Há uns tempos atrás expressei alguma preocupação com algumas ocorrências visíveis na vida desta república portuguesa.
Nomeadamente, questionei-me, em voz alta, porque é que um juiz em Aveiro, que estava a gerir um processo judicial com o fim de apreender factos que confirmassem as suspeitas de negócios sujos, envolvendo pessoas que à partida deveríamos presumir estarem a agir de forma insuspeita, apanha, através desse trabalho, o que na altura apelidou, num requerimento, de “crime contra o estado de direito”.
Isto a menos de três meses de uma eleição com desfecho imprevisível (apesar de uma oposição reconhecidamente incapaz), no meio de uma crise económica sem precedente recente, e pouco depois de uma longa sequência de passos legais que mais uma vez deixaram no ar o que foi que aconteceu há uns anos atrás com a aprovação pelo governo de um grande centro comercial na margem sul do rio Tejo, chamado Freeport.
No entretanto, entre outros episódios algo rocambolescos, rolam as cabeças do Administrador de uma estação privada, da sua algo sonora mulher, que patrocinava um mordaz noticiário nas sextas-feiras à noite, e do respeitado director de um jornal de Lisboa que pertence à insuspeita Sonae. Surgem notícias de que uma companhia de telefones com sede em Lisboa expressa um súbito interesse “estratégico” pela compra da referida estação. Não aconteceria, mas a inexplicada decisão foi tomada de rescindir com o Administrador e marginalizar a senhora. Lentamente, alguma imprensa vai providenciando detalhes de todas estas operações, evidenciando longos tentáculos e milhões de euros na mesa, o que é curioso dada a clara crise que assola o sector da comunicação social portuguesa.
E, há pouco mais que uma semana, um jornalista que considero credenciado malgré os suados esforços de intoxicação ideológica por parte de um poeta equivocado e já relevado nesta casa, tomou a extraordinária iniciativa de, na primeira voz, basicamente tentar denunciar que havia uma “lista de abate” e que ele era o alvo a seguir. Para variar, o jornal onde esse libelo (um artigo de opinião assinado) era para sair, declinou a sua publicação.
Por coincidência, durante o fim de semana passado, o Sol, um semanário de Lisboa, seguido pelo mais popular Correio da Manhã, dão os detalhes ínfimos do que é que foi que o tal Senhor juíz de Aveiro ouviu e disse, que o levou a achar que estava a assistir ao que só poderei chamar uma conspiração, orquestrada a partir dos mais altos níveis do actual governo, de condicionar a imprensa portuguesa e o presidente de Portugal, em defesa dos seus interesses apercebidos.
Num sábado à noite, dois dos mais altos magistrados do país disseram que afinal estas provas não evidenciavam crime. E mandaram destruir os dados recolhidos – principalmente, registos telefónicos e e-mails.
A particularidade deste ambiente é que todo ele tem apenas um e o mesmo epicentro: a pessoa do actual primeiro-ministro de Portugal. José Sócrates.
Os seus detractores fazem-lhe várias acusações. Que é medíocre, falso, ditatorial, manipulador, apegado ao poder. Que não gosta de uma imprensa livre. No limite, que é criminoso. Por tabela, a mesma acusação pesa sobre os seus associados políticos.
Há algo no entanto que se torna evidente ao observador casual: a forma do exercício do poder depende de facto muito da personalidade daquele que o exerce.
Mas também depende de sobre quem ele é exercido e dos mecanismos (em inglês diria checks and balances) através dos quais é exercido.
E isso neste caso são todos os portugueses que o rodeiam e o sistema que emergiu após o pronunciamento militar feito em Abril de 1974.
Por três razões muito simples.
1. Tirando a perversãozinha operada por Oliveira Salazar durante mais que quarenta anos, o sistema constitucional e político que emergiu em 1974 é na verdade bastante semelhante ao que o precedeu, com raízes que remontam até 1820. Um parlamento é eleito que elege líderes que formam governos, os chefes de Estado (reis e presidentes) exercem um magistério de “moderação” perante os governos que lhes são apresentados. Ora isso significa que, não havendo uma maioria absoluta parlamentar, o exercício do poder é extremamente mitigado pela sua efectiva fragmentação e pela capacidade das oposições de bloquearem os programas. O mais que um presidente – qualquer presidente – pode fazer é pronunciar vagos apelos ao bom senso e ao “sentido de estado” – ou tornar-se ditador. D. Carlos e Sidónio foram assassinados com essa desculpa;
2. Portugal é totalmente viciado na governamentalização e burocratização de todos os aspectos da sua vida. Os portugueses dizem que não gostam mas no fundo gostam, adoram, a “mama” do Estado. Desde a mama das caravelas na Índia, à mama do Brasil, à mama de África e à mais recente mama dos fundos europeus. O negócio é o Estado e o Estado acaba por ser o negócio. Gostam de ver o estado metido em tudo, que o Estado decida tudo, que o Estado autorize tudo, que o Estado legisle tudo. Que o Estado pague tudo. Os resultados desta atitude são que o Estado em tudo está presente, em tudo decide, em tudo legisla, e, mais importante, desta atitude decorre que a quem gere o Estado são conferidos os mais extraordinários poderes que dilaceram qualquer hipótese de uma gravitação da vida nacional para as mãos dos cidadãos e das empresas e organizações que não são do Estado. Que por sua vez e por falta de melhor, optam por viver à sua sombra. Como corolário desta afirmação, aqui estamos em 2010 com um Estado que devassa e avassala e que está arruinado e ameaça arruinar, dando em troca aeroportos que não vai haver dinheiro para pagar, caminhos de ferro que não vão ser usados, auto-estradas que se calhar não são precisas agora, subsídios com dinheiro que não há, reformas que se calhar não foram merecidas e que de qualquer maneira não vão dar para a maioria dos que as recebem, viverem decentemente;
3. Decorrente do ponto anterior, existe a gestão de uma imensidão de entidades públicas, privadas e semi-públicas que são do Estado. Por razões ideológicas de sinal perfeitamente oposto, fez-se isso nos 35 anos antes de 1974 e nos 35 anos que se seguiram, o que diz muito. Inclusivé muitas das privatizações que se fizeram foram feitas a entidades escolhidas a dedo, com compadrios ou participações indirectas do Estado ou, como é o caso com, por exemplo, a PT, que, com umas mistificantes 500 golden shares, lhe conferem efectivamente o poder de fazer o que se quer quando se trata do governante. A companhia aérea portuguesa já custou centenas e centenas de milhões de euros aos contribuintes e a sangria continua. A RTP custa centenas de milhões de euros aos contribuintes mas ninguém protesta. Economicamente, Portugal sempre conviveu muito mal com o capitalismo liberal e a resposta sempre foi com mais intervenção estatal.
E quem manda nisso tudo?
Manda quem manda no Estado.
E é precisamente este o Portugal que o Sr. Sócrates, um seu filho pródigo, formado nas catacumbas de um PS que disputa o poder há 35 anos seguidos, herdou quando o Sr José Barroso arranjou um emprego melhor em Bruxelas e o Sr. Santana Lopes….nem sei bem o que Santana Lopes fez.
