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As rainhas da noite, de jpbc

por jpt, em 04.03.14

 

 

 

aqui disse que o estava a ler, li-o então, num golpe. Gostei, bastante. Próximo de mim, muito  próximo, quase próximo e algo próximo, há gente que adorou. Eu sou militante deste escritor - ajudará a amizade, ajuda o contexto em que vivo. Mas não só, disso estou mais do que certo. Não sei se este "Rainhas da Noite" já está distribuído/editado em Moçambique. Quem pode lê-lo avance, sff. É uma recomendação, cheguem-se sem medo. 

 

Há pouco tempo disseram-me que o jpbc foi entrevistado por Carlos Vaz Marques na TSF. A gravação está aqui, basta "clicar" para ouvir. É aprazível.

 

Há dois pontos: a entrevista foi feita na altura do "O Olho de Hertzog". O livro foi falado, premiado e, presumo, vendido. Quatro anos depois, neste 2014 ano do centenário do começo da I Guerra Mundial será altura para a ele se voltar. Pois ele se passa durante a guerra e nela, também, centrado. Pois ele se passa na guerra acontecida em Moçambique - a qual, já agora, é tão desconhecida, tanto aqui como em Portugal.

 

Agora Vaz Marques abordou o "Rainhas da Noite", numa rubrica chamada "o livro do dia". Para quem ainda não leu o livro fica aqui, um breve resumo. E depois vão ler. O Tete, agora tão falado.

 

 

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publicado às 18:23

 

 

No seguimento do seu belo painel de actividades a Kulungwana (na estação dos CFM de Maputo) organizará no próximo dia 20 de Fevereiro, quinta-feira, às 18 horas, uma dupla actividade recordando Ricardo Rangel. Inaugura uma exposição de fotografias suas (que se poderá visitar até 9 de Março), dita "Uma História - Mil Estorias".

 

E apresenta um livro colectivo dedicado à obra do fotógrafo, "Ricardo Rangel: Insubmisso e Generoso", o qual brotou de um encontro que lhe foi dedicado, realizado em Julho de 2012 (e que aqui referi), agregando textos então apresentados e alguns outros.

 

Recordo que tive o prazer de participar nesse encontro. O texto da minha comunicação ficou fora desta publicação, excessivamente coloquial para a integrar, uma coisa de ocasião que seria agora redundante - e Rangel implicava imenso com as redundâncias, como o mostrou no seu delicioso livro "Foto-jornalismo ou Foto-confusionismo", uma pérola de ironia pedagógica infelizmente algo esquecida.

 

De qualquer modo, para quem tiver curiosidade, e como aperitivo para o livro que aí vem (e para a exposição), aqui deixo a ligação para esse meu texto-homenagem ao grande Rangel, dedicado à sua longa reportagem sobre a então rua Major Araújo (hoje Bagamoyo), a sede do bas-fond da cidade de então: "A Lente Pertinente: Ricardo Rangel no "Pão Nosso de Cada Noite".

 

Até dia 20, dia para lembrar, um bocado mais do que o habitual, o grande Ricardo Rangel.

 

 

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publicado às 14:14

Convite para o lançamento

por jpt, em 27.11.13

Sexta-feira próxima será a apresentação de mais uma iniciativa editorial da Escola Portuguesa de Moçambique, sempre integrando a participação de artistas plásticos moçambicanos, algo muito saudável. Ao fim da tarde será um bom programa ...

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publicado às 09:29

Borges Coelho em Lisboa

por jpt, em 06.11.13

Amanhã, quinta-feira 7 de Novembro, em Lisboa acontecerá a apresentação pública do último livro de João Paulo Borges Coelho, este "Rainhas da Noite". Será, redundância absoluta pois está na imagem acima reproduzida, na Livraria Bucholz, perto do Marquês de Pombal, ao fim da tarde. Quem puder vá lá. Ouvir. E comprar o livro, claro. Já o li, gostei. Ao meu lado já o leram, e gostaram. 

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publicado às 09:58

 

Aqui está o regresso do João Paulo Borges Coelho. Chegou-me ontem à noite às mãos este "Rainhas da Noite", algo entre Moatize (Tete), na mina do carvão, e Maputo, cá em baixo, entre o passado lá e o futuro cá. Quem mo passou para as mãos acabara de ler este mesmo exemplar, chegado de Lisboa. E, fan do escritor tal como eu o sou, disse entre sorrisos: "é o melhor livro dele". A ler vou já, enquanto procuro as rainhas da noite que existam por cá.

