal. Por lá gente (minha) conhecida, alguns até vivendo sob galões académicos muito justamente alcançados (e que, presumem e intentam significar, habilidades de reflexão). E por lá estão na habitual patusquice, mais ou menos truculenta. Começam por chamar Ratzinger a Bento XVI, uma torpe e ignara tentativa de desvalorização – que um antropólogo (ou historiador, ou sociólogo ou qualquer aparentado profissional) refute a realidade da mudança de nome individual aquando de uma particular mudança de estatuto deveria implicar um despedimento com justa causa. E não estou, por mais antipático que possa parecer, a ironizar. Mais, as bactérias ideológicas transbordam em feias borbulhas: nenhum desses patuscos chama Ulianov ao velho Lenine, ou refuta similares processos de auto-denominação ao panteão dos seus heróis (ainda que alguns matizados no célebre “apesar de …”). A denominação do grupo intenta ainda, num contexto de crise económica, deixar o subentendido que a visita será paga pelo erário público português – lá está a patusquice mentirosa, a manchar o CV público da rapaziada libertária. Finalmente, a verdadeira angústia e/ou repúdio é que Bento XVI vá a Portugal e opine sobre questões internas, as para eles verdadeiramente importantes, as “fracturantes” – avaliação que denota bem o “véu ideológico” que lhes cobre e colhe o pensar.
O que estes patuscos querem esquecer é que o estado português terá despesas com esta visita como o tem com incontáveis visitas de chefes de estado a Portugal. E que estes lá chegam, quase sempre, para opinar e negociar sobre causas fracturantes (ou coaligantes) na sociedade portuguesa. Económicas, financeiras, políticas, sociais. Mas a isto dizem nada, pois nesses casos lhes falta o folclorismo que lhes anima o clicanço e, até por vezes, o teclanço. O que estes patuscos querem esquecer (pelos menos os académicos, vulgo intelectuais) é que todos os meses recebem salário em troca do seu pensamento. E que as invectivas de “conservadorismo” ou “reaccionarismo” sempre dedicadas a quem não encontra nenhuma piada nas suas constantes e exasperadas tentativas de torna-juventude só a eles fazem justiça. Pois vivem de pobres ideias-feitas. Apanhadas na “rave” em que julgam estar, entre “shots” de slogans.
E nestas palhaçadas o peso, estruturante ainda que sempre actualizável, da igreja católica apostólica romana na sociedade portuguesa vai-se mantendo. Muito para além do saracoteante engraçadismo dos “intelectuais” d’hoje.
Nota: a propósito de Alba Leonel Auxiliar chama a atenção para este local que lhe é dedicado, com textos de Teresa Lima, José Craveirinha, Machado da Graça, Glória de Sant’Anna e do próprio poeta.
Adenda: não tem nada a ver mas no mesmo blog uma bela nota a propósito da paternidade – “Diálogos Sobre Estética”.
Ao considerar eleitos autárquicos meros “boys” a quem não se deve dar “money”, e ao reduzir esta esclarecedora ”boca” a um fait-divers, o ministro Teixeira dos Santos não está apenas a demonstrar o – bem sabido – desprezo dos “socialistas” portugueses pela democracia e sua (deles) particular concepção de vida política. Está, acima de tudo, a denotar a sua imensa exaustão, “mãe de todas as gaffes”. Sairá no Verão boreal, está visto.
[Guillermo Fariñas, jornalista cubano em greve de fome]
Ao comparar presos políticos cubanos com bandidos o presidente brasileiro Lula não está a fazer “política real”, benfazeja aos interesses do Brasil. Está, pura e simplesmente, a mostrar a sua matriz intelectual – adversa às liberdades individuais e colectivas. O velho-marxismo totalitário. Assassino. Do racismo de Lula já se sabia, disto também, nada surpreende. O que também não surpreende é a simpatia que a personagem – e todo este repelente pacote de ideias – colhe junto desses europeus travestidos no pop-guevarismo, maquilhado em guantanamices falsas como Judas.
14 Março 2010 11:53 — por ma-schamba em Arquivo, Soltas
(por AL aérea) -
Gosto de ouvir rádio de manhã, enquanto me estou a arranjar na casa de banho. Tenho um velho rádio-despertador roufenho, empurrado para a reforma pelo telemóvel, mas que para o propósito funciona muito bem. Está sintonizado para a Antena 1, não por qualquer opção especial mas sim porque emperrou naquela estacão. Entretanto habituei-me a ouvir em pano de fundo os programas com intervenção popular.
Raramente retenho o que se vai passando. Além de meio ensonada, vou pensando no dia que começa e nas prioridades que vou estabelecendo ou revendo. De tal forma absorta que nem me irrito muito com as musiquinhas que passam. Se acordo bem disposta vou sorrindo com as inanidades que vou ouvindo; comovo-me com algumas intervenções; desculpo os disparates. Se acordo rabugenta não os ouço, escuto mas não ouço. Portanto, ouvir o meu rádio roufenho de manhã na casa de banho, é só lucro!
Muito raramente algo capta a minha atenção. Hoje, não sei bem a que horas, depois de andar a flanar pela casa numa preguiça sem hora enquanto bebia pausadamente a minha litrada de café, ouvi algo que me chamou a atenção. Trata-se da primeira tradução directa do latim para português (se bem entendi, pois só comecei a ouvir mais ou menos a meio) da primeira obra de Galileo Galilei. Sai esta semana que amanhã começa.
Tendo perdido metade da notícia, googlei e fiquei a saber que se vai chamar O Mensageiro das Estrelas e encerra o Ano Internacional da Astronomia, que esteve a cargo de Portugal, que comemorou os 500 anos das primeiras observações celestes feitas com um telescópio, precisamente por Galileu. É provavelmente notícia serôdia, mas para mim foi novidade e, sendo eu uma astrónoma diletante, apeteceu-me assinalar aqui esta publicação.
Quem ouviu já falar de Irena Sendler? Confesso que eu desconhecia totalmente até um leitor amigo da maschamba me alertar para esta mulher notável, símbolo de coragem e de decência humana em pleno Holocausto. Irena Sendler foi uma polaca nascida em 1910 numa pequena cidade perto de Varsóvia, filha de um médico, cujos clientes eram principalmente judeus pobres. Quando a Alemanha nazi invadiu a Polónia em 1939, Irena trabalhava nos Serviços de Segurança Social de Varsóvia, responsável pelas cantinas e distribuição alimentar e de outros serviços a idosos, órfãos, pobres e destituídos. A estes serviços, Irena adicionou a distribuição de roupa, dinheiro e remédios a judeus que ela registava sob nomes cristãos fictícios, numa tentativa de evitar que fossem denunciados às autoridades nazis. Para evitar inspecções, Irena assinalava estas famílias como sofrendo de doenças altamente infecciosas.
Em 1942 os nazis confinaram milhares de judeus a uma área restrita de Varsóvia, devidamente murada e vedada, que ficou conhecida como o Gueto de Varsóvia. As condições em que estas famílias judias viviam eram de tal forma chocantes, que levaram Irena a juntar-se à organização clandestina polaca que prestava auxílio aos judeus. A partir deste momento dedicou a sua vida a salvar crianças judias dos maus tratos e da morte certa que as aguardava. Munida de um passe do Departamento de Controle de Epidemias, Irena visitava o gueto diariamente, com fornecimentos clandestinos de roupas, remédios e dinheiro. No gueto morriam cerca de 5.000 pessoas por mês de fome e de doença e Irena decidiu retirar de lá tantas crianças quantas lhe fosse possível retirar. Para isso, Irena tinha primeiro que convencer os pais a separarem-se dos seus filhos e depois encontrar famílias/instituições cristãs dispostas a arriscarem as suas vidas para aceitarem estas crianças clandestinas.
Irena conseguiu angariar apoiantes chave para a sua causa, capazes de forjarem documentos e assinaturas. Conseguiu assim retirar 2.500 crianças, escondidas na ambulância que ela usava para entrar no gueto – dentro de sacos de batatas, dentro de caixas de ferramentas, dentro de caixões. De forma a preservar a identidade destas crianças agora sob falsos documentos e identidades, Irena anotava cuidadosamente, sob um número de código, a origem de cada uma delas e guardava estes registos em boiões que enterrava no jardim de um vizinho. Foi assim que estas 2.500 crianças conseguiram, depois da guerra, traçar as suas origens.
Em Outubro de 1943 Irena foi descoberta e presa pelos nazis. Durante a tortura pela Gestapo partiram-lhe as pernas e os braços, o que a tornou deficiente para o resto da vida, mas Irena não revelou onde se encontravam as crianças, nem os nomes de quem a tinha ajudado. Foi condenada à morte, mas um agente da Gestapo, subornado pela resistência polaca, permitiu-lhe a fuga da prisão. Irena passou o resto da guerra em fuga e na clandestinidade.
Depois da guerra, Irena desenterrou os boiões com os registos das crianças que tinha salvo e tentou reuni-los com o que das suas famílias restava; a maioria tinha perdido toda a família durante o Holocausto. Até à sua morte em Maio de 2008 Irena Sendler levou uma vida modesta no seu apartamento de Varsóvia, apesar dos inúmeros prémios e medalhas que lhe foram atribuídas pelo seu valor e coragem. Em 2000 um professor e quatro alunas de uma pequena escola no Kansas, escreveram uma peça inspirada na sua vida – Life in a Jar, que veio a ganhar um prémio nacional. Em 2007 foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, que veio a perder em favor de Al Gore.
Exemplos (quase) anónimos de coragem e dignidade nesta época existem muitos, incluindo portugueses – Aristides de Sousa Mendes. Hoje falámos de Irena Sendler.
13 Março 2010 12:43 — por ma-schamba em AL, Diatribes
(por AL em plena frustração e armada em queixinhas) –
Por muito que viva e por muita experiência que vá acumulando, não deixo de me surpreender com a mentalidade retorcida que continua a prevalecer neste país. Isto vem a propósito desta nova fase da minha vida, que tento refazer aqui em Lisboa e, sabem que mais?, quanto mais tempo aqui passo, menos gosto de cá estar. Eu tento, mas desconsigo!
Estou aqui por um acto de vontade e não de devoção. Nada há em Portugal que eu goste verdadeiramente; nunca tive saudades enquanto lá fora. Nunca vim de bom grado e sempre saí com alegria. Mas depois de 15 anos perdida pelo mundo, sabe-me bem estar perto da família.
Claro que preferia ter a família em qualquer outro país – já nem sou esquisita, qualquer outro país servia (neste momento até a Albânia me parece invejável) – mas as filhas decidiram assentar arraiais em Portugal e é cá que tenho os netos.
Desenvolvi mecanismos de defesa. Evito o mais possível sair à rua; tenho TV cabo que me dá acesso ao que se passa nos centros onde se faz diferença; estou ligada ao mundo pela internet; uso o telefone para contactos frequentes. Tento manter a interacção geográfica e cultural com Portugal ao mínimo indispensável. Vou assim criando a ilusão de que estou algures que não onde estou; afinal somos livres de acreditar nas ilusões que escolhemos, verdade?
Mas há que ganhar para pagar estas pequenas mordomias, que me permitem manter a ilusão e ainda fazer umas viagens. Não tendo grandes oportunidades no meu métier normal e que regularmente tenho exercido ao longo da minha vida, virei-me novamente para as traduções. Gosto de fazer traduções; não de romances e textos anódinos, mas sim de livros técnicos, relatórios profissionais e quejandos. Tenho aprendido imenso a fazer traduções.
Recentemente, um contacto numa editora (digo-o com embaraço, sim; nepotismo…) tem-me dado para traduzir livros sobre grandes pensadores em economia e outras questões técnicas, o que me tem dado bastante gozo, para além de algum rendimento que me vai proporcionando. Gosto da actividade. Exercita-me a mente, leio livros interessantes, sou dona do meu tempo e permite-me ficar dentro de portas.
