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Vitamina cerebral

por AL, em 17.12.14

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Navegava aqui há uns dias na net quando me deparei com este artigo de basto interesse e que aqui partilho. O artigo consiste nas respostas de cientistas e filósofos a duas questões bem interessantes:

  1. Existe alguma coisa que a ciência não pode explicar?
  2. Existe alguma coisa que a ciência não deva explicar?

Vale a pena ler, ainda que em inglês.

AL

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publicado às 12:11

"E não se pode exterminá-los?"

por VA, em 15.12.14

Precisamente há um mês, devia ter (r)estreado no Centro Cultural da Malaposta a peça de teatro "O Matadouro Invisível" de Karin Serres, uma produção própria que comemorava os 25 anos daquele espaço. 

Mas, inesperadamente, a reposição foi cancelada. O aviso oficial só nos chegou, aos actores, no dia em que a peça devia ter subido à cena.

O link em baixo resume os acontecimentos de forma fidedigna. Quanto às políticas culturais da Câmara Municipal de Odivelas só resta denunciar "rua a rua, prédio a prédio, flete a flete".

 

http://sicnoticias.sapo.pt/cultura/2014-12-14-Peca-de-teatro-cancelada-no-dia-de-estreia-no-Centro-Cultural-da-Malaposta

 

VA

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publicado às 11:13

Simpósio e aniversário

por jpt, em 12.12.14

Ontem, quinta, houve simpósio ma-schamba ao jantar: a AL, a VA, este jpt, o MVF juntámo-nos ao jantar ali num indiano, saboroso, na baixa pombalina. O FF, coimbrão, e o PSB, agora em curso capetonian, e que aqui honorários dados seus silêncios prolongados, estiveram presentes na alma dos convivas.

 

Discorremos sobre nós próprios, "ravissantes" e jubilosas elas, mais amargos e envelhecidos nós-eles, e alguns outros assuntos. No final eu e o MVF após os deveres cavalheirescos, aportámos ao British Bar, ali ao Cais do Sodré, e prolongámos o serão. De súbito lembrámo-nos que o ma-schamba cumpriu 11 anos há alguns dias, esqueceramos isso. Há 11 anos bloguei isto, um trecho do grande Ruy Duarte de Carvalho, abrindo esta mania de blogar, de botar. E foi mais ou menos então que escolhi como epígrafe isto de Nassar: "…cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca do seu barulho dou-lhe o meu silêncio…".

 

Ri-me. Tanto por o blogar ser agora tão menos importante, que até esqueço (esquecemos) o aniversário do estaminé - coisa em tempos tão cuidada, saudada por outros e festejada em casa própria. Mas ri-me também por a epigrafe, sempre escolhida por aparentar paradoxo, o ser hoje verdadeiramente contraditória. Pois passei o jantar a resmungar, repetir, o contrário. Vivemos momentos únicos no país.  E vou crente que a cada um compete resistir, "rua a rua, prédio a prédio, flete a flete", disse-o vezes sem conta, "rua a rua, prédio a prédio, flete a flete", contra os poderes que se horizontam, essa tropelia neo-socrática que aí vem. Tudo recomeçará?, os craxianos vão reganhar? Quase de certeza, que é deles que o povo gosta (é ver os académicos tugas a quererem dinheiro para a sua "investigação", para a sua "cultura"). Seja assim. Mas cumpre à gente resmungar, vociferar contra isso. Barulhentos o possível. Entre outras coisas, mais do silêncio.

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publicado às 02:09

No feedly (22)

por jpt, em 11.12.14

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Amargo:

 

- "O PS não aprende", no Vida Breve.

 

- "O último refúgio ...", no Banda Larga.

 

- "A grande questão política do nosso tempo", no A Barriga de Um Arquitecto (que acrescenta o educativo "Sabia que os bancos criam dinheiro do nada?".

 

 

- "Minha boca doce", no Escrever é Triste.

 

- "Crumbs, um livrinho à conquista do mundo", no Cadeirão Voltaire.

 

- "Keith Jarrett e os outros (dois)", no Sound+Vision.

 

- "Lulas suicidas", no Espumadamente.