 

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publicado às 08:07

 

(Postal escrito para o Delito de Opinião)

 

(Re)acabei agora este "A Maldição de Ondina" de António Cabrita. O autor, patrício imigrado em Moçambique há uma série de anos, que o XXI vai passando, poeta, prosador, jornalista, argumentista, crítico, professor, bloguista, editor, tradutor, vai tendo por cá uma actividade intensa, constante e profunda, afixada em vários livros, disseminada em múltiplos textos, um ritmo que não lhe prejudica densidade e ponderação. Este romance, publicado inicialmente no Brasil (Letras Selvagens, 2011) sairá em breve em Portugal (Abysmo), e também por isso aproveito esta nossa "série" no Delito de Opinião para o anunciar, coisa que vem do interesse do livro e desta vontade de amiguismo, que o Cabrita é um tipo que vale a pena e também porque se o bloguismo vale para algo é para dar uns abraços a quem nos apetece.

 

Aqui deixa o seu olhar, desencantado parece-me, sobre o seu Moçambique, esse onde nos encastramos. Um verbe mais depurada do que a sua habitual. Sem pitada de exotismos, das belezas tropicais ou das pobrezas bíblicas, sem mistérios austrais ou abismos pós-coloniais, utopias desvanecidas ou boas causas, mais ou menos poetizadas, que abundam em tantos outros. Com recurso a uma linha policial - e nisso, só nisso, se aparentando a algumas outras construções ficcionais portuguesas recentes sobre o país -, que acaba por ser apenas o fio de prumo para equilibrar as múltiplas variáveis do bailado melancólico que avassala as personagens.

 

Um manifesto iluminista, até expresso no título, em que o Cabrita se insurge com a persistência da história (de uma tradição moderna, direi), que vê como desagregadora, violadora da reciprocidade necessária ao bem comum, comunitarista que assim se desvenda o autor. Ainda assim, talvez paradoxal, europeu desiludido, deixando entender como é a prática africana que alimenta a acção europeia - é assim que vejo a articulação entre os dois protagonistas, o moçambicano Raul e o pós-moçambicano César (neste habitando algo do próprio autor, digo eu). No final, optimista trágico (?), deixa o autor a ténue esperança de uma mitigada redenção.

 

Raramente gostei tanto de um livro com o qual tanto discordo. Leiam-no, é a minha palavra.

 

 

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publicado às 07:35

O Prémio Camões para Mia Couto

por jpt, em 28.05.13

 

No ma-schamba há várias referências a Mia Couto, colocadas ao longo dos anos. Há algum tempo referi que "sou um mau leitor de Mia Couto, transporto-me com dificuldade para a sua ficção. E gosto muito dos seus textos de opinião, pelo que diz, pela forma como o apresenta." E nesse âmbito não esqueço nunca o seu extraordinário texto, de sentimento e de coragem, até física, lido no funeral de Carlos Cardoso. Que mais me fez admirar o homem ali, sempre gentil no seu jeito muito próprio, para além do escritor afamado, reconhecido. E sempre amado pelos leitores, um tipo que não precisa de confrontar quem o aprecia, sinal de grandeza.

 

Neste agora em que lhe é atribuído o Prémio Camões deixo um poema que lhe foi dedicado: 

 

 

Praia do Savane

 

Tu apenas tu e rodeando-te

a imensidão do mar

e a savana imensa

e o céu abrindo e fechando

todo o horizonte à sua volta.

 

O bramido oceânico

e o fundo silêncio da savana.

E a solidão a solidão

e as aves marinhas

confirmando a solidão ...

 

Livre te sentes é verdade

mas também perdido

e inútil esta liberdade

Adão que és agora ínfimo

desolado e inquieto

contemplando o mar perplexo

contemplando-o como se as ondas

te pudessem decifrar o mistério

desta absurda criação

de deserto de mar e de terra

de silêncio de vento e de aves ...

 

[Fernando Couto, 1985, em "Monódia"]

 

 

E ocorre-me repetir o conteúdo de um postal colocado há dois anos: "as capas nas estantes cá de casa. Até para conferir(mos) o que falta ...", que coloquei exactamente a propósito da formação de um grupo dos seus leitores que apelavam a que se lhe atribuísse o "Camões".  

