
Telefona-me amigo a desmarcar encontro. Chego eu da Zambézia e para lá segue ele, ao encontro das cheias. Que o ocuparão nos próximos tempos - a barragem de Kariba vai aumentar as descargas dentro de muito poucos dias (amanhã?) e espera-se maior afluxo de águas por cá, talvez dentro de uma semana. Se o Zambeze já está como o vi - à vista desarmada tal como 2001, bem pior do que o ano passado, anos de cheias em que por ele andei - temo que venha bem pior agora. Para mais esperam-se agora cheias no norte da Zambézia, o Licungo transbordável [já agora, as minhas memórias das cheias do Zambeze e do Licungo de 2001 estão aqui].
No recato de Maputo alguns, ironizando, ainda encaixam as cheias com as vontades de receber/dar “ajuda”, assim invectivando receptores e doadores - será invisível a água?
No recato do burguês alguns continuam a vituperar os renitentes que não saem das áreas alagadiças. Será invisível o rude devir dos machambeiros?
No centro do país janto com quem muito percebe da terra e do como produzir. Pergunto-lhe a sua opinião sobre estes rumores de que a gestão do “grande rio” e dos seus transbordos procura afastar os camponeses das melhores terras de aluvião. “Nada”, diz. E complementa, dessa para mim sempre suspeita visão maquiavélica da História, “isso é conversa de quem não percebe”. Insiste, na bacia do rio há milhões de hectares “fillet mignon” que não estão explorados. Para instalar o grande capital agrícola não seriam precisos tais maquiavelismos.

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