 

- "O colonialismo nunca existiu", no Buala.

 

- "Ela" (a morte?), no Apenas Mais Um.

 

- "A Síndrome de Ernesto e a multiculturalidade / Ser professor em Moçambique", um texto bastante problemático no Raposas a Sul.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 15:54

Portugal, país de poetas

por mvf, em 11.12.14

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 Pouco se pode dizer sobre o  escrito e o descrito (prédio em Lisboa)

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publicado às 08:39

A velha livraria

por jpt, em 11.12.14

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Há algumas semanas, num sábado de manhã, fui buscar a Carolina ao Clube Hípico, ao Campo Grande, para onde fora com umas das suas raríssimas amigas de Lisboa. Nos seus 12 anos ela mal conhece a cidade, que sempre desusou, e por isso regressámos em modo pedestre. Atravessámos a Torre do Tombo, indo-lhe à porta, para que conhecesse ela onde eu trabalhei um ano e tal, cruzámos a famigerada "Direito" onde andei um mês e meio antes de conseguir fugir, descemos ao Colégio Moderno, a rua do presidente Soares e da escola das suas amigas de cá, e fui-lhe mostrar as livrarias daquela rua, que frequentava diariamente naquele ano e meio de trabalho nos então "Arquivos Nacionais/Torre do Tombo", no início dos 1990s - frequência diária pois não se podia fumar lá dentro, o ambiente era um bocado tétrico, um servilismo patético para com a então vice-directora, uma coisa enjoativa, um medinho sempre presente. Chegado ao almoço tinha que sair dali, esquecer a cantina local, procurar um sol afastado daquele "pidesco" ambiente [o arquivo da PIDE estava num andar superior, talvez infectasse o edifício], abandonar a ditadura do relógio de ponto que fazia aquela gente perfilar-se na hora exacta da saída, o mundo do funcionalismo público no seu pior formato.

 

Saía então todos os dias, em alguns percorria os poucos restaurantes na área circundante, nos outros vasculhava as duas livrarias ali à "João Soares", uma especializada em livros estrangeiros (e da qual não me lembro o nome) e a outra a "Lazio", apinhada de edições nada recentes. Um manancial de livros, a comprar, folhear, registar para "mais tarde". Ou apenas passar o tempo. Recordo-me de, quantas vezes, ali me enjoar com o pó dos livros, um prazer paradoxal. 

 

Pois fui lá agora mostrá-la à Carolina, não porque pense eu que vá ela virar bibliofaga, menina que é dos tempos electrónicos e pós-pdf, apenas para partilhar onde gostei. Estava fechada a "Lazio", com uns papéis nas janelas, mas nela entravam dois homens, com ar diligente. Julguei assim ser coisa de arrumações ou rearranjos. Mas leio agora que fechou.

 

Que feche uma livraria daquelas no centro geográfico do mundo académico lisboeta espanta-me. Ou talvez já nem isso. Pois apenas vai assim.

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publicado às 08:19

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Sobre a empresa Gazprom, as tríades russas, o servilismo alemão, a camorra italiana, etc e tal nada digo, nada posso fazer. Mas sobre aquilo  em que posso ter alguma, ínfima, influência, sim, há que dizer. 

 

Irrita-me, e de que maneira, que o Sporting jogue, no campeonato nacional, em Paços de Ferreira ou no Estoril vestido de Paços de Ferreira ou Estoril. Irrita-me muito mais que jogue no estrangeiro à Paços de Ferreira ou à Estoril.

 

Fomos eliminados por causa da "rosca" contra o Maribor ou por causa dos mafiosos russos? Nada disso. Fomos eliminados por não nos respeitarmos, por jogarmos num radical amaricado amarelo. Quem não respeita a sua história, a sua identidade, não merece mais.

 

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publicado às 23:40

Fotografia colonial portuguesa

por jpt, em 10.12.14

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O tipo de livro que desperta imediato interesse, vera água na boca, este  "O Império da Visão: Fotografia no contexto colonial português", organizado por Filipa Lowndes Vicente (de quem li há algum tempo um livro delicioso [e sábio], o "Outros Orientalismos", exemplo de reflexão imaginativa e ágil). Este de agora é um volume com a participação de vários autores.