 

 

[Cada Homem é Uma Raça, Caminho, 1990]

[A Chuva Pasmada, Ndjira]

[Contos do Nascer da Terra, Ndjira, 1997]

[Estórias Abensonhadas, Ndjira, 2ª edição, 1997 (1994). Ilustrações de João Nasi Pereira]

[Ilha da Inhaca. Mitos e Lendas na Gestão Tradicional de Recursos Naturais, Impacto, 2001. Coordenação de Mia Couto]

[Idades Cidades Divindades, Ndjira, 2007]

[Jesusálem, Ndjira, 2009]

[Mar me quer, Ndjira, 1998]

[Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos, Ndjira, 2001]

[O Fio das Missangas, Ndjira, 2004]

[O País do Queixa-Andar, Ndjira, 2003]

[O Último Vôo do Flamingo, Ndjira, 2000]

[E se Obama Fosse Africano? e Outras Intervenções, Caminho, 2ª edição, 2009]

[O Pátio das Sombras, Escola Portuguesa de Moçambique/Fundació Contes pel Món, 2009. Desenhos de Malangatana]

[Pensando Igual, Moçambique Editora, 2005 (com Moacyr Scliar e Alberto da Costa Silva]

[Pensatempos. Textos de Opinião, Ndjira, 2005]

[Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Ndjira, 2ª edição, 1999 (1983)]

[Terra Sonâmbula, Ndjira, 1996]

[Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, Ndjira,  2ª edição, 2002]

[A Varanda do Frangipani, Caminho, 1996]

[Venenos de Deus Remédios do Diabo, Ndjira, 2008]

[Vinte e Zinco, Ndjira, 1999]

[A Confissão da Leoa, Caminho, 2012]

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publicado às 04:28

Torquato da Luz

por jpt, em 26.03.13

 (Imagem encontrada aqui)

 

Leio a nota que sua filha colocou ontem no seu tão cuidado blog Ofício Diário, anunciando-nos, aos fiéis leitores, a morte de Torquato da Luz. Sabia-lhe o nome, o papel na imprensa portuguesa, em particular em tempos épicos da instauração da democracia. Mas foi nesse "Ofício Diário" que o conheci, acompanhando-o ali, onde durante anos, desde 2004, de um modo paciente, apaixonado e tão sóbrio, partilhou a sua poesia.

 

Sou um mau leitor de poesia, impaciente, quantas vezes buscando-lhe o rumo e mesmo desenlaces que ela não quer ter. Ou que eu não consigo descortinar. E nisso lembro agora que, há um mês, ao chegar ao "Sem drama", último poema que ali deixou, me senti retratado naquele, nada acusatório mas tão descansadamente irónico, transpirando a bonomia do homem vivido e sábio, "Poucas pessoas gostam de poesia, / embora a maioria, / como é sabido, diga que sim. / (...) / Vicejando em qualquer lado, / há quem a ponha na lapela / para o encontro aprazado. / Outros mostam-na à janela / no lugar do cortinado. / Mas, sem que nisso haja drama, / raros são decerto aqueles / que a fazem dormir com eles / noite após noite na cama". Pensei até enviar-lhe nota dessa minha sensação de retratado, "sem drama" claro. Falhei nisso, perdendo-me em demoras.

 

Com gentileza, que me foi até surpreendente, e que inicialmente atribuí à solidariedade no seio desta confraria bloguística, foi-me enviando os livros que ia publicando. Agradeci-lhos, com sinceridade, mas nunca me atrevi a perguntar-lhe da razão de ofertar este leitor sempre silencioso. Fiquei-me com a ideia, fico-me com ela, pois me é agradável, que fosse forma dele remeter o seu trabalho para este Maputo, o ex-Lourenço Marques, onde um dia, longínquo das quatro décadas já decorridas desde 1971-2, entrou com os seus poemas nessa espantosa, até lendária, aventura do "Caliban", revista como-se-fundacional capitaneada por António Quadros (então J.P. Grabato Dias) e Rui Knopfli. Sendo assim meio de refutar, pelo menos em parte, aquilo do "Tudo o que outrora soube e já esqueci: / os nomes, coisas, datas e lugares. / (...) / Tudo o que tive e nunca mais terei." (em "Tudo"), neste caso um seu lugar de ombrear poético.


Assim sendo, deixando-me crer nesta versão, nesta sua morte regresso ao Torquato da Luz de "Caliban", neste meu volume que um dia, abençoado seja, José Soares Martins e Nelson Saúte, abençoados sejam, decidiram reeditar e reavivar. A um Torquato da Luz invejável, capaz de deixar isto (será que o viveu?, e se sim ainda mais invejável ..., invejo-o eu, sempre estancado diante da aflição):


Apenas aflição


Apenas aflição e nada mais.

