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Uma breve mensagem anuncia-me a morte, acontecida hoje à noite, de José Soares Martins (o historiador José Capela). Era esperada, dado o recente agravamento da sua condição. Sobre a sua importância na minha vida escrevi há pouco tempo, num momento crucial para mim, este "Como cheguei aqui", apontamento intimista que ele nunca veio a ler. Há algum tempo escrevi, dedicado ao seu trabalho, este breve texto. O qual ele acolheu, e isso muito me satisfez, com uma enorme e exagerada simpatia.

 

Longe dos meus livros, encaixotados num contentor, deixo aqui cópia de capas de alguns dos muitos livros que ele publicou. Pobre nota que intenta recordar um historiador fundamental nas relações entre Portugal e Moçambique. De um diplomata de excepção, em Moçambique conselheiro cultural entre 1977 e 1996. E de um homem insigne.

 

José Soares Martins (José Capela) teria merecido maior atenção por parte de ambas as repúblicas, ainda que tenha sido alvo de justificada atenção. Recordo que há anos, cerca de 1997, foi sondada a Universidade Eduardo Mondlane para que lhe fosse atribuído um honoris causa. Algo que não aconteceu por meras razões políticas, ainda que Soares Martins fosse uma personagem respeitada no país. Mas teria sido então o primeiro honoris causa dado pela UEM e isso inviabilizou o facto - julgo que o primeiro foi alguns anos depois atribuído a Nelson Mandela. Alheio a honrarias, mas historiador credor das leituras que lhe eram devidas, Soares Martins apenas sorriu ao facto. Alguns anos depois, após o desencadear dos doutoramentos em Maputo, talvez alguma coisa pudesse ter sido feita de novo para potenciar o olhar sobre esta obra, a historiográfica e a existencial. Não houve - nem na academia moçambicana nem na diplomacia portuguesa - quem a induzisse.

 

Sei que há dois anos, por iniciativa do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Porto, de novo se levantou essa hipótese, significativa pois mais do que mera honraria, intentando um renovar do interesse pelo trabalho incessante que Soares Martins (Capela) sempre desenvolveu (ainda há poucos meses recebi o seu último livro). Foi então proposta e aceite a atribuição desse grau por parte dessa Universidade. E então, após contacto desencadeado por admiradores da sua obra, também a Universidade Politécnica de Moçambique, decidiu atribuir esse título ao historiador. Mas as difíceis condições de saúde de Capela (Soares Martins) acabaram por impedir a atribuição de ambos os títulos.

 

Há cerca de um mês, em convívio com Luís Carlos Patraquim este, inopinadamente, telefonou-lhe. Falou-lhe e passou-me o telefone. Atendeu, com voz viva e alegre, algo que ainda cresceu mais quando percebeu que estávamos em Maputo, e não em Lisboa como julgara inicialmente. Como se algo dali lhe enviássemos. O Patraquim, que estava mais avançado do que eu, disse-lhe "devo-te tudo". Eu, que estava a seguir, não me fiquei atrás e disse-lhe, mais cerimonioso, "devo-lhe tudo, senhor doutor". Ele riu-se, com aquele riso que ainda lembro. 

 

Agora fico aqui, muito mais sozinho. Obrigado, Luís Carlos Patraquim, por esse teu telefonema, que me permitiu o agradecimento que ainda não explicitara.

 

 

[António Melo, José Capela, Luís Moita, Nuno Teotónio Pereira, "Colonialismo e Lutas de Libertação. 7 Cadernos Sobre a Guerra Colonial", Porto, Afrontamento, 1978 (edição policopiada clandestina em 1971)]

 

 

[José Capela (selecção, prefácio, notas), “Moçambique Pelo Seu Povo”, Porto, Afrontamento, 1971]

 

José Capela, "Escravatura. Conceitos. A Empresa de Saque", Porto, Afrontamento, 1978 (1ª edição 1974)

 

]

José Capela, "A Burguesia Mercantil do Porto e as Colónias (1834-1900), Porto, Afrontamento, 1975