 

Será apresentado amanhã, quinta-feira, dia 11, às 18h30m, no agora célebre Instituto de Ciências Sociais (ali entre a Av. das Forças Armadas e a Biblioteca Nacional) por Isabel Castro Henriques, que é em Portugal uma verdadeira referência na história de África.

 

Não acredito (crise e, mais do que tudo, penacho académico - o também dito blaseísmo, que por cá tanto abunda) que sirvam chamuças no fim. Mas ainda assim justifica-se a ida, em busca do desconto do dia no preço do apetecível livro.

 

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publicado às 23:21

Peniche

por jpt, em 10.12.14

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Peniche é tão longe como o é a Manhiça mas o certo é que não ia lá há mais de 30 anos, coisas da inércia. Quando lá terei ido? Não sei, pois constato agora que nem tinha memória da terra. O Pedro levou-me lá, coisas de ter ele uma actividade universitária de "extensão" na escola secundária local, a "Árvore das Memórias", assim a intitula ele.

 

Ao seu desafio logo disse que sim, pois para além de tudo o mais prometeu-me pagar o almoço. Assim fomos, bem recebidos na escola, um robusto edifício "Estado Novo tardio" (1957, acho) em muito bom estado, já bem acrescentado nesta alvorada de milénio. Assisti à sua sessão numa turma super-animada e enérgica de um curso técnico-profissional (daqueles que a chanceler Merkel nos recomenda), da qual gostei imenso, vinte jovens a desmontar as preconcebidas e preconceituosas ideias sobre a "decadência (geracional) do império romano".

 

A simpaticíssima colega que nos acolhera dera-nos um brifingue ("sinopse" em português arcaico) sobre a natureza e a sociedade penicheira, detalhando-se face à nossa particularmente enfática curiosidade gastronómica. Foi-nos assim recomendado o alfaquique frito com açorda de ovas ou um sequinho (de cantaril), não deixando de nos avisar sobre os "esses de amêndoa", ditos como prenunciando um júbilo final. O local que acabámos por escolher para culminar a nossa penichice foi o restaurante "Sardinha", do qual não retirámos razões de queixa. Ainda que, devido à situação proto-calamitosa que nos acomete, nós lumpen-intelectualidade, eu tenho prescindido das degustações regionais, algo mais dispendiosas, e me tenha ficado pelo quase-sempre prestável peixe-espada grelhado, um vintage dos frutos do mar. Mas que ali nem grande coisa. O Pedro sabe da poda e explica-me: "estão proibidos [pelo demo ASAE] de grelhar em carvão - só nas "festas" o podem fazer - e os grelhados ficam assim, desenxabidos". A ecologia tem custos, assumo.

 

Depois percorremos a Fortaleza, perdão, o Forte de Peniche. O Pedro doutorou-se sobre a Ilha de Moçambique, eu andei por lá bastante, aos caídos, isto de fortalezas (perdão, fortes) chama-nos, apela-nos. Surpreendeu-me o tamanho daquilo, imponente. E, sem saber da sua história, quem terá tido a ideia de a instituir assim, imponente, naquela ilha [Peniche era uma ilha? acho que o ouvi dizer]. Assim posta exige uma leitura sobre a história da estratégia defensiva desta nossa costa.

 

Percorremos o parco museu do forte, a lembrar a prisão do "Estado Novo". Depois todo o terreiro daquilo - tem um museu (municipal) que não visitámos e uns ateliers de artistas locais - uns guerreiros em metal a lembrar a arte étnica da África Austral d'agora, aquilo de transformar o espólio de armas em arte, mas aqui talvez com menos arreganho imaginativo. Acima de tudo fico estupefacto, de novo, agora vendo-o de dentro, com o tamanho do forte. E, claro, com o seu desuso. Que fazer do verdadeiro mamarracho? Vários edifícios, das várias levas de construção, devolutos. Parece-me aquilo aprisionado, ainda que já não prisão, da museologia. Turismo, serviços, comércio, algo tem que ali entrar, verdadeiro mausoléu de um tempo que vai passando. 