Sócrates herdou este Portugal com todos os instrumentos, todos os mecanismos, todos os vícios, todas as atitudes, todas as expectativas, todos os compadrios que vinham de trás. Ele é o patrão da TAP, da Caixa Geral, da EDP, da RTP, da Carris, ele é o adjudicador de todas as grandes obras de regime, o supremo legislador, o grande Decisor.
O Grande Patrão.
E as pessoas no fundo gostaram. O exmo leitor não se lembra? Estavam todas fartas de vários anos de falinhas mansas do Sr. Guterres mas principalmente da sua indesculpável indecisão. Este Sócrates decidia. Este sabia que tinha que decidir. E assim fez. O socialismo socratiano foi sempre, tem sido, uma vigorosa marcha em frente, mesmo que em direcção ao abismo, acompanhada de enorme aparato mediático, com nomes geniais como “programa de estabilidade e crescimento”, “novas oportunidades”, “plano tecnológico”, os ministros feitos vendedores de emplastros milagrosos em tempo nobre de televisão.
Em 2005, recorde.se, Portugal já estava em declínio há dez anos seguidos e com défices já considerados inaceitáveis. Cortou Sócrates as despesas? Não. Aumentou-as e subiu ainda mais os impostos, no que foi ajudado pela equipa de Paulo Macedo nos impostos. O povo, esse embebedava-se com dívidas e mais dívidas e o habitual mesmismo.
A seguir, em 2008, o mundo abanou devido à estupidez americana e o que fez Sócrates? Aumentou ainda mais as despesas e manteve os impostos. Havia eleições. O pais aproximou-se de uma situação insustentável. Mas não faz mal: os outros também estavam mal e por isso estava tudo bem.
Não havia oposição. Sentido o caos total no principal partido da oposição, o PSD, as hostes dividiram-se para um lado e para o outro. Na eleição de 27 de Setembro, o PP recebeu uns votos do lado direito e do outro lado apareceu, emparedado pelo inamovível PCP, mais uma esquerda chique, uma coisa chamada Bloco de Esquerda, dez por cento do voto nacional mas nem uma câmara municipal trinta dias mais tarde. Milagrosamente, certamente fruto da sua impenitente generosidade para com os funcionários públicos e toda a demagogia na face de tempos muito incertos, o partido socratiano ganhou a eleição mas perdeu a maioria absoluta no parlamento.
Ou melhor, havia alguma oposição. Mais ou menos. A oposição aparecia avulsamente em artigos de jornais, em programas de televisão, em debates, através de pessoas quase improváveis, como Medina Carreira, Rebelo de Sousa, Moura Guedes e Mário Crespo e uma pequena legião de jornalistas que tentavam seguir histórias como a tal do centro comercial Freeport, contra a mais fantástica resistência que já se viu ao apuramento da verdade, a justiça portuguesa quase a arrebentar pelas costuras devido às pressões. A atenção centrava-se em Sócrates himself.
Ora o Grande Patrão, o grande decisor que sabia agir, agiu tal e qual como o sistema era e lhe permitia. Ele não gostava de ser criticado desta forma na imprensa. E assim, munido de todos os instrumentos que o sistema lhe disponibiliza e dos poderes que o cargo lhe confere, ele não reconhece legitimidade a esse tipo de oposição e pelos vistos manifestou-se disposto a eliminá-la administrativa e discretamente.
Só se reparou porque, de imprevisto,no meio do verão, um juiz em Aveiro que estava a investigar uns vulgares crimes de corrupção começou a escutar uma sequência de conversas telefónicas que indicaram os vastos e subterrâneos tentáculos do poder em Portugal.
De quem é a responsabilidade disto tudo?
Para mim esta questão não se coloca.
Sócrates está feito para Portugal como Portugal está feito para ele.
Leitora amiga do ma-schamba acaba de me enviar o Guia Prático da Nova Ortografia. Para que eu me prepare – e tenho até 2012.
Selecciono [seleciono] este exemplo (que consta na página 6) do dito documento. Atentem (e muito em particular os leitores que praticam os sotaques portugueses): na coluna da direita está escrito, e envolto a vermelho: “o que não se pronuncia não se escreve“. Portanto, a partir de agora não se diz / não se escreve “colecção“/”coleccionador” mas sim “coleção“/”colecionador“; idem para “direcção“ / “direccional” que passa a “direção” / “direcional“; idem para “leccionar” / “leccionação” que passa a “lecionação” / “lecionação“. Escrever-se-á “ação” (não “acção“), “correção” (não “correcção“), “extração” (não “extracção“), “fração” (“fracção“), ”proteção” (não “protecção“), “reação” (não “reacção“), “seleção” (não “selecção“), “ato” (não “acto“), “ator” (“actor“), “atual” (não “actual“), “afeto” (não “afecto“), “arquitetura” (não “arquitectura“), “coletivo” (não “colectivo“), “detetar” (não “detectar“), “direto” (não “directo“), “diretor” (não “director“), “letivo” (não “lectivo“), “objetivo” (não “objectivo“), “projeto” (não “projecto“).
8 Fevereiro 2010 4:54 — por ma-schamba em Ma-Schamba
Cumprindo o que foi recentemente alvitrado podemos agora confirmar a integração no plantel do ma-schamba de um neo-blogador . Trata-se de Pedro Sá da Bandeira, também aqui identificado. Um reforço no qual depositamos tantas esperanças que justificam o nosso “esquecimento” da sua condição benfiquista (característica que não mais aqui será aflorada, como é óbvio). Sê bem-vindo. E diverte-te.
Agora que espero Invictus, de Clint Eastwood a angústia assalta-me. Coisa da idade, a descrença. Essa que me leva a duvidar (a desesperar?) de que ali cumprirei as minhas expectativas. Pois não poderiam elas ser mais altas. Como?, se se trata do modelo de realizador (o homem que sempre alumia), do melhor dos políticos (e dos homens?), do maior dos jogos?
Por isso vou acalmando a expectativa na companhia deste magnífico livro, que mão muito amiga me trouxe há algum tempo e que vivamente recomendo:
[Maria João Madeira (org.), Clint Eastwood: Um Homem com Passado, Lisboa, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2008]
Nele uma bela entrevista a Clint Eastwood (realizada por Nicolas Saada e Serge Toubiana), um conjunto de suas declarações sobre vários dos seus filmes (seleccionadas pela organizadora do livro), uma excelente “cinebiografia” do mestre também da autoria de M.J. Madeira (“O Contador de Histórias”), a sua cinematografia. E múltiplas fotografias. E ainda sete outros textos – os quais ainda não terminei – dedicados a Eastwood, e que chegam com a autoria de Manuel Cintra Ferreira, Fabien Gaffez, João Bonifácio, Vasco Câmara, Kent Jones, Luis Miguel Oliveira, Joana Ascensão (neste último caso um belíssimo texto em fotogramas) . Edição da Cinemateca, quem não tem o livro (nem as minhas maravilhosas amigas ofertadoras) faça o favor de ir lá comprar.