 

José Capela, "As Burguesias Portuguesas e a Abolição do Tráfico da Escravatura, 1810-1842", Porto, Afrontamento, 1979

 

]

José Capela, "O Movimento Operário de Lourenço Marques, 1898-1927", Porto, Afrontamento, 1981

 

 

José Capela e Eduardo Medeiros, "O Tráfico de Escravos Para as Ilhas do Índico, 1720-1902", Maputo, Núcleo Editorial da Universidade Eduardo Mondlane, 1987

 

 

Manuel de Vasconcellos e Cirne, "Memoria sobre a Provincia de Moçambique", Maputo, Arquivo Histórico de Moçambique, 1990 (prefácio e notas de José Capela)

José Capela, "A República Militar da Maganja da Costa, 1862-1898", Porto, Afrontamento, 1992

 

]

 

José Capela, "O Escravismo Colonial em Moçambique", Porto, Afrontamento, 1993

 

 

José Capela, "Moçambique na Literatura Historiográfica Portuguesa", Maputo, (separata), 1994

 

]

José Capela, "O Álcool na Colonização do Sul do Save, 1860-1920", Maputo, edição do autor, 1995

 

 

 

José Capela, "Donas, Senhores e Escravos", Porto, Afrontamento, 1996

 

José Capela, “O Tráfico de Escravos nos Portos de Moçambique”, Porto, Afrontamento, 2002

 

 

José Capela (prefácio e notas), “Caldas Xavier. Relatórios dos acontecimentos havidos no prazo Maganja aquém Chire, Moçambique, 1864″, Porto, Húmus, 2011

 

 

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publicado às 20:20

 

 

Uma preciosidade, verdadeira, apresentada anteontem em Coimbra. Esta apurada colectânea das crónicas de João Albasini, trabalho de Fátima Mendonça e de César Braga-Pinto, publicada pela editora moçambicana Alcance. O livro será apresentado hoje, domingo, no Porto (Feira do Livro, Jardins do Palácio de Cristal, Galeria da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, às 19 horas).

 

João Albasini (1876-1922) é uma personagem crucial da história intelectual moçambicana. E já foi eleito como protagonista literário, por João Paulo Borges Coelho no seu recente "O Olho de Hertzog". O livro integra dois artigos contextualizadores, cada um deles escrito por um dos organizadores, a luso-moçambicana Fátima Mendonça e o brasileiro Braga-Pinto. Integra 97 crónicas, anotadas, publicadas nos célebres e fundacionais jornais de Lourenço Marques, "O Africano" (1908-1918) e o "O Brado Africano" (1918-1974).

 

No contexto da edição moçambicana e na bibliografia sobre a história de Moçambique este livro é um verdadeiro luxo. Um monumento imperdível. 

 

Agora vou lê-lo.

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publicado às 09:37

Um atrevimento meu

por jpt, em 11.09.14

 

 

 

 

De amanhã a sábado decorre o 9º Congresso Ibérico de Estudos Africanos. Já abaixo referi que lá vou botar uma faladura. Mas também tenho outra sessão. Esta é mesmo um atrevimento meu, a meter a catana em machamba alheia (ou seja, como agora terei que passar a dizer, a foice em seara alheia). Este homem, João Paulo Borges Coelho, tem-se farto de escrever. E eu vou-me meter a falar sobre a sua ficção. O meu texto é um pobre esquisso (e um dia poderá vir a ser um pobre ... texto completo). Mas é o que é, e se vou ler um rascunho também o posso divulgar: meti-o aqui ("João Paulo Borges Coelho: uma geologia ética de Moçambique"), para consulta dos que se interessem. Mas vão lá com alguma ... predisposição para a solidariedade, sff.

