Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Stewart hoje em Lisboa

por jpt, em 02.07.15

b.leza.jpg

 

Hoje à noite, Stewart no B.Leza, a bela casa lá no Cais do Sodré, aquela sala de espectáculos/discoteca com tão rasgada vista para a Catembe de cá ... Os que conhecem estarão, decerto. Para aqueles que ainda não? É dia de sair à noite, naquela via ...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:59

Os 60 anos de Ídasse

por jpt, em 01.07.15

Idasse Imagem.jpg

 

 

"Sou um aldeão" afirmou Ídasse, em entrevista que concedeu há alguns anos, decerto que falando lá no seu tão maputense bairro do Jardim, naquela rua dos Citrinos que é com ele mas não dele, que nunca homem de usurpar. Nem todos o terão percebido, muito pela placidez com que sempre engradece o que diz, homem esquivo às manias e estratégias, mais deixando correr este tempo que é a vida, sagaz como poucos.

 

Disso, dele, me lembrei há poucos dias, ouvindo Ungulani numa abrasiva tarde nos jardins da Gulbenkian, nesta Lisboa. Recordava o Khosa, naquele seu jeito de charla, nada pomposo mas todo reflectido, os caminhos da ascensão da literatura moçambicana, dos anos 1980s em diante, repetindo o que lhe ouvi algumas vezes nas mesas partilhadas de Maputo. Que à tenaz da poesia de combate, aquilo da mobilização no imediato pós-independência, se sucedeu uma nova geração, a querer falar o real, reconstruir o modo de o dizer. Bebendo em Craveirinha e no livro de Honwana, claro, só então espalhados nessa alvorada nacional. E muito nos célebres latino-americanos do tempo - dos quais, acho eu, sempre temos que retirar Borges, por causas do mundo lá dele, todo intransitivo. Porque aqueles mostravam como meter em cima do papel as formas como as gentes em seu torno entendiam e fabricavam o mundo, daí lhes terem chamado "realismo mágico". E também o Diniz Machado nos dizeres de Molero, lembrou e que a gente d'agora tanto esquece, esse que avisou os moçambicanos que se podia usar o português sem o chapéu na mão, a pedir licença. E, ainda, a pintura de Malangatana. Do pintor vinha-lhes o mergulho nas maneiras de ver, nisso das "visões do mundo" dos vizinhos, tudo contrário, todo se opondo, aos pensamentos oficiais de então, esse abjectando os "feudalismos", "obscurantismos" e "tribalismos", naquela utopia modernista a julgar que o racionalismo era essa angústia de fazer "tábua rasa" das gentes, moldá-las a regra e esquadro num algo "novo", extirpando-as do que iam sendo. 

.

No início da década de 80s surgiram aqueles começos, atrevimentos mais autónomos dos então mais-novos: as primeiras colectivas de artes plásticas e a revista literária "Charrua", esta juntando quase-todos os que vêm escrevendo Moçambique desde então. Em ambos os eixos se destacava Ídasse, muito nesse caminho de olhar em torno, qual vedor e nunca como engenheiro civil, pedagogo ou advogado. Aos da escrita enriquecendo-lhes as revistas com suas obras mas também dando-lhes capas e ilustrando-lhes textos, como o continua hoje, 30 anos depois. E, muito mais, mostrando-lhes não só o que os rodeia mas como a isso atentar. Entre os companheiros das plásticas tornando-se, no seu jeito desinteressado, melhor dizendo, desapressado, no grande homem da sua geração. Talvez por ser essa desapressa que o deixa apreender como ninguém o que se passa e porque se passa.

 

Pois é assim que vai mostrando que "sou um aldeão". Não um qualquer nessa paródia da "aldeia global", ou dos pobres "glocalismos" de que se falou/falhou antes. E muito menos sob um qualquer folclorismo, como se o seu atelier fosse altar ou terreiro de "crenças" ou "usos e costumes" de umas quaisquer "boas gentes", tralhas tão apetecíveis aos da vácua "new age". Em várias formas e expressões mas, ao meu amor, mais no carvão e no acrílico, o que vem dizer é que só apreendendo o olhar e o imaginar do nosso aqui, e revivendo-o à maneira d'agora, é que podemos fruir o mundo que abarca a nossa "aldeia".

