Abertura do Sítio PNETliteratura

A partir de amanhã estará a funcionar o sítio PNETliteratura, coordenado por Luís Carmelo. Aqui reproduzo o texto de Apresentação:

PNETliteratura: um rio, múltiplos afluentes

O site PNET/Literatura é um espaço vivo e plural de diálogo com a realidade literária em língua portuguesa. Há três aspectos que sobressaem na actualização diária do novo site: a dimensão crítica, a publicação de inéditos e um acompanhamento permanente da vida literária.

Três cronistas dão voz ao diagnóstico crítico, nomeadamente Jorge Reis-Sá (observatório da poesia), Pedro Teixeira Neves (observatório do romance) e Maria do Carmo Figueira (observatório da tradução). Dois escritores particularmente singulares nas respectivas gerações, Almeida Faria e Gonçalo Tavares, darão a conhecer neste espaço inéditos de sua autoria. Por fim, no que diz respeito à radiografia contínua da vida literária portuguesa, de salientar a existência de três dezenas de editoras que possibilitarão ao site PNET/Literatura a pré-publicação de obras de natureza literária. Além deste aspecto, vital para a auscultação da coisa literária, uma rubrica de mini-entrevistas – de acordo com um padrão de questionário cirúrgico e fixo como é próprio da rede – dará voz aos autores. Devido ao facto de o site PNET/Literatura ser um espaço editado na rede, será ainda contemplada uma rubrica semanal que destacará os sites e blogues que se dedicam à literatura.

Mas nada desta vasta actividade se realizaria sem a tradição do velho Folhetim; daí que, desde o dia da abertura do site PNET/Literatura, a 8 de Setembro de 2008, que os contos do escritor brasileiro Carlos Pessoa Rosa passem a ser publicados, fascículo a fascículo, nos fins-de-semana.

A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNET/Literatura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa.

Amigos Até ao Fim

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John Le Carré, Amigos Até ao Fim (D. Quixote, 2004, tradução de Helena Ramos e Artur Ramos)

É uma injustiça feita ao autor. Mas depois de ler “Um Espião Perfeito” tudo sabe a pouco: a perfeição não se pode repetir?

Será a trama que não é tão cativante - ainda que a ideia da Contra-Universidade Global seja uma delícia, a fazer-nos olhar para o lado e a ver quais a desejariam, quantos a sonhariam … Mas são os personagens centrais que deslustram, o torno Le Carré não os burilou o suficiente: Ted Mundy será apenas mais um, até algo cinzento, esquissado, até confundível com outros protagonistas que Le Carré criou. Qual a particular originalidade deste adornado filho de major “das Índias” alcoólico e decadente e de uma ausente criadita, que sempre lhe foi narrada como nobre inglesa? Crescido apenas com o amor de uma ama paquistanesa, num quartel recôndito? Um desvalido “ex-aluno do liceu comuna e ex-universitário de Oxford esquerdelho, que se tornara um falhado, um anarquista; um arruaceiro berlinense que, após uma sova bem merecida, fora posto na fronteira ao raiar da aurora; um professor não-qualificado expulso por libertinagem que criou uma situação falsa num jornal de província antes de se instalar no Novo México como aspirante a romancista, esgueirar-se de novo para Inglaterra e perder-se nos meandros sem esperança da burocracia das artes: um falhado dos pés à cabeça.” (179-180). Apenas mais um in-between na galeria de Le Carré, como quase sempre. E ainda mais frágil o desenho do seu contraparte (o autor precisa de pares na sua articulação romanesca) Sacha, uma personagem-dínamo que não ganha consistência. A fábrica Le Carré não está aqui no seu melhor, os exemplares produzidos vêm algo alquebrados.