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 03:07

 

 

Não sei se o texto foi publicado nesta edição do "Canal de Moçambique". Pois na prática é uma repetição de um já publicado há dois anos, ainda que o tenha refeito. Mas como agora se assinala o centenário da Primeira Guerra Mundial pensei que seria interessante regressar ao assunto em Moçambique, onde as campanhas que aconteceram no norte do país são amplamente ignoradas - apesar do "O olho de Hertzog" do João Paulo Borges Coelho, que durante elas se passa.

 

Por isso o texto enviado para o jornal para esta minha coluna bibliográfica foi esta nota de leitura sobre "Os Fantasmas do Rovuma", de Ricardo Marques, a história da I Guerra Mundial em Moçambique. Um livro que devia ser importado e divulgado, até discutido, no país. Talvez o venha a ser. Se isto ajudar ficarei todo ufano.

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publicado às 20:22

 

 

Estante Austral (4)

"Canal de Moçambique", edição de 27/8/2014

 

 

"Rostos da Língua" de Eduardo White

 

 

Inesperada a malvada morte, a levar Eduardo White. Como acontece quando nos leva os escritores a fazer-nos revolver as estantes, vasculhar-lhes os livros. E, quando os conheceramos, a fazer-nos lembrar os episódios comuns, mesmo que secundários nas suas vidas.

 

Foi isso agora comigo, a empilhar-lhe os livros, voltando à frente e avançando para trás. E a recordar o White, o Eduardo e o Dino, conforme o tom do tempo. E do dia. Em particular a lembrar, com aguda saudade, os tempos em que ele produziu, muito mais ambicioso do que mero sonhador, o “Rostos da Língua. Breve Antologia de Autores de Língua Portuguesa”, uma edição de 1999, a cargo de uma coligação institucional (o Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, o Movimento Artistas Contra a Pobreza, e o Instituto Camões – Centro Cultural Português de Maputo).

 

É desse período que me ocorre falar. Que sobre o intrínseco da poesia de White outros deverão falar, respeitador que vou da especificidade do “campo poético”, um universo, exigia ele, de particularidades no sentir. Uma estética própria, à qual associava uma exigência de ética própria, inacessíveis, reclamava ele, a nós-outros, comuns mortais.

 

Eu conhecera o EW poucos dias após chegar a Maputo. Na inauguração do agora Camões Maputo, do qual vinha eu como responsável. Lembro que me deparei com um homem enorme, vigoroso e reclamando, sem pejo, uma qualquer desatenção que entendia terem-lhe feito. Tratava-se da preparação de uma mesa redonda televisiva, a transmitir em directo no então célebre programa cultural da RTP, o “Acontece”, responsabilidade do já falecido Carlos Pinto Coelho, também ele daqui oriundo, sempre amável e que então se desdobrava em afabilidade com o poeta. Aderi à sua atitude, mas realmente estupefacto, com a inesperada personagem. Pois lera-o superficialmente, sem verdadeiramente atentar. Não era aquele White que escrevera “As aves / também nós cantamos. / De resto é tão pouco / o que nos diferencia desses animais /quando dentro temos uma / que vive / e não dorme”? Afinal assim? De facto a ave era aquela, viçosa, tonitruante e não a engaiolada que eu, distraidamente, imaginara.

 

(O texto completo está aqui)


 

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publicado às 14:47

 

 

 

Estante Austral (3)

"Canal de Moçambique", edição de 20/8/2014

 

Noveleta” é como Luís Carlos Patraquim chamou a este “A Canção de Zefanias Sforza” (Porto Editora, 2010), um belo livro que me parece continuar a passar algo despercebido por cá. E que, agora que o escritor nos é de novo vizinho, regressado que está de Portugal, poderia (ou mesmo deveria, num sentido ético) ser reapresentado, (re)distribuído pelas livrarias, falado. Ou seja, lido.

 

Nele decorre a transição do mundo de Lourenço Marques ao de Maputo, um percurso que nos é apresentado através da vida desse Zefanias (Pluribis) Sforza – personagem de pluralidade afixada nesse próprio Pluribus que levou de nome, assim como se feixe desaguado diante desta baía. E onde habita também a aparência de alter ego do seu criador, o habitual poeta aqui ficcionista.