 

Ídasse é um sábio, apaziguador - até pessoalmente o sentimos, o seu convívio invadindo-nos de paz e isto sem recursos a quaisquer misticismos de pacotilha. Com profunda e única sageza convoca as concepções da "aldeia", daquele mundo tsonga do qual ele, ronga Tembe, provém. Trá-las naquela míriade de seres imaginados que nos rodeiam, míticos se se quiser. Mas não, como no antecessor Malangatana, numa deriva denunciatória dos horrores sofridos e das energias convocáveis. Nele vivemos num mundo de lagartos antropófilos e aves semagoiro, uma fauna dançarina panteão de pequenas divindades, poucopotentes, que entre nós cirandam, com e por mas talvez também contra nós, neste descaminho constante, sempre a refazermos, tropeçando. É assim que Ídasse é um sábio, filósofo na sua maneira, antropólogo mais do que nós. E o maior artista plástico moçambicano.

 

Hoje mesmo, 1 de Julho de 2015, Ídasse torna-se sexagenário. Já. Que em Maputo, sua cidade, disse se lembrem, se entreavisem os mais distraídos. O saúdem. Retribuindo o quanto ele vem distribuindo. De afecto. E sentirpensar.

 

idase.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:28

Os limites

por jpt, em 28.06.15

mulher.jpg

 

(A mulher ajoelhada vai ser assassinada com um tiro na cabeça, acusada de adultério. A seu lado o pregador, ali líder. Há um filme disponível mas não o reproduzo aqui.)

 

def.jpg

 (Em Mosul um homossexual vai ser defenestrado mortalmente. Há imagens subsequentes, para quem precise de as perseguir) 

 

Há uns meses, após o atentado em Paris contra a revista "Charlie Hebdo", um ícone da esquerda cristo-marxista, Leonardo Boff, publicou um miserando texto apelando à censura e à auto-censura, afrontando o direito à blasfémia. O coro das concordâncias logo começou - eu mesmo assisti, pouco tempo depois, a um debate sobre o assunto no Museu Bordallo Pinheiro em Lisboa, em que o moderador, o então presidenciável Guilherme de Oliveira Martins (presidente do Centro Nacional de Cultura), e que "toda a gente" em Lisboa muito respeita, culminou em tom suave explicitando exactamente isso: que há limites (de "inteligência" e "bom gosto") à blasfémia. Sem que algum dos participantes (3 conhecidos cartonistas) ou ouvintes (uma sala cheia) se insurgisse, apesar do mui solidários que ali se apresentavam ... Entenda-se, no início do debate um dos espectadores explicitou muito bem quais são os limites à liberdade de expressão: os estabelecidos na lei. O antigo ministro socialista (e quiçá futuro) sorriu cordatamente, concordou, e conduziu o debate culminando, com o mesmo sorriso cordato, explicitando exactamente o contrário. A audiência, nitidamente do gauchisme pequeno-burguês (intelectuais liberais [aka franco-atiradores] e funcionários públicos), que enchia a sala, aplaudiu sob a hipnose que lhe é característica. O único espectador com arcaboiço (o que falara no início) já saíra e eu não tive armadura moral para pontapear a perfídia do ministro guterrista ("toda a gente em Lisboa muito o respeita", e isso massacra este torna-viagem).

 

Entretanto no muralismo-facebuquista o texto do padre Boff tinha sucesso. Os mais indignados dos indignistas partilhavam-no entre loas. Para mim foi "cada tiro cada melro", cada um que o partilhava era cada um que eu apagava das minhas ligações, e a alguns com verdadeiro espanto em encontrá-los assim. Podemos concordar ou discordar com algumas questões mas isso não nos afasta radicalmente do contexto democrático (como exemplo crucial, a pena de morte). Mas o direito à blasfémia é outra coisa, é um dogma da democracia, basilar. Pois nesta, como então tão bem disse Nick Clegg, à época vice-primeiro-ministro britânico, "não temos o direito de não sermos ofendidos". Por isso para mim, talvez num dia de particular mau humor, nem dúvida houve: cada tipo/a encantado com o totem da "teologia da libertação" a pregar os limites à blasfémia estava para além da democracia, aparecia como um arauto da censura, um colaboracionista. Não os quero à minha mesa da taberna. Que vão pregar "alter-globalizações" para as masmorras. Democráticas.

 

Avante. Lembrei-me disso nesta madrugada. A propósito da actual crise grega vejo pessoas conhecidas, e até um querido amigo, a dizer que "as instituições europeias" ou a "troika" são tal e qual / piores do que o ISIS. Tão terroristas como ... É certo que há muitos holigões por aí fora, bem para além do futebol, e tanto grassam no botar sobre coisas políticas. Um tipo encolhe os ombros. Mas que dizer ("que fazer?", como dizia o Ulianov) quando são os amigos verdadeiros? Que pensar quando intelectuais que penso consistentes, juristas renomados, dizem uma aleivosia destas? Para além de todos os limites do auto-respeito? Corto relações? Envio um email apelando a que se desloquem para uma qualquer genitália, da parentela se possível? Escrevo às respectivas famílias para os levarem ao médico?

