Preconceitos

 

No facebook vejo em vários murais a reprodução desta campanha. Simpática, claro. Não nos importarmos com as características ou estados alheios, não desvalorizar as pessoas com base nessas particularidades, bastante elencadas.  Como recusar? Talvez por isso tem milhares de “partilhas”. Lendo o “cartaz”, simpático, claro, ocorreu-me este comentário, seguindo literalmente o que ali está escrito. Coloquei-o apenas num dos locais onde o encontrei. Mais vale deixá-lo aqui:

“Baixo ou alto; gordo ou magro; asiático ou branco ou negro; pobre ou rico; lésbica, gay ou bissexual. Só se importa(m) se for heterossexual? O subliminar destas campanhas “é tão simples quanto isto” – não há paciência.”

A gente, sempre pronta a cair nos alçapões da agit-prop, aplaude. E “partilha” …

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boda abençoada quer-se aliançada,

como abaixo tão bem sentencia a AL, referindo-se às próximas bodas que tanto vieram animar as hostes deste ma-schamba. Já abordei as vestes da noiva, agora deixo proposta para o acompanhamento musical.

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A velha aliança

 

O JPT já anunciou aqui a boda que vai abrilhantar a cooperativa, tendo esta começado a embandeirar em arco. Ele, JPT, sugere vestidos para a noiva; eu, faço aqui a minha contribuição – as alianças. Pareceu-me ouvir dizer ao noivo que tal coisa não usará, mas ele que tenha paciência pois boda abençoada quer-se aliançada. Estas agradam-me particularmente pelo simbolismo simples da sua confecção: singelos anéis de ouro com um banho de prata que se vai esbatendo com o tempo, revelando a nobreza que lhe subjaz. Tal como os bons casamentos que também no tempo se nobilizam e revelam o seu melhor.

Mais ainda, foram estas concebidas pelo japonês Koichi Suzuno e sei, de fonte segura, ser o Japão país do agrado dos noivos. O senão? São caras, mesmo muito caras, mas mesmo assim aqui fica a sugestão. Afinal não tem o simbolismo mais peso que aquele que se lhe dá. E sendo eles, noivos, os românticos que são (ou descobriram ser), de couro ou cordel farão ouro coberto de prata. E são estas as coisas que realmente importam (JPT dixit).

AL


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A virtude ensina-se?

A virtude ensina-se? Ou é inata? É uma velha questão, posta pelos bisavós filósofos – bem como a de qual é o seu conteúdo, ou a de quantas subespécies terá. Opiniões diversas têm albergado estes milénios. A gente esforça-se por acreditar que sim, que a(s) podemos transmitir.

Estas são algumas das fotografias tiradas na última vez que fui, em família e amigos, ao Parque Kruger. Quem as tirou foi a cpt, nos seus 9 anos. Gostou de lá ter estado. Espero que um dia, se isto desanuviar, possamos regressar à Gorongosa, que ela ainda não conhece. E, quem sabe, até ao Niassa, nas suas reservas. A nossa princesa merece. E talvez possa ser acompanhada pelos amigos MVF ou PSB, a ensinarem como fotografar.

 

Entretanto as notícias continuam. O Kruger cresceu como alvo de caçadores furtivos. O massacre abunda, em particular os rinocerontes escasseiam, massacrados pelos caçadores de chifres, tão apreciados pelos naturais do país do Furunbao. A virtude ensina-se? A gente esforça-se por acreditar que sim. Mas custa muito, quanto deste mundo nos vai dizendo que é inata … E só para alguns.

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A sair do armário

(O texto para o  “Canal de Moçambique” desta semana)

 

A Sair do Armário

Tomás de Aquino foi clarividente no seu século XIII, quando decidiu denunciá-la como um dos sete pecados capitais, assim pérfida fonte de um sortido de vícios. Falo da acedia, aquela “certa tristeza”, o torpor acabrunhante que algema os seus padecentes à inactividade, a uma estupefacção constante, no limite até à autofagia. Dela brotam os tais vícios, seus efeitos, entre alguns outros o rancor, a amargura, a timidez, e aquele que mais temo, o da divagação da mente, essa que se traduz na inconstância, na verborreia, na mera curiosidade, na instabilidade. Sistematizo, a improdutividade. Diletante.