 

A história da cidade é-nos contada, sobre alguma da sua etnografia por via de vislumbres dos hindus, dos muçulmanos, e depois das transformações e continuidades toponímicas, ecoando as iniciais presenças coloniais e seu abrupto final. Toda ela se condensa na biografia de Zefanias e na dos seus próximos. Um estreito mundo, social e espacialmente, balizado entre as barreiras do Alto Maé e o Chamanculo – este sentido tão longínquo que seria onde o bíblico “Noé” habitaria, segundo o “saber” da personagem Agostinho Demos. Este Demos, contraponto de Zefanias, pois pólo local da narrativa, feito a verdadeira matéria-prima da cidade, como lhe anuncia o apelido (“tribo” será a melhor tradução possível de “demos” apesar de nos insistirem em o dizer “povo”). Explícita nota de um auto-centramento feito encerramento, cujo afrontar será o caroço do livro.

 

(O texto completo está aqui).

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publicado às 15:00

 

Estante Austral (2)

“Canal de Moçambique”, edição de 13/8/2014

 

É exactamente o caso deste “Kok Nam 12/12/12”, uma pequena brochura contendo, ainda assim, 43 das suas fotografias e ainda dois retratos do fotógrafo, julgo que obra do seu companheiro Funcho (João Costa), uma publicação do final de 2012, apoiada por GAPI, Sociedade de Investimento.

 

Lamentavelmente é muito escassa a edição bibliográfica dedicada à fotografia moçambicana e/ou em Moçambique. Nos últimos anos a melhoria do cenário editorial tem permitido a publicação de alguns álbuns, na sua maioria de índole turístico-paisagística. Por outro lado, num contexto diferente, a fotografia de autor, com pendor artístico, está a assumir algum relevo internacional, com a extroversão crescente de Mauro Pinto, Filipe Branquinho e Mário Macilau.

 

(O texto completo está aqui)

 

 

 

 

 

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publicado às 21:00

Estante austral (1)

por jpt, em 06.08.14

No jornal "Canal de Moçambique" comecei uma nova série, a "Estante Austral", composta por pequenas notas de leitura sobre livros relativos a Moçambique. Esta é a primeira.

 

 

 

Estante Austral (1)

“Canal de Moçambique”, edição de 6/8/2014

 

“Ilha de Moçambique. Contribuição para um perfil sanitário, 1983”

 

Um livro extraordinário – e também no sentido literal do termo -recentemente chegado às livrarias. E também às bibliotecas, pois foi distribuído gratuitamente pela rede de leitura pública por desejo dos autores. Trata-se de “Ilha de Moçambique. Contribuição para um perfil sanitário, 1983” (Porto, Húmus, 2011), um trabalho já com trinta anos, então coordenado por João Schwalbach e Maria Cecilia Maza, e que agora surgem responsáveis pela publicação.

 

 

A obra é um verdadeiro luxo, que me parece ter passado um pouco ao lado da atenção geral, talvez pela temática especializada. Em si mesma, como objecto, é um manancial único de informações sobre o estado da saúde pública de então no seio da população da Ilha de Moçambique. Tão completa que a monografia sanitária assume contornos de uma verdadeira etnografia, se quisermos assim falar. Vasta (com anexos documentais e fotográficos inclui 334 páginas de grande dimensão) e coerentemente pormenorizada, assim deixando todas as pistas para posterior comprovação, avaliação e comparação, como mandam os ensinamentos da honestidade analítica. Na sua competência poderá ser entendida como um manual metodológico, assim útil a outras profissões, despertas para outras áreas do saber.

 

(Continua aqui, com o texto completo)

 

Nota: como os textos ficam um pouco longos in-blog remeto-os para outro suporte (a minha conta na Academia), assim ficando disponíveis para quem neles esteja interessado. Já agora no mesmo local juntei uma série de notas de leitura (não são recensões) sobre livros que, de alguma forma, me tenham desperto interesse profissional - mesmo que possam parecer excêntricos nesse âmbito.

