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Mafalda no Festival BD na Amadora

por jpt, em 31.10.14

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Ontem fui ao Festival BD da Amadora, acompanhado da Mafalda cá de casa. Lá está uma breve exposição dedicada a "Mafalda", a propósito do cinquentenário. Uma das "tiras" afixadas é esta - a ter imenso a ver com o que passa na Lisboa de hoje, em vários sentidos, e até nos últimos postais deste ma-schamba.

 

Não há dúvida: "Mafalda" é o máximo. Viva Quino.

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publicado às 16:10

O tédio

por jpt, em 31.10.14

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Apanho alguns livros preciosos a meros 3 euros cada, diz-me a livreira ("Ler Devagar", na Fábrica Lx [nome oficial em inglês,claro, para ter "pinta", ser "cool"]) que devido à falência da distribuidora. O mal de uns é o bem de outros, por isso e assim venho com alguns, este um desses. Transcrevo um excerto, que me toca por me ser tão actual nesta minha mudança biográfica, o caldeirão aqui:

 

"A cultura pós-moderna, diferentemente da moderna, não é crítica nem rigorista, é performativa e transgénica, híbrida e permeável, quase já só tem corpo e sexo. O resultado: um enorme tédio, porque não se pode ir mais longe do que o corpo, e porque a banalização do gesto pretensamente extremo nos deixa cada vez mais indiferentes." (42)

 

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publicado às 15:56

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Texto para a edição de  29.10.2014 do "Canal de Moçambique"

 

Mais escasso ainda é o registo dos chamados livro-objecto, celebratórios e demonstrativos, inexistente mesmo se para além da capital. Seja porque sempre produtos de maiores custos na edição seja também pela pressão intelectual que as gentes da escrita têm, essa de exercer a análise crítica, quantas vezes esquecidos que não há crítica sem paixão, sem nos suspendermos face ao enleio inspirado, abraçado. E que depois, depois do namoro enlevado, se poderá olhar mais analiticamente para as características sociológicas e físicas, para os percursos anteriores e para os desejados.

 

Neste registo de namoro, saudável, convoco a atenção para este livro bilingue (em francês e português) “Voyage au Mozambique. Maputo” [“Viagem a Moçambique. Maputo”, claro], publicado em 2005 em França (editora Garde-Temps). Escrito por Pascal Lettelier, autor francês, sociólogo de formação, autor de textos de viagens em África, argumentista de cinema entre outras actividades, que aqui foi co-adjuvado por Jordanne Bertrand, jornalista que foi correspondente da Radio France Internationale em Moçambique durante quatro anos, e que neste livro foi responsável pelas curtas biografias incluídas. E um alargado leque de fotografias de Luís Basto, ilustrando esta cidade-Maputo festejada no livro.

 

(Texto completo aqui)

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publicado às 08:55

O "bom gosto"

por jpt, em 30.10.14

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Nos finais dos anos 80s o filme Pato com Laranja, uma coisa absolutamente anódina, foi censurada na RTP televisão estatal, por motivos do gosto directivo e de temores de ofensas à moral pública. A gente lembra-se disso de vez em quando, hoje por exemplo, mostra do quanto mudaram os costumes e de como há gente ridícula que ascende a postos - gente de quem rapidamente esquecemos os nomes (quem seriam os tipos que interromperam a difusão do filme? ...). Mas que, enquanto podem e enquanto os deixam, vão subsistindo, influenciando, manobrando. Neste pequeno registo-regime dos grupelhos de interesses, modus vivendi nacional.

 

Alimentam-se, sempre, do medo alheio. Que, como bem sabemos, abunda.

  

 

Fica aqui um bocadinho do rabiosque da Vitti - para dar hoje alento aos cientistas sociais portugueses.

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publicado às 00:17

Diário belga (2): grafitos

por jpt, em 29.10.14

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É o meu primeiro fim-de-semana em Bruxelas, algo frio ainda que mo digam caloroso, e é dia da bicicleta, dia sem carros. Saímos, calcorreamos um pouco até Montgomery (em versão estátua lá está o general, qual nosso Wellesley, dito também Wellington), avançamos até ao acolhedor Parque do Cinquentenário, encimado pelo Arco do Triunfo e edifícios adjacentes, um conjunto-calhau imponente no tamanho e desengraça.