Deparo-me então com a mentalidade corporativa que não consigo entender. Este ano vou já no meu terceiro livro, ainda não me pagaram um cêntimo que fosse, cada vez que submeto uma factura “houve lamentavelmente um engano do nosso lado” e o valor nunca corresponde ao acordado previamente. E não estou a falar de peanuts; só nesta última factura estou a referir-me a mais de 2,000 euros a MENOS!
Aproveitam também, já agora, para acrescentar mais alguma condição pouco favorável para mim, como por exemplo, pagamento a 30 dias depois da publicação do livro, processo sobre o qual não tenho qualquer poder. E senão publicam?, pergunto eu. Isso nunca aconteceu, dizem eles. Sim, mas e se acontecer?, insisto eu. Propõem um contrato (neste processo que se arrasta desde Janeiro) com valores avançados por eles; eu aceito valores e revejo condições; faço algumas anotações para clarificações, por exemplo, quem paga o IVA; que se inclua a data da publicação e que se expresse que será essa a data para pagamento, quer o livro seja ou não publicado, etc. Num pais sem justiça, parece-me ajuizado que os contratos sejam o mais claros possível. Desde Janeiro que o contrato lá está, para ser corrigido e finalmente assinado.
Entretanto, “vá fazendo a tradução, que há alguma pressa“. Fiz, confiante nos valores avançados por email escrito e assinado. Afinal ainda existem valores como a honra e a palavra, ou não? Acabada a tradução, envio esta com a respectiva factura para duas semanas depois vir a saber, também por email assinado, que os valores expressos no contrato que, entretanto, continua por assinar “foram um lapsoda administrativa. Junto anexamos contrato com valores corrigidos”. Os valores vinham de facto corrigidos (para menos 2,000 euros), mas as minhas condições contratuais continuam esquecidas!
Com o texto traduzido já lá do outro lado o meu poder negocial, que já não é muito grande de início, fica reduzido a nada. Tenho falado com amigos com actividade semelhante e o panorama parece ser o mesmo e recorrente, não só no plano editorial, pelo que me contam, mas extensivo a todas as actividades que funcionem por tarefa e/ou recibo verde. E então, sem alternativas (fazer o quê? Ir a tribunal? Queixar a quem? E depois? Ficamos sem trabalho?) cerramos os dentes, engolimos a amargura da impotência e apertamos a mão ao diabo!
Em toda a minha vida profissional trabalhei somente para um patrão português. Foi no início da minha carreira e jurei para nunca mais. E assim tem sido até agora! Mais de vinte anos depois pensei que a mentalidade empresarial teria mudado; que as empresas portuguesas teriam percebido entretanto que um negócio bom não é aquele em que se engana (ou explora) o parceiro, mas sim aquele que é feito com transparência e com benefícios para ambas as partes. Que uma relação profissional se pauta pelo respeito mútuo; que um contrato se honra. Enganei-me redondamente!
Razão tinha eu já aos 4 anos de idade. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando fosse grande, invariavelmente eu respondia: Estrangeira!
Um aparte: não tem nada a ver com nada, mas ando para dizer isto há imenso tempo e sistematicamente esqueço-me. O meu estado de espírito, que costumo por entre parêntesis no início dos meus posts foram ideia roubada ao ABM. Noto agora que sou a única a fazê-lo; mas a ele se deve o crédito da ideia…
Segundo o chefe dos comunistas portugueses, citado pela SIC Notícias.
Aparte do bravado político, como não estou dentro dos meandros do novo e implementado Acordo Pornográfico para a Língua Portuguesa, fiquei na dúvida de o que é que realmente aqui se está a querer escrever:
Ruptura?
Rutura?
Rotura?
Ou será que a menina das legendas baldou-se (como infelizmente me acontece aqui) e ficou como está em cima?
Na altura da visita de José Sócrates a Maputo para firmar as relações com Moçambique e assinar uma resma de acordos, e de uma emissão especial ao vivo a partir de Maputo para o mundo via as cadeias da RTP (neste caso, visto no canal principal da RTP em Portugal continental), o actual vice-ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Henrique Banze, concedeu uma rara entrevista. Bem disposto, à vontade, sublimemente eloquente, o senhor vice-ministro mandou uma dose industrial de simpatia bem moçambicana, sem por um momento omitir o que de sério havia para dizer nesta ocasião. Em bom português, deu um baile.
Ao contrário do entrevistador, que bem se esforçou, mas que me pareceu um erro de casting.
A emissão foi feita a partir da velha estação de Caminhos de Ferro de Maputo, que este ano faz cem anos.
Samora Machel numa conferência. À sua direita, Joaquim Chissano, então MNE
Por ABM (11 de Março de 2010)
Pelas lacunas, este é apenas um esboço biográfico, resultante de umas breves notas que tomei a semana passada.
Sidónio Pais e Samora Machel nunca se conheceram, obviamente. Sidónio Pais faleceu em meados de Dezembro de 1918, assassinado em Lisboa por um tal Júlio Costa, que consta ser bisavô do actual político do PS português, António Costa, enquanto que Machel nasceu em Gaza em Setembro de 1933.
Mas há uma relação curiosa, se indirecta.
Sidónio Pais, que foi presidente de Portugal por pouco menos que oito meses em mais uma das emergências em que este país parece ser pródigo, é uma das figuras mais fascinantes da primeira parte do século XX português. Dos seus esboços biográficos sobressai uma figura absolutamente singular, intelectualmente em quase total desproporção com os que andavam pelos corredores do poder português na altura (e hoje) e com um percurso que deixa adivinhar uma mente particularmente superior e uma postura moral ímpar num Portugal em quase perpétua ebulição. Os paralelos com o que Samora tentou fazer em Moçambique numa parte do seu percurso, e a sua postura de um comportamento ético (em versão de ditadura comunista, naturalmente) são muito curiosos.
De certa forma, e à sua maneira, Sidónio tentou fazer o mesmo, e com o mesmo sucesso – alguém matou-o. Claramente, causou uma grande impressão na altura. Fernando Pessoa, que não é tido como um lírico nestas coisas da política, refere-se a ele em termos quase místicos, num conhecido poema.
O percurso de Sidónio Pais é o de algum conforto material num Portugal quase medieval no fim do século XIX e o seu génio (e beleza física, que terá usado liberalmente como um reputado – dir-se-ia hoje – womanizer, sempre impecavelmente vestido) contrasta perigosamente com várias incidências de loucura na sua família (nada menos que um tio e dois irmãos enlouqueceram). Em paralelo, fez carreira militar e académica, sendo em 1910 professor catedrático na Universidade de Coimbra, em matemática, e major do exército. Com algumas credenciais republicanas, uma adesão tardia a uma casa da maçonaria em Coimbra, e nenhum apreço pela monarquia, foi sugado para a política da nova república logo em 1910, tendo desempenhado funções nas Finanças e outras. Mas a maior parte do tempo passou-a em Berlim como embaixador, entre 1912 e Março de 1916, quando a república, emparedada pela sua relação longa e doentia (mas imprescindível) com a Grã-Bretanha e o autêntico terror de perder as suas colónias africanas a bem ou a mal, e ainda como uma fuga para a frente do autêntico descalabro doméstico, literalmente inventa um incidente com a Alemanha (o estúpido apresamento de todos os navios alemães fundeados em portos portugueses, o que basicamente constitui um acto de guerra) e depois gere as comunicações com a Alemanha (apesar dos repetidos avisos quanto às consequências do acto, que Sidónio enviava em telegramas a partir de Berlim) de tal forma que não deixou margem para outro resultado que não fosse uma declaração de guerra por parte da Alemanha.
Parte da paranóia portuguesa era que ambas Angola e Moçambique estiveram na altura a ser negociadas entre britânicos e alemães para serem as duas cortadas pelo meio, no caso de Moçambique o Sul do Save ficaria para a actual África do Sul e a região a Norte do Save ficaria para a actual Tanzânia, que ao tempo era uma colónia alemã. Se a Alemanha fosse victoriosa, Portugal perderia tudo. Aliás, desde 1914 que a Alemanha efectivamente tratava Portugal como um protectorado britânico – o que efectivamente era.
Portanto a aposta na Aliança era uma jogada lógica e até elementar.
Fruto da enorme borrasca política doméstica, Sidónio conjura um golpe de estado em final de 1917, elege-se presidente mas com poderes executivos em Abril de 1918 (a única vez que tal aconteceu) e foi assassinado em 14 de Dezembro desse ano, pouco mais que um mês depois de terminar a Guerra de 1914-1918.
Durante o seu curto mandato presidencial, a sua família – a sua mulher Maria dos Prazeres e cinco filhos Sidónio, António, Maria, Afonso e Pedro – permaneceram em Coimbra, onde a família sempre vivera, tendo Maria dos Prazeres, apesar de ser oficialmente a Primeira Dama da República, entrado uma única vez no palácio presidencial, no dia do funeral do marido. Depois voltou para sua casa em Coimbra.
Bem, e é aqui que entra a ligação indirecta entre Samora Machel e Sidónio Pais.
É que, uns anos depois, um dos seus filhos, Afonso, foi viver para Lourenço Marques (a actual Maputo) onde se estabeleceu como médico e cirurgião. Supostamente, foi um bom médico e era muito conhecido na cidade e arredores. Nas suas memórias, Raúl Honwana (pai de Luis Bernardo Honwana) relata um episódio ocorrido em 1932, quando contraíra uma grave doença, tendo-se deslocado da sua terra lá para os lados da Moamba, à capital, onde foi visto pelo Dr. Afonso Pais (e quando regressou levou uma rabecada do médico local, que não o tratara e que “não o autorizara” a ver outro médico. É preciso ter lata).
O Dr. Afonso Pais era uma figura notável da Lourenço Marques colonial, considerado, para além de um bom médico, irresistível pelas mulheres, sendo conhecido pelas suas conquistas e por ser um excelente cavaleiro e frequentador do Clube Hípico da cidade (no processo, danificou a coluna). Casou-se com uma bela sul-africana de origem britânica, Doris Mantle, também ela excelente cavaleira. Uma das memórias de Doris Mantle foi a da sua doação ao Clube Hípico de um belíssimo cavalo chamado Mist, que por ser muito dócil (excessivamente dócil para ela) durante vários anos foi o cavalo com que muitos jovens se iniciaram na prática da equitação no Clube. Em Fevereiro de 1940 tiveram a sua única filha, Maria Alice Mantle Pais.
O Dr. Afonso Pais, cuja famosa filiação de Sidónio era mais ou menos conhecida, viveu em Moçambique até pouco depois da independência em 1975. Doris morreu em Lisboa em Dezembro de 1994. Pais morreu uns meses depois, em 12 de Abril de 1995, em Joanesburgo, presumo que junto da filha Maria Alice, que entretanto se casara com um sul-africano (Martin Brooks) mas não sei.
E o Dr. Afonso Pais conhecia o então jovem Samora Machel perfeitamente.
A parte curiosa é esta: quase todas as notas biográficas acerca de Samora Machel, invariavelmente imbuídas de um certo (e infelizmente habitual) heroicismo a posteriori, o que se entende dado o seu percurso e enorme importância em termos do processo político do Moçambique actual, resumem o seu percurso a ter nascido em Gaza, descendente de guerreiros, e cursado enfermagem quase por acaso, enquanto conspirava activamente para libertar Moçambique.
A realidade não foi bem essa.
A primeira vez que Samora vai viver para Lourenço Marques, vindo do então lugarejo da Madragoa (hoje Chilembene), situado no meio do que a breve trecho se tornaria no epicentro do quase inacreditável experimento agrícola e social do Eng. Trigo de Morais no Vale do Limpopo, ele foi primeiro trabalhar para casa do Dr. Afonso Pais como seu empregado.