Um arrepio correndo o corpo todo.

Estar aflito é um modo

de estar com os demais.


Aflito. Como se um rio

de súbito saído do seu leito

afogasse o navio

do corpo a que estou sujeito.


Não temas. É aflito que escrevo.

Aflito realizo

ser de tudo o que vejo o dono e o servo.


Tudo o mais que preciso

é saber que me devo

um permanente aviso.


(Caliban, nº 3-4)

 

Adenda: também coloquei este postal no Delito de Opinião. Lá, nos comentários, Ana Vidal deixou um poema auto-retrato de Torquato da Luz. Mais do que se justifica trazê-lo para aqui:

 

O QUE DER E VIER

Tributário apenas da verdade,
avesso a peias e grilhetas,
feito da massa dos poetas
e dos que amam a liberdade,
sensível à dor própria e à dor alheia,
lutando até ao fim por uma ideia
de peito aberto e sem ter medo
de nada nem de ninguém,
capaz de guardar segredo
mas de o revelar também,
eis como sempre hei-de ser
para o que der e vier.


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publicado às 07:02

Finta Finta, de Paola Rolletta

por jpt, em 09.03.13

 

Abaixo a AL referiu o livro "Finta Finta", uma selecção do futebol moçambicano através dos próprios jogadores e suas histórias de vidas, agora ofertado a um ministro português.

Justifica-se recordá-lo. Não só pela autora, uma jornalista que é amiga deste blog, no sentido em que é amiga de alguns de nós e a gente gosta disso. Também por esses afectos, coisas da sua doçura, mas também porque gostamos do que faz, há uma série de textos dela metidas e/ou referidos no blog, basta consultar Paola Rolletta e conhecê-los.

Para mim tem também um significado especial este "Finta Finta". Pois no seu lançamento imaginei-me repórter e fiz a crónica do evento, mesclada com uma leitura do livro. Está aqui:"Finta Finta".

Passados dois anos o livro ainda não se esgotou, podem ir buscar. Em Portugal não. Haveria, com toda a certeza, público consumidor. Quando saíu teve referências elogiosas nas estações televisivas e nos semanários (ou diários aos fim-de-semana) da praxe. Mas ninguém se lembrou de o editar.

Nem vale a pena comentar. Não é a publicar ou vender livros que ganho a vida. Mas que há tipos que enfim ... há.

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publicado às 14:28

"A Viagem" de Tatiana Pinto

por jpt, em 24.11.12

 

Acabado de publicar, lançado hoje mesmo, este novo livro da colecção "Contos e Histórias de Moçambique", uma série infanto-juvenil que é uma iniciativa da Escola Portuguesa de Moçambique - Centro de Ensino de Língua Portuguesa. É o "A Viagem", uma adaptação de um conto moçambicano (recolhido por Junod, e muito saudavelmente apresentado no final do livro).  As belas ilustrações são um produto colectivo, com base em trabalhos originais do artesão Tomás Muchanga, editados por Luís Cardoso (um resultado muito bem conseguido). O texto é de Tatiana Pinto, no que é já o seu segundo livro (a Tatiana é muito querida nesta família, o que nos incrementa o desvelo com que acompanhamos esta sua via literária). O tema é a afirmação de género (entenda-se, a igualdade de estatutos e direitos), mas abordada com um carinho nada invectivador, uma sedução literária a fruir, uma atitude intelectual a partilhar.

 

Um livro bonito, a usar e a ofertar. Gostámos muito.

 

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Uma nota, completamente lateral ao livro e aos autores, ortográfica que é. E antipática:

 

[eu tinha refeito o texto e retirado esta nota, deixando-a para um texto autónomo sobre a matéria. Acontece que este postal já estava comentado, referindo-a. Assim opto por voltar à "primeira forma"]

 