 

Nos dias anteriores, que cheguei na terça, tenho caminhado por aqui, supreendido com a afabilidade das pessoas (talvez porque vim arrepiado com a rudeza lisboeta, confesso), agradado com a limpeza da cidade, não impolutamente ascética, mas vivida com elegância. Também das suas paredes, ainda que lá mais para os arrabaldes na via do empobrecimento encontre alguns, parcos, resquícios do desnorte dito afirmativo.

 

Aqui já no parque, no "arco triunfal" da colonial Bélgica (qu'aquilo é de 1880, do cinquentário da independência do país), entre os tantos passeantes que cruzam o marmóreo edifício noto, ainda ao longe, esta mancha. Estanco. É, nesta Brasília da Europa, a capital administrativa da UE, o primeiro traço português que encontro. O escarro grafitado ... "slb" em vermelho vivo. Arrepia-me, tanto como se outro qualquer clube note-se. Resmungo-o para a família, e para os amigos que nos ombreiam. Aproximo-me, telemóvel na mão, registando. 

 

Ali, no impoluto monumento, entre o aprazível prado que é o grande parque, vou encontrar mais resquícios dos meus patrícios, mais ditos grafitados. Fotografo-os, enojado com as minhas gentes. Os boçais que por aqui andaram. E eu não terei sido o primeiro português aqui a passar, decerto que avisadas foram instituições portuguesas, as quais poderiam tratar, em registo de afabilidade, de se oferecerem para limpar isto (o próprio Benfica, congenerizando-se com o Anderlecht; a Câmara de Lisboa, ainda que  o seu presidente navegue numa cidade grafitada, e ele próprio induza esta "expressão artística"; até a secretaria de estado da cultura, se por acaso ainda subsiste). Não como se substituindo-se aos de lá, apenas mostrando que nem tudo nem todos somos assim.

 

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Já o disse, é o dia sem bicicletas. Passearemos todo o dia, por esta Bruxelas central. Sem grafitis, ou grafitos ou lá como gostam de dizer. O único lixo que encontro é este, o dos patrícios que se sentem "livres", livres de se expressarem, de serem significantes. Sendo, realmente, insignificantes. Como insignificam aqueles a quem foi delegado o poder de lhes balizar a "expressão" legítima.

 

NOTA: Este postal estava em "rascunho". Coloco-o hoje quando tomo conhecimento da inaceitável retirada de circulação de uma revista "Análise Social" devido a incluir um artigo sobre grafitis em Lisboa. Mas tendo consciência de que se esta atitude é completamente contrária ao "ethos" científico e democraticamente errada temos que nos perguntar, até com acinte, sobre esta tendência analítica, tão recorrente: a de bisturizar o real social para dele retirarmos os conteúdos que nos permitam panfletizar os nossos propósitos ideológicos. Mas atenção, isto, este mero panfletarismo (típico do esquerdismo-providência português) é denunciável. Até censurável - no sentido de criticável. Mas nunca censurável - no sentido de apagável. 

 

Pois para apagar há muito. Este lixo visual que cobre Portugal. E, já agora, a infecta mancha colocada no monumento estrangeiro por uns imbecis que levam a nacionalidade portuguesa.

 

 

 

 

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publicado às 14:57

Sem tema...

por AL, em 28.10.14

... mas com cores! Ao vivo! Angola em Toronto - exposição individual do Miguel Barros, ele também nestas paragens mais árcticas. Ide, ide ver a página dele que vale a pena!

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“ If you’re quiet, you’re not living. You’ve got to be noisy and colorful and lively.”

Mel Brooks

 

“Esta exposição é uma chegada, uma partida, uma síntese do meu trabalho e percurso inspirado pelas minhas viagens.

Uma reflexão intima, o espelho do meu dia a dia. Um diário de cor.”

Miguel Barros

 

O publico, presenteado com um espaço amplo e repleto por uma palete de cores intensas que o artista não se acanha em usar e abusar. Cores garridas, texturas e dimensões volúveis que não deixam o espectador indiferente na mesma forma em que o artista não ficou indiferente aos detalhes do quotidiano.