Terá sido o Dr. Afonso Pais, que tinha ligações muito boas com o aparato médico-hospitalar da cidade, que se terá apercebido das suas qualidades e o seu valor e terá encorajado o então jovem Samora a estudar enfermagem. E o levou para o Hospital Central.
Samora exerceu durante alguns anos a função de auxiliar de enfermagem.
A decisão de Samora, que então era um vulgar cidadão negro numa colónia onde as pequenas cidades que haviam eram dos brancos e a esmagadora maioria da população negra vivia no mato, e onde ainda haviam as regras dos “assimilados” e dos “outros”, era perfeitamente normal e aceitável num território onde então não havia universidades nem instituições de ensino superior ou especializadas. Quando muito havia a Escola Comercial, onde se formaram muitos moçambicanos e portugueses, brancos e das outras cores.
Fora de Lourenço Marques, até aos anos 60 praticamente não havia liceus. Quem quisesse estudar ou ia para a capital ou para fora.
A afirmação, repetida com frequência, de que aos negros moçambicanos (apenas por serem negros) eram negadas oportunidades educacionais, sendo correcta na generalidade até ao final dos anos 60, ao mesmo tempo doura a pílula colonial e ignora por completo o facto de que também para a esmagadora maioria dos filhos dos brancos que ali viviam o cenário educacional era quase exactamente o mesmo: uma minúscula minoria ia estudar para Portugal e uma minoria ainda mais pequena estudava em universidades na África do Sul. Uma super-minoria (como o Dr. Mondlane e o Dr. Mário Machungo, mais tarde e durante 11 anos primeiro-ministro de Moçambique) estudaram em universidades portuguesas e estrangeiras. A maioria dos “doutores” e técnicos especializados que trabalhavam em Moçambique até praticamente a independência, vinham todos de fora.
E a esmagadora maioria dos que viviam em Moçambique ficavam pelo liceu ou escola comercial – ou de enfermagem. E aprendiam ofícios a trabalhar nas lojas, oficinas e serviços públicos.
E se calhar não fosse o excelente trabalho do Dr. Veiga Simão, não teria havido a Universidade de Lourenço Marques em 1970. Em Portugal europeu, até 1974 havia meia dúzia de universidades.
Pouca gente hoje parece recordar-se do atraso que Portugal tinha em relação à Europa. Era quase abismal.
E esse foi o mundo que um inconformado e revoltado e jovem Samora encontrou. Só mais tarde, quando, sob pressão de Julius Nyerere, se unificou (mais ou menos à estalada) a resistência moçambicana numa única “frente” e se encontrou no relutante Dr. Eduardo Mondlane a figura carismática e catalisadora dos sentimentos dos nacionalistas moçambicanos, é que Samora, ainda auxiliar de enfermeiro mas já desinteressado da carreira e empolado pela electrizante visita a Lourenço Marques do Dr. Mondlane em 1961, se envolve mais activamente na conspiração pelo fim do domínio colonial português. Pouco tempo depois, após reprovar num curso de enfermagem, com mais alguns colegas (na altura vários enfermeiros negros de Lourenço Marques, que de certa forma eram uma elite na comunidade negra, eram abertamente partidários da recentemente criada Frente de Libertação de Moçambique) Samora decidiu rumar ao Norte e desempenhar um papel activo no esforço da Frelimo, que pouco depois passou por uma guerra de guerrilha.
Em quatro anos Samora tornou-se no senhor da guerra na Frelimo. Dois anos mais tarde, morto Mondlane e afastados outros líderes fundacionais, Machel tornou-se no Senhor da Frelimo.
Ainda assim, antes de rumar à Tanzania, com alguns colegas, cortesmente, foi-se pessoalmente despedir do Dr. Pais, de chefes e colegas, explicando o que ia fazer, o que diz algo das relações que tinha na altura.
Aparentemente, quando voltou para Maputo já como líder incontestado da Frelimo e presidente da república, Samora ainda manteve um relacionamento com o Dr. Afonso Pais durante alguns anos.
Acordei hoje com saudades do Sri Lanka. Assim, sem qualquer explicação. Abri o olho e lembrei-me do Sri Lanka e mais propriamente de Dambula e do maravilhoso templo budista na imensa caverna da montanha. E do Hotel Kandalama. Talvez porque tenhamos aqui recentemente falado de urbanismo e de arquitectura turística em Maputo e em Moçambique. Acordei hoje e lembrei-me do Kandalama que é um dos meus hotéis favoritos e um excelente exemplo de arquitectura turística amiga do ambiente onde (literalmente neste caso) se insere.
O hotel foi um projecto de Geoffrey Bawa, um arquitecto singalês e colorida personagem. Começou por ser advogado e acabou por ser um dos arquitectos mais interessantes (para mim, leiga que sou nestas questões) do seu tempo.
O Kandalama fica literalmente inserido na montanha, o que o torna praticamente invisível do cenário que o rodeia. A recepção fica no topo da montanha, isto é, no andar superior do hotel e os quartos serpenteiam montanha abaixo. Todos com um vista soberba sobre o vale e lago lá em baixo, onde ao por do sol os elefantes se vêm banhar, e todos com uma vista privilegiada sobre Sigiriya, uma fortaleza/palácio histórico.
Moçambique está em franco desenvolvimento turístico e urbanístico. Não sou moçambicana e não tenho qualquer influência sobre decisões que afectem os destinos do país, mas não é por isso que gosto menos dele. Acho o Kandalama um belo exemplo do rumo que o desenvolvimento turístico pode levar. Quem sabe? Talvez algum leitor maschambiano com algo a dizer sobre os destinos de Moçambique por ele se deixe inspirar…
O corredor de acesso a recepcao
Outra perspectiva da entrada na recepcao
Vista de uma das esplanadas sobre Sigiriya (invisivel na foto por falta de zoom)
Casa de banho com vista
Uma das salas de jantar
Os quartos vistos da piscina
A piscina num continuum com o lago bem la em baixo
Vista dos quartos
Mais uma foto da piscina, agora sem ninguem a marcar o fim
Chama-se Teresa, a minha neta, mas podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é! São três semanas de vida que cabem nas palmas das minhas duas mãos; quase três quilos de gente em 50 cm de presença. É ainda pequenina a minha neta, mas compensa em genica o que lhe falta em tamanho.
É delicada a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é. Pigarreia duas vezes num “preparem-se” bem educado e só depois nos brinda com o pranto anunciado.
A minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é tem o rosto em forma de coração; acaba num queixinho que se adivinha voluntarioso e prenunciador de carácter. Os olhos são de um azul profundo, como os da tia-avó Jú; franze o sobrolho ao jeito da avó Antónia. As sobrancelhas e pestanas, foi buscá-las à tia Joana e o pescoço alto copiou da mãe. No equilíbrio dos genes revela bem ser filha de seu pai e a honra da sua mãe.
O cabelo da minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, é claro e arruivado e remata numa madeixa branca enrolada em remoinho rebelde.
É pequenina a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, mas enche-nos a vida e deslumbra-nos o coração!
Se alguém tiver dúvidas quanto à pobreza ou riqueza, à ambição ou negociatas, ou ainda à sul-africanização, ou melhor, a Joanesburguização ou Durbanização da cidade de Maputo, observe apenas as visualizações, em baixo, do que se planeia (mais ou menos) para a marginal e os terrenos da defunta Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Moçambique (FACIM) cuja pertença ignoro.
As maquetes foram-me enviadas pelo amigo do amigo do amigo. O que, se não me engano, significa que a esta hora metade de Maputo e arredores já as viu.
Longe de mim questionar o progresso e o crescimento da cidade, que não se soube libertar a tempo de ficar ensanduichada nos anos 60 e 70 pelos terrenos circundantes difíceis, pelo desafio de rasgar auto-estradas para Norte e uma ponte para Sul (a atempada libertação da longa noite colonial não deu tempo para isso, presume-se, e a pancadaria que veio a seguir também não deu tempo para mais).
Mas fazer ali uma espécie de Bairro da Coop 2 em estilo Noveau Sandton em frente à nesga da Baía é, enfim, algo menos do que eu esperava.
Eu sei que, ao preço que comanda o metro quadrado de terreno e de construção na cidade, surpreende-me que não apareça algum a fazer uma torre de 110 andares como aquelas no Dubai. É negócio, se calhar bom negócio, e se houver quem pague isto tudo, ainda melhor.
As minhas dúvidas existenciais, aliás, são outras. Fazer prédios ali se calhar até é a parte fácil. Mais duvidoso é saber como vai ser com coisas mais mundanas, tais como a infra-estrutura de água, electricidade e esgotos necessárias para suportar este projecto. Não havendo caves (a quota de água ali é elevada) onde vão parar os carros todos, e se os esgotos vão cair todos directamente na Baía ou se o projecto inclui a colocação de uma estação de tratamento de resíduos para a cidade. Finalmente, impermeabilizando-se uma área tão sensível e com uma enorme barreira atrás a qual não tem qualquer sistema formal de escoamento de águas pluviais, para onde é que vão escoar as águas quando cair uma daquelas chuvas a à antiga sobre Maputo?
Isto para não mencionar o facto elementar que aqueles terrenos não são terrenos normais: há cem anos, foram aterros feitos sobre uma praia, ou seja, não são à partida os melhores para se construirem sobre eles dezenas de prédios (razão pela qual nada se construiu ali durante mais que sessenta anos e aquilo era um parque verde da cidade, para quem não se lembra, com eucaliptos para suporte e drenagem). Na eventualidade de um tremor de terra mais estranho, as construções aí correrão o risco decorrente da liquefacção dos terrenos.
Já o referi antes e não sou o primeiro a dizê-lo: acho que é altura de se fazer uma ponte para a Catembe e expandir a cidade para Sul. E uma auto-estrada para Norte
E começar a pensar nos investimentos em infra-estrutura de base.
E em reabilitar e manter o que já existe.
E criar mais parques e zonas verdes para a cidade.
O navio "Beira" Nº Oficial : 377-C, Iic.: H.B.N.G., Registo : Lisboa Cttor.: Blohm & Voss, Steinwerder, Alemanha, 04.07.1896 ex "Herzog", Deutsche Ost-Afrika Linien, Hamburgo, 1896-1911 Tonelagens : Tab 4.976,83 to, Tal 3.059,97 to Comprimentos : Pp 122,00 mt, Boca 14,38 mt, Pontal 13,60 mt Máquina : Blohm & Voss, Hamburgo, 1896, 2:Te, 11 m/h Vendido para demolição em Itália, finais de 1925
por ABM (9 de Março de 2010)
Ainda não tive chance de comprar O Olho de Herzog do João Paulo Borges Coelho, mas já fiz duas coisas que partilho com os exmos leitores por aquele preço imbatível só para Clientes do Maschamba:
1) arranjei uma fotografia original do bicho (“afenal” o Herzog é o navio com os dois matros altos na fotografia que se encontra acima, tirada numa enseada na antiga colónia alemã do Tanganyka aí para o ano de 1896. Não sei onde o JPBC foi buscar o “t” nem o que é que o navio tem que ver com a história mas hei-de perceber certamente). O navio mais tarde passou para mãos portuguesas e mudou o nome para Beira.
2) já li o primeiro capítulo do livro, que é delicioso e que abaixo de reproduz, cortesia do …. Diário Digital.
Então vamos lá:
Capítulo 1, Acto 1, Cena 1, de O Olho de Hertzog:
Não fosse o calor nem esta vegetação tão particular, não trouxesse o ar este vago cheiro a queimado, e Hans Mahrenholz dir-se-ia de volta a uma sua muito antiga vida. Hamburgo talvez, quando era criança e cruzou as desconhecidas praças dessa cidade levado pela mão grossa do pai, fustigados ambos por uma chuva miúda mas inclemente. Hamburgo, desta vez sem a mão que lhe abria os caminhos. Hamburgo às cegas. Não fosse esta luz crua que subsiste apesar da chuva e lhe castiga os olhos.