Ao lado da “Patisserie Versailles” há um Fotógrafo com estúdio aberto. Passo por lá frequentemente, a caminho do café de saco da pastelaria, único lugar onde tomo essa variante, aliás. Digamos que são hábitos antigos. Os “Estúdios Luís Soares” vão mostrando ao passante o seu trabalho que vai variando do retrato de infantes asseados com as roupas finas de Domingo, à noiva em pose relativamente estudada e iluminação adequada à circunstância, ou retratados de porte altivo ou com ar vagamente pensativo. Enfim, normalmente se tratam estes fotógrafos com algum desdém,mas aqui lhes presto devida vénia pela paciência e criatividade. Fazer do feio bonito não é tarefa de somenos.
Voltemos à rua e à montra que anuncia os “Estúdios Luís Soares”.
Devidamente emoldurada, uma foto daquilo que à 1ª vista podia ser confundido com um padrão dos descobrimentos e que, afinal, é tão somente, a imagem de uma espécie de obelisco com um galináceo no cimo. Ao lado, e igualmente emoldurado, um texto explicativo para tão bizarra imagem. Segue na íntegra.
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Historial sobre o Monumento à Galinha
Algures no norte de Moçambique, na província de Tete, a poucos quilómetros de Furacungo, capital da Região da Mucanga, onde começa um planalto que entra pela Zâmbia e o Malawi, foi construído, em pleno mato, longe de qualquer aldeia indígena, um monumento em honra das galinhas.
Esta homenagem deve-se ao facto, aliás verídico, do pessoal dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que ao chegar a esse local para aí fazer os estudos e prospecções necessários que levariam os caminhos de ferro à Zâmbia, a única coisa que encontraram para se sustentar foram as galinhas.
E, assim, esta empresa mandou o seu pessoal pelas aldeias da região com a finalidade de comprarem todas as galinhas, bem como trazerem as que encontravam no mato, para poderem se sustentar.
Foi de tal maneira a quantidade consumida que decidiram reunir todos os ossos dos galináceos, amassá-los com cimento, e erigir um monumento como gratidão às galinhas que os ajudaram a sobreviver.
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Ao mesmo tempo que agradeço a involuntária contribuição aos “Estúdios Luís Soares”, peço desculpa pela péssima qualidade da imagem obtida com a câmara manhosa do telefone.
7 Fevereiro 2010 7:30 — por ma-schamba em Julio Cortázar
Já que está ali na mesa uma empreitada dupla de Cortázar para ser resolvida sinalizo-lhe o início com esta deliciosa caricatura de Baptistão publicado originalmente no jornal Estado de São Paulo (já agora associada a um texto exactamente intitulado “Duplo Cortazar“), e que foi 3º prémio de caricatura do World Press Photo 2009 [reproduzida do livro World Press Photo, Top 50 2009]. E antes das leitura ambientar-me-ei com esta entrevista.
A leitora Adélia André simpaticamente enviou-nos várias reproduções de postais antigos de Lourenço Marques (reproduções anteriormente colocados neste sítio). Esta é matéria querida ao ma-schamba - e para os interessados lembro que ao longo dos anos fomos aqui colocando algumas reproduções, ligações a sítios e referências a livros sobre a iconografia antiga de Moçambique [categoria "Postais de Moçambique"]. Da colecção agora recebida deixo dois postais extremamente actuais – pois demonstrando que nem tudo é novidade:
["Acampamento de turistas boers na praia da Polana"]
[Nina Berbérova, A Acompanhadora, Ambar, 2003, tradução de António Pescada]
Sónetchka é a jovem pianista acompanhante da bem sucedida cantora Maria Nikoláevna Trávina. Feia, sem brilho, sem particular talento, esta filha ilegítima de uma modesta professora de piano parte com a sua protectora (a cantora) para Moscovo no tempo da revolução comunista. E daí para Paris, o exílio russo dos anos 20. Sempre presente o constante ciúme, nem sequer racionalizado, da pianista pela Trávina, à qual deve o desafogo. Um ciúme cego, manso, que a levará a tramar a perdição da sua protectora, ainda que tal não ocorra – nem para tal tem talento. A Trávina partirá, no seu sucesso musical e amoroso. Deixando-a para trás, e sem a ter realmente entendido, ela que é personagem vazia até da sua própria auto-compreensão. Do livro fica-me um eco da pobreza mental real, do vazio existente. De que nem nos apercebemos – o dos outros, o nosso próprio.
Há alguns dias atrás muito aqui se escreveu sobre o passado colonial português. Eu fui avançando a minha perspectiva sobre muitas das ideias – a maioria delas - que em Portugal ocorrem sobre o assunto: são mero material para falar (mal, obscuramente e por vezes desonestamente) sobre a actualidade. A esse propósito é interessante ver o que se passa nestes últimos dias: uma polémica política a propósito do jornalista Mário Crespo, sobre a qual não tenho particular ideia – li, na diagonal, algumas coisas escritas seja pelo próprio (aqui transcrito pelo ABM) seja em alguns blogs. Não leio os jornais onde Crespo escreve, não vejo a televisão onde Crespo trabalha, tenho dele uma muito distante imagem.
Mas o que me é particularmente significativo é como até para este caso se utiliza o passado colonial português, e de uma forma absolutamente típica. Que um blog como o Arrastão publique isto não chega a ser surpreendente – será apenas a confirmação daquilo a que o bloguista (também do Arrastão) Rui Bebiano considera os meus preconceitos. Mas ainda me surpreende que um homem como Eduardo Pitta, do Da Literatura, e a propósito da polémica entre o actual governo - de quem é apoiante - e o referido jornalista, suba a parada, vá à mesma arca e ensaie um assassinato de carácter associando Mário Crespo ao massacre de Wiryamu. O mal, e eu acho que o mal é para Eduardo Pitta, é que uma coisa destas já não é inacreditável. É mesmo acreditável. Vergonhosa e lamentavelmente acreditável.
Atrevimento óbvio de quem, a horas mortas e por involuntária insónia, aqui vem deixar um postal ilustrado de Moçambique. Desengane-se quem pensar que palmilhei o país de lés-a-lés ou sequer que conheço muito do seu território, só porque as minhas primeiras colaborações nesta “casa” são apontamentos moçambicanos. Nada disso, apenas uns rabiscos fotográficos de uma viagem demasiadamente curta com os quais tento justificar estes tempos no ma-schamba.
Desta feita,a estrela brilha desde Maputo e é o internacionalmente famoso Polana, Hotel Polana.
por ABM (Alcoentre, Sábado, 6 de Fevereiro de 2010)
A confirmação chegou num banal e-mail de um primo nos Açores à uma hora e quarenta minutos da madrugada do passado dia 14 de Janeiro de 2010 e concluiu um processo que eu começara muitos anos antes: a confirmação absoluta de quem era Constância, a jovem e elegante senhora cuja imagem aparece no topo deste texto, e que foi tirada em Agosto de 1892.
Há cerca de 118 anos, portanto.
De entre as informações sobre a genealogia familiar que obtive há quase trinta e cinco anos dos meus avós açorianos (bem, aquilo foi mais “extrair” que “obter”) e que visitei algumas vezes quando ainda vivia em Moçambique, há já algum tempo atrás referi aos exmos leitores uns detalhes curiosos sobre um tal Manuel Jacinto Lopes, que é meu tio-bisavô. Como referi na altura, do que descobri, o que me surpreendeu foi a mulher dele.