 

No final a exposição do centenário de Cunhal. Que fique explícito, eu gosto de Cunhal, por motivos estéticos e familiares. Mas o que encontro em exposição no edifício público é uma mescla da sua invocação e da evocação da prisão "dos tempos". É a narrativa PCP colocada em edifício público. É muito legítima, mas é isso. Como se entregássemos os palácios às narrativas monárquicas e os templos às narrativas eclesiásticas. Falta ali qualquer coisa, em termos de tratamento. Por exemplo? Visitámos a sala final acompanhados de um casal. Francófono. Nem uma legenda em língua estrangeira. O que restou do internacionalismo proletário?, pelo menos ...

 

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publicado às 18:59

É de homem!

por jpt, em 08.12.14

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A minha antipatia com o popular Manuel Luís Goucha prende-se com o facto de o ter visto apresentar o programa da manhã na RTP, durante anos transmitido em simultâneo na RTP-África: o que era prova da total desistência desse canal (ainda existe a RTP-África?), tão óbvia era a desadequação daquilo para um programa direccionado para os públicos dos países africanos. Mas assim fico obrigado a dizer que se a minha irritação era com Goucha a culpa era-lhe estranha, aquelas direcções de programas é que não tinham tino. Ainda assim não higienizo em demasia, Goucha vale o que vale, e o ordinário que vale escreveu, estupefacta e desagradada, a Ana Leão aqui e muito bem.

 

Apesar disso tudo que saia uma juiza a dizer em sentença oficial que o homem é passível de ser dito "apresentadora" por "ter atitudes e roupas coloridas, próprias do universo feminino" é  uma boçalidade inadmissível. Goucha apresentará queixa ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Faz muito bem, "é de homem!" como se dizia nos tempos mais marialvas.

 

Vem isto tudo do homem ter metido em tribunal um programa que o nomeou para "melhor apresentadora do ano", um peido a julgarem que era humor. No "5 Para a Meia-Noite". Vi este programa há um ano e tal, um único episódio, um lixo infecto na linha dos programas humorísticos-comentatórios entre a política e a bola que grassam na tv, na prática herdeiros da tralha anos 90s que era "a noite da má-língua", e que os infectados burguesotes lisboetas adoram (é vê-los falarem dos eixos do males e dos governos sombras). Na altura vi o tal "5 para a meia-noite" porque me avisaram que lá estaria, em directo, o escultor moçambicano Gonçalo Mabunda, amigo e excelente artista. Liguei e encontrei-o deitado numa cama, sob os lençóis, acompanhado por outros dois seres de aparência humana (um seria um tal de Markl, se não estou em erro). Mabunda, aqui em Lisboa meio atrapalhado, lá estava, a fazer o que terá pensado ser necessário fazer na terra dos boçais tugas ("em Roma sê romano"). Quando vociferei no meio dos meus amigos lisboetas sobre aquela abjecção todos  me respondiam em sinal contrário, que o programa era bom - tudo gente saído das universidades, letrados, alguns até académicos, entre o doutores-engenheiros-mestres (d'obras artísticas). Reduzidos a isto.

 

Mais vale um Goucha que este eixo de mal-pensar todo. 

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publicado às 15:25

Os noventa anos de Mário Soares

por jpt, em 07.12.14

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Hoje o 90º aniversário de Mário Soares. Sobre o homem o realmente fundamental está dito por Pedro Correia, no Delito de Opinião. Bem melhor isto com ele do que se sem ele tivesse corrido.

 

 

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(Os cartoons são de Augusto Cid, Rui Palma, João Abel Manta e António, respectivamente).

 

 

 

 

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publicado às 15:46

Country road...

por AL, em 05.12.14

Já estou no “arioplano” a caminho de Vancouver cidade – etapa inicial do meu regresso a casa.

AL

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publicado às 16:57

Conversas daqui 4 (surreal!)

por AL, em 04.12.14

Hoje de manhã passou por cá a nossa vizinha que tem boa pessoa escrito na cara e que é uma querida (esquisita, mas querida); veio despedir-se de mim. A visita foi surreal!

