Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



... aqui ficam duas sugestões, mas sem cavalo e sem cavalgadura:

  1. O João Hasselberg, família aqui da casa, acaba de editar o seu novo álbum. Ide, ide ouvir e comprai o álbum que o Natal esta à porta. Bom e barato como não há! Deixo aqui um amiuzebuche (espero que funcione, diz ela pouco segura)
  2. Não é novidade que aqui na cooperativa gostamos de BD e de cartoons. Deixo aqui este sítio para vosso brauzingue.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:15

Welcome to Africa

por PSB, em 25.11.14

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:56

As coisas que me ocorrem!

por AL, em 25.11.14

Que raiva! Logo tudo isto excitante e leve tinha que acontecer enquanto eu ando aqui pelo Árctico a levar com doses excessivas de frio e clorofila! Aqui não me chegam televisão, nem rádio, nem sequer metade das notícias e comentos; vou tentando perceber o que se passa através dos meus companheiros da cooperativa e de um ou outro artigo/blog a que vou conseguindo aceder.

Posso, portanto, estar completamente errada mas sabem o que me veio à cabeça quando vi a fotografia do advogado do dito-cujo-carcará-sanguinolento, com o ar mais chateado desta vida, encostado a uma coluna dum qualquer tribunal, a fumar um cigarro e a borrifar-se para o politicamente correcto? Este senhor que aqui vos deixo e que foi (é) talvez o meu personagem favorito da minha série favorita de sempre. Sou só eu a fazer esta associação? Estou completamente errada?

AL

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:18

Presunção da inocência

por jpt, em 24.11.14

estado novo.jpg

(cartaz do fascismo salazarista, julgo que de 1933)

 

 

Como sabem todos os que pelo ma-schamba passam não sou nem jurista nem filósofo (ou seja, formado em filosofia - muito menos sabedor de filosofia do direito). Mas ainda assim, nesta rasteira condição, arrogo-me ao estrado de muito lamentar a radical ignorância, boçalismo intelectual, que vejo repetido até ao enjoo (ad nauseam) a propósito da prisão (agora preventiva, antes mera detenção) do antigo secretário-geral do Partido Socialista português e, nessa condição, primeiro-ministro da república. Na tv, imprensa e no bloguismo, tanto no comentatório contratado como neste nosso mero vociferar cidadão.

 

Pois inúmeros vates chocalham, pelos prados pastoreados ou  pelos baldios silvestres, o princípio da presunção de inocência dos acusados, qual sacrossanto pilar impeditivo da opinião. Brutalismo boçalismo, repito-o assim. A presunção da inocência é um direito fundamental, que muito bem protege os cidadãos. Até ao culminar de hipotéticos processos em que sejam réus não podem eles (não podemos nós) ser considerados, tratados ou vilipendiados, pelas instituições jurídicas, penais e outras, como culpados. Este é um daquelas princípios fundamentais, basilares, da democracia. Daqueles, poucos e escassos, pelos quais valerá (valeria, espero) combater com a vida em risco.

 

Mas acontece que um cidadão não é uma instituição. Tal como não seria eu, nem qualquer visitante aqui, dotado de poderes e obrigações de investigar, julgar e até absolver ou condenar alguém, também não sou eu, nem qualquer visitante aqui, obrigado a presumir a inocência de alguém. São "coisas", percepções, interpretações [racionalizações se se quiser elevá-as assim], totalmente diferentes. Ou seja, exijo que as instituições, em primeiro lugar as jurídicas, do meu estado considerem qualquer cidadão como inocente até prova definitiva em contrário. (E, até, que creiam, e nesse sentido actuem, na hipótese de regeneração do culpado). Mas não sou minimamente obrigado a seguir esse princípio, enquanto dado de avaliação de um compatriota.

 

Dito isto, eu, jpt, cidadão democrata de 50 anos, re-ju-bi-lo  hoje, com a prisão do acusado, e presumível inocente, José Sócrates, antigo secretário-geral do Partido Socialista. Convicto que estou, sem provas, das suas inúmeras maldades. Contra o meu país. Assim traidoras.