A EPM-CELP é uma instituição do estado português que nasceu como de "cooperação" no ensino (ainda que de facto seja algo diverso). Como tal faz-me alguma confusão que edite, em Moçambique, e para Moçambique (e, inclusivamente, para distribuição "gratuita nas escolas públicas e centros infantis de poucos recursos" no país), uma obra de escritora e artistas moçambicanos numa grafia que não é a nacional. Não só, nem fundamentalmente, por aquilo que tantos vão dizendo, isso de que a adopção do acordo ortográfico no contexto português assenta numa ilegalidade. Mas porque - e apesar de haver os tristes antecedentes locais, muito tristes acho, tão tristes que nem os adjectivo, da Ndjira (uma sucursal da Leya/Caminho, a olhar para aqui como se fosse Lisboa) e da própria Marimbique (a dizer-me que a olhar o futuro inevitável, e eu a não concordar) -, não me parece muito curial que o estado português (através da sua escola) edite aqui (repito, edite aqui) e dissemine - gratuitamente - a grafia que não está acordada no país. É uma espécie de (pouco) subtil imposição, um fait accompli desrespeitador da soberania (gráfica) local. Entenda-se, uma coisa é ensinar dentro de portas da Escola Portuguesa (onde a adopção é criticável, mas compreensível dada a pressão política), outra é publicar para distribuir fora de portas - sendo que, ainda por cima, nem em Portugal é obrigatória a utilização da "nova" grafia.

 

Ou seja, é uma questão cultural mas também uma questão política.

 

Estou a ser antipático? Poluindo a nota sobre a obra da amiga, cutucando a equipa editorial, gente amiga, resmungando com a EPM, cheia de gente amiga? Talvez. Mas é a minha forma de ser "ativista" (sic) face a uma "colecção" (sic). Para bons entendedores duas citações chegarão. Não é uma gralha (à escolha, qual delas o poderá ser). É apenas o confusionismo. O confusionismo gráfico que reina entre os colaboracionistas com o obscurantismo. Lusófono. Perdão, luso-tropical. Ele próprio confusionista. Ontologicamente confusionista.

 

jpt

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publicado às 01:12

(D)urbanismo

por jpt, em 14.11.12

O meu texto na coluna "Ao Balcão da Cantina", da edição de hoje do "Canal de Moçambique"

 

 

(D)urbanismo

 

Neste 125º aniversário da elevação Maputo a cidade, uma bela idade, não fui a nenhuma festa nem concerto comemorativo. Um demorado fim-de-semana gasto em repastos vários, outros aniversários, de amigas várias. Provocando excessos, ainda que parcos. E neste ambiente de efeméride, todos eles conduzindo a que as digestões, longas, trabalhosas, fossem passadas a folhear alguns livros dedicados, exclusiva ou parcelarmente, à cidade. Esta que me acolheu, que me encantou. Há já quinze desses cento e vinte e cinco anos.

 

Certo que o encanto de uma cidade, esse que nos faz habitá-la, para ela (i)migrar, brota primordialmente das pessoas que lá estão, que a fazem viver. Aquelas que conhecemos, com quem interagimos, até amigamos. A essas o pudor impede a que se afixe o nome, se nem em privado muito menos em público. E aquelas que nem conhecemos, com quem “apenas” (um desapenas, melhor dizendo) partilhamos o espaço. Sobre essas, e já que falo de livros, sempre lembro o belíssimo livro “Desenrascar a Vida”, uma colectânea de fotos coordenada por Nelson Saúte, um épico sobre a gente de Maputo, lamentavelmente esgotado, a exigir ser ressuscitado. Quem sabe se numa próxima Páscoa …

 

Por isto que vou avançando, este agrado difuso com o universo circundante, muito me agradou e me foi significante assistir ao lançamento de “Nghamula. O homem do tchova (ou o eclipse de um cidadão)”, ocorrido na passada quinta-feira, acho que muito a propósito da etapa do calendário. O último livro de Aldino Muianga, aquele que sempre digo o escritor de Maputo, pelo menos o meu escritor de Maputo. Não que com isso o queira reduzir a localismos, mas tem sido nos seus livros que tenho, sempre com agrado, encontrado a cidade que me rodeia, que desconhecia, que vou desconhecendo, ainda que agora já um pouco menos. Na sua escrita serena, sem exotismos, Muianga é sempre imprescindível, criando vozes a personagens que não são típicas, coisa pobre, mas que são representativas. Coisa rica.

 

Parte da minha comemoração foi, então, encetar este novo “Nghamula. O homem do tchova …”. Livro a distribuir também, pelos tais amigos impublicados. Quem sabe se num próximo Natal.