Recua ligeiramente para se proteger debaixo do avançado de lona riscada – velha e quebradiça, coçada pelo sol e pelo sal – e continua a observar com atenção a linha de costa. A maresia inchou-lhe os dedos, a ondulação provocou nele uma náusea leve e persistente.
A chuva desaba agora com fragor, formando manchas eriçadas na pele do mar (pequenas ilhas de inquietude na ampla superfície). Tem sido assim desde ontem, estes soluços molhados do tempo. Mais perto, a nova descarga salpica a balaustrada, as gotas escorrem como um óleo espesso no metal rugoso da amurada, alastram pelo convés.
A galera entra na barra, devagar. Chama-se Ferreira e ninguém tem razões para suspeitar de que esta será a sua última viagem à baía de Lourenço Marques. Para trás ficaram dias gloriosos em que, com o nome de Cutty Sark, foi a embarcação mais veloz a sulcar os mares do mundo, isso antes de ser adquirida pela firma Joaquim Antunes Ferreira & Cia., da cidade do Porto, e se tornar naquilo que é: uma embarcação cansada, merecedora das águas paradas de algum cais, enquanto peça de museu, mais que de confrontar assim o irascível mar Índico.
Mas não é por causa dessa glória – porventura inútil, neste momento nem sequer notada – que os burgueses encasacados acorrem ao cais apesar da chuva e do calor, unindo-se aos estivadores, marinheiros e vendedores que ali passam a vida, para formarem todos juntos a pequena multidão que espera; nem sequer pela imponência dos seus três mastros ou pela elegância do seu casco de madeira com mais de 90 metros de comprimento fora-a-fora. Estariam aqui mesmo que fosse outra embarcação qualquer, fazem-no sempre que uma vela ou um mastro assomam no horizonte, promessa de excitação trazida a uma cidade que no resto dos dias permanece modorrenta.
Por ora a Ferreira apalpa atentamente o canal que leva ao porto, passando não muito longe de um punhado de navios quietos, fundeados. Da amurada, o comandante Vieira de Sousa, há quatro anos no governo da galera, vai explicando aos seus cinco passageiros o historial de cada um desses navios: o Niassa, que foi Bulow antes de ser há dois anos capturado pelas autoridades portuguesas; o velho Admiral, glória da German East Africa Line, também ele obrigado a ser Lourenço Marques; e finalmente o Beira, nome pintado de fresco por cima de outro nome que ainda se consegue ler, por estar marcado em relevo leve na chapa negra do casco.
Herzog é o nome, e Hans Mahrenholz é percorrido por um estremecimento quando o consegue ler. Herzog. Não por causa da história que este velho navio também terá, as rotas que percorreu, os passageiros que transportou (entre eles um jovem de nome Fernando Pessoa em solitária viagem de regresso a uma pátria desconhecida). Herzog é o nome, palavra ducal que igualmente pode ser Herzig, Gertzog, Hertogs – e também Hertzog, como se verá – a raiz é sempre a mesma, a utilização é que foi variando, são as mesmas as armas com as cores amarela, azul e negra, as três estrelas, o elmo guerreiro e as asas imperiais. Herzog. E escurece ainda mais o humor de si já melancólico de Hans Mahrenholz, trazendo-lhe à ideia um outro tempo que vai ter de convocar.
Ondulam levemente, dóceis animais de carga retemperando forças gastas em intermináveis viagens. Herzog, murmura Hans Mahrenholz agora que o tem perto. Massa enorme projectando escura sombra sobre um mar de si já escuro.
Felizmente que tudo se torna mais leve com o lento avanço da galera, com as explicações do comandante e as exclamações dos restantes passageiros. São quatro: um jovem casal de missionários americanos e duas senhoras que o referido casal trataria com muito mais circunspecção se soubesse que não são quem dizem ser, esposas vindas para se juntar a supostos maridos, um deles engenheiro do caminho-de-ferro, o outro representante de uma companhia de recrutamento de indígenas.
Ira Edmond Gillet, o missionário, mal consegue represar a curiosidade, e o comandante passa à descrição do arvoredo cerrado e escuro lá em cima, ponteado de casinhas (o arrabalde novo da cidade), da ferida de terra vermelha aberta na encosta e que a chuva fez tornar a sangrar; de mais arvoredo junto à linha de água, envolvendo o edifício alvo do Grémio Náutico, na praia da Polana; e finalmente, mais para a esquerda, que é para onde lentamente se dirigem, o imponente edifício Capitania Buildings cercado de um casario denso que corresponde à cidade propriamente dita: Lourenço Marques. Mais uma vez a sirene anuncia a presença da galera na barra; no cais, um frisson percorre a pequena multidão.
A viagem foi muito acidentada: após uma calmaria que durava desde a largada, o vento rondou subitamente a sudeste por alturas de Richards Bay e, conquanto agilizasse o andamento, veio a fustigá-los sem tréguas, sobretudo ao largo de um lugar da costa chamado Milibangalala, de tal modo que Edith Riggs, a esposa do missionário, fez o resto da viagem encerrada no camarote, sofrendo de enjoos que as atenções dos restantes passageiros – chá preto, álcool nas têmporas, vinagre no nariz e lascas de bacalhau bem salgado – não conseguiam aplacar.
Felizmente que a ondulação acalmou assim que rondaram a ilha da Inhaca pelo norte, apesar dos perigos das baixas profundidades e fortes correntes que ali há, após o que passaram a poder respirar com mais alívio. E este súbito interesse pelos sinais que se descortinam na costa, este esmiuçar das casinhas e das minúsculas criaturas (da inquietante agitação para lá dos limites da cidade), além de ser o interesse normal de quem se aproxima do destino é também uma maneira de expressar o dito alívio.
Chega enfim o momento de lançar âncora. A chalupa que vem em busca dos passageiros vence o tortuoso percurso até se encostar à galera, ondulando muito mais do que ela.
Sobe o oficial de polícia a verificar os passaportes dos estrangeiros. O casal de missionários vem do distante Ohio e vai para a missão de Kambine em trabalho de evangelização. Olham o oficial com desconfiança, último obstáculo entre si e o cumprimento de um desígnio desde há muito estabelecido. O oficial, por seu turno, retorque com um franzir do sobrolho, suspeitando de um Deus que não fala o português. Mas tudo está em regra, não há como não carimbar os documentos e desejar-lhes as boas-vindas da praxe. Quanto às duas senhoras (que já se sabe não virem ao que dizem vir), cerca-as uma luminosidade tal que por si só obriga a aligeirar os procedimentos.
Finalmente, Hans Mahrenholz. Nos documentos, Henry Miller, súbdito inglês embarcado na cidade de Durban, viajando para Lourenço Marques em sondagem de oportunidades de negócio. E que negócio seria esse? Aquele que desse mais garantias de sucesso: minérios, comércio geral, mão-de-obra, difícil de precisar antes que seja levada a cabo a referida sondagem.
O polícia volta a franzir o sobrolho, afaga o espesso bigode. A água escorre-lhe pela capa de oleado. Felizmente que não pergunta que contactos tem o recém-chegado na cidade para o ajudar nessa tarefa, felizmente que se contenta com o que tem na frente: um nome estampado num documento de viagem e a revelação de um propósito. Se cofia o bigode é apenas para dar tempo a que um inesperado acaso revele mais qualquer coisa que acaba por não vir. Talvez porque não haja, pensa ele, apegado desde há muito ao ópio da rotina.
Uma rabanada de vento agita os papéis, quase os faz voar. Seria embaraçoso para todos que voassem para o mar. Parece que vai voltar a chover. Carimba.
As senhoras mostram receio em descer pela escada de cordame, em trocar um espaço a que apesar de tudo já se haviam habituado por esta insegura promessa de chegar a terra firme. Embora a costa esteja próxima, o mar é aqui mais escuro e oleoso, de certa forma mais sinistro.
Sorri o comandante, segurando-lhes o braço para que ganhem confiança; riem mais abertamente os marinheiros que, em baixo e segurando o corrimão, as incentivam com gestos a que desçam sem temor. Elas temem o mar e os sorrisos destes homens rudes.
Descem por fim os dois estrangeiros e o polícia, descem as malas e os baús (um quase se perde, o seu peso surpreendeu quem o transportava), e a chalupa solta-se do casco da galera e larga a braço vigoroso dos remadores, lutando com as piores ondas, aquelas que já bateram no muro do cais e voltam sem tino, enfurecidas pela descoberta de um limite.
Cantam os marinheiros, uma toada que incute neles a força de remar e que os recém-chegados não sabem distinguir se é alegre, se um lamento. Sobe e desce o cais de pedra a uma certa distância, o mesmo cais onde, da mancha que era a multidão, vão surgindo agora largos acenos e cada vez mais nítidas feições, chapéus e bengalas, bigodes, oleados para proteger da chuva à mistura com os troncos húmidos e nus de mais marinheiros que, de mãos esticadas, aguardam que lhes sejam atiradas as cordas para prender a chalupa às grossas argolas de ferro do paredão.
Com o ondular da terra firme na visão, volta a Edith Riggs a indisposição, nela mais forte ainda do que o medo. Segura o braço do marido com a mão enclavinhada.
Ao lado, Hans Mahrenholz, aliás Henry Miller, perscruta uma a uma as fisionomias do cais procurando descobrir um olhar particular de quem o espere.
Passam às escadas de pedra, sobem-nas e internam-se na multidão tacteando com estranheza a terra firme, quase sem se despedirem uns dos outros. Facto lamentável, tanto mais que uma viagem assim costuma criar nos passageiros uma especial intimidade.
Um homem magro, de chapéu na mão, leva o casal de missionários. As duas mulheres, seguidas por um enxame de crianças, desaparecem sem deixar rasto. Hans torna a olhar em volta, mas não há ninguém que se aproxime e apresente.
Felizmente que era rebate falso, que desta vez a chuva não voltou. Resignado, avança titubeante pela Praça 7 de Março arrastando o malão atrás de si. Finge que não escuta os homens que o seguem, pedindo-lhe com insistência que os deixe arcar com esse peso a troco de uma moeda.
O sol rompeu por entre as nuvens, é agora claro que não vai voltar a chover. E com ele um calor feroz que se junta ao peso da mala para o fazer derreter dentro da casaca ainda húmida da chuva, e agora do suor.
Olha esta praça, afinal distante de Hamburgo, povoada de gentes tão distintas, moldada pelos caprichos de quem a foi edificando, que a salpicou de pequenos quiosques, estranhas construções encimadas por minaretes de ferro forjado, chinesices. Leão d´Ouro, de João da Silva Alcobia, Servem-se bebidas e refeições, Asseio e prontidão.
As pessoas passam apressadas; os eléctricos, vagarosos, tilintam. À vozearia junta-se o som ritmado dos calceteiros malhando nos passeios. Oriental Kiosk, Bebidas espirituosas e sorvetes, Servem-se refeições para fora. Cheiros fortes e desconhecidos sobrevoam a praça: do querosene dos motores, da água da chuva secando ao sol, da serapilheira húmida que os marinheiros da chalupa envergavam (um cheiro que ainda o persegue), das cozinhas dos quiosques.
Continua a vaguear por ali até acabar por escolher um desses quiosques, que por qualquer razão lhe pareceu conveniente. Pavillion Kiosk de Cândido de Sousa Teixeira e dona Carlota Fornazini de Sousa Teixeira, Bebidas geladas nacionais e importadas da Metrópole, do Transval e das principais capitais europeias, Tremoços e pipis, Refeições ao gosto do cliente, Almoços elegantes. Senta-se a uma das mesas da esplanada e pede uma cerveja. Precisa de aplacar a sede que o assola, e também de pensar no que fazer.