A tal acedia é pecaminosa, disse o filósofo, porque infundamentada, porque brotada da aversão por pequenos males, relativos. Que a tristeza é justa, e até necessária, mas se defrontada com o verdadeiro mal. Em linguagem de hoje dir-se-ia que a acedia nasce de uma incompetência na hierarquização do mal, dos males. Talvez até da “banalização do mal”. Em assim sendo o acedioso é alguém que padece, também, de um défice intelectual, de perspicácia. Do desentender o real.

O mundo de Tomás era diferente do actual. E nisto do necessário para se ser pessoa também. Que hoje para que a tal cheguemos, mais do que ser visto como um mero “tipo” que “para aí anda”, temos que ter um rumo, algo a perseguir, um refúgio a alcançar, uma montanha a escalar, um naco de felicidade ou orgulho luzidio, um qualquer sucesso que desfraldemos aos olhos alheios, em público às vezes, no privado da casa-própria, ou, vá lá, pelo menos diante do espelho na hora de sacudir as remelas. Assim, acredito que os céus são hoje mais inclementes para os acediosos do que o eram naqueles tempos de Tomás. Quando apenas a expectativa de um Além infernal os consumiria, vis pecadores. Sendo que no hoje em dia, de menos aléns, o pecador se vai consumindo num aquém modorrento, culpabilizado, angustiado. Incompleto. Incompetente.

Tomás de Aquino foi um companheiro da alquimia, aquela incessante procura da criação do ouro, dos robôts, da abundância social. E, mais do que tudo, da panaceia, o remédio que tudo cura, o elixir da longa vida. Daquilo que cria a harmonia, esta um bem. Estou certo que acolheria como santificados estas novas mezinhas industriais, os medicamentos que rearrumam a bioquímica dos neurotransmissores, como explicam as vulgatas da coisa. Que harmonizam as cabeças pensantes, ainda que trôpegas.

Pílulas que curam a acedia, por assim dizer, ou, pelo menos, que a disfarçam. Alisando estas cabeças que sofrem da acedia, da depressão como lhe chamamos neste século. Já não a dizemos pecado, que é termo mais difícil de usar hoje em dia. Mas dela fazemos aquele mal escondido, o “pequeno mal” de agora, como antes se chamava, em surdina, à epilepsia quando se acreditava ser esta coisa de possessão por espíritos malignos ou meia-demência. Exactamente como agora se emudece a tal depressão, vista como se possessão por defeitos-malignos ou meia-demência.

Leio que muita há, por aí fora. Talvez sim, talvez que muitos a vivam, a essa incompletude quotidiana. Se calhar acompanhados, se calhar sozinhos. Se alguém, aqui por Maputo ou arredores, está assim no seu caminho pode-me acenar.Pois estou aqui a sair do armário, deixei-me, sei lá desde quando, assediar pela acedia. Incompleto-me dia após dia. Afogo-me em rancor, por mim mesmo.

Entretanto vão-se-me morrendo os familiares. Amigos queridos. Conhecidos simpáticos. Gente que me cruzou. E tantos que é absurdo continuar assim. Para disto fugir há por aí os medicamentos, os novos elixires da harmonia. Quem com eles vai vai bem, com toda a certeza. Eu, atrevido, vou tentar ir pelo outro lado. Se isto é, disse Tomás de Aquino, efeito de um defeito intelectual, da falta de uma correcta ponderação dos males do mundo, vou-me safar disto calibrando o meu olhar, e nisso o meu sentir. Não mais atentando na espuma dos dias.

E acabar todas as coisas que intento. E nisso será crucial deixar uma “Ao Balcão da Cantina” semanal, enquanto o Canal a quiser. Nem que seja um simples ponto parágrafo. Por ausência de bens do mundo de que falar.

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Coisas que realmente importam

 

Terá mangas? Que comprimento terá a cauda? Qual o tom do branco? Temas prementes. Temas a exigir tomadas de posição … Temas até a apelar a algum risco opinativo, assumir concepções próprias antes do acontecimento. Porque depois, criticar depois, isso é fácil. Talvez seja aconselhável uma consulta ao sumptuoso catálogo organizador por Madalena Braz Teixeira,  Traje de Noiva 1800-2000 ( Instituto Português de Museus), do qual retirei estas algumas propostas-conselhos, que faço minhas.

(Postal dedicado a uma noiva que é gente-de-blogs … Votos de muitas felicidades e afortunadas machambas. Quem é ela, quem será?).