 

Blogo. E digo-lhes para googlarem ISIS. E também para se calarem durante umas semanas. Durante o verão a norte. E durante o inverno a sul. E depois voltem, para mais umas patacoadas. Para levarem mais uns carolos. Pois assim, para além de todos os limites, de facto o palrar deles não vale nada. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 05:44

lisipo.jpg

 

 

Um dia lá em Maputo o bom do António Cabrita tirou-me esta fotografia, pois achou-me parecido com um andarilho que por lá passara, não sei se turista se cooperante, disse-me ele que assim para o turbulento, um tal de Herakles, amigo de outro lá da comunidade grega maputense, um tipo dado às artes, o Lisipo, este com o qual o próprio Cabrita tinha acamaradado, julgo que coisas de uns copos conjuntos e da realização de um catálogo para uma exposição do helénico e de umas ilustrações para um ou outro livro do próprio Cabrita, se não estou em erro.

 

Nesta alvorada lembro-me desses gregos, e em particular do meu sósia, gente que não cheguei a conhecer, e que deixaram boa impressão lá por Maputo. A propósito da crise económica-financeira na Grécia deles, sobre a qual tanto estou a ler nos jornais, nos blogs e nos murais-FB patrícios e moçambicanos. E fico compungido, com esta minha distracção. É que, apesar das parecenças, sou o único tipo que não sabe como resolver aquilo, todos os outros conhecem a (uma) solução. E botam-na, freneticamente.

 

Devia ter estudado mais.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:14

Colonial?

por jpt, em 26.06.15

clint huston.jpg

 

É um colóquio académico, coisa internacional aqui em Lisboa. Nada tenho a dizer mas vou visitar, escutar, há até um fim de manhã dedicada a textos sobre a zona de língua macua, antropólogos estrangeiros a falarem, de meus colegas patrícios nenhum na audiência, da disciplina apenas um, eu mesmo. Sorrio, sarcástico: enredados nas questões das "masculinidades", dos transgendeirismos ou destes folclorismos d'agora, desses a fazerem-se ao património unesco, nenhum saiu do gabinete para ir ouvir sobre uma zona onde vivem mais pessoas do que neste Portugal, e numa azáfama de permanências e transformações. Que o mundo é grande como o caraças sabe-o qualquer aldeão que se atreva a ir ver o mar, faltam é aldeões atrevidos lá pelas academias ...

 

 

A sala coloquial está composta, gente de outras disciplinas. Almoço na cantina da universidade, aqueles três euros e tal a que me reduziu este todo desajeito em vida. Uma colega, jovem estrangeira aqui vivendo, simpática e competente, sei-o porque a li e até já ouvi, vinda de outras disciplinas ("prima", posso dizer) senta-se à minha frente, nestes breves diálogos tão típicos destes eventos.

 

Com afabilidade diz-me que me vai lendo, os textos longos na minha conta na rede Academia.edu, e também este palrar no ma-schamba. Agradeço-lhe, até encabulado. E pergunta-me se sou de Moçambique. Eu esclareço-a, que sou português. Ela riposta, que o sabe. Mas não serei eu lá nascido, ou a minha família de lá? Se somos retornados?, sumarizo-lhe. Que não, não sou, nunca lá estive antes de 1994, que os meus pouco por lá passaram e em nada moldaram o "meu" Moçambique, mais do que tudo porque nunca foi verdadeiro assunto lá em casa. Mas, interrogo-a, porque me pergunta isso? De onde lhe vem a dúvida?

 

Sorri, até bonitamente, com elegância, avançando que ao ler-me lhe parece que eu sou de lá, "há qualquer coisa" no que digo e escrevo, talvez vinda daqueles tempos. Sou eu agora que sorrio, repetindo a negação. Percebendo-a mas deixando correr, o tom dela é afável, não há necessidade de discutir, ainda para mais com uma jovem senhora. Mas sei-lhe, é visível, o perfil. O ideológico, frise-se. O desta esquerda conceptual, enredada. Percebo-a, está-me a perguntar se não serei eu um "colonial". Não tanto um "colono" e nem mesmo um "colonialista", que tudo isto que me diz vem com até amizade. Mas, vá lá, não serei eu um "colonial"?