Mas confesso que, das pesquisas familiares que efectuei, a seguir a descobrir que os meus avós maternos se haviam conhecido e casado nos Estados Unidos da América nos anos 20 do século passado, onde estiveram emigrados alguns anos antes de regressarem a São Miguel, a descoberta mais fascinante de todas foi no que concerne a enigmática Constância.
Por três razões.
A primeira, foi que a minha avó paterna me ofereceu a fotografia de (então) uma tal “tia” Constância – a que está lá em cima – juntamente com algumas outras velhas fotos de família.
A segunda, foi que a minha mãe chegou a conhecer a senhora quando era menina nos anos 30. Lembrava-se dela perfeitamente. De tudo, desde a cor dos olhos, o sotaque, o sentido de humor, a cultura, etc. E que nunca se casara. Nessa altura Constância já era velhinha e morreria poucos anos depois.
A terceira foi que, confirmado pela minha mãe, a minha avó e agora pela minha tia paterna, Constância era mulata e falava com sotaque brasileiro.
Ora, para quem supunha ter sólidas raízes açorianas até aos primeiros colonos (estes, colonos mesmo) das ilhas açorianas no século XVI, e antes destes até obscura fidalguia do reino de Leão e Castela no Século XI, antes de Portugal existir como nação independente, a notícia de haver a possibilidade de uma raiz africana negra na família BM foi uma surpresa – uma grande surpresa. Uma total surpresa. Pois à partida não ocorria. Nada o aparentava e não havia registos que tal indicassem.
A primeira vez que ouvi dizer que Constância era mulata foi por puro acaso. Veio da boca de uma velha prima da minha avó paterna, que por acaso estava de visita a sua casa num sábado em fins de Agosto de 1975. Tinha eu 15 anos de idade e estava de férias no delapidado casarão de verão dos meus avós em Vila Franca do Campo, que fica perto do porto situado em frente ao Ilhéu da Vila. Esse casarão fora dos meus bisavós paternos, pais da mãe do pai BM.
Nessa tarde, lembrei-me de mostrar-lhe as fotografias que a minha avó tinha acabado de me dar, inocentemente, para ver se ela, sendo kokuana e portanto desses tempos, conhecia as pessoas ali retratadas. Quando eventualmente lhe exibi a fotografia da Constância, ela imediatamente disse que a conhecera muito bem, sim, que fora uma senhora muito culta, muito prendada, muito simpática, muito engraçada. E, mais baixinho, inclinando-se levemente na minha direcção, disse, “e, sabes, ela era mulata”. Quando ela me faz esta revelação, fiquei literalmente de boca aberta. Não era possível. Como era possível?! Uma mulata nos Açores naquela altura?
Olhei novamente para a fotografia. Olhei de seguida para os olhos azuis claros e cristalinos que brilhavam na face fina, rosada e elegante da velha prima Ernestina, agora mais sorridente pois via nos meus olhos arregalados a surpresa e a curiosidade suscitada pela sua revelação.
Confesso que não sou assim grande perito em termos de analisar os traços finos no que concerne a classificação das raças. Já em Moçambique, tendia a distinguir quatro ou cinco raças e fazia muito poucas distinções a partir daí. E, neste caso, a senhora na fotografia não me parecia nada de especial. Parecia-me, naquela pose rígida e distante, ser branca. Quero dizer, a foto está um pouco para o escuro e velha.
Mas a prima da minha avó foi categórica; “olha bem para o cabelo dela. O cabelo era carapinha”. E inclinou-se, segredando-me no ouvido novamente, baixinho, como que para ninguém ouvir, apesar de não estar rigorosamente ninguém na enorme sala de música naquele terceiro andar do poeirento palacete dos meus bisavós: “como os pretos.” (ela dizia a palavra no sotaque de São Miguel: “prâtos”).
Dei um salto e fui ter com a minha avó na cozinha, que ficava situada um andar abaixo e mais uma corrida por um longo corredor para as traseiras da casa. “Ò avó, a prima Ernestina (ah estes nomes antigos) diz que a tia Constância era mulata!”. A minha avó, que era enorme e tinha o porte de um lutador de sumo, e que era muito ciosa do seu estatuto de senhora na então sociedade açoriana, virou-se lentamente e fitou-me, silenciosa durante uns segundos. E após uma pausa, disse-me apenas: “sim, é verdade. Mas – ò rapazinho – aqui não se fala disso”.
Mas…então…ahh…mas…se a Constância era “tia” (minha não era) e era mulata, então isso significava que temos “prâtos” na família?! Então, ela era tia de quem? A minha avó deu-me uma resposta meio esfarrapada e fiquei na mesma. Pois nos Açores “não se falava disso”.
Pelos vistos estas questões de raça nos Açores do século XIX e XX eram assunto que não se discutia – mesmo. Não sei bem como era possível, dado que raça não é coisa que se esconde debaixo da cama, mas foi ao que assisti.
A resposta em maior detalhe, levei trinta e três anos para confirmar. E aponta para a existência de uma raiz africana na genealogia dos BM.
Ei-la.
A história é verdadeiramente fascinante.
De seu nome completo Constância Sinclética Botelho de Mendonça, ela era irmã do meu bisavô paterno, Francisco Botelho de Mendonça (pai da mãe do meu pai BM – a minha avó Clotilde) – que portanto também era mulato.
Recuemos uma geração. O pai de Constância – um meu trisavô – foi um açoriano que emigrou para o Brasil nas primeiras décadas do século XIX. Terá feito bom dinheiro no negócio de peles em Pernambuco, assim reza a lenda familiar.
Em meados do século, ele casou-se com uma senhora mulata, filha de uma escrava africana e de um branco, cujas identidades se desconhecem, em Pernambuco. Ali tiveram duas filhas, uma tal Gonegundes (de quem perdi o rasto) e Constância Sinclética.
Poucos anos mais tarde, subitamente, o meu trisavô açoriano contraiu tifo, doença que na altura invariavelmente era fatal. Doente, resolveu regressar aos Açores com a sua jovem família. Vendeu tudo o que tinha e fez-se aos Açores de barco, levando com ele baús cheios de haveres, prata e dinheiro. Quando embarcaram, a mulher dele (a minha trisavó) já estava grávida de um terceiro filho – o meu bisavô.
Durante a viagem, o meu trisavô morreu de tifo. Pelo que a Ponta Delgada chegaram a minha trisavó brasileira, já viúva, com duas filhas, e ainda grávida. Já em terra, ela deu à luz um bebé rapaz – o meu bisavô, a quem deu o nome de Francisco Botelho de Mendonça. Quando se confirmou que era um rapaz, e de acordo com a lei naquele tempo, parte dos bens que vieram do Brasil foram constituídos em herança do bebé e os baús contendo esses bens foram selados até que o jovem atingisse os 21 anos.
Ainda hoje, dado pela mãe BM, eu tenho um pequeno paliteiro de prata, que fazia parte da herança de Francisco, que viera do Brasil nessa viagem de barco e que esperou selada nos baús até ele ter idade para dela tomar posse.