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O consulado português de Maputo

Contrariamente a algumas pessoas, até amigas, tenho boa opinião dos funcionários públicos diplomatas portugueses. Não só no sentido global (Portugal tem tido uma política externa bem sucedida ao longo das últimas décadas). Mas também no seu desempenho individualizado. Conheci vários diplomatas de grande qualidade. O homem mais sagaz e mais decente com o qual trabalhei foi um diplomata, o Embaixador António Valente, cuja memória muito acarinho. Um príncipe da república, sem qualquer hipérbole.

Certo que a imagem pública da “carreira” (como os próprios lhe chamam) é algo afectada. E muitas vezes pela própria “afectação” que conduz os passos de muitos dos seus membros, a excessiva personalização da “gravitas” necessária à representação do estado e ao acompanhamento das relações políticas internacionais. Haverá também, algumas vezes, tiques sociológicos, de “elitização” ou de “ascensão social”, como se uma absorção do simbólico dos poderes dos quais são vizinhos, nisso criando fossos face àqueles a que servem, nós. Algo, creio, que mudará com a passagem das gerações de uma democracia republicana. Mas, grosso modo, é uma profissão onde há gente de grande qualidade, e ao qual o país muito deve. [Entre eles, consta e fazem constar, são tenebrosos, um autofagismo corporativo. Coisa que derivará das modalidades de exercício da profissão, pequenos núcleos expatriados, e das formas de organização interna, onde as redes pessoais são ainda mais determinantes do que na restante administração pública]

Vem estre preâmbulo a propósito da Petição que acabo de receber, onde se solicita ao MNE que abra uma excepção à normal rotação dos diplomatas e mantenha em funções a actual consulesa-geral* em Maputo, Graça Gonçalves Pereira. A qual é uma mulher incomum. Desde logo porque a sua concepção de “função pública” é a de “serviço público”, algo que não está bem arreigado nos hábitos nacionais. Enérgica, criativa, exigente, disponível. O seu período em Maputo correspondeu ao crescimento da população portuguesa por cá e, como tal, de incremento das responsabilidades consulares. Dinamizou e acompanhou múltiplas actividades, congregando a “comunidade” (como se costuma dizer), procurando criar espaços comuns, de conhecimentos e de interacção.

Apaixonada pelo seu serviço e interessada pela realidade no qual decorre, entendeu como ninguém que a forma de dinamizar as formas de sociabilidade não era induzindo o auto-fechamento português, mas sim a compreensão e o apreço que nós-todos podemos ter do país em que vivemos e trabalhamos. Criou relações com inúmeras instituições e organizações moçambicanas. Dinamizou o “seu” consulado como verdadeiro centro cultural (nisso contrastando com o marasmo intelectual do Instituto Camões, seu vizinho), tornando-o um espaço de verdadeiro diálogo e interacção entre as múltiplas “comunidades” aqui existentes. Algo de um simbolismo profundo. Com tudo isso mostrou-se diplomata, forma de política. Ou seja, atenta, inteligente e culta.

Pela abertura, pela vontade, pela arrasadora disponibilidade e, acima de tudo e por tudo isto, pela sua inteligente clarividência, Graça Gonçalves Pereira recolhe a admiração dos portugueses (e de muitos moçambicanos), sempre prontos a resmungarem com os nossos diplomatas e com o nosso Estado, tantas vezes de modo injusto. E daí o meu preâmbulo – pois apesar de ter uma boa ideia, grosso modo, da diplomacia portuguesa tenho que sublinhar o carácter e a competência verdadeiramente únicos da nossa actual consulesa.

Desconfio muito que o espartilho burocrático dos “movimentos diplomáticos” impeça que esta Petição para a sua continuidade em Maputo venha a obter o efeito desejado. Mas talvez sim, daí que a assinei. E convido os patrícios que por aqui passem a assiná-la. Intentando a que se possa criar uma situação excepcional, a da renovação do seu posto. E, também, homenageando o seu desempenho. Pois nós, portugueses, somos também parcos em verdadeiras homenagens.