 

Apetece-me responder, claro, mas deixo cair. Deixo passar o momento ainda que logo ali saiba como lhe explicar a coisa. Deixo passar uns meses. E venho esclarecê-la, com o que então me apeteceu dizer. Apelando ao Clint, claro, o Eastwood, o tal tipo de direita. Este de "White Hunter, Black Heart", um filme de 1990 (um ano após a queda do muro comunista, já agora).

 

O filme é uma eulogia, sem dúvidas, de John Huston, a propósito do seu "Rainha Africana" (com o herói Bogart e a deusa Hepburn). Para além das peripécias da realização daquele filme em África, do retrato do idiossincrático realizador e sua relação com o mundo de Hollywood, centra-se na sua paixão pela caça: a personagem hustoniana quer matar um elefante "porque é um pecado" e ele o pode fazer, tem para isso poder, uma cena liminar, excelente.

 

 

Mas há muito mais, numa sublime aparente contradição, o húmus do filme. O avatar de Huston é um democrata, antifascista (retratam-se os anos 1940s). Insulta uma colona inglesa anti-semita (a cena acima), provoca uma desigual luta com um colono racista inglês, por isso sendo espancado - e explicita a semelhança das atitudes, as do racismo nazi e do colono. É, como a minha prezada colega o é dezenas anos depois, um democrata, de "esquerda" ("liberal", dir-se-ia nos tempos lá na América), certo que em tom blasé mas basto empenhado. Depois vai à caça, cria uma ligação com o seu guia. Que conduz, patrão paternalista, à morte. É no fim do filme que Eastwood explicita o título, os tamboristas tamborilando "caçador branco, coração preto". Apesar das boas causas, daquilo de "esquerda", da atitude (e do álcool), da aparente generosidade e solidariedade.

 

É talvez por isso que nunca Clint entra nas notas de rodapé dos "papers" sobre a "colonialidade" ou sobre o "colonialismo". E por isso que a "esquerda" sempre tâo solidária o diz de "direita". E, também, por isso que um tipo que lhe vê os filmes tem qualquer coisa de  ... "colonial".

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:09

A CPLP e o Acordo Ortográfico

por jpt, em 26.06.15

selo-acordo-ortografico.jpg

 

 

No Delito de Opinião um texto obrigatório de Sérgio Almeida Ribeiro. Sobre a trapalhada na reunião de um organismo da CPLP provocada pela aceitação do Acordo Ortográfico. Para quando a reversão deste tardo-colonialismo socialista?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:01

sampaio.JPG

 

 

Sou algo ambivalente face a Jorge Sampaio. Por duas vezes apanhei-o em visita a Moçambique quando era ele presidente da república e deixou muito boa impressão. E é um grande sportinguista. Mas, por outro lado, não consigo esquecer dois momentos da sua presidência, pérfidos: quando abjurou a constituição que tinha jurado defender, e aceitou a coligação disfarçada PS-CDS, aquela aldrabice feita por Pina Moura e Paulo Portas (o que deveria ter sido suficiente para ser ele apeado de Belém, o "impeachment" como dizem os televisivos); e quando foi dar um abraço ("em nome da amizade") ao autarca socialista corrupto da Guarda - e talvez tenha sido essa sua hierarquia (o apreço pela amizade acima da aversão à corrupção) que provocou o seu silêncio durante o consulado socrático, pois ninguém pode imaginar que a elite socialista não soubesse da trapalhada imunda do grupo do poder. Mas, ainda assim, tenho algum apreço pela sua figura. Talvez pelo já referido sportinguismo.

 

A ONU acaba de lhe atribuir o prémio Mandela, de periodicidade quinquenal, instaurado no ano passado e agora concedido pela primeira vez, destinado a quem tenha relevantes empresas em defesa dos objectivos das Nações Unidas. É, e não só pelo nome do galardão, uma grande honraria. Os motivos da atribuição chegam nas notícias: o serviço na luta contra a tuberculose. E o apoio ao acolhimento português aos refugiados sírios. Coisas e feitos verdadeiramente muito elevados, que esmaecem aquele meu relativo desagrado, vindo da tal plasticidade face aos desmandos do seu partido.