As coisas começam mal. Glück garantiu-lhe que estava tudo arranjado, que iriam esperá-lo, que lhe dava um endereço apenas para o caso improvável de as coisas correrem mal.
Pois bem, é isso mesmo que acontece: as coisas correm mal. Passam dois polícias anafados, com grandes bigodes, olhando em volta e girando na mão os cassetetes. Na praça tornam-se todos menos veementes: esperam talvez que os polícias se afastem.
Hans fixa os olhos nos rebordos curiosos dos telhados dos quiosques, nas delirantes estalagmites, flores-de-lis, dragões, parras e perversos anjos; depois, na cerveja que tem na frente. Imagina e lembra, faz as suas contas. Amaldiçoa Glück.
O tempo que passou no mato foi demasiado para que pudesse agora olhar em volta e ver simplesmente uma cidade. Os arbustos da savana espalhavam vultos e ameaças; os charcos, sempre que chovia, traziam mil olhos à superfície; a luz da lua lambia os canos das espingardas. É isso ainda que vê nestes edifícios, nos postes, nos sofridos corpos que são as árvores urbanas, no inquietante padrão repetitivo das cercas de ferro forjado e da calçada, nas mensagens ocultas que os dizeres dos anúncios e dos cartazes calam: perversidade, dissimulação.
Em frente, um deles anuncia em grossas letras vermelhas e negras: Teatro Varietá (African Theatres), Repetição das melhores películas da semana em matinée especial: «Sylvia do Serviço Secreto» (fita policial em 5 partes), «Testemunha Silenciosa» (drama em 5 partes), «Quando as más-línguas falam» (drama em 5 partes).
Tudo o que é anunciado lhe parece de duplo sentido, as pessoas movem-se com inconfessados propósitos, a cidade é um prolongamento do mato. F. Bridler & Cia Lda, Vendas por atacado de toda a espécie de fazendas, Artigos diversos, Bebidas, Géneros de mercearia e confeitaria, Vinhos, Charutos, Licores, Bon-bons das mais acreditadas marcas nacionais e estrangeiras, Telefones 230 e 139.
Faz um sinal ao ardina que passa, compra-lhe um jornal. Quer ver confirmada em letra de imprensa a notícia que o comandante da galera, alegremente lhes transmitira, acabada de chegar: o general Lettow-Vorbeck rendera-se!
Procurou na altura saber de pormenores, mas as notícias eram lacónicas. Aparentemente a rendição dera-se em Abercorn, na Rodésia do Norte, assim que Lettow tivera conhecimento do armistício na Europa. A resistência perdera o sentido, se é que ainda tinha algum. O comandante abrira uma garrafa de champanhe para celebrar com os passageiros, e Hans fora obrigado a beber um gole a contragosto. O gole que simbolizava a traição.
Sorri amargamente. Folheia o jornal. Segundo um despacho da Agência Havas, o presidente da República Portuguesa, doutor Sidónio Pais, foi assassinado com três tiros quando embarcava para o Porto. Ao lado, enquadrado por dois filetes grossos, um anúncio dos milagrosos produtos Melcin. Curam-se todas as doenças secretas e doenças de pele, o nosso maravilhoso tratamento nunca falha, mesmo nos casos desesperados, Melcin é um purificador de sangue de força dupla que pode curar V. Excia rápida e permanentemente de doenças embora de longa data, Quer padeça de dores na garganta ou em qualquer outra parte do corpo, de manchas da cor de cobre ou escamas, de sífilis ou de eczemas, o nosso preparado Melcin curá-lo-á, A garrafa incluindo porte custa 21 xelins, Pedidos a Treye Pharmacy, Commissioner & Treye Street, Box 5595 Joanesburgo, A Tintura Melcin cura as manchas na cara, sarna e qualquer doença de pele, custa 3 xelins e 6 pences cada boião.
Vira a página, suspirando. Será que o Melcin serviria para lhe limpar a alma? Dá enfim com uma notícia curta.
Nota Oficiosa. A Nossa Acção Contra os Alemães em África. Telegrama recebido de Sua Excelência o Comandante em Chefe das forças aliadas operando contra a África Oriental Alemã, General Van Deventer: «Na conclusão das operações na África Oriental agradeço muito sinceramente a V. Excia pelo pronto auxílio que V. Excia sempre me concedeu de bom grado. Lembrar-me-ei sempre com orgulho que tive a honra de comandar tropas portuguesas cooperando com as minhas na campanha. Rogo aceite felicitações pela gloriosa vitória das armas aliadas sobre um inimigo comum, vitória que estou certo estreitará ainda mais os laços que sempre nos ligaram à nossa mais velha aliada, e transmiti os meus melhores agradecimentos aos comandantes, tropas e funcionários civis portugueses, na África Oriental Portuguesa, pelo seu valioso trabalho na Campanha de 1918.»
E, em seguida, a resposta do Governador-Geral:
«Agradeço a V. Excia seu amável telegrama. É meu desejo significar V. Excia neste momento a satisfação e orgulho sentidos pelos resultados conseguidos pelas tropas inglesas e portuguesas sob o enérgico e inteligente comando de V. Excia na Campanha agora terminada.»
Fecha o jornal e perde-se em divagações. Por isso quase não sentia o homem magro que se aproxima, de calções e pés descalços. Por um momento convence-se de que é quem o vem buscar. Mas não, trata-se apenas de um simples condutor de riquexó.
´Patrão, posso levá-lo onde quiser.´
Com a mão direita, Hans faz que não e finge concentrar- se na cerveja. O homem não insiste. Mantém-se porém por perto, na esperança de que o estrangeiro reconsidere.
Hans olha-o de soslaio. Realmente magro, um nariz aquilino, como se no seu sangue africano houvesse vestígios árabes ou indianos, embora remotos. Talvez mesmo chineses, a deduzir da curiosidade semicerrada com que o observa. Como confiar num homem assim?
Todavia, por algum motivo – talvez pela sua discreta atitude –, o homem desperta nele uma certa simpatia. Já viu muita gente assim. No início pareciam-lhe figuras de cartão movendo-se num cenário, figuras sem qualquer relevância. Só mais tarde, muito mais tarde, houve alguns a quem pediu protecção.
´Como te chamas?´
´O meu nome é Obede.´
´Obede, queres uma cerveja?´
Obede não parece perceber a oferta. O fosso que existe entre os dois é demasiado fundo para que ele de imediato a percebesse. Todavia, assim a que entende recusa com uma espécie de reverência. Mais por respeito do que propriamente por gratidão; pelo esforço feito pelo estrangeiro para cobrir esse tal fosso que os separa.
Volta o silêncio entre os dois. Mas por pouco tempo, dado que Obede não se satisfaz com uma única recusa.
´O patrão quer vender ouro? ´
Explora caminhos alternativos que conduzam aonde quer chegar.
´Ouro?´
Hans surpreende-se.
Obede explica que desde que a guerra acabou vêm aqui muitos estrangeiros, grande parte deles tentando vender ouro. Ele sabe de bons preços, melhores ainda se o negócio for feito com uns certos compradores que só ele conhece.
O oficial de polícia, de carimbo na mão, teria agora mais qualquer coisa a perguntar-lhe, isso se Hans trouxesse ouro para uma primeira oportunidade de negócio.
Quem será este Obede?, pergunta-se. E responde-lhe que não.
A menção à guerra inquietou-o. Ela e os dois polícias anafados que voltam a passar, girando sempre nas mãos os cassetetes. Tenta concentrar-se na cerveja.
Obede também não parece interessado em atrair a atenção da autoridade. Afasta os olhos de Hans. Mas, assim que sente a costa livre, volta a cravá-los nele.
´Se o patrão quiser ir a algum lado é só dizer. Conheço bem a cidade, não encontra um riquexó mais barato do que o meu.´
Hans fica um momento pensativo. Depois, puxa da carteira e tira de dentro dela um papel. Estende-lho.
´Conheces este lugar?´
Obede olha o papel, interessado, após o que abana a cabeça em desalento.
´Não sei ler.´
Hans volta a pegar no papel e lê em voz alta:
´Escritório de Joaquim Pereira, Rua Araújo 101, Lourenço Marques.´
O olhar de Obede ilumina-se.
´É muito perto. Posso levá-lo lá.´
´Se é assim tão perto, não preciso que me leves. Basta que me indiques o caminho.´
Obede simula um ar de espanto. É matreiro.
´Não fica bem a um branco andar pelas ruas a arrastar uma mala. Toda a gente vai olhar e achar estranho.´
O par de polícias barrigudos refugia-se agora na sombra rala da Casa Amarela, de onde lobriga a praça. Um par de pastores cuidando do seu rebanho. Hans acaba por ceder.
´Leva-me então a mala. Mas eu vou a pé.´
Obede coloca a mala no riquexó e põe-se a caminho, assobiando alegremente. Hans vai atrás dele. Deixam a praça, evitando um eléctrico que passa devagar, e internam-se numa rua estreita e movimentada. Manuel de Abreu, Comissões e consignações, Negócios por grosso e a retalho, Especialidades em bebidas tais como cognacs e whisky, Licores nacionais e estrangeiros, Vinhos verdes e maduros engarrafados ou em garrafões de 5 litros importados directamente de Portugal, Farinha de milho, luzerna, capim, farelo, etc., Oficinas de serralharia e carpintaria, Executam-se reparações e consertos em carroças e carros com a máxima perfeição para o que se possuem bons mestres, Venda de gado muar e cavalar sempre em stock.
O chão empedrado está transformado num lamaçal, as poças de água revelam o quanto choveu; em cima, pequenas sacadas de madeira e ferro forjado recortam-se contra um céu de um azul outra vez tão intenso que quase cega. Gente por toda a parte, uma verdadeira multidão caminhando em todos os sentidos e que eles têm de vencer como a um mar rebelde. Moçambique Agencies Lda, Negociantes, Expedições, desembarques, Comissões, Representantes de T. W. Beckett & Co. Ltd, Pretoria, Joanesburgo e Durban. Pelo ar voam os pregões, cristalinos e cortantes, anunciando pequenas coisas na esperança de que quem os ouça possa afinal vir a precisar delas. Jolanda, Fábrica de gelo, Águas minerais, Frigorífico, Proprietário Giuseppe Cavallari.
Obede pára o riquexó em frente a uma porta escura.
´É aqui.´
´Podias ter-me dito que era assim tão perto.´
´Eu disse que era perto.´
Hans encolhe os ombros, pede-lhe que aguarde, empurra a porta e entra. Lá dentro, pisca os olhos para se habituar à escuridão. Sobe umas escadas íngremes que desembocam num pequeno patamar para o qual dão três portas. Três possibilidades envoltas num intenso cheiro a desinfectante. Uma delas ostenta um letreiro austero: Dr Palma Callado, Sífilis e doenças venéreas, Doenças das senhoras, Clínica geral, Consultório. Das outras duas, uma está entreaberta. Bate nela ligeiramente, com os nós dos dedos. Ninguém responde. Está aqui mais fresco.
Espreita. Dá para uma sala comprida que termina em novas portas, estas com gelosias de madeira. Calcula que abram para a varanda de ferro forjado que se via lá de baixo. Dentro, três escrivaninhas desarrumadas, alguns armários encostados às paredes, tudo mal iluminado por uma luz crua retalhada pelas gelosias. No interior das tiras de luz, pequenas partículas de pó vogam lentas como minúsculos peixes num aquário. Há também um cheiro indistinto do qual fazem parte velharias, madeira escura, humidade, verniz e algum tabaco.
Apenas uma das escrivaninhas está ocupada, por um homenzinho entroncado, em mangas de camisa protegidas por essas braçadeiras de alpaca negra tão ao gosto dos amanuenses. Tem o chapéu de feltro descaído para a nuca, está concentrado nuns papéis que lê e risca e escreve.