Ainda assim, o prazer Le Carré, ainda que com suspense mitigado e que as costumeiras sombras que perpassam as suas gentes surjam muito iluminadas. Fica, para além do nojo por este fundamentalismo cristão que vem dominando a América, a fantástica pancada no Blairismo, essa injusta etapa início-de-milénio para um Reino Unido que já foi grande, a merecer outros modos, outros meios. Que se o podre sempre existiu assim será demais:

É a impaciência da velhice a manifestar-se cedo demais. E a raiva de ver o mesmo espectáculo vezes sem conta. (…)

É a descoberta, ao chegar aos sessenta, que meio século depois da morte do Império, aquele país tão mal governado pelo qual ele tinha feito qualquer coisa fora conduzido para combater outros povos, graças a um lote de mentiras, só para agradar a uma superpotência de renegados que pensa poder tratar o resto do mundo como se fosse o seu quintal.”

Prémio Camões

Francisco José Viegas interroga o critério de (semi)rotatividade nacional na atribuição do Prémio Camões, criticando a sua explicitação pública. Refere a existência da tradição de ”uma certa rotatividade”, mas é de uma literal que se tem ouvido falar como critério estruturante. O problema é explicitá-la?

Olhando a lista de premiados encontra-se apenas uma excepção, a atribuição sucessiva em 2001 e 2002 aos portugueses Eugénio de Andrade e Maria Velho da Costa (a distribuição de prémios entre 1993-1996 obedece rigorosamente à reciprocidade bilateral, com um desenho algo diferente devido ao “caso Jorge Amado”). A reciprocidade continental triangular, prenunciada no primeiro quinquénio, desfez-se por várias razões.

Ou seja, nada disto é novo, o prémio é político (nacionalista), no que não segue único, e os seus critérios de atribuição têm esse constrangimento. Posso, leigo, antever uma rápida atribuição do Prémio a um escritor dos países insulares atlânticos - ainda não recompensados decerto que por fragilidade das suas diplomacias académicas (o atraso na constituição da universidade em Cabo Verde teve, também, este custo marginal). E, muito em breve, já 17 anos passados desde Craveirinha, um prémio a Moçambique (para o ano?), muito provavelmente a João Paulo Borges Coelho, com a sua ge(ne)ologia do país, ou ao mais antecipado Mia Couto. Com tudo isto, pelos tais critérios, fica para aí uma longa e excessiva década para o prémio a Ruy Duarte de Carvalho.

Escritores que prezo, com graus bem diversos de intimidade. Ainda assim, apesar disso, olhando critérios literários, linguísticos, culturais e, sim, políticos, e inaugurando a total rotatividade premiadora: o meu próximo Prémio Camões chamar-se-ia Mario Vargas Llosa.

Eça de Queirós e as Asas do Português, de José Eduardo Agualusa

O avião de ontem trouxe-me a revista Ler. Prometedor exemplar. Ainda vou na página 13, o artigo aqui título. Agualusa em registo pró-Fradique Mendes, ficcionando um Eça decadentista olhando o decadente Portugal de hoje [”Não que Portugal esteja pior do que há cem anos, está todavia mais pequeno. Já nem é bem um país - é um resumo“] - estou crente de que é um tom que Eça (se houvesse a Eternidade na qual Agualusa aqui o coloca) não desdenharia, ainda que não o visse recorrer à pobre anedota com que este autor o menoriza no final do textito. Mas nunca sabe, talvez a Eternidade levasse à tal decadência, e assim sendo o Eça desse hoje intemporal fosse decadentemente brejeiro.

A interpretação é, quase sempre, uma decisão. E nessa tanto me incomoda o texto. Sei que nós, homens, podemos ser várias coisas em simultâneo. E que nelas oscilamos no tempo. Não sou purista, muito menos em termos nacionais. Mas continuo a recordar o Agualusa de Maputo, aqui muito branco africano invectivando os portugueses - que o haviam trazido, já agora -, brandindo um “nós” africano vs a tutela desses “eles”. E deparo-me agora diante de um registo tão típico, tão português nos seus tiques, tão portuguesmente autocrítico, autofágico. E não se venha falar de uma universalidade ficcional ali presente, não face a este mero A4 de situação. 