 

Mas mais do que o prémio interessam-me os ecos que ele tem (ou não tem) no país. Pois vem na sequência do acontecido na passada semana: Portugal foi escolhido pelo MIPEX como o 2º melhor país relativamente às práticas de integração de imigrantes, após a Suécia. Ou seja, em duas semanas seguidas as capacidades e as políticas do país, e das suas instituições estatais, em receber imigrantes e refugiados são rasgadamente elogiadas no estrangeiro.

 

Percorro os blogs mais "à esquerda", os murais-FB dos mais militantistas, entre os quais muitos do meus colegas - sempre prontos a criticar o "poder" e os "burocratas" do Estado, o racismo ímplicto e explícito deste e dos seus membros - , e também os jornais. Eco disto? Nada ou muitíssimo pouco. Pois o que lhes interessa é "denunciar" os males, apontar o "racismo" e até o "fascismo" do Estado e dos seus agentes apoiantes. Submersos numa auto-crítica constante, uma autofagia lusa, desbragada. Um impensamento, até desonesto, que nada seria se não fosse um facto: muitos dos seus locutores são remunerados pelo Estado. Para caricaturar as instituições. E para não reflectirem. Só isso. Pois não é nada "sexy" dizer bem .... o elogio e o reconhecimento são vistos como defeitos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:50

No feedly (36)

por jpt, em 22.06.15

 

fei.jpg

 

LPs malditos: Love you live,no Escrever é Triste.

 

A legião de imbecis que somos todos nós (relativo à boutade de Umberto Eco sobre as redes sociais), no Herdeiro de Aécio.

 

Fury, de Fritz Lang, no A Dignidade da Diferença.

 

Moira Forjaz, no Alexandre Pomar.

 

Alto Bairro, Bairro Alto (sobre o recente filme de Rui Simões), no sound + vision.

 

Quem reconstruiu o castelo de Leiria?, no A Busca pela Sabedoria.

 

O Fantasma (The Phantom), no Leituras de BD.

 

Joaquim Chissano entrevistado sobre o processo de independência, no Moçambique para Todos.

 

Buster Keaton, no Escrever é Triste.

 

O isolamento de Atenas, no Fragmentário.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 17:05

Masekela em Lisboa

por jpt, em 21.06.15

mas.jpg

 

Ontem noite ainda não longa levaram-me a conhecer o Largo do Intendente, aquela zona que "nos tempos" era má demais mesmo para os passeios em busca do pitoresco. Agora semi-recuperada e palco, dizem-me, da animação boémia, dita cultural, e levemente gauchiste ..., felizmente descaracterizadora daquela profunda miséria que naquele antanho ali habitava. Caímos, inesperadamente, num festival musical ali a decorrer nestes dias. O pequeno rossio atulhado de gente, os bares apinhados, ambiente simpático,  muito típico - eu com a cada vez mais habitual sensação de ser avô, tamanha a juventude circundante. Tanta que até agride, ainda que tão pacífica. 

 

Mas o importante é ter percebido que hoje à noite, por aquela hora das vinte e uma e trinta, o grande Hugh Masekela tocará, o encerramento do tal festival, "Lisboa mistura". Vi-o há anos, muitos, lá em Maputo. Vai ser interessante ver o mais-velho aqui, não sei se pela primeira vez nesta capital ...

 

Para quem não o conhece: vão até lá. E deixo aqui a sua "Stimela" (Xitimela), já tornada "clássico", numa versão recente [e aqui já colocara velha versão com transcrição da letra). Até logo?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:39

Olivais

por jpt, em 20.06.15

olivais.jpg

 

 

 

Há anos participei no Olivesaria, um blog colectivo dedicado aos Olivais, bairro lisboeta. No qual cresci, como narrei neste texto nada "clean", a recordar o caldeirão fervilhante dos anos 70 e 80 que era o bairro, tão povoado. E ao qual agora voltei, para o encontrar empobrecido pois envelhecido - e os novos pobres desta terra são os velhos, e tantos e tão velhos há nesta terra ...

 

Por isso me desperta interesse esta palestra, que acontecerá na quarta-feira (18.30), na Av. de Roma. Quando Francisco Silva Dias, arquitecto que participou na urbanização do então oriente lisboeta, falará sobre a planificação do bairro e, decerto, sobre os ideiais urbanísticos, arquitectónicos, sociológicos que alimentaram aqueles dias e trabalhos. E, talvez, sobre os ideais políticos, aquele já tardo-salazarismo, ordenador pela osmose, o cúmulo do optimismo sociológico - este que a gente, distraída, pensa ser o característico da "esquerda".