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publicado às 20:00

 

 

Terça-feira ao fim do dia, na Mediateca do BCI (na baixa) o lançamento do belo livro do Paulo Alexandre.

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publicado às 00:45

A primeira sessão deste semestre dos já tradicionais seminários do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM. Na próxima terça-feira, no "campus" pelas 10 da manhã com Teresa Smart e Joseph Hanlon, abordando o seu recente livro.

 

Sinopse:

 

Moçambique importa alimentos e ao mesmo tempo aqueles que os produzem continuam pobres porque a produção agrícola é muito baixa. A maioria das pessoas continua a cultivar a terra como faziam os seus avós. Mas desde o fim da guerra, há duas décadas, tem surgido um novo grupo de agricultores mais dinâmicos. Hoje contam-se já 68 000 pequenos e médios agricultores comerciais. Tal como os seus vizinhos, antigamente tinham apenas 1 hectare de terra e usavam a enxada como utensílio. Hoje cultivam entre 3 e 20 hectares e produzem principalmente para comercializar. Criaram emprego a nível da sua comunidade e estimulam a economia local.

Teresa Smart e Joseph Hanlon são os autores de Há mais bicicletas, mas há desenvolvimento? Para este livro, eles analisaram mais de perto este grupo de produtores dinâmicos – mas que poucos conhecem – e mostram de que maneira eles se expandiram.

O apoio para estes agricultores emergentes veio quase inteiramente de fora de Moçambique. As companhias estrangeiras que produzem a contrato promovem o tabaco e o algodão. O “sector público internacional” dos doadores, ONGs e agências internacionais, apoiam a soja e a mandioca. Estas companhias a contrato e organizações do sector público, providenciam os mercados essenciais, o crédito, a tecnologia e o apoio na prática. Estes produtores agrícolas passaram a ser pequenas e médias empresas (PMEs) e são agora o sector mais dinâmico da economia rural.  

Desde a independência, o governo – com o apoio de muitos doadores – seguiu a estratégia dual de tentar elevar a produtividade dos camponeses mantendo-os nas suas parcelas de um hectare e a trabalhar só com a enxada, concessionando o resto das terras a grandes plantações mecanizadas. Mas isto não funciona. Foram poucas as novas grandes plantações que tiveram sucesso e mesmo o Banco Mundial pensa que essas explorações agrícolas pertencentes a companhias estrangeiras estão condenadas ao fracasso. Mantendo as famílias na sua machamba de um hectare e a desbravar à enxada, é mantê-las permanentemente na pobreza, porque a maioria desses pequenos agricultores não tem dinheiro para comprar sementes e adubos.

Este livro mostra que os próprios produtores agrícolas moçambicanos podem tomar a dianteira se tiverem apoio para expandir a sua área cultivada e tornarem-se agricultores comerciais. Assim seriam criados empregos rurais, seria estimulada a economia rural, e no fim, seria reduzida a pobreza rural. Mas estes camponeses teriam de ter ao seu dispor toda a terra e nenhuma seria colocada nas mãos do investimento estrangeiro. É urgente uma escolha política.

 

Teresa Smart é umavisiting fellow” no Institute of Education of the University of London. É autora do Livro de Matemática - Ensino Técnico e co-autora de Há mais bicicletas - mas há desenvolvimento?, Zimbabwe Takes Back its Land, Beggar Your Neighbours e Apartheid's Second Front. De 1980 a 1985 trabalhou em Moçambique como professora de matemática no Instituto Industrial e depois como coordenadora de matemática para a Secretariado de Estado do Ensino Técnico e Profissional.

 

 Joseph Hanlon é um “visiting senior fellow” na Open University, London School of Economics, e University of Manchester, em Inglaterra. Tem vindo a escrever sobre Moçambique desde 1978 e é o editor do Boletim sobre o processo político em Moçambique desde 1993. É co-autor de Há mais bicicletas - mas há desenvolvimento?, Zimbabwe Takes Back its Land, Beggar Your Neighbours e Moçambique e as Grandes Cheias de 2000, e autor de Paz sem Benefício - Como o FMI bloqueia a reconstrução de Moçambique, Mozambique: Who Calls the Shots, e Just Give Money to the Poor.