 Cada tela e um portal que convida o publico a vasculhar e interpretar a alma do artista. Instantes que numa fracção do tempo foram privados e que agora são desvendados e presenteados ao publico. Registos fotográficos absorvidos por pinceladas abstractas do artista Miguel Barros.

 Podemos definir pelo trabalho e composição apresentada que a capacidade do artista para observar o mundo, mesmo quando inserido numa realidade como a de Angola com grandes discrepâncias sociais (pais onde viveu seis anos antes de se mudar para Calgary) e de uma postura optimista e positiva mas não alheia.

Retalhos do dia a dia costurados e remendados que constroem uma vida, um percurso envolto num optimismo contagiante.

Ora e visível a tendência e opção de Miguel Barros de escapar ao cinzento, aborrecido e conturbado destino. Isto faz deste artista um crente no Free Will. O esforço natural em enxergar o belo até numa poça de lama e transmitir essa imagem através da aplicação de texturas, plissados e sobreposição de retalhos reciclados a partir de tecidos esquecidos e agora com um novo propósito aplicados a sua obra.

No entanto a realidade e um misto diário de positivo e negativo, feio e belo, prazer e dor. Este registo real no quotidiano de todos nos não ficou esquecido neste projecto sendo apresentado ao publico capturado e confinado numa caixa de acrílico que apesar de selada não oculta completamente o seu conteúdo (no seu interior repousa uma tela que absorveu o negativismo tingida de negro, branco e laivos de prata confinada a um espaço pré-definido pelo artista).

O artista não brinca de Deus mas exemplifica ao publico que existe sempre a opção de escolha. Que a vida e uma composição de Yin e Yang, sempre regida pelas decisões que cada um de nos abraçámos. Sempre consciente que a vida e uma composição de retalhos e opções individuais.

Raquel Vilhena

Directora de Arte/Curadora

Walnut Contemporary Gallery

Toronto/Canada

 

AL

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publicado às 15:38

 

 

 

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Regularmente os mais desiludidos ou mais irados com o andar deste Portugal convocam as citações de Eça de Queirós, assim invectivando esta "choldra" de país e gente, como lhes parece ser timbre do escritor. É precioso este naco que reli há pouco, isso de como Eça pintava o "choldrismo" e os invectivadores da "choldra". Esses que ainda polvilham o país, nos seus ridículos ademanes próprios de quem vem de Celorico.

 

Pois Ega, esse que sempre anunciando a obra que mudará o panorama português, “O Atomo”, mas que nunca virá a surgir, acaba de chegar a Lisboa, vindo de Celorico por súplicas da mãe, convicta que ele ali, nos seus modernos modos, convocava as pragas, provocando a epidemia de “anginas diphtericas” que por lá surgiu, e narra a Carlos da Maia: “e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja alli chamando a ira divina …” (160).

 

Carlos olha o amigo recém-chegado: “mirava aquellas luvas do Ega, e as polainas de casemira; e o cabelo que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata de setim uma ferradura de opalas … um Ega dandy, vistoso, paramentado, artificial e com pó d’arroz” e com um “extraordinario casaco”. Pois “Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa pelliça de principe russo, agasalho de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço esganiçado e dos pulsos de tysico uma rica e fôfa espessura de pelles de marta.

 

- É uma boa pelliça, hein?, disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss … Benefícios da epidemia.” (160-1)

 

Depois segue a conversa (é quando se introduzem as personagens Craft e o casal Cohen). De súbito Ega "Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.

 

- O quê! Tu não trazias nada por baixo? – exclamou Carlos. Nem collete?