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:23

Camarada

por jpt, em 19.06.15

paulo gentil.jpg

 

(Paulo Gentil; fotografia de Sérgio Santimano)

 

 

Esta é uma das canções da minha vida. Em tempos recuados também, mas não desde há décadas, por ser um carinhoso cantar desta partilha companheira de um charro, da procurada leveza amigada, isso mesmo que um dia fomos cantar à Aula Magna lisboeta, quando o Sérgio Godinho fora preso no Brasil, ainda os tempos daquela ditadura, por razões de posse de umas gramas de erva. Mas já então, e agora ainda mais, mesmo mesmo nada disso pois muito mais, que a canção subia a hino, como o foi, por dizer isto " É que hoje fiz um amigo / E coisa mais preciosa no mundo não há (...) / Guardei um amigo / Que é coisa que vale milhões", e era e é mais do que o suficiente para a fazer este isso tão grande ...

 

Agora as décadas passaram, chegou a idade e já não é o meu tempo de fazer amigos. Mas sim, como hoje, o de os perder, partidos para sempre,  e eu a cantar embargado "É que hoje perdi um amigo / E coisa mais preciosa no mundo não há (...) / que é coisa que vale milhões". Avançou o Paulinho, o meu querido Paulinho, tinha que ser. E assim, como já o disse, sentindo-o muito, a savana está a ficar desarborizada, sem sombras e sem refúgios. E um homem desabrigado, enquanto aqui vai ficando.

 

Conheci-o já depois daqueles tempos épicos, "os anos de chumbo" que narram em Moçambique, doirados para os homens que o são por mais duros e injustos que fossem, esses tempos e até aqueles homens. Talvez melhor dizendo, tempos doirando os homens, coisa complexa para quem não conhece o país e se apresta em juízos, que nada mais são do que posconceitos, assim falhos.

 

Apanhei-o, apanhámo-nos, depois, já naquela tão aparente modorra do Maputo da paz. As nossas mulheres mui amigas, as nossas filhas crescendo juntas (e como tanto as amamos!, pais velhotes ...), um punhado de amigos em conjunto, este a desvanecer-se tão depresssa, e como dói isto do Kok e do Jorginho também já terem avançado, e mais para mim, não tanto para ele, o Luís, esse que me devastou, me mudou para tão pior, quando foi e eu não consegui estar. E o nosso Sporting, coisa sempre jocosa, mais o resto tudo. Pretextos, e ainda bem que assim foi, para a gente tantas vezes se sentar juntos, partilhando. O jarro de vinho, com alguma parcimónia, sempre o notei, mais um charro ou outro, da parte dele, eu mais naquelas apneias dos uísques e assins. E à nossa volta cada um ao seu ritmo.

 

E nisto eu a aprender Moçambique. Ele o mais moçambicano que apanhei, um profundo zambeziano do zumbo ao índico, do maputo ao rovuma, apaixonado pelo seu país. Pois um conhecedor, amante. Avançasse eu, ou outrem, para a distante província, para qualquer recôndito distrito, havia sempre alguém que ele conhecia, um contacto a fazer, a facilitar as dificeis condições, ainda para mais porque, e quantas vezes mo aconteceu, "és amigo do Paulo Gentil? então estás em casa, do que precisas?", seja lá onde fosse, fosse lá quem fosse ... Pois nele havia um conhecimento denso do país feito saber da história, aquela dos ditos "chuabos", da escola de Chimoio, dos tempos da independência, da guerra civil, na qual andou mesmo mesmo como "camarada comissário político" (como lhe respondia eu ao "professor" nas nossas chamadas telefónicas), e do daquilo do depois, do mundo "ongs", do desenvolvimento, um conhecimento que era o das pessoas que a fizeram, à tal história, e que a estão a fazer, algo que nós, antropólogos, chamamos etnográfico.

 

Um saber feito de memória prodigiosa mas acima de tudo de sabedoria, e não estou a ser redundante. De respeito e, acima de tudo, de um enorme interesse por quem o rodeava. Mais ainda de louvar pois em homem nada plácido, um gajo de irritações, mau-feitio, como o deve ser homem que o é, homem de feitio. Mas homem, e isso sabiam, sabiamo-lo, nós os outros. Por isso mesmo, pelo apreço e cuidado por todos os com quem ombreava, algo a que também se pode chamar só respeito ou mesmo amor, o digo, o sei, o mais moçambicano, o maior moçambicano, que cruzei. E assim, só por assim o ser, ainda que sarcástico, irónico, mesmo até malandro, sendo, e por todos sabido e vivido, homem de amigos, tantos amigos, eu apenas um deles, mas assim a sentir-me tão especial, decerto como todos os outros. Homem ... como tão poucos.