Começou por contar-nos que também ela esteve na workshop de tambores e também pariu um tambor (um pouco para o animista este pessoal daqui). Trouxeste-o para casa?, perguntou a minha amiga, gostava de ver. Assim que puder trago-o, responde-nos ela, ainda não posso andar com ele porque não sei o que os outros pensam dele. Perante a nossa perplexidade elabora que o tem exposto no santuário do sol para ser avaliado pelos outros tambores (de outras workshops, presumimos nós, que já não perguntamos muito porque temos medo das respostas). Preciso de saber se é um tambor positivo; quando eu sentir que foi aprovado pelos outros tenho que primeiro apresentá-lo à minha árvore avó e só depois é que posso apresentá-lo a outras pessoas. Daqui seguiu para o novo namorado – sinto que estávamos destinados um ao outro e temos os dois a certeza que já fomos casal nalgumas das nossas vidas anteriores. Isto tudo de um fôlego e sem se rir!

Quando a minha amiga à laia de conversa para desviar assunto refere ter uma ligeira dor de cabeça ela confirma que sim, sim senhora, tem mesmo uma dor de cabeça porque ela viu logo que a aura da minha amiga precisava de ser afofada (your aura needs to be fluffed em voz profunda quasi Darth Vader). Levanta-se, aproxima-se da minha amiga e começa a fazer círculos com as mãos por cima da cabeça dela (como quem cata piolhos e os atira para o chão) e a dizer que lhe vai tirar a dor, que vai absorver a energia negativa e devolvê-la à terra onde ela se transformará em adubo e dará vida às coisas belas da natureza. Eu, numa aflição e com cara de isto não me está a acontecer por favor um buraco depressa, só chupava as bochechas para fazer os cantos dos meus lábios irem para baixo e não me desatar a rir.

Quando eu pensava que mais não era possível, começa a andar em círculos à volta da minha amiga, fazendo gestos de quem apanha coisas do chão e as atira para cima dela. Agora estou a tirar alegria da mãe-terra e a pô-la na tua aura; vais ficar boa num instante. E eu, numa aflição crescente e sem poder mais, levanto-me de rompante, digo tenho que ir buscar lenha e saio porta fora.

Respiro fundo e penso: amanhã vou-me embora!

AL

 

 

 

 

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publicado às 23:27

Conversas daqui 3

por AL, em 04.12.14

Hoje, o nosso vizinho que pariu um tambor (juro que foi ele que disse “my drum workshop was awesome; I gave birth to a drum!) passou pela nossa cabana para um bate-papo.

Falámos do inverno tão suave aqui relativamente ao resto do país; da beleza da paisagem; dos preparativos para o concerto de Natal com “instrumentos espirituais” (não sei o que são e tivemos medo de perguntar. Acenámos que sim, como se soubéssemos perfeitamente do que ele falava e deixámos andar). Com os temas de conversa a acabarem, comentamos (eu e a minha amiga) a segurança que sentimos na ilha, com taxas quase nulas de crime. Ah!, responde o vizinho, isso é porque nós aqui projectamos muita energia positiva, amor e paz...

Olho para a minha amiga que está com cara de por-favor-vê-lá-o-que-dizes-que-eu-ainda-tenho-4 meses-deste-castigo-pela-frente, agarro na chávena, empurro o e-se-fossem-projectar-paz-e-amor-para-a-Síria? com um pouco de chá, miro a paisagem ligeiramente nevada lá fora e não digo nada.

AL

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publicado às 16:26

Alix: os nossos heróis da BD

por jpt, em 04.12.14

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Aqui vi - e verdadeiramente fiquei estupefacto - a notícia da publicação do próximo volume de Corto Maltese. Anos depois da morte do seu autor Pratt, ou melhor dizendo, da sua morte ele-mesmo, alguém, mandatado por herdeiros e editores, legalmente pirateará o nosso Corto e sua galeria. O povo comprará.