* Consulesa ou Cônsul? A “doutrina” divide-se e eu tenho hesitado no termo. “Consulesa” tem sido utilizado para nomear a mulher do cônsul, tal como “embaixatriz” designa a mulher do embaixador. Deixemo-nos de coisas, actualizemos a linguagem: não há forma de ser republicano, cidadão e inteligente e manter estas definições. As cônjuges não têm postos – mesmo reconhecendo que em muitos casos cumprem trabalhos associados aos respectivos cônjuges, por adesão pessoal. Ou seja, “embaixatriz” é um termo a tornar vácuo, a inexistir, e “consulesa” deve destinar-se à mulher que ocupa um posto. Não é apenas uma questão de português. É de república.

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O desenvolvimento em 2012

No último “Sol” (edição moçambicana) a coluna rotativa “Cartas da Minha Terra” é da autoria de Belmiro Adamugy. Aborda o desenvolvimento, uma visão crítica à situação em Moçambique. E proto-conclui: “Precisamos extirpar o mato que habita as nossas mentes”. Hum …, arrotear a terra para dela fazer brotar ideias e ideais, metáfora racionalista? Hum …, não me parece que seja isso, é a metáfora “mato” como é usada aqui, extirpar a ruralidade. “Tirar a selva do rapaz” … Em 2012. ?. !.

Sei que é um vício de pensamento mas, às vezes, olhar a actualidade aqui parece-se com ler a história alheia. Longínqua. E é triste.

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Joel Chiziane

Vi-te para aí há um mês, a partilharmos uma esplanada, foi a seguir ao lançamento do filme-documentário sobre o Ricardo Rangel, feito pelo suíço Bruno Z’Graggen, que conheci ali, vinha contigo e com o Sérgio, e deram-me um filme. E estavas super bem-disposto, estavam todos mas tu mais ainda. E contente, que ias para não sei onde. E estivemos a gozar, tu feliz com isso, com o teu grande prémio recebido em 2011. “Artista!” … dissemos, gabámos. E das tuas memórias, do “Iluminando Vidas”, da itinerância que te encheu olhos e lá-dentro.

Agora assim. Já. Eras do meu ano, 64! A morte anda desembestada, maldita. Mais vale esperamos bem-dispostos. Mais vale iluminar a vida, não há dúvida. Haja força para isso.

[Fotografia de Joel Chiziane, reproduzida de "Iluminando Vidas", 2002]

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Um copo à tua, Marcelino

Sento-me na mesa dos mais velhos, a dos “régulos” se se quiser dizer assim. Para a qual dantes às vezes era convidado. Mas agora, das poucas vezes que apareço, já sou convocado. Coisas do tempo que avança. E das cadeiras que se esvaziam, também. É bom, mas é assim. Hoje, ali em torno de mero petisco e uma ou duas garrafas deitadas, algumas caras que desconheço, para além do dono da casa, que é uma quase-lenda no meio, e de um velho e querido amigo. Foi-me mau o dia, sem nada a fazê-lo assim, e isso é o pior, e nada melhor do que esbater o seu final aqui em conversa, escorrida, molhada. Estamos nisso, entre memórias e coisas simples do agora, e lembro-me que não o vejo há um par de meses, meu colega professor nas privadas, meu companheiro de copos (“bebe mais um, pôrra!!“, sempre que eu me quero já negar, “pago eu, foda-se, bebe mais um!“, quando me desculpo com a família à espera), minha ajuda desinteresseira quando por aqui cheguei – e de tanta precisei eu. Personagem, personalidade. Um gajo difícil, como os melhores são, não o vou negar. Comigo não, sorte minha, talvez por dantes ser puto e assim continuar a seus olhos. Mas é isso mesmo, não o vejo há uns meses, nem aqui nem nas outras esplanadas que cruzamos. Coisa normal, sempre tem sido assim, caminhos desencontrados, e eu casa vez mais neste quase-abissal em torno de mim. E já que nesta mesa, ele tantas vezes por aqui, lembro-me, “onde é que anda o Marcelino Alves?“. Um “Hó?!” geral, até arrepio. “Não sabes?“, “não acredito, não sabes?!“. Não, não sei, não sabia que morrera há meses. Fico acabrunhado, pela morte, pela minha distracção, resmungo qualquer coisa, um tipo a andar por aqui neste mundo e a morrerem-se os tipos do pelotão que aqui vai. Ainda levanto, baixinho, o copo, mero início, mas dizem-me “já fizemos isso”, e claro que já fizeram, já é passado e temos que continuar.

Depois descubro que morreste na véspera da morte do meu pai, estava longe e por lá continuei. E se calhar ainda estou. E nisso não pude atentar. Um copo à tua, Marcelino. Pago eu, porra.