Hans pigarreia para se anunciar. O homem vira-se, surpreendido. Talvez também um pouco receoso.
´Que deseja?´
´É aqui o escritório de Joaquim Pereira?´
´Sim, é aqui.´
´Procuro o senhor João Albasini.´
´Sou eu. O que me quer?´
´Trago instruções para o procurar. O meu nome é Henry Miller.´
O homem ouve aquele nome e parece indeciso, tomado de um certo embaraço. Levanta-se e arrasta outra cadeira para junto de si.
´Henry Miller, claro! Sente-se aqui. Não me diga que já chegou?! Claro, claro que chegou, que estupidez a minha! Estava aqui a fazer horas para o ir esperar ao barco e acabei por distrair-me. Desculpe.´
´Não tem importância.´
O homem põe-se subitamente muito sério.
´Alguém o viu entrar?´
E vira-lhe as costas para ir à varanda espreitar. Assim que escancara as gelosias a luz inunda a sala de um jorro só. É mais que entroncado, quase gordo. É mestiço. Debruça-se e examina atentamente a rua, como se procurasse algo por baixo dos sons que pairam sobre ela. Está agitado. Hans procura tranquilizá-lo.
´Não se preocupe, não vi nada de suspeito, ninguém me seguiu.´
O homem vira-se, mais calmo.
Ah, antes assim. E mais uma vez, desculpe. Perdi-me na escrita de um editorial, não dei pelo passar das horas. É para o meu novo jornal, chamado O Brado Africano, que sai daqui a dias. Leia-o e diga-me o que acha.´
Estende a Hans uma das folhas de papel. Este, surpreso com o gesto, não tem outro remédio senão pegar nas folhas e começar a ler. O título, Assestando Baterias, parece-lhe algo belicoso. O texto começa no mesmo tom.
Todo aquele que não luta pelo seu Direito condena-se voluntariamente a ser capacho dos outros. Parar é morrer. Aos povos subjugados, então, mais do que aos outros, esse dever é uma religião. Ante o Altar do Dever prostremo-nos pois e façamos por nos fazer ouvir nas nossas queixas, nos nossos brados, nas nossas súplicas! Programa..
. Para quê a explanação aqui de um programa, se todos sabem ao que vimos e o que queremos? Vamos seguir a mesmíssima senda que encetámos ao fundar O Africano em 1908.
Em seguida, o tom radical atenua-se um pouco, oferecendo uma mão a um entendimento social adequado à quadra que se vive.
Por uma curiosa coincidência este «número programa» também sai em dia de Natal – aquele em que a cristandade celebra o Advento do Justo e o calendário da República Portuguesa nos aponta para nele celebrarmos a Festa da Família – o dia da Fraternidade Humana.
Aos poucos, porém, volta o tom crispado.
Uma e outra vez nos curvamos pois ante o Presépio a pedir, para nós também, a parcela dessa Justiça, dessa Verdade e dessa Igualdade; e, como cidadãos de uma mesma Pátria, depois de beijar os emblemas sagrados nos templos, fazendo uso da Consciência – dom magnânimo de Deus – saímos destes para a vida larga da rua livre a pelejar pela doutrina igualitária de Cristo, pelo emblema da República, a pugnar pelo direito das gentes, a exigir – com correcção, com ordem, sim, mas com firmeza – o cumprimento da Lei. A Lei igual para todos é um princípio que não queremos ver traído. E por isso, e só para isso, a açodada pressa com que novamente se cerram fileiras à roda da nossa já muito gasta energia, da nossa abalada e magoada fé! É que áspera foi a caminhada até aqui e curtas as vidas para jornada tão longa. Mas… avante, e que O Brado Africano penetre em todas as frinchas das portas dos poderosos a gritar pela Santa Causa da Justiça; que nas mansardas dos pobres e palhotas desmanteladas dos contribuintes do Estado dê notícias, lhes diga que viva quem pela Justiça se deixará matar – porque não se deixar pisar é dever de todo o homem que tem noção da sua dignidade… É assim mesmo e assim esperamos que será sempre, custe o que custar!
Finda a leitura, Hans fica sem saber o que dizer. Escapou-lhe metade do sentido do texto. Quanto à outra metade, parece toda ela um desafio. Sente os olhos do homem cravados em si e não ousa levantar os seus.
´Então, o que acha? ´
Hans coça a cabeça, procurando desesperadamente ganhar tempo até que lhe chegue uma ideia.
´Não sei bem… Talvez o final esteja um pouco agressivo…´
João Albasini parece surpreso, depois pensativo.
´Acha mesmo?´
Arranca-lhe os papéis das mãos e volta a sentar-se à secretária, onde de imediato se põe a escrever. Escreve intercalando tiradas furiosas com curtas suspensões passadas a olhar o tecto, como se lá houvesse uma reserva de palavras penduradas para escolher. Esqueceu completamente o visitante. Por vezes retoma tão rápido uma frase que vêm de arrasto palavras indesejáveis, que risca com a mesma fúria com que as escreveu. O bico da pena mergulha de quando em quando no tinteiro com movimentos bruscos de ave de rapina. Ao mesmo tempo vai murmurando essas palavras como uma espécie de reza com múltiplas entoações, em busca de uma que lhe agrade a ponto de a deixar sobreviver na forma escrita. Quando as ideias se esgotam, escarafuncha as pilhas de papel que tem em volta para achar alimento com que prosseguir. Finalmente, com uma última mirada, parece dar-se por satisfeito. Passa o mata-borrão em cima da folha, como que para amansar o texto, levanta-se e estende-a a Hans.
´Veja agora.´
Hans não tem outro remédio senão voltar a ler.
Mas hoje é dia de Natal… Haja fraternidade… Boas-Festas e abracemo-nos, portugueses, num grande amplexo neste Natal doloroso, triste, pesado de negras sombras, em que estoiram tiros fratricidas e se jogam os nossos destinos numa Grande Conferência… na qual, pela certa, só será salvo, e ficará evidente e triunfante, o velho aforismo de que lobo não come lobo..
. E então, que acha agora?´
´Parece-me bem, embora termine de um modo um pouco enigmático.´
João Albasini sorri.
´É para os manter entretidos a imaginar onde raio quero chegar.´
´Ah.´
Depois, arranca subitamente as mangas de alpaca dos braços, atira-as para cima da secretária e estende a mão na direcção do bengaleiro, em busca de um casaco de linho imaculadamente branco. Veste-o, ao mesmo tempo que procura mais qualquer coisa em volta.
´Ora esta!?´
´Que foi?´
´Pocuro o meu chapéu, não sei onde o deixei.´
´Tm-no na cabeça.´
João Albasini leva a mão à cabeça.
´Tem razão, que estupidez a minha! Vamos então. Eu levo-o ao hotel e aproveito para deixar o texto na tipografia.´
Abandonam o escritório. João Albasini vai na frente, descendo os degraus com uma agilidade surpreendente. Falando e gesticulando sempre.
´Não tem bagagem?´
´Deixei-a aqui à porta, com um condutor de riquexó.´
Saem para a rua, onde Obede aguarda sorridente. João Albasini olha-o com certa surpresa, após o que lhe atira uma moeda.
´Leva a bagagem do senhor ao Hotel Clube. Já lá vamos ter.´
E fica pensativo a vê-lo partir. Depois, põe-se subitamente a caminhar num sentido diverso, com tal resolução que Hans tem dificuldade em segui-lo. De quando em quando leva a mão à cabeça, a certificar-se de que não esqueceu o chapéu. Caminham pelas ruas agitadas desta cidade brilhante como se o fizessem pelos carreiros do mato: os edifícios, árvores; os transeuntes, capim. Hans vai no entanto mais tranquilo, por não ter de ser ele a escolher, em cada cruzamento, uma alternativa. É reconfortante limitar-se a seguir aquele apressado casaco branco, entregar-se nas suas mãos. Ouve os nomes das ruas, palavras opacas sem nada que o ajude a desvendá-las; vê passar uma mesquita. Atravessam uma rua larga. António José Escudeiro, Importador e exportador de géneros nacionais e estrangeiros, Comércio geral, Especialidade em bebidas engarrafadas, Prontidão e seriedade. Saltitam entre as poças de chuva. João Albasini pragueja para os automóveis e caleches que descuidadamente as pisam, salpicando de lama os transeuntes. Zela pelo seu casaco branco.
Nova avenida larga, que cruzam, e entram enfim num edifício amplo, o Mercado Municipal. Percorrem os húmidos caminhos de pedra entre as bancas de produtos que João Albasini vai inspeccionando atentamente, sem no entanto abrandar o passo. É como se os vendedores, organizados por raças, tomassem parte no empreendimento colectivo de revelar as cores que existem na paleta da natureza. Os europeus propondo uma vasta gama desde os verdes dos legumes aos vermelhos das carnes, os indianos ripostando com a gradação completa dos temperos, do amarelo ao castanho passando pelo laranja vivo e por um vermelho de fogo. Lugar Económico de Pedro de Melo no Mercado Municipal, Chouriço de carne, morcela, farinheira, mouro e sangue, Carne salgada, Feijão de todas as qualidades, Azeitonas do Douro e Elvas, Frutas verdes, secas e cristalizadas, Leite fresco para doentes e crianças a 500 réis o litro, Leite do Umbelúzi a 400 réis o litro, Encarregam-se de levar as compras a casa dos fregueses.
Ao mesmo tempo, de costas, Albasini vai falando sem cessar, o que incute em Hans, para além do referido conforto, um difuso sentimento de inferioridade. Refere querelas municipais, amaldiçoa portarias a seu ver completamente injustificadas, desnuda intrigas com um trejeito irónico, convida o interlocutor a tomar partido. E Hans sempre sem saber o que dizer.
O homem voa sobre os assuntos como uma águia, embora com inflexões súbitas de passarinho. José de Carvalho Junior, Negociante de carnes verdes, Carne do Transval, Prontidão, asseio e correcção, Talho do Mercado, Lojas 17 e 18. Estão já nas traseiras do mercado, às quais se segue um baldio pejado de vendedeiras negras sentadas no chão enlameado, expondo os seus produtos sobre esteiras de palha semiapodrecida ou pequenas caixas de madeira, desta feita sem quaisquer anúncios que os nomeiem – montículos de frutas, legumes e folhagens, muitas delas desconhecidas, pequenos potes de barro com um arroz amarelo, milho grosso, gergelim, amendoim, piripiri. Aqui, porque mais desordenadas, as cores parecem traduzir com rigor a espontaneidade da natureza.
Evitando cuidadosamente as poças de água do chão, João Albasini prossegue a sua inspecção.
´Explique-me então qual é exactamente o objectivo da sua visita. É que a mensagem que o nosso amigo me enviou, anunciando a sua vinda, não era inteiramente clara…´
Debruça-se para pegar numa manga, apalpa-a, leva-a ao nariz e devolve-a ao monte, decepcionado.
´Vê-se que foi colhida antes do tempo. Ainda faltam umas semanas para a altura delas. Mas, ia dizendo?!…´
Tal como o polícia na galera, também Albasini quer saber das suas intenções. Ao que veio. Muitas vezes Hans reviu com Glück estes momentos, o que lhe perguntavam, como respondia. As traseiras confusas do mercado – onde se torna impossível encontrar um padrão simples que seja – fazem lembrar a maneira como as tropas estacionavam após os rigores do combate. Como se à meticulosa organização devesse seguir-se o caos para ficar reposto o equilíbrio. Esforça-se por expulsar estes pensamentos, a fim de ser capaz de responder.
´Oficialmente sou um empresário em sondagem de oportunidades de negócio, mas na verdade venho ao serviço de um jornal sul-africano, o Rand Daily Mail. Pretendo escrever uma reportagem sobre as condições de recrutamento dos trabalhadores das minas.´
Assim mesmo, tal como Glück lhe sugerira que dissesse.