 

Apanhei-o agora no fim, aqui na Lisboa dele tão longínqua. Chegado cansado, pois este mesmo fim, mas o mesmo trato, nada rasurado, o mesmo humor, o mesmo afã do mundo. E conto-o para que os camaradas de Maputo o saibam, os possam assim acompanhar, a alguns destes seus últimos passos. Fui ter com ele ao hospital, aos Capuchos, à primeira consulta, cheguei e aperto de mão pois nada de abraços (e nem o abracei, caralho ...). O médico, um tipo chamado Brotas, muito porreiro, a dizer que entrássemos juntos na consulta, e a gente a negar-se, eu num "não é preciso, só estou a acompanhar" e à terceira insistência do médico, obviamente preocupado, o Paulo logo letal "Zé, o tipo deve julgar que a gente é um casal", coisa dos tempos d'agora-aqui, e a gente a rir-se, sem maldade, apenas de nós próprios, e mais dele próprio, agora-assim, foda-se que estava a morrer. Que coragem!

 

Avançou-me até à Póvoa de Santo Adrião, onde a família tinha casa, arrabalde lisboeta que eu desconhecia. Logo ao melhor restaurante da zona, o "Floresta", a fazer amizade com os empregados, eles seduzidos. A comer nada mas com todo o prazer. Eu a beber a minha angústia. Depois, no segundo dia que lá fui parei, sozinho, no quiosque (a barraca, como se diz na terra) da rua dele, a comprar tabaco, e a miúda "então, o seu amigo hoje não vem?", e ele já era do bairro, gostado e precisado! E eu, que aqui vivo, e tantos outros, e ninguém nos liga ...

 

Dias depois outra consulta, apenas para mais delongas para um homem já sem tempo. No fim perguntei-lhe "camarada comissário político e agora? onde queres ir?", e ele a querer sair dali, daquela Póvoa de Santo Adrião, até à Lisboa ali depois dos montes. "Feira do Livro" disse-me. Avisei-o que era um subir e descer cansativo  para ele e, raisparta, de que vale lá ir, nós sem dinheiro, para além de que aquilo para mim é só comprar livros para a estante, pois tantos já em casa sem serem lidos, e posso-lhos emprestadar, é só ele vir buscar. E ele a rir-se "gosto disso!, é isso mesmo, quero comprar livros para a estante", assim a pensar o futuro, e eu a esmaecer diante de tanta força. Mas ainda era cedo, meio da manhã, a Feira ainda fechada. Fomos almoçar, "talvez ao rio, não?" propus, mas logo lhe dizendo "que nos interessa o Tejo a nós, vindos do Índico?" E assim fomos ao mercado de Alvalade, uma espécie do mercado do peixe lá de Maputo onde acabámos no restaurante local. Eu a presumir um peixinho grelhado, adequado julguei eu. Mas nada disso, "uma cataplana de gambas e peixe" escolheu e assim foi, ele a picar algo com o prazer da vida e eu a alambuzar-me, enquanto lhe prometia metade do frasco de piripiri que o Elísio me trouxe agora de Maputo ...

 

Comemos e falámos. Do futuro. Um pouco disto de Nyusi mas muito mais do como estamos, que vamos fazer, nós-próprios. Ele preocupado comigo, com a minha família "Zé ....!!!" a obrigar-me a pensar, "que estás a fazer?". E eu preocupado, "como estás de reforma?" "de dinheiro?", como "vai ser o regresso?", a esperança quase desesperada a fazer-me ainda mais imbecil. Ele a exigir pagar naquele dia, e assim foi. E a navegar esse futuro que aí vem. Ambos sem reformas, sem bens alguns, sem emprego, sem nada disso. Camaradas manos. "Estamos fodidos, camarada!!" disse-lhe. E ele, quase a morrer, a rir-se devagar, num concordante "estamos!". Pois o Paulo, depois da adesão, dos 40 anos de militância, da guerra feita, e depois de tanto distrito calcorreado, de tanta ong trabalhada, daquilo do desenvolvimento, de tanto contacto, de tanta amizade, nada acumulou. Nada quis. Nada apropriou, nada aproveitou. A sua maneira de andar direito, erecto. De amar, solidário. Orgulhoso.

 

Pois todo se deu, assim fruindo. Todo conheceu, assim fruindo.