 

Mas o encanto da cidade, esse que se pega, não vem só da gente. São os passos que damos, a paisagem que respiramos. Sim a baía, claro. Mas também este Maputo, que foi Lourenço Marques (e antes outros nomes) e também Xilunguíne. O Maputo construído, obra de urbanistas e de arquitectos, imaginado. Das casas e prédios, das ruas que deles são moradia.

 

Por isso regressei agora, com a acima referida modorra, até enfartada, à estante onde vive a memória de Maputo. Livros que lhe são dedicados, uma mão-cheia, e nisso até reencontrando material, imagens e saberes que vão, como é natural, transitando de obra para obra. Livros dedicados à cidade, como o pequeno e aprazível “Maputo. Roteiro Histórico Iconográfico da Cidade”, que A. Sopa e B. Rungo fizeram há meia dúzia de anos, contando a história da cidade, e que o então Centro de Estudos Brasileiro publicou. Estará ainda acessível nas livrarias? Um outro livro sei eu que não está, o interessante “Maputo. Desenho e Arquitectura” do arquitecto italiano Luigi Corvala, publicado há alguns anos pela Faculdade de Arquitectura. Também aqui relatando a história urbana e arquitectónica da cidade, com profusão das sempre desejadas imagens. Lamentavelmente o livro acabou por ser retirado do mercado, por necessidades autorais, uma qualquer mácula que o tempo vai apagando. Mas, felizmente, resguardei o meu exemplar, e posso de quando em vez desfrutá-lo.

 

Lembrei-me ainda de livros lindos, ainda que não totalmente dedicados à história da cidade. Um, que é um pequeno catálogo de uma exposição em cartazes, que fez uma itinerância em Moçambique, e de cuja realização ainda lembro a génese. Trata-se de uma obra da historiadora portuguesa Isabel Castro Henriques, “Espaços e Cidades em Moçambique”, apresentando imagens e algum historial dos últimos séculos das principais cidades moçambicanas. Recordo-me do prazer sentido quando há alguns anos entrei pela Escola Portuguesa em Maputo e notei que uma ala está decorada com esta bonita exposição. Talvez seja de a remostrar, alguma instituição que a possua, pois julgo que ela foi amplamente distribuída.

 

Fiquei ainda longamente debruçado sobre duas obras preciosas, agora puras e duras de arquitectura, e sua história. Da investigadora portuguesa Ana Magalhães (com imagens de Inês Gonçalves) o trabalho “Moderno Tropical. Arquitectura em Angola e Moçambique, 1948-1975”, debruçado fundamentalmente sobre o trabalho de oito arquitectos portugueses que se tornaram referência durante o período final da sociedade colonial, abrangendo várias cidades angolanas e moçambicanas. É uma delícia, e não é preciso ser arquitecto para nos encantarmos com ele. E, finalmente, o fabuloso livro-catálogo de Pancho Miranda Guedes “Vitruvius Mozambicanus”, resultante da enorme exposição que lhe foi dedicada há alguns anos em Lisboa, correspondendo à explosão de interesse e reconhecimento que o arquitecto-artista vem colhendo, em Portugal e não só. Pancho Guedes, o grande arquitecto de Lourenço Marques / Maputo, esse que tem sido alvo de algum interesse aqui, e sobre cuja obra há passeios pedestres organizados (por Jane Flood), não sei se suficientemente conhecidos. Pancho Guedes, personagem genial, uma obra fragmentada em detalhes fantásticos, em propostas fascinantes.

 

Não estou a esgotar a bibliografia existente sobre Maputo, claro, nem mesmo a que habita cá em casa. Apenas partilho as formas livrescas como me dediquei às difíceis digestões das tais festividades coincidentes com a efeméride municipal.

 

No domingo, alquebrado, engordado, cruzei a cidade para ir almoçar a um restaurante estabelecido exactamente num edifício desenhado por Pancho Guedes. No caminho fui cruzando a marginal e a baixa, olhando, sob o calor soalheiro que tanto tem demorado este ano, os edifícios mais recentes, decerto que por influência destas leituras-viagens. Todas aquelas habitações familiares, grandes ou gigantescas, caixotes tétricos encaixados uns nos outros, todos aqueles enormes tubos de escritórios, falos de vidro em erecção eterna.

 

Dirão que torço o nariz por questões do meu gosto pessoal. Decerto. Mas estou crente, e bem crente, que isto que vai acontecendo agora na arquitectura da cidade é muito pouco saudável. No fundo será como a diferença entre comemorar o aniversário da cidade comendo uma boa galinha à zambeziana ou indo engolir um frango frito ao Kentucky Fried Chicken, infecto.