Sendo jovem, a mãe de Sinclética, uma viúva com alguns bens, casou-se uma segunda vez em São Miguel com um membro da família Félix Machado e teve mais quatro filhos. Assim, os descendentes da família Félix Machado partilham este património genético com os BM.
Quando Francisco, que, como Constância e Gonugundes, já era filho de uma mulata com um branco, portanto um mulato “diluído” (não sei se há nomes especiais para estas coisas) atingiu a maioridade, casou com uma senhora cuja nome era, depois de casarem – e lá vamos nós outra vez com os nomes – a encantadora e culta Ludovina Amélia Lopes Botelho de Mendonça. Os apelidos já vieram depois do casamento.
Constância era, portanto, cunhada de Ludovina (irmã do Sr. Visconde da Palmeira) e viveu nos Açores, solteira, até à sua morte. Com o seu humor e distinto sotaque brasileiro.
Francisco e Ludovina tiveram duas filhas, Margarida e Clotilde, esta última a mãe do pai BM.
O meu pai.
E que viveram toda a vida no enorme e poeirento palacete em Vila Franca do Campo onde eu, num dia de verão em Agosto de 1975, me sentei na sala de música com a prima Ernestina e lhe mostrei uma velha foto.
6 Fevereiro 2010 3:10 — por ma-schamba em AL, Soltas
(por AL avó babada)
Queixam-se os meus co-maschambeiros dos meus posts de viagens e outras parvoíces afins, em detrimento de posts potencialmente mais interessantes sobre o que é ser avó. Insinuam mesmo que estarei eu, quiçá, numa fase de negação da provecta idade avoenga que me vai corroendo as juntas e as cruzes. Vou hoje falar do meu neto.
O Benjamim chegou dia 17 de Novembro de 2009 ao seio de uma família em êxtase com o acontecimento. Devidamente registado para se firmar bem na sua cepa; passou com nota máxima no teste do pézinho; já levou dois furos nos pneus, que o inocularam contra diversas doenças manhosas. Tem o sono dos justos e o feitio manso de alguém da família que não a avó. De Cascão não tem nada; adora o banho, onde aproveita para bicicletar com tal vigor que já andamos a pensar em adquirir aventais de plástico. Gosta da água bem quentinha e de tomar banho com vagar. Quando lhe apetece saborear melhor o seu banho, lambe as mãozinhas e alterna expressões de riso e alegria com a pura concentração do exercício físico extenuante que é, para ele (e para nós), o banho.
Não foi circuncidado. Não por qualquer razão ideológica ou religiosa, mas simplesmente porque não. De bens possui uma família babada e um guarda-roupa esmerado ainda que sem grifes ou marcas. Cá em casa não gostamos de fazer de bilboards para ninguém, ainda por mais pagando por isso! Era o que faltava!
É a cara da mãe, embora sendo eu a avó materna tal afirmação possa parecer suspeita. Mas se se vier a parecer com o pai, também não fica mal, pois é o pai dele um homem muito bem apessoado.
É tão lindo o meu neto Benjamim que até dói! São 60 cm de alegria pura e sem malícia, com um cheiro doce a leite. Duas amêndoas negras abrem-se para um mundo cheio de coisas novas a descobrir. Palra e ri-se agora, do alto dos seus 2 meses de vida. Olha-nos com a confiança de quem ainda só foi amado.
Gosto de empiná-lo ao meu ombro, por sobre o qual ele pode ver o globo terrestre com África estrategicamente posicionada no seu campo de visão. E conto-lhe então como vai ser quando fugirmos os dois para África, onde o vou deixar correr nu pela praia. Guuu, diz ele. Na maré baixa, vamos os dois apanhar amêijoas, digo-lhe baixinho. Grrrr responde ele em de-leite. Quando tiveres cinco anos já hás-de saber cortar cocos com uma catana, para a Avó beber coco lenho como ela tanto gosta. Guuu-grrrr ri ele na cumplicidade da pilhéria. Rimos os dois.
Depois conto-lhe que em Dezembro havemos de ir a Tete ver os embondeiros floridos e provar do seu fruto; vamos também ao Niassa para veres como é um mar de água doce. Chama-se lago. Guuuu responde ele já em planos de viagem. Em Nampula, havemos de aterrar por entre cabeços redondos e depois vamos para a Ilha. Aaaaaa, palreia ele. Havemos também de ir à Zambézia! Tantos coqueiros como nunca viste e colinas e um rio imenso que agora já tem ponte mas que a Avó ainda atravessou de batelão. Aaaaaa continua ele extasiadamente. E eu continuo a viajar na memória, agora por ele acompanhada, e conto-lhe do Tofo e da Barra, de Inhambane e do Morrungulo, de Magaruque, Benguerua, Sta Carolina e Bazaruto, subimos ao Ibo, passamos por Zanzibar e pernoitamos em Mombassa.
Juntos atravessamos a baía de Luanda e vamos banhar-nos no Mussulo. Quando tiveres seis anos hás-de começar a surfar; vamos até Cabo Ledo, para aí te iniciarmos. Depois subimos por aí fora e vamos a Timbuctu, compramos peixe em Mopti. Grrrr gaaaaa…. Havemos de ir ao Kruger cheirar o mato e ver os animais. Conto-lhe a história do cão do macaco e da vaca, que vão passear de machibombo.
E vão-se-lhe fechando os olhos no cansaço da viagem, até que adormece encostado no meu ombro. E nesse momento, também eu fico em paz.
por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)
Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.
Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.
A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.
Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.
Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.
Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.
Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.
Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.
O exmo. e caro Carlos Gil mandou uma mensagem tipo APB (all points bulletin) alertando para o trabalho, publicado num blogue na internet chamado Moçambicanismos, pelo Sr. Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard, que ali se descreve como tradutor e professor, 51 anos, residente na bela e explosiva cidade de Chimoio (não sei o nome antigo, JPT, ajuda!) desde 2006 (diz que esteve em Moçambique entre 1997 e 1999).
O trabalho que eu vi não é só um trabalho de amor: está excelentemente organizado e até tem método na loucura, ou seja, o autor descreve uma metodologia algo rigorosa para chegar ao que ele considera termos moçambicanos.
Um exemplo, desavergonhadamente copiado:
baneane n. m. 1. Hist. comerciante indiano das costas africanas do Índico; 2. por extensão, comerciante indiano
O dicionário Porto Editora regista a palavra, só no plural [?]. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende regista as variantes baniã e baniane. Ambas as obras dizem que a palavra vem do sânscrito, segundo Moçambicanismos, através do gujarati vaniyan, plural de vaniya, e, segundo o dicionário Porto Editora, através do hindu baniyan. A palavra banian também existe em inglês e o Concise Oxford concorda com a origem gujarati da palavra, de vaniyo “homem de casta de comerciantes”.
E mais um:
maningue adj. e adv. Fam. muito
Maningue é um dos moçambicanismos mais famosos, se não mesmo o mais famoso. O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam ambos a palavra. A palavra maningue é comum a várias línguas locais, como assinalam Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, dando o exemplo de manyingui na línguas tsonga. Mas sei que a palavra é também usada em ndau, por exemplo. Segundo estes autores, as palavras de línguas bantas de que deriva o maningue do português moçambicano vêm, por sua vez, do inglês many, “muito”. Todos os dicionários consideram maningue um advérbio, e o dicionário Porto Editora considera também que a palavra pode ser um pronome. Presumo que esta classificação de “pronome” corresponda à minha ingénua classificação de “adjectivo”(igual, aliás, à que propõem Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos) em frases como “estava lá maningue malta” ou “estavam lá maningues pessoas”.
