Talvez baste olhar para este “Water Resources of Mozambique” (1999), da autoria da Direcção Nacional de Águas e do Instituto da Água (apoiada pela cooperação Portugal-Moçambique), para que os leigos se deitem a prever onde poderão surgir cheias no país. As cíclicas, pão nosso de cada década de quem se sustenta nas terras de aluvião. 

Ou as escatológicas, como o foram as narradas com detalhe (e profusão fotográfica, ainda que neste respeitante com material algo repetitivo) neste “Moçambique 2000. As Águas da Morte”, de Jossias Filipe (Moçambique Editora, 2003), trazendo-nos à memória o dia-a-dia desse tétrico episódio do nosso quotidiano, o qual nunca poderíamos ter previsto naquele tão chuvoso 20 de Dezembro de 1999, quando o céu começou a desabar e que J. Filipe recorda, fazendo-nos ressuscitar as sensações de impotência avassaladora que se sucederam.
Saltaram estes livros das estantes a propósito das recentes cheias do Zambeze. Sobre as suas causas tem havido alguma polémica, lançada no Xitizap e ecoada na imprensa. Mas sobre isso nem opino, tão leigo sou (ainda que esteja algo descrente de tamanha malevolência alheia, pois não crendo no Grande Arquitecto do Bem também me custa persignar-me à passagem do Grande PCA do Mal, esse diabo agora sempre tão apregoado).
Do que sei é que cheias houve e, de novo, bastantes refugiados. A esse propósito outro livro sobre cheias em Moçambique se me impôs,
este “Mozambique & The Great Flood of 2000” de Frances Christie & Joseph Hanlon, (Oxford, James Currey, 2001). Menos impressionista do que o livro de J. Filipe este traz-nos também a história das cheias de 2000, com particular ênfase nas formas havidas de organização da acção de emergência que culminaram em que “Local preparation and international solidarity prevented the Mozambique floods of January – March 2000 from becoming a catastrophe. Although 700 people died, 45,000 were rescued. There were no major outbreaks of disease and no serious malnutrition in accommodation centres and isolated locations holding up to 500,000 people who had to flee their homes.” (p. 2). No rescaldo de tamanho desastre, ainda que sublinhando o trabalho positivo de emergência então feito, este livro culmina com recomendações, mais para o Estado moçambicano (então apanhado em contra-mão) e para as agências humanitárias. Vale a pena lembrá-las, vale mesmo a pena lembrá-las:
“These floods were the worst in at least 150 years on the Limpopo River and the worst in Mozambique in a long time, because they were widespread, of such a long duration, and involved such large quantities of water. But changing land use patters and global warming suggest that such serious floods may recur sooner in the future. And even if floods this bad return only once in 50 years, it seems likely that serious but less damaging or less widespread floods will occur even more frequently. And Mozambique is prone to drought and cyclones, so other kinds of disasters will also occur.Although the cost of this flood was perhaps 20 per cent of Mozambique’s annual GDP, any kind of disaster and emergency preparation for the future must compete against other development expenditure in one of the world’s poorest countries. Every dollar spent on flood defences is a dollar not spent on education or agricultural extension. Similarly, every day of emergency training is a day in which senior officials are not carrying out their normal tasks. Nor are people going to move to less productive land just to avoid another flood that may not come in their lifetime. So the actions which Mozambique can take are clearly circumscribed by its poverty.
At the same time, Mozambique cannot depend on this level of international support, which was driven by very special conditions: the location of the flood, Mozambique’s being fashionable with donors, and nothing else going on the world. During a new Middle East War when Mozambique is no longer the donor darling, a flood on the Zambeze River would still generate support, but not on the same scale. How, then, is Mozambique to be better prepared and less dependent?
Mozambique needs to improve its own disaster preparedness and mitigation systems. At a local level, major new construction is too costly. But evacuation routes and refugees need to be clearly marked. That must be linked to a better and clearer warning system. Such a system must give people sufficient warning to prepare. But it must also sound the alarm in such a way that people can safely wait until the very last minute before fleeing.
At national level, the need is for a more effective and flexible coordination system that has credibility and support from ministers and national directors. The Mozambican reality is that system cannot be the international textbook emergency commission which takes over in the event of a crisis; instead it must be a system that empowers existing senior officials such as governors to take the correct actions in an emergency. But it does requires that at every level – ministry, province, district, and municipality – there is a identified person who is the emergency contact person, and it must be a person who is senior enough to have direct access to the decision maker – minister, governor, district administrator or municipal president. It also requires the incorporation of new communicational systems, particularly the e-mail and mobile telephones that played such a key role in this flood. At local level, President Joaquim Chissano’s suggestion that primary school teachers be used as flood wardens seems particularly relevant.