 

É o (d)urbanismo de hoje. Muito, mas mesmo muito, fraquinho.

 

Nota: a fotografia que aqui ilustra o texto foi "roubada" ao blog Digital no Índico.

 

jpt

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publicado às 21:58

A poesia e o acordo ortográfico

por jpt, em 19.10.12

 

Nelson Saúte neste seu recentíssimo "Livro do Norte e outros poemas" (edição Marimbique) distribui os poemas por cinco "livros". Andando pelo "Livro Terceiro", onde mais lírico surge, encontro este 

 

O espetador arrebatado


Duas insofismáveis pernas

incapazes de esclarecer o arrebatado espetador

que se enleva nos avatares da dança

na irremedimível geografia da sala.


E hesito. Saúte de súbito brejeiro, até mesmo perdido na charneca do mau-gosto? Ou, logo logo depreendo, apenas um poeta vitimizado, graficamente amputado, seu pobre corpo escanhoado pelo austero bisturi "lusófono"?

 

jpt

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publicado às 11:26

 

"O Rei Mocho", uma incursão na literatura infantil do Ungulani Ba Ka Khosa (presumo que ilustrada por Amos Mavale), será apresentada publicamente hoje, em Maputo. É uma edição da Escola Portuguesa de Moçambique, conjuntamente com outras instituições. A ler. Para fruir, claro. Mas também para conferir se o Khosa caíu na esparrela de amputar, moralizando acriançando, a literatura oral para a tornar "infantil", como já aconteceu, num oitocentismo acriticado, na colecção que a referida Escola vem publicando. Espero que não. Acredito que não.

jpt

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publicado às 14:48

 

[Gregório Firmino, Ana Loforte, Alexandre Mate]

 

O meu texto na edição de hoje do "Canal de Moçambique". 

 

 

Ana Loforte e a antropologia em Moçambique

 

A prestigiada antropóloga Ana Loforte reformou-se há alguns meses, deixando de leccionar na Universidade Eduardo Mondlane, onde foi docente durante mais de três décadas. A palavra “reforma” é sempre dolorosa nos meios académicos. Confesso que nestas situações dos colegas mais-velhos prefiro o habitual termo “jubilou-se”, em desuso em Moçambique, que indicia um cume de felicidade intelectual (e até existencial), que acompanha o final das preocupações administrativas ligadas à vida académica e o continuar da biografia intelectual, assim aligeirada. Como é agora o caso de Ana Loforte, que segue como investigadora na organização WLSA e presente, assim o espero, no mundo da docência.

 

A semana passada ocorreu a sua “última lição” na Faculdade de Letras e Ciências Sociais, um costume para estes momentos biográficos no seio de outros meios académicos, tornado até verdadeiro “ritual de transição”, mas que percebi ser em Moçambique algo relativamente excêntrico. Certo que o nome dado ao quase-rito é até chocante, como se obrigando a um final ao que se espera que não o seja.

 

Ocorre-me abordar aqui esta, afinal, “Mais Uma Lição” de Ana Loforte, um momento que foi de verdadeiro júbilo, nele se extrovertendo o respeito e o carinho que a professora e investigadora plantou e colheu no seio da comunidade antropológica nacional. E não só. Como naquele momento disse Emídio Gune, em nome do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM, “queremos que o mundo saiba que a professora é uma excelente profissional”.

 

Mas para além do eco dessa calorosa homenagem este momento torna-se indicado para reflectir sobre o trajecto da antropologia no Moçambique independente, o qual pode ser acompanhado pela prática de Ana Loforte (ainda que, como é óbvio, e não poderia ser de outro modo, nela não se esgote). Nesse sentido permito-me recomendar aqui algumas leituras. Não só o seu “Género e Poder entre os Tsonga de Moçambique”, livro que reflecte a sua tese de doutoramento e que se tornou referência na abordagem às questões sociais no sul de Moçambique e, ainda mais, nas questões relativas à política de “género” no país. E, neste âmbito, convirá lembrar o quão central tem sido esta questão no processo nacional.