 

- Não, então não a podia aguentar … Isto é para o effeito moral, para impressionar o indígena … Mas, não ha negal-o, é pesada!” (165)

 

Pouco depois, nesses trajes então menores, Ega reflecte e diagnostica Portugal e seus portugueses: - “Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se que é em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo, industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos carissima com os direitos de alfandega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas … Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem cavalheiros, se suppõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha de patrão … Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a charuteira?” (166-167)

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publicado às 06:19

As eleições do Brasil

por jpt, em 27.10.14

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(Quase) nada sei sobre o Brasil actual, assim como se a minha curiosidade vá de férias aquando sobre o país, sei lá porquê ... De quando em vez acciono no youtube um "Seu Jorge" de boa voz e ritmo, li e pouco gostei um escritor Buarque de Hollanda (reaccionário demais para o meu conservadorismo), li e gostei de Hatoum, li mas não é "a minha praia" Bernardo Carvalho, e não me lembro, honestamente, de qualquer outra pista que tenha obtido neste milénio. Ao longo dos anos fiz dois ou três amigos brasileiros mas pouco (ou mesmo nada) falamos sobre o país deles, centrados que estamos quando juntos nesse outro grande país austral que bem conhecemos.

 

Por isso pouco ou nada liguei às eleições brasileiras. Para quê opinar ou, pior do que tudo, tomar partido sobre algo que não se conhece? Ainda para mais num contexto político onde abunda a transversal influência dessas diabólicas seitas cristãs, malandragem encartada? Mas acabo agora de ouvir na rádio um breve excerto do discurso final do candidato derrotado Aécio Neves onde ele, como é saudável protocolo, saudava Dilma Roussef, a "presidente" eleita.

 

E nisso lamento a sua derrota. Pois, e repito, mesmo quase nada sabendo do que se passa naquele país, por esse mundo político afora pouco há que mais asco me cause do que a torpe demagogia daquilo da "PresidentA" que Roussef e seus sequazes andam para aí a apregoar. E que alguns colonizados mentais portugueses logo se aprestam a regurgitar ...

 

Mas, mais importante do que tudo, que a PresidentE reeleita seja benéfica para o seu país. Que reduza o abate, claro, em primeiro lugar. E, já agora, que o Brasil não seja tão agora-colonial naquilo da prosápia do Sul-Sul.

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publicado às 09:15

Comunicação em Lisboa

por jpt, em 27.10.14

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publicado às 06:00

A última viagem a Nelspruit (1)

por jpt, em 26.10.14

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Era a última vez que íamos a Nelspruit, partiríamos de Moçambique na semana seguinte. Em Lebombo encontrámos o Sérgio, na mesma senda. Depois ele esperou por nós na portagem de Malelane desafiando-me para seguirmos por Barbeton, meros 50 kms a mais para escapar às malfadadas (e quase eternas) obras na N4. Há mais de uma década que não ia para ali e assim, até para a Carolina conhecer um bocadinho mais, segui-o. E, pouco depois, logo ali, apanhámos na estrada esta cultura, uma fileira belíssima. Bela última ida-e-volta-no-mesmo-dia, obrigado Sérgio.

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publicado às 02:28

No feedly (18)

por jpt, em 24.10.14

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[Memória de outras sensibilidades]

 

- "AmadoraBD/2014 - 25º Festival Internacional de BD", com programa do festival, no Divulgando Banda Desenhada.

 

- "Um país que não sabe dar-se ao respeito", no Portugal dos Pequeninos.

 

- "Montini", também no Portugal dos Pequeninos - um texto obrigatório para aqueles como eu, ateus.

 

- "Dezasseis anos depois", no A Terceira Noite.

 

- "Um história da América" (sobre The Band), no Provas de Contacto.

 

- "Alguns dados para compreender a crise da construção em Portugal", no A Barriga de um Arquitecto.

 

- "4 fotógrafos de Moçambique", nota de uma exposição em Lisboa, no Alexandre Pomar.

 

- "Isto tem que mudar", no Antologia do Esquecimento.

 

- "Entrevista [de António Barreto] ao Diário de Notícias", transcrita no Jacarandá.

 

- "A morte do ocidente é manifestamente exagerada", no Banda Larga.

 

- e "Diplomacia económica", um texto de fôlego, no ... ou quatro coisas (o outro blog de Seixas da Costa). 