 

E eu, agora, hoje, não o vou comparar com os outros. Pois nem o merecem. Fico-me a chorá-lo. Homem a chorar a falta que ele me vai fazer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 03:25

Ba Ka Khosa amanhã em Lisboa

por jpt, em 16.06.15

choriro-convertimage.jpg

 

 

Amanhã, ao fim da tarde, lá naquela Lisboa, ao pé da estação de metro do Chiado, na livraria Bertrand, será apresentado a edição portuguesa do livro Choriro, o mundo zambeziano que o grande Ungulani Ba Ka Khosa publicou em 2009. A oradora será a escritora portuguesa Lídia Jorge - a qual tem uma mozambican connection, fruto do seu "A Costa dos Murmúrios".

 

Espero que a sessão seja um sucesso, que o livro se venda, que o boca-a-boca funcione. E se algum por lá visitante por aqui, ma-schamba, tenha passado, faça o favor de dizer ao Ungulani que este Teixeira (aka jpt) lhe manda um abraço, de saudades preenchido.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:42

Quem ama, odeiaQuem ama, odeia 


Adolfo Bioy Casares é um virtuoso, e aqui surge no que julgo ser o único texto partilhado com a sua mulher, Silvina Ocampo. Uma irónica novela policial: Huberman, um médico, escritor também - e aqui narrador -, sai a um longínquo hotel de praia, para trabalho literário. Aí encontra um cenário tempestuoso e onde decorre uma assassinato, de uma sua antiga doente. Ele envolve-se na investigação, com alguma arrogância e relativa pouca pertinência e eficiência.

De toda a trama fica o sorriso da presença inicial do próprio casal autoral, que Huberman retrata como companheiros de viagem e lamentando ter-lhes dado os dados para eles lhe roubarem narrativas. De resto pouco fica: recuperando a trama policial de crime situacional, encerrado, congregando um colectivo em que todos podem ser suspeitos (na prática o paradigma Christie), há o jogo da não linearidade da narrativa, mostrando (tentando mostrar) a dificuldade de encerrar a realidade num fluxo narrativo e interpretativo.

Ainda assim o texto (1946) feneceu. Vende-se por 4 euros, e é hoje um "curio".


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:28

Arraial de Santo António

por mvf, em 12.06.15

11062015-DSCN0308.JPGPack typical Santo António

 

Viva o turista que já tem por todo o lado restaurantes com typical portuguese food anunciada em letras garrafais, hostels low cost e tuk-tuks para a passeata barulhenta.

A minha contribuição fica-se por um pack de recuerdo (trilingue é que é!) "cheira bem, cheira a Lisboa" para levar na bagagem.

Advirtam-se!

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:18

A TAP

por jpt, em 12.06.15

jack.jpg

 

É uma ideia histórica, essa a de que o Estado de cada país constrói as instituições e distribui os serviços e produtos considerados necessários - é, aliás, prima difusa da ideia de que o Estado é o país. Ainda vigora em muito local mas em Portugal já não é dogma: apesar da ideia de haver um portugalmail e sucedâneos ninguém hoje barafusta com o facto de não haver motores de busca ou de endereços electrónicos - o correio actual - estatais. Ou do serviço telefónico não ser estatal. Aqui na Europa as grandes infraestruturas de transportes e comunicações - e em particular as aeronaúticas - foram assim construídas - ou estatais ou com grandes subvenções estatais - exactamente por essa razão, por serem grandes. E por representarem interesses políticos (de integração nacional [construção nacional]; de afirmação externa [imperial, por vezes]). Agora, com excepção de alguns ex e futuros impérios, já os países não correm para construir as necessárias infraestruturas em regime de soberania única (espaciais, informáticas).

 

Dito isto, a ideia que o Estado (esse que quer aparentar ser o país) tem que possuir uma companhia aérea não me tira o sono. Mas aparece-me tão necessária como tenha ele um "googlão" ou uns correios (CTT públicos) ou uma única Emissora Nacional ou uma televisão ou etc, sem que haja streaming e coisas assim. Isto mudou, e muitas das reacções são meras sobrevivências, distracções.

 

Finalmente: o Estado português acaba de vender a velha companhia aérea de bandeira e receberá um quarto daquilo que o Futebol Clube do Porto, presidido pelo senhor Pinto da Costa, receberá ao vender a licença desportiva do futebolista Jackson Martinez ao Arsenal, treinado pelo senhor Arsene Wenger. 

 

Something is rotten in the state of Denmark.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:54


Bloguistas




AL:





Tags

Todos os Assuntos




eXTReMe Tracker

Twingly BlogRank