E um que me surpreendeu:
monhé, muenhé adj. e n. indiano (de várias línguas do Norte do país e suaíli, monye e mweneye, “senhor”)
Eis uma palavra de origem moçambicana que se instalou no português europeu. Tal como em Portugal, o termo tem muitas vezes uma conotação pejorativa, o que não deixa de ser curioso dada a sua origem num tratamento de respeito.
Mas isto são apenas pérolas do espólio.
Para meu choque, esta jóia da cultura internética “só” teve quatro mil visitantes em três anos, o que é absolutamente injusto face ao que ali está, que é um tesouro daquela miscelânia linguística que se foi construindo pelas pessoas ao longo das décadas e dos séculos, desde que o Sr. Vasco da Gama e os seus seguidores ocuparam aquele pequeno porta-aviões de apoio às viagens para as Índias que se chama Ilha de Moçambique, há 515 anos (e cuja fortaleza aparece lá em cima).
Abusando a linguagem do dicionário, exorto os exmos leitores a darem uma vista de olhos a este trabalho ímpar de Vítor Lindegaard, dizendo que aquilo está maningue nice. Mesmo.
5 Fevereiro 2010 2:54 — por ma-schamba em MVF, Ma-Schamba
Acabo de chegar ao ma-shamba, contente e de boa saúde. Depois de morosas negociações, o desenlace foi o que o iniciador da cousa, o venerável amigo José, quis que fosse, ou seja, a minha modesta contribuição para o blogue. Note-se que o antes citado, se deslocou expressamente a Lisboa para fechar o contrato de elevado valor pecuniário.
E como começar, agradecendo o convite e a hospedagem, já que a amizade cumpre-se e não se agradece? Talvez com aquilo que penso fazer melhor. Assim, cá fica nesta 1ª contribuição, uma fotografia, inédita até agora. Nada como o ma-shamba para estreias universais, parece-me. Foi feita esta imagem aquando de fugaz passagem por Moçambique, no Xai Xai.
Para quem não tem reparado: de acordo com um discurso pouco noticiado, feito a semana passada pelo presidente Guebuza numa conferência da União Africana em Addis Abeba, entre 2000 e 2009, a penetração de telefones móveis junto da população em Moçambique passou de 0.5% para 26%.
Adicionalmente à posse e uso dos telefones móveis, acrescente-se a vasta rede de retransmissores que asseguram o serviço, a rede de linhas de fibra óptica cuja espinha dorsal já está a funcionar e que se vai extendendo às capitais das provincias.
Se tem havido revolução em Moçambique, a sua face visível tem sido claramente nesta área, com enorme impacto na vida das pessoas.
Sendo que os principais operadores – a TDM e a Mcel – são maioritariamente de capitais e gestão moçambicanas.
E a revolução nas comunicações vais prosseguir, com a entrada de mais um operador móvel e a ligação de Moçambique à internet ainda nos próximos dois anos através de uma ligação muito melhor do que a actual.
Nos próximos dez anos, a revolução será visível na ruralização do uso do telefone móvel, que ainda é um fenómeno maioritariamente urbano.
E daqui a dez anos os celulares não serão só telefones: serão também computadores.
5 Fevereiro 2010 1:41 — por ma-schamba em Ma-Schamba
Estamos já em condições de informar que o ma-schamba acaba de garantir dois reforços. Os respectivos passes bloguísticos foram algo dispendiosos mas estamos certos que o investimento colherá dividendos. Um desses novos machambeiros, cuja aquisição exigiu prolongadas negociações, está já em condições de ser anunciado: trata-se de Miguel Valle de Figueiredo (para pormaiores consultar aqui), um neo-blogador que – entre outras qualidades – apresenta um inamovível ânimo sportinguista. O segundo reforço está já garantido e será em breve anunciado. Para tal espera-se apenas a conclusão dos seus testes médicos.
VBM, leitora amiga do ma-schamba, manda-nos notícia do jornal Público: “Fóssil de antepassado comum a todos os mamíferos descoberto em Moçambique (cerca do Lago Niassa). Coisa de 250 milhões de anos – encontrado no chamado Graben de Metangula, local que aprendo na notícia será o único no país com fósseis anteriores a 65 milhões de anos. Acima o dito cujo, que após a sua análise, regressará com destino ao Museu Nacional de Geologia (na Av. 24 de Julho, Maputo) diz a notícia. E eu fico em dúvida, então um fóssil por ser pedra fica na Geologia ou na História Natural (museus de …)?
João Rocha: «Projecto Roquette liquidou o Sporting»
ANTIGO PRESIDENTE EM ENTREVISTA CONTROVERSA
Autor: JOÃO PEDRO ABECASIS (Jornal Record)
Data: Quarta-Feira, 15 Fevereiro de 2006
RECORD – Está preocupado com o Sporting a cerca de quatro meses de eleições?
JOÃO ROCHA – O Sporting está a atravessar a pior crise dos seus 100 anos. Convinha, no entanto, esclarecer, até porque os mais jovens não o sabem, que quando veio a revolução, os clubes passaram por uma crise muito grande, concretamente na altura do PREC. Eram, no fundo ‘presas’ a tomar de assalto. Criaram-se decretos e portarias à luz dos quais os jogadores se transferiam livremente, bastando uma carta. O Sporting passou essa crise colaborando em algo que era necessário, ou seja, apostando na massificação do desporto em Portugal. Não havia ginásios nem pavilhões e o Sporting começou por ter logo 15 mil atletas, um recorde. Nenhum clube da Europa o conseguia, nem o próprio Barcelona.
RECORD – Que acções foram levadas a cabo?
JOÃO ROCHA – Fizeram-se ginásios, pavilhões e compraram-se terrenos. Dinamizámos o desporto em Portugal. A ginástica foi de Norte a Sul do País com várias equipas. Promovemos as modalidades junto de entidades como os bombeiros, diversos tipos de associações, polícia, escolas, etc. Introduzimos em Portugal as artes marciais e a dinamização junto das instituições referidas foi a mesma.
RECORD – Disse-me que o clube comprou terrenos. Isso quer dizer que o património também cresceu?
JOÃO ROCHA – Começámos a ter um património invejável. Pagámos as dívidas do passado e sempre com dirigentes que nunca ganharam nada. Foram centenas de pessoas a participar neste projecto de servir o Sporting gratuitamente. O clube tem de estar grato a esses dirigentes que pagavam, inclusivamente, hotéis, e passes dos jogadores das modalidades de forma desinteressada. Com tudo isto, o Sporting passou a ter a primazia do desporto em Portugal e a ser a maior força desportiva nacional.
RECORD – Essa força foi consubstanciada em mais títulos do que os concorrentes?