´Ah, interessante. Estamos entre jornalistas, portanto. Entre jornalistas com uma causa, o que torna as coisas bem mais fáceis. Esta parece boa, não acha?´
E estende a Hans uma enorme papaia ainda esverdeada. Hans segura-a, sem saber o que dizer. Leva-a ao nariz, fazendo um ar entendido.
João Albasini larga uma sonora gargalhada.
´As papaias não cheiram, meu amigo. A elas há que apalpá-las, descobrir-lhes pelo peso e pela cor se estão no ponto. Acho bem que faça esse trabalho, e que o faça desta maneira, vendo de perto como vivem as pessoas. É preciso cheirar o suor do medo e da miséria, conhecer-lhes a cor, para sabermos do que falamos.´
E devolve a papaia à vendedeira, insatisfeito. Talvez por estar demasiado apalpada.
A mulher encolhe os ombros, resignada. O dia está no fim, falta-lhe vigor para argumentar. Atrás dela pulsa um pequeno volume envolto num pano velho, depositado sobre uma esteira no chão. Pelo calor e leve tremor que dele emana, adivinha-se ali uma criança. A mulher baixa-se e embala-a levemente, sem deixar com isso de ter o caixote com os seus produtos debaixo de olho.
Ao lado, mais mulheres fazem o mesmo: vendem as suas coisas enquanto embalam também as respectivas crianças, todas elas enroladas em panos velhos; montículos de frutas ou legumes, brilhantes de uma água suspeita com que constantemente os aspergem para que ao menos a aparência do viço não se perca. Compra-se pouco, a avaliar pelo que está ainda envelhecendo nos improvisados mostruários. Algumas iniciam a recolha dos seus produtos, que depositam em grandes cestas que levarão à cabeça (às crianças, levá-las-ão às costas). Fazem-no com muito cuidado, para amanhã os poderem voltar a mostrar com o aspecto que têm hoje. Como se fossem imunes ao passar do tempo.
Por toda a parte fumegam panelas amolgadas e negras de fuligem em fogos feitos no chão, panelas que elas espreitam sempre que as crianças lhes dão descanso. Há também outros fumos de origem mais difusa, todos eles soltando os respectivos cheiros acres. Fumos do calor que se acumulou no chão e agora se escapa, primeiras manchas da noite que desce.
´Compre-me a papaia, patrão. Para ajudar a criança.´
Hans surpreende-se com a serenidade com que estas palavras são sopradas, com a firmeza com que o atraem para um mundo que desconhece. Com este derradeiro esforço da mulher: Compra-me a papaia e revelar-te-ei o segredo destas panelas fervendo a nossa sobrevivência, o segredo destes pequenos volumes enrolados em panos velhos por cima de uma qualquer esteira, desafiando, obstinados, o destino.
No mato da sua lembrança estes vultos eram meros adereços dos combates, aqui deixa-se prender pelo fogo do seu olhar. Não tem pois como não levar a mão à carteira, para pagar. Houve alturas recentes da sua vida em que uma papaia destas seria uma preciosidade. É nisso que pensa para justificar o gesto. Suspeitasse disso a mulher e sem dúvida pediria três vezes o que pede por ela.
Entretanto, João Albasini já vai longe. Inspecciona os produtos de uma outra mulher, encarando duvidoso um pequeno monte de folhas verdes. São folhas de cacana, e a infusão que a partir delas se faz vai atenuar-lhe a dor que sente nos rins de quando em quando, sobretudo depois de longas horas sentado à secretária a escrever. Parecem-lhe bem, pois com um gesto seco indica à vendedeira que as embrulhe, levando, também ele, a mão ao bolso.
Sem dúvida que o mercado é um lugar de encontro entre dois mundos, um deles repetindo sem cessar o gesto de tirar a carteira, o outro embrulhando e despedindo-se de pequenas coisas trazidas sabe-se lá de onde.
´Quer então ver como se tratam aqui os pretos…´
Vira-se, levemente intrigado com a falta de resposta.
Hans não o ouviu, está ainda lá atrás acertando as contas da papaia. João Albasini aguarda que ele se aproxime, observa sem comentar uma papaia que quase foi sua, despropositada nas mãos do estrangeiro. No seu silêncio talvez haja algum despeito, uma surda irritação por Hans não ter seguido o seu conselho. Há por ali papaias bem melhores que aquela. Em seguida, dirige-se para os limites daquele emaranhado de gente onde tudo cabe menos os diálogos cristalinos (o som que dele emana é apenas um leve murmúrio indistinto, a reza baixa das transacções).
Chega à rua e entra nela. E. Nichols, Único agente para toda a Província de Moçambique dos Automóveis Ford, Carros de 5 assentos e camiões, Extraordinária redução de preços. Caminha depressa, sem se certificar se Hans o segue. Caminha e vai falando.
´Amanhã é um bom dia, dia de chamada. Eu venho buscá-lo para o levar lá.´
´Chamada?´
´Sim, dia de virem buscar quem precisam, de selecção daqueles cujos braços parecem mais fortes, cujos peitos musculados maiores garantias dão de albergarem pulmões sãos.´
´E os restantes?’
´Quem?´
´Aqueles que não são recrutados?´
Albasini ri da ingenuidade do estrangeiro. Intimamente, agradece-lhe porém esta ideia dos indígenas recusados, excelente tema para um futuro editorial. Vai até imaginando o respectivo texto, enquanto caminham.
Para onde são então precipitados os milhares de indígenas que não reunem as condições exigidas? Precipitados ao vão e vazio da Era inicial, protoplasmas que depois se aderirão e agregarão e formarão o protoplasto da nova humanidade que irrompe do tumulto belicoso empunhando os estandartes da libertação, caminhando triunfante e seguro sob a cadência estridente da Internacional?
E sorri da força do texto.
Mudam de rua. Na Avenida Arriaga o movimento de pessoas é bem menor, talvez por o dia estar chegando ao fim. Simão & Paizana, de José Dias Simão & Cia, Especialidade em carnes de porco, azeite e toda a qualidade de legumes recebidos directamente da Província, Sola, cabedal e pelicas recebidas directamente das fábricas, Armazém na Av. Central (antigos escritórios de Pinho, Santos & Cia, e Ribeiro e Levy). Em cima deles, o céu é uma violenta mancha cor de sangue. Apesar de ser mais alto, Hans tem de fazer um esforço para acompanhar a passada do homenzinho. ‘Diga-me, porque não comprámos dentro do Mercado? As coisas pareciam ali tão mais limpas, tão mais bem apresentadas…’ ‘Não comprámos lá porque é preciso dar uma oportunidade aos de fora, àqueles que não têm licença de vender lá dentro.’ A distância não é grande, depressa chegam à entrada do hotel. Em cima, um grande cartaz anuncia: Clube Hotel, de Lage & Selig, Um dos melhores edifícios da cidade com fundas vistas para o mar, Próximo dos jardins e repartições públicas, Carros eléctricos à porta constantemente, Fornece em condições económicas, Serviço de cozinha à portuguesa e inglesa, Todo o pessoal europeu completamente habilitado, As mais higiénicas instalações de luxo e óptimas casas de banho.
Sobem os onze degraus e, na varanda, João Albasini estende-lhe a mão num gesto de despedida.
´Está entregue. Desculpe a pressa, mas tenho de passar ainda pela tipografia. Amanhã venho buscá-lo.´
Num impulso, Hans estende-lhe a papaia.
´Leve-a, dê-a às crianças lá em casa. Estarei amanhã à sua espera.´
João Albasini recebe a papaia sem uma palavra. Revira-a, observa as manchas e pisadelas que o levaram a recusá-la. Encolhe os ombros. Vira as costas e desce os degraus saltitando, pondo-se a caminhar velozmente pela avenida abaixo. É uma figura alegre e ágil, uma mão segurando a papaia e as folhas, a outra aconchegando o bolso dentro do qual leva o editorial.
* * *
Arruma as suas coisas no quarto, toma um banho e desce para jantar. Segue absorto os gestos dos criados que acendem, um a um, os candeeiros das mesas e das paredes. Inspira fundo. Sente no ar um leve cheiro a petróleo, acre.
São múltiplos os caminhos que tem na frente, o problema é que não consegue ver aonde vão dar. Glück sugeriu-lhe que começasse por um certo Rapsides, e que tivesse muito cuidado com ele. Todavia, para ter cuidado com ele, terá primeiro de o encontrar, o que sabe ser muito difícil!
Enrola pequenas migalhas de pão entre os dedos, sobre a toalha de linho, imune ao som dos talheres que começam a ouvir-se em volta, à agitação das primeiras mesas e ao passar atarefado dos criados com as bandejas ao ombro.
Pela descrição, Rapsides terá uma grossa cicatriz desde a orelha até à boca, uma cicatriz que lhe distorce e congela a expressão. Embora não o impedisse de manifestar as disposições mais gerais – se estava alegre ou irado, por exemplo – essa cicatriz tornava impossível saber de estados de alma mais finos como a ironia ou o sarcasmo. Difícil, portanto, pormo-nos em guarda. Hans que tivesse muito cuidado com esse tal Rapsides!
Manda retirar a sopa quase sem lhe tocar, mordisca o bife com as palavras de Glück a rondar-lhe as ideias. Acaba por desistir de comer. Está exausto. Pede um brandy. Pede também um fósforo para o charuto, que o criado, pressuroso, acende. Agradece e levanta-se, de cálice na mão, e é nessa altura que nota um aceno vindo de outra mesa, perto da janela.
Tal como haviam desaparecido no nada, do nada reaparecem as suas duas companheiras de viagem na Ferreira. Não tem pois como evitar dirigir-se-lhes.
A mais nova, Florence Greeff, é também a mais extrovertida. No barco, imitava as indisposições da esposa do pastor Gillet, interpelava o comandante segurando-lhe o braço com desconcertante intimidade e cercava o próprio Hans com embaraçantes jogos de palavras. Aqui, foi ela que acenou e é ela que, sem pejo, encara Hans de cima a baixo, como se procurasse avaliar que marcas um dia nesta cidade deixara na sua figura.
A seu lado, Natalie Korenico, mais marcada (conquanto se vejam nela traços de algum fulgor), é o símbolo da polida e conveniente distância.
Hans não vê naquela mesa o engenheiro do caminho-de-ferro e o recrutador de indígenas que, no barco, elas tão pomposamente anunciavam. Duvida agora que estes tenham alguma vez existido e suspeita que outra história correrá atrás daquelas belas máscaras. Por outro lado, a sua desconfiança leva-o a dar-se conta de que elas poderão vê-lo da mesma maneira. Também ele tem outra história correndo atrás da sua própria máscara, embora não saiba ainda bem qual seja. Albasini, Rapsides e, por detrás deles, Sebastian Glück. Não ousa, portanto, perguntar.
No sorriso irónico que não larga nunca os lábios de Florence Greeff, Hans vê confirmada a sua suposição: não há engenheiro algum, nem tão-pouco um recrutador de indígenas. Ela pergunta-lhe se já achou alguma possibilidade de negócio. Mas, como responder com a verdade a quem parece sustentar tão bem mentiras, ironias, duplos significados? Sobretudo depois de Florence, em resposta à sua anunciada intenção de dar um passeio, lhe dizer que tivesse cuidado com a noite; que aqui as ruas, por detrás da sua placidez, escondem muitas armadilhas.
Hans desvia o olhar por um momento, seguindo com ele um dos criados que tropeçou e quase deixava cair a bandeja. Acaba por responder que não, que não há ainda qualquer negócio em vista, que continua em sondagem, não sabe por quanto tempo. Afinal, um dia é muito pouco para se descobrirem os segredos de uma cidade; as possibilidades que, como ela própria deu a entender, as suas ruas encerram.