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Abrupto


 

Durante anos José Pacheco Pereira foi o alvo preferencial do bloguismo político em Portugal. Mais do que tudo porque o Abrupto era o blog mais lido. Hoje em dia (e não só porque o blog já não é topo de audiências) não lhe batem tanto. Nunca fui nisso. Não só porque, para além de ir discordando ou não, lhe aprecio a linha. Mas também porque o homem foi meu professor, e bom, e essas coisas ficam.

Também por isso me irrita tanto isto. Num texto que me parece muito equilibrado e certeiro Pacheco Pereira escreve sobre o affaire Pingo Doce, criticando “o senhor Alexandre Soares dos Santos“, por quem afirma ter “estima e consideração pessoal“, e di-lo notoriamente sem ponta de ironia ou (pior seria) sarcasmo. Habituado ao registo Abrupto isto soou-me estranhamente.

Tão estranho que “desci” até ao Março do blog para comprovar a minha irritação. Como de costume naquele blog são nomeados autores que cita (Frost, Stevenson, etc.), personagens históricas (Churchill, Catão, etc.) e os leitores que enviam fotografias. Depois, das pessoas públicas mais “perto da nossa realidade” – algumas já falecidas – temos Hollande, Sarkozy, Merkel, Seguro, Passos (e Passos Coelho), Gaspar (e Vitor Gaspar), Mário Soares, Cavaco, Marcelo Rebelo de Sousa, José Sócrates, Lucas Pires, Freitas do Amaral, Mario Sottomayor Cardia, Eduardo Prado Coelho, Vergílio Ferreira, Vital Moreira, Pedro Santos Guerreiro, Manuel Falcão. E o “senhor” Alexandre Soares dos Santos.

Jpp trata as pessoas como muito bem entende. Privada e publicamente. Quando o faz publicamente eu interpreto-lhe os tratamentos como muito bem entendo.

Neste caso? Raios o partam.

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Carlos Martins e Bernardo Sassetti no “Costa do Sol”

Nos princípios de 1997 eu tinha chegado há pouco a Maputo, não sabia bem como fazer as coisas. Na altura havia ainda a memória fresca das sessões de jazz no “Costa do Sol”, o mítico restaurante ao fundo da marginal – fronteira da cidade nos tempos da guerra civil, então tão recente. Muito pouco tempo depois o Caínha veio a Maputo com o Bernardo Sassetti, acho que numa cena oficial qualquer. Logo que o encontrei desafiei-o, e ao BS, que não conhecia, para irem lá tocar, mesmo que aquilo estivesse parado. Disseram logo que sim. Pedi ao Zé Maria, soprador e percussionista que então quase reinava em Maputo, para organizar a sessão, e lá fomos. Nem eu nem ele tínhamos grande experiência de organizações musicais, a noite não foi propriamente um sucesso, pouca gente apareceu. Mas o sucesso foram, mesmo, os músicos. Que encantaram os que lá estavam. Ficou, até hoje, o encanto. E, agora, a mágoa.

Um grande abraço para ti, Sidónio.

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Pedido de esclarecimento

É um pedido de ajuda aos passantes por este blog. Entre os quais haverá muitos, ou até todos, belos praticantes do português (e não só os mais dados a este assunto). Partindo da existência dos termos amplos (e não apenas estético-artísticos) Literatura e Oratura, um tipo pode definir um estado prolongado em que não sabe o que há-de fazer com o teclado como “Atura”? Alguém me pode aconselhar?

(Tomás de Aquino falou de Acédia. Mas disse-a pecado, caramba. E quando escreveu não havia computadores.)

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A Mulher de César

No nosso Querido Blog És a Nossa Fé!, coloquei um texto sobre futebol e o Sporting, engordado com toque memorialista e laivos (confesso, envergonhado) de antropologia-lite. Para quem possa estar interessado é o “A Mulher de César”.

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O texto que não é do Mia Couto

 

Há um ano e tal Maria dos Anjos Polícia, escreveu no seu blog Assobio Rebelde um texto sobre “A Geração à Rasca“. Alguém, sabe-se lá porquê, disseminou-o como sendo de Mia Couto. Logo o  tom populista e inanalítico do texto se alimentou do estado doentio da sociedade portuguesa, a “crise”, e assim se tornou “viral” (como se diz agora) a pequena fraude. Grassando pelo mundo (lusófono …) da internet.