JOÃO ROCHA – De tal forma que nos primeiros 10 anos após a revolução, o Sporting tinha 22 modalidades e ganhou 1.210 títulos nacionais e 52 Taças de Portugal. Conquistámos 8 taças europeias em 7 anos, tínhamos 105 mil sócios e, no futebol, entre campeonatos, Taças e Supertaças, o Sporting conquistou 8 títulos contra 10 do Benfica, 6 do FC Porto e 3 do Boavista. Conseguimos reconquistar o estatuto vivido, por exemplo, no tempo dos cinco violinos. Finalmente, juntando provas nacionais e europeias de alta competição, ganhámos 47 títulos contra 20 do Benfica e 13 do FC Porto, ou seja, mais do que os dois rivais juntos. Acrescente-se que mandámos uma equipa de ciclismo à Volta a França. Nenhuma equipa europeia com futebol o fez por duas vezes como nós. Foi importantíssimo para o país.
RECORD – Hoje em dia o panorama é, de facto, diferente. Como sente o clube?
JOÃO ROCHA – Quando saí, deixei o clube sem dívidas, com passivo zero, jogadores valorizados zero, estádio valorizado zero, tudo a preço zero e nada reavaliado. Além disso, 300 mil metros quadrados de construção aprovada, o que em termos actuais e se o Sporting tivesse sido administrado como deve ser, faziam dele hoje um dos maiores clubes da Europa. Só nesses 300 mil metros quadrados tinha um valor de 120 milhões de contos.
RECORD – Porque é que, na sua opinião, o Sporting não seguiu esse caminho ascendente?
JOÃO ROCHA – Eu saí. Não podia ficar, porque tinha uma doença grave. Nos últimos dois anos, já assistia deitado às reuniões da direcção. Só bebia leite e um médico americano disse-me que eu tinha de decidir entre a morte e o Sporting. Eu queria viver mais alguns anos e saí. Depois, o passivo foi aumentando ao longo dos anos, até que chegou José Roquette com o seu projecto.
RECORD – Um projecto que encheu de esperança todos os sportinguistas…
JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Ninguém soube o que era o projecto, porque ele não dizia. Sabia-se, apenas, que era uma dezena de sociedades, dirigentes e funcionários superiores a ganhar centenas de milhares de contos. O projecto foi reduzir os sócios de mais de 100 mil para pouco mais de 30 mil, foi acabar com as modalidades amadoras, foi vender património, foram dezenas e dezenas de milhões de contos de prejuízo que não aparecem nos resultados, porque parte deles foram executados pelo Sporting. No caso da SAD deram-se informações falsas aos associados e à própria CMVM para a entrada na bolsa.
RECORD – Comos se explica isso?
JOÃO ROCHA – O que lhe posso dizer é que era tudo tão bom que ele próprio, José Roquette, ia subscrever capital e a primeira coisa que fez quando saiu foi vender todas as acções da SAD que tinha comprado. Isto levou os sócios a perderem quase 14 milhões de contos só na subscrição e nos resultados negativos.
RECORD – Você assistiu a isso sem nenhum tipo de reacção?
JOÃO ROCHA – Antes pelo contrário. Numa assembleia da SAD e para defender os interesses do Sporting, lembrei que ao abrigo do Artº 35, a Sociedade tinha de acabar, mas havia uma possibilidade que era a reavaliação dos jogadores, repondo capital necessário na SAD para esta não ser extinta.
RECORD – Muito objectivamente, na sua opinião, José Roquette é o responsável pelo actual passivo do Sporting?
JOÃO ROCHA – O Projecto Roquette liquidou o Sporting. Disso já não restam dúvidas. Queria gerir o clube ditatorialmente e a primeira coisa que fez foi fechar as portas aos jornalistas nas assembleias gerais. No meu tempo, havia uma bancada só para os jornalistas. Não tínhamos receio de nada.
RECORD – Recordo-lhe que na altura da entrada de José Roquette foi dito por muitos elementos do universo leonino que o clube se encontrava em falência técnica. Lembra-se?
JOÃO ROCHA – Quando José Roquette entrou, o clube estava numa situação caótica, mas ele aceitou um passivo de 4 milhões de contos e, actualmente, ascende a 60 milhões de contos. É uma diferença enorme. Mas esse não é o grande problema. É preciso ter em conta os prejuízos, os quais foram colmatados com a venda de património e a reavaliação de todo o activo, incluindo jogadores. Esses prejuízos não foram contabilizados.
RECORD – Mas o clube também se valorizou patrimonialmente. Concorda?
JOÃO ROCHA – Fez-se a Academia e o estádio, mas nada disso é do Sporting. Mesmo que se venda aquilo que se está a propor vender, ainda vamos continuar a dever o estádio, que é fruto de compromissos com a banca e do contributo de alguns sócios que ajudaram em muitos milhares de contos, comprando lugares cativos.
RECORD – Um projecto totalmente falhado, no seu ponto de vista. Porquê?
JOÃO ROCHA – É muito simples. José Roquette julgava que o Sporting era uma operação tão fácil com a do Totta, em que ele, numa operação ilegal, ganhou 20 milhões de contos sem pagar um tostão de impostos e, ainda por cima, acabou por comprometer aquele que foi recentemente eleito Presidente da República, Cavaco Silva.
RECORD – Uma forte acusação. O que sabe desse processo?
JOÃO ROCHA – Não quero falar nisso neste momento, porque me interessa mais o Sporting.
RECORD – Lembro-me que durante o mandato de José Roquette,você se revoltou com acordos que nunca ficaram esclarecidos, nomeadamente entre o Sporting e o FC Porto. Quer revelar pormenores em relação a isso?
JOÃO ROCHA – Havia um projecto com o FC Porto que era muito prejudicial para o Sporting. Era mesmo inqualificável. Insurgi-me num Conselho Leonino e numa assembleia geral. Era um projecto gravíssimo que só podia sair da cabeça de um indivíduo sem responsabilidades. José Roquette dizia que era um projecto válido, porque era a única maneira de Sporting e FC Porto estarem sempre representados na Liga dos Campeões.
RECORD – Vai concretizar ou continuar a guardar trunfos?
JOÃO ROCHA – Não digo mais nada sobre isso. Foi falado no Conselho Leonino e eu disse ao líder da AG para mandar calar sobre essa informação, que foi longe demais. Disse-lhe ainda que o resumo do acordo com o FC Porto devia ser gravado de tão grave que era, porque talvez fosse necessário que essa gravação viesse a ser pública na defesa dos interesses do Sporting e dos seus sócios. Não vejo o desporto assim.