Não ascendo isto à complexidade identitária do invidíduo que escreve. Encontro ficção, sim. Metaficção, coisa sub-identitária, planificada. Andares de estratégia.

Passo a revista. Ao meu lado outrém, queiroziano e cada vez mais, dispara: “por que é que não vai para a terra dele?”. Identitária, entenda-se.  Ficcional.

Os meus patrícios aplaudem. Apreciam o tom. Reconhecem-no, comungam-no e agrada-lhes o travozito de piripiri, suave. Sonham-se assim. Premiarão. Nessa comunhão julgam-se um pouco Queiroz. Mas apenas se desrespeitam. Meros avatares de Salcede.

Mais vale ler tarde …

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Sailor e Lula estavam sentados a uma mesa do canto à janela do Café Forget-Me-Not, saboreando umas bebidas. Lula bebia um chá gelado com três cubos de açúcar e Sailor tinha um High Life, que bebia directamente da garrafa. Ambos encomendaram ostras fritas com salada de repolho e estavam a apreciar a paisagem. Havia uma lasca de lua e um céu cinzento escuro com pinceladas vermelhas e amarelas por sobre a escuridão do oceano que se espraiava como se estivesse de costas.

- Esta água faz-me lembrar a banheira do Buddy Favre - disse Sailor.

- O qu’é que estás a dizer? - perguntou Lula.

- O parceiro do meu pai na caça aos patos, Buddy Favre, costumava tomar banho todas as noites. O Buddy era um gajo atarracado com bigode e pera e uns olhos em bico que o faziam parecer o diabo, mas era um gajo porreiro. Era mecânico de camiões, trabalhava com maquinaria pesada, com camiões de dezoito rodas, e depois do trabalho ficava um nojo. Por isso, à noite, quando vinha p’ra casa, metia-se numa banheira cheia de “Twenty Mule Team Borax” e a água ficava um caldo cinzento e preto, tal como o oceano tá esta noite. O meu pai ia p’rá casa dele, sentava-se numa cadeira na casa de banho e beberricava I.W. Harper enquanto o Buddy tomava banho e às vezes levava-me com ele. O Buddy fumava erva todas as noites, enquanto tomava banho. Oferecia ao meu pai, mas ele amarrava-se no whisky.”

[Barry Gifford, Coração Selvagem, Quetzal, pp. 38-39 (tradução de Isabel Motta)]

Releitura desiludida 2

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Talvez por subreptícia influência do Esmaltes e Jóias - ali na coluna de elos - apeteceu-me reler, vinte e tal anos depois, as desventuras de Artur Corvelo no “A Capital”, de que tanto tinha gostado. E há belas páginas, especialmente aquela noite de esbórnia enquanto a tia agoniza. Belas no tom ao tema, que no som fica sempre o encanto com Eça, desde o meu liceu, mesmo quando andou a ser acompanhado calhamaço de A.J. Saraiva e O. Lopes.

Depois o sempre lembrado olhar desiludido sobre o país e sua gente. Um agravo em duas camadas que é muito citável. E muito citado, mas quase sempre só para a primeira camada, essa que dá jeito para a lamúria, afinal também ela personagem queiroziana: ” … e as vozes abafadas davam um tom de conspiração às acusações, às injúrias lançadas ao Governo: atribuía-se-lhe unanimemente a decadência vil da nação; num círculo, de onde se elevava uma fumaça de cigarros, cada um expunha “uma grande vergonha” - a ruína económica, o baixo preço dos salários, o compadrio dos empregos, o abandono das colónias; falava-se por generalidades vagas: era uma choldra! O País estava perdido! Nada, nada, nada! Tudo uma canalha! - e ombros encolhiam-se com tédio, faces chupavam-se, aspirando o fumo do tabaco. Mas, em geral, a irritação contra as pessoas excedia a hostilidade às instituições: atacava-se a vida imoral dos ministros, contavam-se ao ouvido anedotas da Corte, grunhia-se contra o abaixamento dos jornalistas conservadores, um indivíduo magro, cheio de espinhas carnais, parecia atribuir todos os sofrimentos da humanidade ao administrador do Bairro Central, que decerto odiava. Outros, então, contavam despeitos pessoais. E como justificação daquelas cóleras, voltavam constantemente as afirmações humanitárias, “a miséria dos operários”, “a indignidade dos ricaços”. Os mais incultos formulavam a sua indignaçaõ política com um termo de calão ou uma obscenidade de taberna; os mais ilustrados declamavam vagamente, falando com gravidade na corrupção do “baixo-império”. Ninguém parecia ter uma noção exacta de reformas definidas: mas todos, vagamente, confiavam que da República escorreria a felicidade pública, penetrando todas as classes, até os mais obscuros casebres, com a fecunda universalidade que cai de um astro.” (255)