 

(E, já agora, lamento a confusão intelectual de tantos teclistas e até oradores que por aí peroram sobre o "direito  à presunção à inocência". Uma espécie de "plural majestático" que usam, julgam-se estes pobres indivíduos verdadeiras instituições. Um pouco de modéstia não lhes ficaria mal. Ou, pelo menos, de reflexão.)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:53

Carlos de Oliveira

por jpt, em 24.11.14

abelha.jpg

Nisto da mania de ler as "coisas actuais", de olhar para os escaparates - as novidades e as reedições canónicas - e etc. um tipo distrai-se, esquece-se das coisas necessárias, grandes escritores ou, mais do que isso, de grandes páginas ... Ora vou eu relendo isto, coisa dos anos 1950s, até distraído pois já conheço o enredo e, de súbito, esta pujança:

 

"Uma cabaça de vinagre despejada, os resíduos ácidos que escorrem com dificuldade pelo interior do bojo até pingarem do gargalo, espessos, vagarosos; a mão na espuma que lhe azedava os lábios; boiar numa onda incerta de enjoo e ter sede de repente como se tivesse de repente uma dor; o orvalho da noite poisava-lhe na nuca; podia erguer a cabeça tombada para fora da janela, virar a cara para o céu e beber daquela frescura suspensa pelo espaço; voltou-se com dificuldade e a moinha da água bateu-lhe ao de leve na fronte, nas pálpebras fechadas, foi-se acumulando gota a gota, deslizou em seguida pela face, encarreirou nas asas do nariz, veio depositar-se-lhe ao canto dos lábios; abriu a boca e sorveu a humidade lentamente; de súbito, qualquer lembrança remota parecida com aquilo, dias de chuva, a cabeça fora da janela, a boca aberta a aparar as goteiras do telhado, um perfil de criança recortada ao longe; a cinza da morrinha embaciava a distância, o tempo, mas havia por baixo de tudo, ao fundo das coisas, esse fulgor inapagável, o seu próprio perfil de criança, e muito mais, uma ternura dispersa pela casa paterna, por campos e pessoas, por bichos e por estrelas; o coração talhado numa grande pureza já perdida, a alma ainda livre da condenação do fogo, o corpo onde não acordara ainda o medo à morte, porque lhe era fácil então estender-se para fora da janela e beber alegremente das goteiras. Agora não. O vento impelia o marulho da treva, vinha salpicá-lo duma poeira húmida de ruínas; as costas doíam-lhe de encontro ao  peitoril; mudou de posição, fez um esforço para se endireitar, fincando as mãos no rebordo da janela, e ficou cambaleante, de olhos abertos para a noite, negra de lado a lado: o luar nunca existiu, as estrelas também não, mas onde diabo terei eu visto já luar e estrelas, se nada vejo agora?  O vento arrastava a  poeira, apagava os astros, sumia tudo e na escuridão as coisas fermentavam. Apodreciam. Sabia-lhe mal a boca, um soluço flatulento e choco agitava-o. Deu-lhe vontade chorar, chorar apenas, sem saber de quê. Esfregando os olhos, compreendeu confusamente que estava diante da janela aberta, entontecido e indisposto, que tinha a noite pela frente e que a noite lhe fazia bater os dentes devagar, cheio de frio." (67-69)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:49

Inhaca

por jpt, em 24.11.14

inhaca.jpg

 

 

Vou na rua do Coliseu, vindo do D. Maria onde não fui ao teatro, sozinho, esfomeado, sábado à noite, a cruzar o "Gambrinus" sabendo-o caro demais para estes meus dias d'agora e surpreendo-me. Pois nunca reparara, ali mesmo defronte este restaurante cervejaria "Inhaca". Estanco, torna-se-me impossível não parar, experimentar. Saberei que já existe há 47 anos! Sem que eu o percebesse ...

 

Sento-me, na vaga experiência de alguma culinária da "terra". Mas não, da austral não há réstea, apenas nome. Fico então ali, neste desabrigo da sozinhês a olhar um benfica-moreirense na tv. Mas depois contacto com uma muito louvável "sopa alentejana" - o que nesta minha "pátria amada" se faz com o pão é um inestimável contributo à civilização humana. Depois um decente bacalhau cozido. Um serviço gentilíssimo, o gerente daqueles de ainda do tempo de saber criar clientes. E preço nada escandaloso, ainda para mais naquela zona.

