Praça Samsung, Lisboa

Criaram-me numa sociedade, e assim a ela me afeiçoei, onde um Estado presente demarcava os espaços privados e públicos. O privado corpo, sua epiderme e suas vestes, regidos por regras de “bom-gosto” e jurisprudência, reafirmadas na escola e tropa, geridas no dia-a-dia por via suave do sorriso alheio e por via explícita pela admissão aos espaços estatuários e económicos; a privada onomástica, regulando a cadeia espiritual das famílias por via da desejada herança dos nomes antepassados, cujo hipotético défice era colmatado pelo recurso ao calendário cristão, encaixados numa lista permitida de denominações.

O público com a regulação da toponímia e monumentalidade, marcadores do que é constitutivo, do que deve ser horizonte - para um lisboeta oriental que melhor exemplo de um evoluir social do que passar da toponímia do Olivais colonial para a do Telheiras universitário?

Envelhecendo fui sorrindo à desagregação das velhas fórmulas: a onomástica revolucionada pelo acordo histórico da sovietização com a novelização - o advento popular do katia-natashismo, à que se seguiu a muito arrivista resposta pequeno-burguesa do complexo martim-matildismo.

A corporal, com a desesperada tentativa de individualização por via das etiquetas da roupa (e seus dizeres), um alguém feito na sua etiquetização - algo que lembro descobrir na puberdade liceal quando os piores alunos vestiam T-shirts de universidades americanas, essas que um dia descobri serem uma Ivy League destinada aos melhores.

Nos últimos anos com o tatuísmo - algo ao qual tenho o desprezo que os católicos votam ao suicídio -, mísera tentativa de individualizar o corpo por via de modas colectivas. Mísera mas desesperada, como o provam as tardo-trintonas pré-divorciadas tatuando as antecâmaras do pudendo mas sem a coragem (ou o saber?) para as escarificar. Uma cultura pré-erótica com laivos de libidonosa, o histriónico pré-individualista em busca de o ser.

Mais interessante é a privatização simbólica dos espaços públicos. Chegado a Moçambique logo me surpreendi com a evidência deste modelo, o que julguei ser a ausência de uma projecção estatal dos modelos culturais a seguir, fruto das rápidas transformações que o ainda novo país tem sofrido, e de uma historiografia ainda incipiente.

praca-na-beira.jpg

À “Praça da Coca-Cola” na Beira ou à “Praça da Coca-Cola” em Nacavala (aldeia em Nampula) entendi-as como evidências de um “Estado fraco” (soft state, coisa das teorias sociológicas), incapaz, ou desinteressado, de utililizar todos os meios tradicionais - a monumentalidade e a toponímia - para gerar e gerir modelos culturais padronizadores e disciplinadores dos seus cidadãos.

cocacolanacavala6.jpg

Chego a Lisboa e encontro a primeira praça entre o aeroporto e a cidade, o seu novo centro ribeirinho, as novas “portas da cidade”. A toponímia consagra-a Praça Samsung, a monumentalidade dá-nos uma evolução de Rodin a la carte.

praca-samsung.jpg

Compreendo que estava errado. Não se trata de qualquer “Estado fraco” (soft state). Trata-se de um Estado empresarial (corporate state), um vero hard state veiculando através dos seus espaços de intervenção os modelos culturais a seguir - não Duarte Pacheco (ali meio esconso numa praça vizinha), nem D. José I, nem República ou Monarquia, nem Militar nem Literatura, nem História Épica nem História Crítica.

Sim o Consumo. O cidadão consumidor. (De preferência tatuado e sob pronto-a-vestir muito inscrito). Chame-se Sancho ou Teodorica, Kátia ou Fábio, que isso pouco importa.

E assim faço este requiem a um “paper” sobre Moçambique. Injustificado, pelo comparativismo.

Declaração de interesses: sou um exagerado consumidor da cafeína adocicada da Coca-Cola. E o meu novo telefone é um Samsung.

Ético, não émico

A Gente Não Lê (Carlos Tê / Rui Veloso)
[A minha versão preferida é a de Isabel Silvestre]

Música para esta tag e para algumas categorias aqui: onde há más fotografias e esforçada verborreia ocorridas aquando cruzando gente que trabalha até rebentar. E que costuma rebentar nova…

A Gente Não Lê

Ai senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão
Rogar a deus que nos guarde
Confiar-lhe o destino na mão

Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialecto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais

E do resto entender mal
Soletrar assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz

Ai senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria
De boca em boca passar o saber
Com os provérbios que ficam na gíria

De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira

Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem

E, para quem leu ou ouviu a correr, há refrão, minha inovação:

Carregar a superstição / De ser pequeno ser ninguém

Túmulo de Mucuto-Muno

A caminho da Ilha lá está a placa indicativa do monumento a Mucuto-Muno, chefe dos Namarrais, que combateram “suaílis” e portugueses desde que chegaram à região, em meados de XIX. Visitei o pequeno obelisco que homenageia o “herói da resistência” ao colonialismo, objecto típico do “nation-building”, ao que me contaram inaugurado nos anos 80 - presumo, mas a referência cronológica local foi que o evento ocorreu “antes da guerra da Renamo” ter atingido a zona - pelo Presidente Samora Machel.