Logo então aqui o desmenti, e não fui o único bloguista. O próprio Mia Couto surgiu a desmenti-lo. Pouco importa, ficou a impressão, o texto continua a girar, ciclicamente. E-mails, redes sociais. O próprio postal em que referi o assunto recebeu uma enxurrada de “gostos faceboquescos”, decerto que muitos sem atentarem no desmentido. E continua, 14 meses a ser visitado (sitemeter dixit) e a ser “laicado”. Quanto ao texto continuo a encontrá-lo reproduzido nos murais do facebook, com elogios à perspicácia do “querido autor”, sempre por seus admiradores “leitores” – que assim denotam nunca o terem lido.

Até em Maputo, há pouco tempo, houve um surto desta “gripe” – e então muito me surpreendeu. Pois o texto é tão intrinsecamente português, tom e conteúdo. Como “cola” esta atribuição a um escritor moçambicano? Até por moçambicanos? Ainda para mais não sendo em nada aparentado com o estilo (formal e intelectual) de Mia Couto.

Mas isso já é um registo “meta”. Para as gentes dos “estudos culturais”, que aqui terão um delicioso objecto de pesquisa “póscolonial”. E também sobre os processos de recepção de textos na “internet”. Ou melhor, de “ininterpretação” de textos na internet.

Enfim, para resumir: o texto “Geração à Rasca” não é de Mia Couto. É de uma (ex?)bloguista chamada Maria dos Anjos Polícia.

(e, em aparte, ainda bem que não é. Que é de um populismo fastidioso).

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Uma velha nota de leitura

John W. Bennett

John W. Bennett:The role of anthropology – or any other social science – in this situation must be dual: ….

2) The second role of these disciplines is even more difficult: the need to raise serious questions about fundamental social and ethical values of the 20th century – in particular, the dominant theme of self-gratification. These values need to be viewed with reference to the costs generated by efforts to realize such goals. Social scientists should take the leadership in documenting these costs, but even more important is the necessity of finding alternatives. Reduced expectations is the pathway of the rest of the 20th century: how can this pathway be reconciled with the dominant ethos? How can a culture of mass indulgence be realigned toward a culture of austerity and more modest expectations? Above all, how can we create a mass culture more concerned with posterity than with self-gratification in the here and now?

(em Emilio F. Moran (ed.) 1990. The Ecosystem Approach in Anthropology. From Concept to Practice)

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Portugal, XXI

Está assim: hoje é Hollande por todo o lado, o “frisson”, “são” do Hollande. Outros “são” do Real, outros do Chelsea, dantes havia os que eram “obama”, mas já não são, como também já não são do Manchester United, e não serão do Hollande, e outros são do Barça. Eu sou xenófobo? Se calhar, mas acho isto tudo muito bimbo.

Fico-me por “ser” destes.

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Dia das Mães

 

 

Somos filhas, mães e avós mas somos antes de mais e sobretudo mulheres. Neste dia das mães celebremos também a mulher em nós.

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto,  A Mulher Mais Bonita do Mundo, in “A Casa, a Escuridão”

AL

 

 


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Festival Internacional de Música, Maputo

Ontem, primeira sessão pública (a gala inicial não se especifica no programa e não era aberta a nós-povo). Então o festival (festa) – que aqui tem os contornos de “world music”, com uma dimensão étnica – abriu com Muza Rubackyte. Tocou Ciurlionis, um compositor seu compatriota (sobre o qual tem vários discos gravados), e o qual confesso nunca ter antes ouvido. Depois Scriabin (uma versão conhecida aqui), tons conhecidos de Schubert e também Liszt, “Années de Pelerinage” que gravou com excelente crítica, ainda que não exactamente isto:

No fim um pouco de Bach, só para agradecer.

Na sala havia copos cheios, alguns embrulhos de comida manuseados e, até, bebés. Sei que isso prejudica a concentração deste tipo de músicos. Mas eu gosto, tudo o que seja dessacralizar algo vale a pena.

Rubackyte fez valer a deslocação ao teatro Avenida. Amanhã e terça devo lá voltar. Para ver o que se seguirá.