 

Lembro que há anos visitei uma daquelas lendárias livrarias de BD em Bruxelas. Estava ainda, nesses belos tempos, armado de cartão de crédito. Significava isso que o único obstáculo era os quilos de bagagem permitidos no avião para Maputo - e como pesam os hardcovers da BD! Choquei com um novo Blake & Mortimore - claro que já pós-Jacobs -,  tremi (o "Armadilha Diabólica" é um dos livros da minha vida e ainda me lembro do aroma de cada vinheta)! O jovem livreiro, informadíssimo, à minha pergunta sobre se valeria comprá-lo refutou a negativa mas, cúmplice, deixou o olhar cair em alguma outra estante, túrgida de livros apetecíveis.

 

Sei que o mercado da saudade da BD é importante e traz novos leitores e dá novos públicos - li que o novo Astérix, o primeiro pós-Uderzo (finalmente) foi o livro mais vendido em França. Mas tem que haver limites para estas cartas de corso, este rapinar da arte antiga, esta legitimidade do trabalho de falsário sob a desculpabilização da indústria.

 

Resmungo isto a propósito do "Britannia", relativamente recente volume das aventuras de Alix, o grande herói de Jacques  Martin. Alix dará pano para mangas e calças para a crítica dos estudos culturais (e pós-coloniais) - e se calhar já deu. O louro descendente de gaulês que é cidadão romano e que segue uma republicana ética, defensor de uma boa República (ou proto-Império, pois contemporâneo de Júlio César), configura em absoluto a imagem do "assimilado", defensor do "império" correcto, da "civilização" da boa lei e ordem. Lido agora Alix será o caso mais extremo na grande BD (e até na literatura canónica) do mundo colonial-imperial europeu da 2ª metade de XX, sobrevivido na sua radical essência devido ao seu carácter infanto-juvenil, que o terá eximido - aquando da sua produção e nas décadas posteriores - da radical crítica que incidiu sobre os produtos discursivos ocidentais (particularmente após as obras do gigante Said, um tipo que iluminou o mundo que nos rodeia - por mais que isto custe a quem não quer pensar [oops, então o jpt não é de direita?]).

 

Mas eu vivo com Alix desde 69 ou 70, no Tintin de semana e nos álbuns subsequentemente editados. Estou-me rigorosamente nas tintas para o seu implícito. E comprovo, empiricamente, que um tipo adorar Alix não o torna um torpe esclavagista - que o anacrónico herói não é, tão "moderno" é na sua ética - nem um defensor da "pax romana" (ocidental) civilizadora, algo que o herói substancializa. Pois o crucial no autor Jacques Martin é, para além dos valores do humanismo que defende, o sumptuoso gráfico que se associa à cuidada reconstrução histórica. Poder-se-á amar a história (a História) sem a gostar nos desenhos de Jacques Martin? Ou, para ser ainda mais radical, poder-se-á ser "europeu" sem ler ler, gostar e fruir Alix? É intelectualmente analisável, criticável, o seu conteúdo? Com toda a certeza. Mas como criticar, analisar, algo que não se leu, não se perseguiu, não se comprou ou tomou de empréstimo? Não se amou?

 

Em Bruxelas, cidade da ligne claire ( terra que sempre dizemos aquela lá de Jacobs, de Martin, de Hergé, do sempre esquecido Cuvelier) deparei-me com este "Britannia", já pós-Jacques Martin, a tal indústria banda-desenhística. Nem hesitei na compra, apesar destes novos tempos parcos. Para me defrontar com um sub-produto, isso mesmo. A alguém (nem vale a pena mostar o nome) se entregou a carta de corso para continuar a rapina sobre estas pobres populações costeiras, o povo dos "Clientes". Um enredo complicado e nada verosímil. Mas isso é menos. Pois ali habita um desarranjo gráfico agressivo, até humilhante para nós-amantes. Pois se Alix sempre teve massas de texto volumosas nunca como agora elas surgem agredindo a imagem, poluidoras, uma penosa incapacidade de síntese. E, pior do que tudo, um desenho grosseiro, agredindo personagens, perspectivas, horizontes. As nossas almas fiéis. Uma vergonha.

 

Comprovando isto que deveria ser o óbvio. Em morrendo o autor-persona finda a criação-autor. Por mais que chore o negócio...

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publicado às 00:31


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