Difícil de encontrar, pois a estrada está cortada pela vegetação - ao que me dizem é limpa regularmente, pois acontecem cerimónias cíclicas no local e, inclusive, visitas das autoridades provinciais. 

 

Felizmente um residente nas proximidades acompanhou-me gentilmente ao local.

 

E aqui ficam o obelisco e a campa, onde à superfície repousam alguns pertences - até a arma de fogo do antigo chefe. Intocados. Em enorme, até tocante, demonstração de respeito. 

A uma hora da estrada de alcatrão. Mais do que justificada visita.

o tal do canhangulo

dsc_0110-1.jpg

Caça com canhangulo

dsc_0108.jpg

[Nampula, 2008]

Elogio do Barbeiro

barbearia-quem-procura-acerta.jpg

[Barbearia “Quem Procura Acerta”, Lumbo, Maio 2008]

Mais um contributo para esta causa própria.

Beijo-de-mulata

beijodemulata.JPG

Aprendizagem de fim-de-semana (Mailane).

Embondeiro bebé

embondeiro.JPG

Socialização: levando os bebés à sombra do embondeiro bebé … Actividades de fim-de-semana (pomar de Mailane)

A ponte

ponte-mocuba.jpg

Há algum tempo, e depois de uma incessante busca, aqui deixei registo de uma verdadeira ponte lusófona, até surpreso por a ter conseguido encontrar, tão procuradas elas o são (foram?). E ainda para mais na até longínqua Mocuba.

capacerejeira.jpg

Agora, por mero acaso, encontro a fonte de tão inusitado encontro. E isso ao ler “Cardeal Cerejeira. Fotobiografia“, de José da Cruz Policarpo (Lisboa, Editorial Notícias, 2002), interessante introdução ao fotobiografado e à sua (longa) época, a fazer justiça ao desafio do autor: “Evocar a sua figura através de fotografias da época, aguçará o apetite para um estudo histórico de maior fôlego” (13).

cerejeiramedieval.jpg

[Cerimónia de Abertura da Exposição do Mundo Português (2 de Julho de 1940).]

Uma época rica, uma iconografia ideológica hoje deliciosa de observar e de analisar. E de, até malevolamente, deixar reconhecer descendências.

cerejeiranoserpapinto.jpg

Aprendo ainda que “Depois da Madeira, São Tomé e Angola, onde visitou várias cidades, Cerejeira chega a Moçambique (na foto … desembarcando do Serpa Pinto) onde preside à cerimónia da sagração da Catedral de Lourenço Marques (14 e 15 de Agosto) e em Mocuba, sobre o rio Licungo, inaugura uma ponte com o seu nome.” (109).

Ora aí está, a tal ponte lusófona, ex-Cerejeira. Não há coincidências. Nem no já longínquo então. Nem no próximo então. O mesmo pacote intelectual: medieval; neo-medieval.

Matalana, hoje

orqmatalana1.jpg

orqmatalana22.jpg

orqmatalana3.jpg

Orquestra no Centro Cultural de Matalana, essa utopia de Malangatana. A chuva, em dilúvio, abençoou. Para as nossas memórias - e, talvez nebulosas, para as dos nossos mais novos.

Um celular para Elísio Macamo

mopeiamonumento.jpg

aqui o deixara. Mas repito-o: Mopeia-sede é uma vila plana. Este é o único local onde há rede, decerto por razão mágica (a magia propiciada pelo monumento da “nation-building”, presumo). E é aqui que se encontram as pessoas nos pequenos degraus monumentais, telemóveis/celulares* ao alto em demanda da rede.

Que sirva para acompanhar a digressão de Elísio Macamo sobre a celularização nacional: I, II, III, IV (e continuará).

*Um acordo ortográfico urge para que nos possamos entender…

Gondola (4)

gondola-piscina.jpg

Propriedade municipal

Gondola (3)

gondolabairroferroviario.jpg

Bairro Ferroviário

Gondola (2)

mural-casamento-gondola2.JPG

Instruções pictóricas para o casamento.

Gondola (1)

gondola-igreja-2.JPG

Igreja Católica Romana