 

Mas, mais do que tudo, o nome, este "Inhaca" a acalentar-me na noite ... Sigo, depois, no regresso a casa. Reconfortado.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 01:12

sa.jpg

 

"25 Abril Sempre!", reclamei eu ontem, sábado ao fim da tarde, ao encontrar amigos algo gauchistes, colhendo sorrisos um pouco encanitados. Foi o dia em que Sócrates caiu da cadeira. Entretanto muitos dos seus apaniguados já "tiraram a gravata", outros são declarados "marcelistas" ("apartar política de justiça" aka "evolução na continuidade"). Em breve, durante esta próxima semana, veremos tantos defender os "3 Ds" defendendo, afinal, o "Democratizar, Descolonizar, Desenvolver". As "casacas virar-se-ão" e no próximo fim-de-semana, no congresso da "oposição democrática", tudo continuará como sempre.

 

Sobre o tema deixo, também para memória futura, alguns textos que li nos blogs

 

- "É preciso é calma!", no Herdeiro de Aécio.

 

- "O nacional-tremendismo provinciano: do "regime", no Nada os Dispõe à Acção.

 

- "A culpa não é de Sócrates. É nossa", de Helena Matos no Blasfémias.

 

- "Cinco Pontos", de Nuno Castelo-Branco no Estado Sentido.

 

- A opinião de João Soares, o grau zero denunciado no Delito de Opinião.

 

- "A autópsia de Sócrates", de Rui Rocha no Delito de Opinião

 

- "O fim da era Sócrates", de Maria Teixeira Alves no Corta-fitas.

 

- "Também tenho coisas para dizer", de Daniela Major, e "José Sócrates não devia ter sido detido de noite", de Ricardo Ferreira Pinto, ambos no Aventar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:21

Dois num

por mvf, em 22.11.14

Aqui no ma-schamba temos sido incapazes de poupar tempo ao estimado frequentador misturando dois assuntos diversos na mesma publicação. Vamos tentar essa difícil proeza de falar de alhos e bugalhos sem contaminações para que o ma-schamba se torne mais dinâmico rivalizando deste modo com outras redes sociais. Gratos antecipadamente pela compreensão de eventuais erros pela óbvia virgindade experimental, aqui vai disto com os votos sinceros de um bom fim de semana.

 

image.jpg

1. Gravura representando um famoso cavalo, um campeão dos hipódromos do Reino Unido que ostentava com garbo um nome inspirado em Portugal. Diz-se que o cavalheiro proprietário da égua - porque o Filho da Puta era uma égua! - lhe terá dado o nome por comportamento que se poderia considerar algo leviano de Mrs. Bartlett, a sua legítima esposa que hipicamente saltou para a garupa de um oficial de Marinha com quem foi ser feliz. Outra versão garante que a inspiração de tão mimoso nome veio do não menos carinhoso tratamento que um seu criado, ribatejano de boa cepa, dava ao quadrúpede. Enfim, um Filho da Puta que afinal era uma Filha da Puta.

image.jpg

2. José Sócrates Pinto de Sousa, ex-primeiro ministro de Portugal e estudante, foi detido no Aeroporto da Portela em Lisboa. Com direito a escolta deu entrada nos calabouços policiais enquanto não era ouvido como suspeito de vários crimes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:33

é madrugada ...

por jpt, em 22.11.14

pai.jpg

 

 

cheguei à casa d'antes que é agora a d'agora, estou sentado à secretária do meu pai no seu escritório. Ele não está, morreu há três anos. E o quanto gostaria ele de estar, pois amava viver. E quanto ironia, sarcasmo até, partilhariamos hoje, ao sabermos quem foi preso, que noite longa seria esta se fosse nossa e não só minha ...

 

Faz(es)-me falta. Mais até para estes momentos, parcos, felizes.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 03:10

Ao meu amigo ZF

por jpt, em 22.11.14

Há muitos anos um amigo, daqueles muito, profundos, incondicionais, dos verdadeiros poucos, visitou-nos em Maputo. Estada sempre breve, tamanho o prazer em o ter lá. Num desses dias, noites, aconteceu as eleições autárquicas portuguesas, acompanhámos na rtp-áfrica (ainda não se recebiam outras portuguesas) depois do bom jantar. Foram aquelas em que os socialistas iam perdendo câmara a câmara. Entre tantos outros caiu o pérfido poder no Porto. E depois até em Lisboa. Nós íamos madrugada caminhando, em alegria aliviada, entre abraços e mais um cálice. A cada um que caía. De súbito veio Guterres referir o "pântano" e demitir-se, exultámos (fui acordar a minha mulher, avisá-la, ela bem menos "à direita" do que eu).