 

Mas convido também para uma leitura de uma sua entrevista (para quem acede à internet está aqui) concedida à “Gazeta de Arqueologia e Antropologia da UEM” em 2008. Nela podemos acompanhar o processo de “reabilitação” da antropologia no país. Com efeito, e tal como em tantos outros países africanos, esta ciência sofreu uma desvalorização após as independências. Pois vista como uma ciência colonial, como um mero saber instrumental destinado à dominação exploratória estrangeira. Acusações reducionistas, frutos de uma leitura empobrecida, e que em Moçambique se foram arrastando, inclusivamente em publicações universitárias, até há poucos anos. Nessa entrevista Ana Loforte recupera o lento processo de sedimentação da (necessária) pesquisa antropológica no país. Alimentada pelo trabalho de alguns especialistas estrangeiros nos anos 1980s, e de alguns, poucos, moçambicanos. Contexto no qual ela foi pioneira e no qual se foi tornando incontornável referência. Um processo que permitiu um olhar refrescado sobre a multiplicidade interna do país, já não vista como defeito a alisar, e a um aceitar e valorizar das suas múltiplas características, estas já não apenas a modificar.

 

Foi sobre essa necessidade de pesquisa, e sobre seus frutos e possibilidades, que Loforte falou na passada semana. Transformando o que poderia ter sido apenas uma festa de despedida – e bem merecida teria sido - numa desassombrada sessão de trabalho, num anúncio de continuidade de reflexão. Percorrendo algumas investigações cruciais realizadas ao longo dos anos, Loforte lembou aos mais novos, e relembrou aos colegas ali presentes, da necessidade de uma pesquisa qualitativa, atenta às características que efectivamente constituem a sociedade (as relações de parentesco, as questões e estruturas de poder, as práticas e hierarquias económicas, as dimensões simbólicas, essas que adquirem materialidade no dia-a-dia). Sublinhando que são essas dimensões da vida, dos processos sociais, quantas vezes “disfarçadas” de pequeno quotidiano, que nos permitem compreender o real. E que são também elas que enfrentam as (apressadas) tentativas de o transformar, essas pretensas engenharias do social, sempre desiludidas face a um mundo que não é, afinal, tão simples como o desejam e pintam.

 

O que Loforte referiu, ao longo da carreira, e na passada quarta-feira sumarizou, foi um projecto de investigação que busca compreender as dinâmicas internas à sociedade moçambicana. Entendendo que a apreensão destas dinâmicas exige múltiplas abordagens, várias disciplinas científicas em articulação, e que isso não se obtém apenas com a medição ou a mera descrição, subordinadas ao feitiço das estatísticas ou ao encanto da boa retórica, esta agitando os termos da moda. Que é um trabalho certamente lento e analítico, a exigir conceitos, intenções explicativas. E que tem que ser calibrado, comedido, apesar das urgências, desconfiando das urgências. Ou seja, que a compreensão incide sobre parcelas do real, seus fragmentos. E que esta é a única forma competente de olhar e de concluir. No fundo, a única forma de pensar, de analisar.

 

É nesse caminho, frutuoso mas nada publicitário / propagandístico, que se poderá refutar a visão da sociedade como mero palco de desenvolvimento, como apenas objecto de um projecto de desenvolvimento, como se matéria-prima fosse. Encarando-a, encarando o país, pelo conhecimento da sua complexa riqueza. E às suas múltiplas parcelas, aos seus múltiplos agentes, com as suas características, saberes e aspirações localizados. Assim, só assim, elegendo a sociedade como a verdadeira autora, a verdadeira sujeita de desenvolvimento.

 

Num mundo apressado, e como tal distraído, convém muito, é até urgente, ouvir e ler Ana Loforte.

 

jpt

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publicado às 10:24

O assunto do(s) dia(s) em Maputo é, como não pode deixar de ser, o projecto de alteração rodoviária, a "circular de Maputo" e a transformação radical da marginal, a icónica, identitária, famosa Costa do Sol. O projecto, chinês, está já em curso. Sobre o resto mais não digo, porque em relação a este assunto estou como a avestruz, aterrorizado e com a cabecinha bem dentro de buraco no chão, a "ver" se tudo passa e afinal não é nada.

Sobre o assunto deixo ligação  à Carta Aberta que algumas organizações da "sociedade civil" e algumas personalidades renomadas entenderam escrever, explicitando os motivos da sua preocupação. E deixo também o filme que anuncia o projecto, da autoria de uma companhia chinesa.

Assim como assim, parece-me que o Machado da Graça deverá reeditar este seu livro. Que ficará como memória de algo que já não será ...

Para mim isto ficará sempre como um extremo caso de paradoxo. Como posso eu, ateu convicto, ter uma "dor na alma"?

jpt

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publicado às 15:00


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