 

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publicado às 00:29

 

 

Hoje mesmo, daqui a bocado, na Kulungwana (na estação dos CFM) acontecerá o lançamento do livro "Arte e Artistas em Moçambique: diferentes gerações e modernidades", obra de Alda Costa, autora que é a "autoridade" (mais do legítima) sobre a história de arte moçambicana. Ali mesmo acontecerá a inauguração de uma exposição da sua colecção particular, "uma colecção, múltiplas conexões". O que é muito interessante, e por duas razões: primeiro para saber (cuscar) o que alguém como Alda Costa mais reclamou para si (dentro das possibilidades aquisitivas, claro) nestas décadas de intensa actividade cultural que vem tendo; e, em segundo lugar, porque poderá ser um passo na realização de outras apresentações de colecções particulares, donas de espólios riquíssimos da arte moçambicana, desconhecida de tantos, até pela exiguidade do disponível em instituições públicas (estatais ou privadas). Espero que funcione como desafio.

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publicado às 15:10

 

 

A feira do livro em Lisboa começa amanhã. Chamo a atenção das carteiras dos potenciais interessados que este ano haverá um pavilhão do livro moçambicano, organizado pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco. No qual, segundo me dizem, se congregarão as editoras nacionais. A actividade editorial tem crescido nos últimos anos, sendo de esperar que a conjunto de obras ali disponibilizadas possa satisfazer os amadores de Moçambique e os curiosos. E também os leitores com interesses profissionais. 

 

Certo que há editoras associadas a congéneres portuguesas (Leya, Texto, Porto, Paulistas) que talvez tenham outras hipóteses de colocação dos seus livros em Portugal. Mas espero que integrem este pavilhão. Para além disso outras há em verdadeiro crescimento. Em particular a "Alcance", que tem editado bastante literatura nacional e importantes reedições de obras há muito esgotadas (textos de 1980s e 1990s, na sua maioria). E a "Marimbique", a editora que mais belos livros faz no país, cujo catálogo inclui um excelente conjunto de ensaios sobre várias temáticas em Moçambique.

 

Deixo aqui duas recomendações, obras que estou a ler e a muito gostar, e que espero disponíveis nesse pavilhão:

 

 

Este muito recente "A Alegria é Uma Coisa Rara", de António Sopa [publicado pela Marimbique], a história social da música no Lourenço Marques de XX. A formação e disseminação dos ritmos populares sitos nos subúrbios, em mescla dos ritmos de várias origens no país, culminando na celebrização do ritmo marrabenta no "cimento", e o contacto com o jazz, bem como as dimensões sociológicas das festas, concertos e do comércio musical. É, e digo-o com franqueza, um livro soberbo.

 

 

 

E o último livro de Ungulani Ba Ka Khosa, este "Entre as Memórias Silenciadas" (da Alcance), o seu regresso à excelência, em minha opinião o grande texto de Khosa desde os anos 90s, uma devastadora apneia na história moçambicana. Imperdível.

 

Mas há mais, será só ir lá ao tal pavilhão. Tenham muitas despesas, é o meu desejo.

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publicado às 13:21

 

Hoje duas sessões simultâneas de apresentação de quatro livros, não há dúvida que Maio anda animado em Maputo. Na ECA às 17.30 apresentação de dois deles, projectos apoiados pela Kulungwana e editados pela Marimbique: "Kikiriki", um trabalho de Ciro Pereira sobre o maestro Filipe Machiana, muito apetecível, já aqui ao meu lado. E o "A Alegria é uma Coisa Rara", história da música em Lourenço Marques, de António Sopa, um livro verdadeiramente soberbo, que estou a acabar de ler e que mais do que recomendo, absolutamente imperdível. 