“Ter a mania dos justos, por exemplo, e embora eu opte pelos justos, pode ser fanatismo tão violento como a paixão pelos violentos.” (Rui Cinatti, “O Signo Marcado“, 1967, em “Manhã Imensa“, Assírio & Alvim, 1997 [1984], p. 61)
Em 1967 Ruy Cinnati, que penso não ter sido um scholar da left-wing, escrevia assim como se em memória descritiva para o poema “O Signo Marcado (para uma voz e coro)“, publicado em “Manhã Imensa” (Assírio & Alvim, 1997 [1984]):
“Tenho em minha casa uma estátua de S. João Baptista, julgo que dos princípios do século XIX, passável de factura, embora um tanto adocicada: fruta do tempo. Tomei-a como se fosse S. João Evangelista e no texto mantenho-a com esse nome. Um amigo trouxe-me da América um tomahawak para turista, artesanato dos índios Cherokee, Smoky Mountains, Apalaches. Não tendo encontrado lugar mais apropriado para ele, coloquei-o na mão direita do santo. O tomahawak, ou a sua imagem-símbolo – é importante distingui-lo por causa da moral activa … – está carregado de recordações de infância, quando eu lia o Texas Jack, série de novelas para rapazes que qualquer capelista exibia à entrada da porta, entre os anos 20 e 30.” (p. 59)
Um telefonema matinal de Portugal, um cinéfilo agradecimento mas com lamento incluso, a ABC daquele lado expressando-me as saudades, até ânsia, do hipnotizador tema musical do “Terceiro Homem”, e nisso concordo eu. Então está aqui. E nem foi preciso “dizer a frase”.
Se em passeio pelos blogs é recorrente ler referências ao argumento (não totalmente falso) que aponta a máquina fotográfica como instrumento de poder, instaurando não só o acto apropriador da imagem (identidade?) alheia como também auto-produtor de imagem própria. E ainda como barreira defensiva, entre um fotografador dono de devir e um fotografado mero objecto a dominar e nem tanto a conhecer. Tornado passivo em si mesmo. Entre ambos criando um hiato, até moral. Quando neste registo de discurso há (quase)sempre uma referência a teóricos (normalmente americanos ou sitos em torno da Ivy League).
Nessas alturas lembro-me sempre, entre outras, desta fotografia (pobre, como são as minhas). Há alguns anos andava eu na Ilha de Moçambique com a AL. E encontrando uns alfaiates (uma empresa de alfaiataria, melhor dizendo) fui/fomos apropriar-me das suas velhas Singer, ainda para mais ali labutando ao ar livre, postal sempre muito apetecível a quem chega. Muito acolhendo o ser fotografado o alfaiate mostrou-me o que lhe era relevante. Naquela nossa interlocução.
Mário Crespo, o único anchor a sério de uma cadeia de televisão que existe em Portugal em 2010 (made in Moçambique, ao contrário do outro, que é bom mas nada que se compare) escreveu um artigo de opinião muito sério que um jornal da cidade do Porto se recusou a publicar, pelo que ele saiu num obscuríssimo canto duma obscura fundação por obscura razão. Parece-me que o jornal do Porto perdeu um furo dos antigos. Vá-se lá entender.
O que ele escreveu:
Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.
O que eu acho que Mário Crespo na verdade queria dizer em vez do que escreveu em cima (ou complementarmente):
O outro dia a bater teclas para aqui de repente lembrei-me dos relógios de cuco de “O Terceiro Homem” (Carol Reed, 1949). Um maravilhoso soco contra o “politicamente correcto” (avant la lettre) saído da boca e da mente de Orson Welles, pois a tirada não estava no argumento original do filme protagonizado por Joseph Cotten mas que Welles abrilhantou. As maravilhas do youtube trazem-nos a casa:
Para quem não se lembre (ou nunca o tenha visto) o filme provém de uma história escrita por Graham Greene, a qual ascendeu a livro: O Terceiro Homem (aqui a edição portuguesa, Europa-América, 1977, tradução de Ana Maria Sampaio). E tendo-me lembrado da história lá fui mais uma vez reler o livro.
Já o sabia mas é sempre bom recordar isso. Este é um bom exemplo a utilizar contra os literatos furiosos que dizem ser um livro sempre melhor do que o filme que origina. Neste caso – como em tantos outros, onde nem atentamos no livro original, ali escondido no genérico – um pequeno livro originou um grande filme (é certo que com a ressalva que o texto foi escrito em função do filme): nele não está a espantosa Viena negra pós-guerra do filme nem tampouco a personagem do vilão tem a densidade e a verve, a crueza, que no filme adquiriu e a este deu fama.
Ainda assim é Greene, a culpa e a redenção como hipótese. E a falsa moralidade, um pouco. O protagonista Rollo Martins é um modesto escritor de policiais (um pouco um alter ego desvalorizado de Greene) que chega à Viena do pós-guerra, chamado por Lime o seu idolatrado amigo de juventude (Welles no filme). Para descobrir não só que este é um criminoso como apenas o quer usar, usando-se do apelo a uma afinal falsa amizade. Assim Rollo, e em nome de uma causa justa (Lime trafica medicamentos escassos), acaba por o matar. No fundo levado pela descoberta de não ser amado (amizado, seria melhor dito, mas não há em português). Onde está a culpa? A imoralidade? Com toda a certeza que em Rollo, inocente-sem-o-ser, aparente braço da justiça. E está tudo no princípio do livro, encapotado num ”Nunca nos habituamos a ser menos importantes para as outras pessoas do que elas são para nós” (23). Depois é uma história sobre o despeito, o ciúme entre homens.
Na galeria Kulungwana (na estação dos CFM) uma mostra colectiva organizada por Berry Bickle serve para assinalar o fim das férias, uma mescla heterogénea que bem merece a visita: Idasse, Shikhani, Sitoe, a própria Berry Bickle, Famós, Victor Sousa, Jorge Dias, Ulisses Oviedo e Malangatana. Gostei particularmente dos “rizomas” de Jorge Dias, um inteligente regresso às suas instalações, e da surpreendente (para ele excêntrica) obra de Sitoe.
Bem estava Malangatana, ali avisando que está de viagem até à Universidade de Évora, onde receberá o doutoramento honoris causa em meados deste mês. Apadrinhado por Marcelo Rebelo de Sousa, seu conhecimento bem antigo. Aqui fica a reprodução de um quadro dessa década
["Nu com Crucifixo", 1960]
Nota: Imagem reproduzida de Okwui Enwezor (org.), The Short Century. Independence and Liberation Movements in Africa, 1945-1994 (Prestel, 2001). Se pressionada aumenta, para melhor visibilidade.
Um número especial do Nouvel Observateur (nº 74, Jan-Fev 2010) dedicado a Claude Lévi-Strauss, interessantíssimo. Várias entrevistas (a Guy Dumour, em 1967; a Jean-Paul Enthoven e André Burguière em 1980, a Didier Eribon em 1984, 1988, 1989, 1991, 2002, e 2 em 1985, e, a Jérome Garcin em 1984) , artigos dedicados (François Wahl, Michel Izard, Jean-Paul Enthoven, André Burguière, Didier Eribon), fotografias amazónicas, textos do próprio (“O triângulo culinário”, “O etnólogo é um bricoleur“, “A biologia, ciência exemplar”, “Sobre Roman Jakobson”, “Sobre Michel Leiris”, “A crescente dificuldade de viver em conjunto”).
Retiro a seu propósito (mas não só?) um trecho significante do texto de Enthoven (1973): “Aujourd’hui, les dernières sociétés “sans histoire” disparaissent et, avec elles, Lévi-Strauss voit s’effacer la trace d’une sagesse dont nous avons perdu le sens et le secret. L’Autre devient le Même et la barbarie marchande et technicienne impose sa “paix blanche” à la surface de la terre. A force de le dire, l’ethnologie n’est plus que la forme savante d’une nostalgie trés ancienne et vaguement reactionnaire.” (p. 29)