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O Anti-Cristo: Tom Harrisson

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“First Contact”: Nova Guiné, 1930

Vi este filme há cerca de vinte anos e perdi-lhe o rasto. É um documento fantástico. Agora apanho o seu início nesta “selva internética”. Alguém conhece o trilho para o filme todo? (De qualquer forma é imperdível ver estes quase 10 minutos).

Adenda: no grupo ma-schamba no Facebook (que está cada vez mais animado) o “amigo-maschamba” Paulo J. Coelho informa-me(-nos) da ligação para o filme em formato longo. Bem haja. E aqui fica a ligação ….

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“Tales from the jungle”: Malinowski, Mead, Castaneda

Em particular para os meus vizinhos interessados, ou estudantes, nestas coisas. Por cá não tivemos acesso a estas pérolas.

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Um prenda para os passantes: entrevista com V.S. Naipaul

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As quotas para as raças

Esta semana no Brasil foram introduzidas quotas por “raças” na gestão do acesso às universidades públicas. “É lá com eles”, brasileiros, poder-se-á dizer. Americanos que são, será a ambição de se tornarem gringos, digo eu. E presumo que venham a navegar no mar do “onedropismo”, tão querido aos seus vizinhos. Enfim, que se poderá esperar do gigante colonial?

Sobre a infecção da quotização não vale a pena argumentar. Ela, e a doença mental racial que a causa, está diagnosticada neste belo “A Persistência da Raça. Ensaios Antropológicos Sobre o Brasil e a África Austral”, do antropólogo brasileiro Peter Fry (Rio de Janeiro, Civilização Editora, 2005).

Entretanto, a “presidenta” (mais os seus bispos da IURD), enquanto vai mimando os seus “pretinhos”, continua a f…, perdão, a rebentar a floresta. E os índios.

Saravá …

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O não-sei-quantos de Maio

 

Em Portugal acabam-se os feriados. Uns são decisivamente encerrados. Outros minorados: o comércio abre, por todo o lado, as pessoas repetem a rotina nesse dia. Mas, acima de tudo, as pessoas trabalham no dia feriado. Há quem diga a necessidade de incrementar o trabalho face à crise: como se o problema não fosse a produtividade (e os modelos de desenvolvimento). Outros,  seráficos, dizem que os feriados não têm razão de ser pois as pessoas não vão às comemorações. Sobre esses neo-totalitários há meses aqui deixei: Isto é sintomático do pensamento dessa esquerda estatista radical. Como em tudo o resto reduzem a vida social ao Estado. Para eles o reviver dos valores nos feriados … só pode existir nas festas organizadas pelo Estado. Para eles a vida “civil”, individual, familiar, colectiva, na sua multiplicidade, não tem essa capacidade. Este estatismo tem um corolário óbvio, totalitário (fascista-comunista, no nosso eixo político): a política (os valores políticos) é o Estado. Os cidadãos, na sua vida individual e colectiva, são-lhe exógenos, incapazes de política. Menores. É um pensamento elitista (o elogio da “vanguarda”, nos dizeres leninistas). Esse que atravessa toda esta questão do encerramento dos feriados.. São incapazes de entender que os valores podem ser (re)vividos de múltiplas formas, em múltiplas actividades. Mas é isso, esse aparente cinzentismo mas supra-soalheiro, a democracia.

Em Portugal no dia 1º de Maio os xópings abrem. Esses enormes bazares, criados com legislação super-protectora, devastando o pequeno e médio comércio, desertificando as zonas comerciais urbanas, aprisionando os pequenos e médios produtores. São grupos comerciais do regime, grupos económicos que cresceram nesta III República que, medíocre, navega com o mito dos “engenheiros”. “Criam emprego”, diz-se. E apagam emprego, livre-iniciativa, também. Agora no primeiro dia de Maio abrem e oferecem promoções. O povo, aflito, vai a correr, enche as lojas e bate-se pelas miudezas. Assim justificando que o primeiro de Maio se torne apenas o não-sei-quantos-de-Maio, dessimbolizado, esvaziado.

O lema é óbvio, somos todos uma família e o patrão dá o bodo aos pobres quando decide dar.

É assim a tradicional visão do mundo. Sorrio, de longe: tal como há meses aqui sorria ao ver como os intelectuais tão esquerdistas se associam à Fundação Pingo Doce. São as “promoções” a eles dedicados, recebidas de chapéu na mão. Depois, cabaz cheio, vão opinar. Ufanos. É a “esquerda” portuguesa.

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