 

No Camões, casa que obviamente reanimou, Adelino Timóteo apresenta às 18 horas dois livros publicados pela Alcance, "Nós, os de Macurungo" e "Não Chores Carmen".

 

 

 

 

Amanhã, também por aquela hora das 18 horas, e também no Camões, é apresentada a edição moçambicana (Ndjira) do último livro de João Paulo Borges Coelho, "Rainhas da Noite". Que já li e muito recomendo. Mas sobre o jpbc está o ma-schamba cheio de elogios, não se justifica continuá-los, qual ladainha. Apenas ecoar. O livro, que saíu em edição portuguesa há alguns meses, já foi lido por vários amigos e amigas meus. Que sendo leitores habituais do autor enchem de elogios este seu último. Como tal recomendável.

 

 

 

 

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publicado às 09:15

As rainhas da noite, de jpbc

por jpt, em 04.03.14

 

 

 

aqui disse que o estava a ler, li-o então, num golpe. Gostei, bastante. Próximo de mim, muito  próximo, quase próximo e algo próximo, há gente que adorou. Eu sou militante deste escritor - ajudará a amizade, ajuda o contexto em que vivo. Mas não só, disso estou mais do que certo. Não sei se este "Rainhas da Noite" já está distribuído/editado em Moçambique. Quem pode lê-lo avance, sff. É uma recomendação, cheguem-se sem medo. 

 

Há pouco tempo disseram-me que o jpbc foi entrevistado por Carlos Vaz Marques na TSF. A gravação está aqui, basta "clicar" para ouvir. É aprazível.

 

Há dois pontos: a entrevista foi feita na altura do "O Olho de Hertzog". O livro foi falado, premiado e, presumo, vendido. Quatro anos depois, neste 2014 ano do centenário do começo da I Guerra Mundial será altura para a ele se voltar. Pois ele se passa durante a guerra e nela, também, centrado. Pois ele se passa na guerra acontecida em Moçambique - a qual, já agora, é tão desconhecida, tanto aqui como em Portugal.

 

Agora Vaz Marques abordou o "Rainhas da Noite", numa rubrica chamada "o livro do dia". Para quem ainda não leu o livro fica aqui, um breve resumo. E depois vão ler. O Tete, agora tão falado.

 

 

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publicado às 18:23

 

 

No seguimento do seu belo painel de actividades a Kulungwana (na estação dos CFM de Maputo) organizará no próximo dia 20 de Fevereiro, quinta-feira, às 18 horas, uma dupla actividade recordando Ricardo Rangel. Inaugura uma exposição de fotografias suas (que se poderá visitar até 9 de Março), dita "Uma História - Mil Estorias".

 

E apresenta um livro colectivo dedicado à obra do fotógrafo, "Ricardo Rangel: Insubmisso e Generoso", o qual brotou de um encontro que lhe foi dedicado, realizado em Julho de 2012 (e que aqui referi), agregando textos então apresentados e alguns outros.

 

Recordo que tive o prazer de participar nesse encontro. O texto da minha comunicação ficou fora desta publicação, excessivamente coloquial para a integrar, uma coisa de ocasião que seria agora redundante - e Rangel implicava imenso com as redundâncias, como o mostrou no seu delicioso livro "Foto-jornalismo ou Foto-confusionismo", uma pérola de ironia pedagógica infelizmente algo esquecida.

 

De qualquer modo, para quem tiver curiosidade, e como aperitivo para o livro que aí vem (e para a exposição), aqui deixo a ligação para esse meu texto-homenagem ao grande Rangel, dedicado à sua longa reportagem sobre a então rua Major Araújo (hoje Bagamoyo), a sede do bas-fond da cidade de então: "A Lente Pertinente: Ricardo Rangel no "Pão Nosso de Cada Noite".

 

Até dia 20, dia para lembrar, um bocado mais do que o habitual, o grande Ricardo Rangel.

 

 

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publicado às 14:14


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