 

 

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publicado às 14:33

Tofinho

por jpt, em 24.10.14

 

Só o Tofinho. Pois morreu hoje uma amiga que adorava esta praia 

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publicado às 11:27

As eleições moçambicanas

por jpt, em 24.10.14

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Amigos escrevem-me, resmungado com o meu postal sobre o assunto, dizendo-me excessivamente optimista, até petulante negligé. Com efeito, passada uma semana, sem resultados oficiais proclamados, com evidência de várias confusões no processo de apuramento e, talvez pior do que tudo, com a anúncio de algumas votações perfeitamente "albanesas" em pequenas localidades, tudo se acinzenta.

 

Eu continuo a pensar o que então botei. Que o Frelimo, apesar de governar já há quarenta anos no meio de grandes dificuldades, endo e exo-causadas, e de ter na actualidade características sociológicas bem diversas daquelas que a fundaram e corporizaram, continua a ser o partido mais representativo e recolector de adesões. Algo que, olhado de fora, até pode ser surpreendente se comparado com tantos outros países, onde os poderes são sistematicamente punidos pelos eleitorados. Algo que se prende com a realidade moçambicana, e isso também no sentido de lhe encontrar profundas fragilidades nas oposições. E, até por isto mesmo, não precisam os seus quadros de promover estas derivas adversas ao princípio "uma pessoa, um voto". O qual é um bom princípio: não é sagrado, não é a panaceia para ultrapassar as dificuldades do país, mas é um (entre outros) factor do tão necessário desenvolvimento.

 

No meio disto tudo leio críticas às missões internacionais de observação eleitoral. Não acompanhei as declarações dos responsáveis destas, não posso pronunciar-me sobre o conteúdo de tais críticas. Mas a emergência de tais críticas denunciam, pelo menos, um problema comunicacional dessas missões. Cuja função legitimadora passa também por uma particular competência de comunicação para com a sociedade em período eleitoral. Ou seja, não são responsáveis pelo processo eleitoral (nestes casos mais rotineiros), não têm tutela para intervir executivamente a priori e a posteriori sobre as votações. Mas são totalmente responsáveis pelo sopesar daquilo que comunicam e dos efeitos internos que isso provoca.

 

No meio da polémica instalada lembrei-me de um texto que escrevi em tempos, (também) sobre a minha participação em várias missões internacionais de observação eleitoral. E onde botava também sobre a minha nada sagrada concepção de democracia e de eleições. Quem tiver paciência para um texto mais longo pode ver este "O Antropólogo Engajado: reflexões sobre a participação em processos de democratização". 

 

E espero que os que resmungaram com o meu texto anterior sobre estas eleições possam ali enquadrar a minha posição.

 

Também espero, e muito mais, que os resultados sejam anunciados em breve. E que colham aceitação promovendo a pacífica legitimidade do novo governo. E que este seja (em qualquer configuração que brote) o melhor possível. Que o país precisa. E merece.

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publicado às 07:06

Hoje recomendo

por AL, em 23.10.14

Pois o sítio onde estou é muito lindo, mas a internet é uma m**** ésséqué uma grande verdade! É irreverentemente inconstante num constante estou-nãoestou-estou-nãoestou e quando está vem tão fraca que mal consegue sair do router. Uma mal portada! O positivo desta lentidão e inconstância é que o que me cai no Feedly dura e dura e dura. Isto tudo para justificar não um, mas sim três postais da minha (e nossa, do blog) amiga Helena: um sobre reciclagem em Maputo e dois sobre uzomes. Já agora aproveitem e leiam o blog dela que não perdem tempo – vale mesmo a pena!

Já disse que o sítio onde estou é muito lindo?

AL

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publicado às 19:59

Coisas da Colômbia do Norte

por AL, em 23.10.14

Pois o sítio onde estou é muito lindo ah poizé!, com árvores enormes que se chamam áceres (mas aqui sem xarope que não faz frio suficiente), pinheiros e cedros e quase tão grandes como as sequoias que vi em Oregon quando lá estive. Para onde quer que me vire, vejo árvores, riachos, musgo, praia, mar... De lá de baixo da praia e da varanda aqui da cabana vêem-se algumas das montanhas das Rocky Mountains e nos dias melhores consegue ver-se o pico nevado de Mount Baker que fica a centenas de quilómetros daqui. Ópraiele aqui:

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Tirando a vegetação, muita coisa aqui me lembra África, se é que posso incluir assim neste genérico a diversidade de países que compõem o continente. Mas fiquemos por aqui e deixem-me dizer África. Temos árvores dos antepassados – a minha vizinha do lado, que é uma querida e que tem “boa pessoa” escrito na cara, vai ocasionalmente falar com a avó dela que já morreu há muitos anos e que encarnou numa árvore grande ali em baixo ao pé do riacho. E há outros como ela, com árvores-marido, árvores-filha, etc, que parece que as árvores aqui não são esquisitas em relações familiares. Quando lhes falei na árvore dos antepassados lá em Moçambique, disseram “que exótico” e começaram a falar de coisas que viram no National Geographic. (facepalm, facepalm!)

 

As pessoas aqui quando estão doentes também vão primeiro ao curandeiro e só depois é que vão ao médico, se forem! Mas os curandeiros aqui não se chamam assim, chamam-se técnicos de reiki, terapeuta craniossacral (não perguntem que não faço ideia do que seja e quando ouvi pela primeira vez mencionado aqui julguei que era um bolo), naturopatas, xamãs, homeopatetas e outros nomes que não sei dizer bem. Depois vão para casa e fazem poções com açafrão das índias e gengibre e outras plantas e raízes que não sei o nome, que são raladas, maceradas, descascadas, pulverizadas e deixam um cheiro e um sabor horríveis mas que parece que são melhores que qualquer xarope das farmácias. Se depois de muita mezinha e muita terapia a coisa não melhorar, então lá fazem o favor de ir ao hospital onde geralmente acabam por ficar alguns dias devido à gravidade da situação. (Juro que não estou a inventar, aconteceu no outro dia com o vizinho que mora ali mais abaixo do carreiro que vem dar à nossa cabana e com a vizinha boa pessoa há uns meses, contou-nos ela)

Aqui também fazem rituais, mas chamam-lhes bênção das águas, cerimónia da lua cheia e outro nome que não sei dizer e que cheguei a pensar que era uma sauna mas afinal não era e também incluem danças e tambores. E gente num círculo e lume nas pedras e todos a dizerem ommmmmm.

 

A coisa onde isto é muito diferente de África é que aqui as pessoas em vez de terem filhos, têm animais. E depois têm tudo igual como e fosse para os filhos: têm um grupo para convívio dos cães que se reúne todos os dias lá em baixo no pomar orgânico (que tem umas maçãs tão raquíticas que eu pensava que eram ameixas pequenas) para os cães brincarem com os amiguinhos. Levam os cães e os brinquedos deles e depois podem trocar e levar emprestado e assim. Enquanto os cães brincam, os “pais” (são eles que dizem, os donos, não sou eu) debatem se devem deixar ou não os canitos verem televisão por causa do consumerismo (ouvi eu com estes que a terra há-de comer) e combinaram ontem quais os “treats” que iriam ter para os canitos no Halloween. Parece que manda a tradição aqui que se vistam os cães e se vá de casa em casa fazer o trick or treat. Discutem os problemas psicológicos dos animais e qual o melhor curandeiro para a ansiedade do Bobby ou o eczema da Lulu. Ou um dentista para a Suki que está a ficar velha e não consegue roer bem a carne. Que os cães comem, mas que os donos (ou os “pais”) geralmente não comem porque são contra a crueldade com os animais (mas, há alguém a favor?) e só é crueldade para a vaca (ou galinha) morta  se for para nós humanos comermos, mas se forem os cães não faz mal, deixou de ser crueldade. Também parece que afinal semi-domesticar um animal selvagem não é crueldade nem é nada muito grave e por isso os vizinhos espalham ração nos terrenos para os veados virem até nós (já que não há criancinhas...).

 

Portanto, dizia eu, que o sítio onde estou é muito lindo, o ar muito puro, o silêncio ideal para trabalho (que tenho feito afincadamente). Felizmente tenho imenso trabalho para me distrair. Sim, porque foi preciso vir aqui para perceber que esta coisa da natureza para mim é como o inverno – é bom durante uma semana ou duas e depois cansa. E agora vou ali num instante cheirar o escape de um automóvel que estou à beira de uma overdose de clorofila.

AL

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publicado às 17:34


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