 

Hoje, 2.10, chego a casa vindo de um longo jantar com este amigo verdadeiro, ZF, daqueles de décadas incondicionais. Abro isto-fb antes de dormir. Vejo Sócrates detido - nunca refutarei a presunção de inocência, base da democracia; e estou certo que sairá amanhã e que nunca será condenado. Mas vejo Sócrates detido. E comovo-me, muito. Porque há gente aqui. Compatriotas. E estes socrates podem mandar mas há gente aqui. Compatriotas. Apesar de tudo.

 

Temos que jantar mais vezes ZF, damos sorte ao país.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:33

A frase do mês

por jpt, em 21.11.14

Converso com velho amigo, às tantas, como aqui não pode deixar de ser, as palavras embrulham-se no "estado da arte", como isto Portugal vai, a descrença nos poderes que têm estado e que vão estar. De repente conclui ele "como é que queres tu que isto esteja?, os gajos que mandam nisto em putos andaram a colar cartazes ....".

 

E mudámos de conversa ...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:27

lbh 50.jpg

 

Na próxima quarta-feira, 26 de Novembro, assinalar-se-á em Lisboa o cinquentenário da publicação de "Nós Matámos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana, livro crucial na literatura moçambicana. Na Faculdade de Letras será apresentada uma reedição (comemorativa), editada pela Alcance. E acontecerão conferências e conversas dedicadas ao livro e seu contexto, contando com várias participações, entre as quais Fátima Mendonça, Maria Alzira Seixo ou Luís Carlos Patraquim.

 

Quem quiser consultar o programa das actividades, que decorrem durante todo o dia, bastar-lhe-á para isso clicar aqui. Até quarta-feira.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:48

A lembrar Craveirinha

por jpt, em 18.11.14

cravei.jpg

 

Pinto Lobo, leitor de quem já falei, e que há uma década tem a paciência de aturar o ma-schamba e de me ir mandando documentação, enviou-me há algum tempo um texto que o escritor João Reis escreveu quando José Craveirinha morreu, já no longínquo 2003.

Partilho-o aqui.

 

E deixo-o também assim: 

 

Ao Meu Belo Pai Ex-emigrante
 
 
Pai:
As maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no "écran" todo branco
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: - "Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém."

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Aljezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o "Trinta-Diabos" de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de "bicicleta" à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no "xituto" Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen OSullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o "Cascabulho" para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face
e eu também Ee que musámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de sécuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:31

Para ouvir daqui a bocado

por jpt, em 17.11.14

judeus.jpg

 

Resumo

 

Ao lado da África do Sul, famosa sociedade dada a extremadas discriminações identitárias, Moçambique parece um paraíso de cosmopolitismo e interculturalidade. Ainda assim, de entre as diversas comunidades etno-linguísticas e religiosas que compõem o tecido social do país, e que aparentemente coexistem pacificamente, encontra-se uma muito reduzida e heterogénea comunidade judaica que o trabalho de campo antropológico revela ser pautada por fracturas identitárias severas. Tal diversidade coloca em risco a sua própria continuidade, não fosse algum grau de tolerância e abertura necessárias na aferição de quem é judeu ou não, em Maputo. A etnografia demonstra haver desentendimentos entre os vários critérios de categorização identitária, entre os quais a lei judaica, a religiosidade, a classe e a cor são tidos como importantes. As noções de hibridismo, hospitalidade, globalização imaginada, apatridade e alteridade são no presente estudo incontornáveis, de modo a compreender quem se afirma ou é percepcionado como judeu, concretamente neste contexto africano específico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:24

E para fechar ...

por AL, em 16.11.14

Eu alertei, o Senador postalou o catálogo e fechamos agora com uma panorâmica - linda! linda! e graças ao Nuno - da exposição do "nosso" (é muito cá de casa, da nossa cooperativa) Miguel Barros inaugurada ontem em Toronto. Quereis mais? Ide, ide ao saite dele - Miguel - e passeai os olhos.

unnamed.jpg

 AL

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:03


Bloguistas




AL:





Tags

Todos os Assuntos




eXTReMe Tracker

Twingly BlogRank