Cansa-se dos jogos de palavras, levanta-se. Precisa de ar. Pede licença às duas para se retirar. Chega à varanda e fica ali um tempo ouvindo os grilos e esperando uma lufada de ar fresco que não chega. O tempo abafado e os sons da noite trazem-lhe à lembrança um outro tempo, tão distante e ao mesmo tempo tão recente. Leva o cálice aos lábios, dá um trago fundo e sente um fogo alastrando velozmente pelas veias.
Larga o cálice no parapeito, desce os degraus e segue pela berma da avenida como se sentisse necessidade de fugir às casas e às luzes numa urgência de escuridão. Noutras circunstâncias, seria numa altura como esta que alguém se aproximava para lhe transmitir uma versão fantasiosa do passado de Glück. Versão que ele encararia com profundo cepticismo. Passa junto de dois ou três riquexós estacionados, cujos condutores, cansados de esperar um estrangeiro caprichoso que deles precisasse àquela hora, dormitam. De longe, um deles parecia Obede. A mesma silhueta. Mas é afinal mais gordo e velho. Hans transforma o gesto que quase ia fazendo num cumprimento impessoal.
´Boa noite.´
Estremunhados, os homens surpreendem-se. É natural que pensem ser alguém necessitado dos seus serviços. Que branco se daria ao trabalho de uma tal atenção a não ser que tivesse em vista uma corrida? Levantam-se, atabalhoados, cada qual querendo ser o primeiro a servir. Mas, para surpresa geral, Hans já vai adiante, sinal de que cumprimentou por cumprimentar.
Caminha depressa. No chão, um som cavo e uma ligeira vibração anunciam a passagem de um último eléctrico a recolher, vazio. Volta novamente a chuva, uma chuva miudinha que ora não se vê, ora – se lhe bate a luz de um candeeiro – é um pó de ouro descendo lentamente até ao chão. Na sua frente surge um muro caiado que lhe chega pelo ombro. Segue a eu lado até que este se interrompe, deixando ver, do outro lado de um velho portão enferrujado, um mato com cheiros ue fazem lembrar os cheiros que traz no pesadelo. Põe-lhe as mãos e o portão cede com um ruído de gonzos que fere o silêncio. Deixa a rua e penetra no capinzal, sem saber se é um amplo jardim maltratado, se o início do mato (não consegue ver-lhe os limites). Aqui e além, algumas árvores, mais capim. Caminha sempre, sentindo em volta uma natureza cada vez mais altiva e desgrenhada. Por vezes sobrevoam-no as copas negras das árvores e, perdido nesse labirinto alto, um morcego de voo cego e desvairado; outras, é simplesmente o céu húmido e quente. Esforça os olhos para não perder o caminho que pisa, cheio de curvas, mas sente um chão fofo debaixo dos pés, enlameado, sinal de que já o perdeu.
E se encontrasse o tal Rapsides nesta altura, o que lhe diria? Boa noite, o coronel Sebastian Glück sugeriu-me que falasse consigo? Um absurdo. Antes de o procurar terá portanto de saber bem o que quer dele, com que tom lhe falará.
Leva o resto do charuto aos lábios e sente-o molhado. Deita-o fora. Estranha cidade esta, onde a chuva vai e vem sem se fazer anunciar e que se deixa atravessar assim, até ao âmago, por um mato quase virgem (fortaleza recente mas já com fundas brechas). Sente, contudo, neste mato uma diferença em relação ao outro que ainda não consegue precisar. Será das luzes que por vezes descortina entre as árvores, mantendo a noite em respeito? Será dos sons, aqui mais delicados, distintos dos sons roucos e repentinos das feras, dos gritos agudos das aves de voo longo? Será do sopro constante de um vento que lá desconhecia limites e que aqui não passa de um suspiro?
Aguça o ouvido, à procura dessas diferenças, e é então que nota um estalido de ramos que não vê, um ofegar que não é o seu, um vulto que não sabe se é uma árvore retorcida.
´Quem está aí?´
Mas o único movimento é o das folhas vergadas pelo peso da chuva miúda, o único som é o do ranger dessas folhas quando se vergam. Logo em seguida chega-lhe um novo som, cortante, de vidros partidos a seus pés. Baixa-se, tacteia o chão e encontra, entre esses restos de garrafa, um bocado de papel. Desdobra-o. Quer lê-lo mas não tem fósforos. Olha em volta.
´Quem está aí?´
Outra vez o movimento das folhas e o som do seu farfalhar. O sopro do vento num capim que não se vê. No mato os acontecimentos eram repentinos e brutais; aqui, os mistérios são mais leves, mais rendilhados. Parece que vai voltar a chover.
Procura regressar por onde veio mas não dá com o caminho. Quase corre sobre o chão enlameado até descortinar o vulto comprido do muro. Segue ao longo dele, ofegante, parece-lhe que não acaba nunca. Dá enfim com o portão, fechado. Não se lembra de o ter fechado quando entrou. Será o mesmo portão? Empurra-o e ele não se move, sólido como uma rocha. Sente uma necessidade imperiosa de deixar aquele lugar. Trepa pelo muro, passa as pernas para o outro lado e, com um salto, está novamente na avenida. A chuva é já forte, embora quase silenciosa.
Volta-lhe a sensação de segurança. Examina os sapatos em baixo de um candeeiro, completamente enlameados. Aproveita a luz para ler o papel, onde está escrita uma única palavra:
´WENELA.´
Está encharcado. Pragueja, retomando apressadamente o caminho do hotel. Chega aos degraus e sente, mais do que vê, uma presença. Do outro lado da rua os condutores dormitam por baixo dos riquexós. Nenhum daqueles vultos parece ter acabado de chegar, em nenhum nota o ar ofegante de quem tivesse corrido atrás de si para lhe atirar uma garrafa com uma mensagem dentro. Levanta a cabeça para olhar uma janela vazia do primeiro andar.
Será que foi impressão sua ou estava ali, recortada contra a luz trémula do quarto, a silhueta de Florence Greeff? Será que imaginou, ou também ela está sofrendo o calor infernal deste Dezembro?
Entra, fingindo que não a viu.
(fim do 1º Capítulo)
Para ler o resto, compre-se o livro. 15 euros e já está na rua em Portugal. No resto da Lusospeak não sei.
Vejo-a ocasionalmente quando de manhã cedo vou passear a cadela, ou se, ao fim da tarde, vou à mercearia. Cruzamo-nos; eu no carro e ela a pé, com o filho nos braços. É nova, muito nova mesmo, aí pelos seus vinte anos mal medidos. O menino deve rondar os dois anos de idade. Mora ao fundo da rua íngreme que, a ocidente, ladeia a quinta que temos para os lados da Costa.
De manhã, vai ela subindo a ladeira com a mala a tiracolo, um saco na mão que, presumo, contenha a marmita com o almoço e lanche para o filho. Com o braço que lhe sobra abraça o filho que carrega ao colo. Ela franzina, cabelo comprido, rosto bonito e marcado já pela crueza da vida; o menino faz-me lembrar as ilustrações de um livro que tive na infância e que se chamava “O Pequeno Lorde”. Cabelos louros com ondulado de anjo, repousa a cabeça no ombro dela e olha o mundo com olhos inchados ainda pelo sono. As mãozinhas papudas rodeiam o pescoço da mãe, fazem-lhe uma festa ocasional no cabelo e movimentam-se a pontuar algo que lhe vai contando.
Sei que vão conversando um com o outro, não porque os ouça, mas porque lhes vejo o movimento dos gestos e o sorriso que lhe atravessa, a ela, o rosto cansado. Nada sei sobre eles, mas comovo-me sempre que me cruzo com a intimidade terna que, ladeira acima, ladeira abaixo, os une e envolve.
Mulher 2
Queria ser médica; a mãe era doente e o sonho dela era estudar muito e ser médica e descobrir um remédio que tirasse a mãe do sofrimento em que vivia.
Apurava-se nas aulas e veio um dia um senhor do Ministério da Educação que lhe falou da escola especial que havia lá na capital, para meninas como ela, que queriam ser médicas. Os pais desconfiaram de tanta esmola, mas ela insistia. Afinal o senhor não era um qualquer, era do Ministério da Educação, instituição idónea do governo que os libertara do jugo colonial. Os pais ainda renitentes quiseram conhecer o tal senhor. Sim, era verdade, tratava-se de um programa especial para jovens futuros quadros. Mostrou credencial e identificação. Ela chorou, insistiu, amuou, usou todas as armas que os catorze anos lhe punham à disposição até que, por fim, lá partiu rumo à capital embalada no sonho da escola de medicina pela voz do senhor do Ministério da Educação.
O edifício era grande, imponente, rodeado de altos muros. Para protecção, disseram-lhe, que o país ainda estava em guerra. Entrou. Era afinal um quartel, fez instrução militar e lutou durante 10 anos numa guerra que não entendia. Foi desmobilizada sem mais instrução que a que tinha aos catorze anos. Mas não desistiu. Afinal tinha agora 24 anos, era nova e tinha vontade.
Com mais instrução que a maioria das mulheres guerrilheiras, arregaçou as mangas e lutou pelos seus direitos e pelo reconhecimento do papel destas mulheres no destino do país. Matriculou-se no ensino à distância; aprendeu inglês; tirou um curso de assistência social. Casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina, todos a estudarem. Aprendeu a escrever propostas de financiamento, a falar com doadores, a argumentar com políticos, a discursar em seminários e conferências. Aos fins-de-semana ainda se junta com as amigas no pátio das traseiras da sua casa, onde se enfeitam com tranças e penteados, enquanto desenrolam as histórias da vida que lhes aconteceu. Esta mulher eu conheço: é minha amiga!
Mulher 3
Vamos chamar-lhe Ana porque na realidade pode ter um nome qualquer. É surda-muda e nada sabe contar sobre si mesma. Teve sorte a Ana, vive num orfanato de meninas que se pauta pela dedicação de quem lá trabalha. Quem lhe preencheu a ficha de inscrição, foi quem a baptizou. Aqui baptizo-a eu com o meu nome.
Tinha onze anos quando a polícia a encontrou a vaguear sozinha pelas ruas. Não tinha papéis consigo; fizeram-se apelos na rádio e na televisão. Ninguém se apresentou a reclamá-la.
Tem um rosto alegre, olhos vivos e inteligentes, é uma criança feliz. Brinca com as outras e desenvolveu a sua linguagem gestual muito própria, que lhe permite alguma comunicação funcional; entendem-se nas coisas do quotidiano, mas faltam-lhe os gestos para emoções e conceitos abstractos. Vai com as amigas à escola, para que não se sinta ainda mais diferente. Não escreve, desenha palavras, pois desconhece o conceito da palavra que copiou do gesto das amigas. O país dela é pobre e não tem escolas de ensino especial.
Com o consolidar das novas vivências vai-se perdendo a sua identidade. Porque a Ana não consegue comunicar como foi a sua vida até ser apanhada pela polícia; nasceu aos 11 anos de idade.
Mulher 4
Chama-se Palmira Marques e escreveu este poema sobre as mulheres timorenses:
Carregas no olhar
os azuis das montanhas,
onde as lágrimas secaram
e esperas…
esperas que regressem
aqueles que pereceram
às mãos dos ocupantes.
Sentada no tear
teces a tais
e silenciosa continuas a aguardar
que o teu filho, o teu pai, o teu irmão
voltem para casa,
porque a libertação já chegou!
Mulher timorense
com muito carinho
ergues altares e acendes velas
levas flores aos teus mortos:
ao Manelito,
ao Adelino,
e a tantos outros que pereceram…
Mas tu MULHER Timorense
com tuas mãos vais construir uma Nação!!
Nota de pé de página
Hoje é dia 8 de Março de 2010 e faz hoje 100 anos que se celebra o Dia Mundial da Mulher.