In parallel with a more effective Mozambican disaster administration can the international community be convinced to listen more and relinquish more control to Mozambican officials?” (pp. 151-2)
Vale a pena lembrar, vale também a pena afirmar que as cheias de 2007, ainda que de menor dimensão das de 2000, encontraram uma organização bem mais ágil e competente no que respeitou à ajuda de emergência. Na sua preparação, na sua coordenação, na sua atribuição. Um serviço do Estado, o INGC, esteve muito à altura das necessidades. E, entre outras organizações, a Cruz Vermelha de Moçambique demonstrou uma grande capacidade de actuação. A louvar.
Há semanas li no jornal Domingo um panegírico às organizações nacionais envolvidas nas operações de emergência, de alerta e de ajuda subsequente. A subscrever o elogio, ainda que a retórica em causa desgoste (o patrioteirismo sempre me arrepia, seja la no meu pais, seja alheio). Duas coisas me chamaram a atenção, a afirmação de que ninguém morreu nestas cheias. Não é isso verdade, morreu pouca gente, fruto das campanhas de aviso ao longo do rio, mas ainda assim alguns morrerem (“Morreu alguém na vossa povoação?”, perguntava alguém em Mopeia, “Sim, duas mulheres e uma criança”, “Levados pela água?”, “não, estavam na água e foram comidos pelos crocodilos…”, é um mero exemplo probatório). Não o refiro como qualquer homenagem, ninguém merece ser homenageado pelo simples facto de morrer. Não para honrar qualquer memória, como o poderei fazer se desconheço pessoas e factos? Lembro as algumas mortes para melhor homenagear instituições e organizações que tão bem trabalharam para minorar o desastre, e que não merecem exageros que lhes minorem o mérito, apenas o instrumentalizem.
Finalmente dizia a tal coluna que toda esta acção se devia a “alguns renitentes” que se recusavam a sair das zonas inundáveis. “Renitentes”, palavra de semântica carregada, pejorativa. Menosprezando esses renitentes, paupérrimos agricultores pescadores que estão renitentes em abandonar as águas do peixe e as terras do aluvião. Que estão renitentes em trocá-las pelas pobres terras (mais) altas. Que estão renitentes em deixar as famílias nessas terras (mais) altas e irem viver nas machambas antigas, a horas de distância, para poderem produzir o pouco do seu dia-a-dia, do quinhão a quinhão. Voltando semana a semana, em curtas visitas aos filhos deixados à guarda dos irmãos mais velhos (e assim retirados das machambas) ou com os velhos avós, se estes já entrevados.
Ao ler esse “renitentes” lá se encontra o eco de tanta incompreensão da realidade, tanto desprezo pelo povo. E, ainda que hoje, tantos renitentes conversos, continua a espantar-me tamanho desprezo pelas gentes vindo de gente que se formou e o apregoa nesses livros de Marx, que neles burilou a sede de poder. Um (nao)espanto deste estrangeiro ateu, sem lerias de “amor ao proximo”, leitor de Celine face a esses leitores de Marx. Se calhar afinal pouco celiniano, se calhar eles nada marxistas.
Então estes são os alguns renitentes, estas as suas “algumas caras”. É deles o Zambeze e os Zambezes do mundo. Convem olhar. Ou ha alguma renitencia nisso?
(miudo em Charre)
(mulher em Charre)
(Mopeia)
(chefe de campo em Mopeia e seus adjuntos)
(Mopeia?)
(Chupanga)
(Charre)
(Chupanga)
(o grupo de Mama Amanda, Chupanga)
(pescador em Chupanga)
(putos, Mopeia)
(velha, Mopeia-sede)
(Sena, grupo de responsaveis)
(Chupanga?)
(a capulana de Raul Domingos)
(Mopeia, fotografia dedicada a Machado da Graca)
(interprete da associacao das igrejas cristas, Chupanga)
Estavam aqui.
E quando saírem muitos deles vão aceitar o reassentamento em zonas altas. Porque “estão cansados de sofrer”. Renitentes ao sofrimento. Um abraço.

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