Mas agora fica-me também a minha desilusão de quarentão. Não só com os afinal apenas típicos Meirinho, Videirinha (ainda assim, um traste com alguma substância decadente), Melchior e afins. Mas porque Eça, lá no final, por via do seu candidato a literato, deixa cair no meio de tanto estafermo algum carinho pela velha Tia Sabina. Mas, vendo bem, não seria ela também uma infecunda beata imbecil, tal e qual o resto da galeria? Cedência ruralista, nada mais.

***

Em 1985 nos finais de Agosto vindo da Escócia cheguei a Leicester tarde demais para a estação da colheita de maçã. Sem dinheiro e sem trabalho. Dormi ao relento, clandestino num jardim dessas casinhas de arrabalde. Na alvorada pulei de novo a cerca e fui para a estrada pedir boleia, para regressar a Londres. Logo parou um carro, bons tempos em que a boleia era fácil, um vizinho a ir para o trabalho, tipo simpático. Saíu a normal conversa “de onde vens, para onde vais?” e ao meu “I’m portuguese” o homem logo num supreso e entusiasmado “Português?! Eu estou a traduzir “A Capital” de Eça de Queiroz!”, e ainda mais ficou quando o mochileiro mal-cheiroso lhe disse já ter lido esse e vários outros. Pena que o cruzamento chegasse rápido, não chegou para que me pagasse ele um bom pequeno-almoço que logo ali imaginei. Ainda hoje o lamento, tamanha a fome de então. Seria ele este John Vetch?

Releitura desiludida

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[E. M. Forster, Um Quarto com Vista, Editorial Labirinto, 1986 (tradução de Salvato Telles de Menezes e Paula Cristina R. Simões)] 

Releitura desiludida, decerto a idade (minha) a desmerecer a trama que acompanhou o auto-desvendar da menina do vestido cor de cereja. Ficam alguns trechos…

[E uma má tradução, tipo apologetically por apologeticamente, mais algum empastado que se prevê não original, até um mau anglofóno como eu o imagina. E, o que lhe é mais vasto, a irritação de não se traduzirem os termos de tratamento (Mr., Miss, Mrs.) - é costume quando do inglês mas não quando de outras línguas. Por vezes se o original é francês mas nunca se em polaco, mandarim ou swahili. Norma, não presumível familiaridade do leitor com a língua original, é o que se pretende. Ou não?]

Dentro de casa, tomando chá com a velha Mrs. Buttersworth, reflectiu na impossibilidade de adivinhar o futuro com o mínimo de precisão; na impossibilidade de analisar a vida. Basta uma falha no cenário, o olhar de alguém no público, a irrupção deste para o palco, e tudo aquilo que planeámos deixa de ter sentido ou, paradoxalmente, uma justificação plena.” (155)

O reino da música não faz parte deste mundo. Nele só têm lugar aqueles que foram rejeitados igualmente pela formação, intelecto e cultura. A pessoa vulgar começa a tocar e atinge, sem dificuldade, o empírico. Maravilhados, olhamos para cima, reparamos como ela se nos escapa e reconhecemos que a poderíamos adorar e amar se traduzisse as suas visões em palavras, as suas experiências em acções terrenas. Talvez não o possa fazer, de certeza que não.” (37)

Jorge de Sena, Os poetas publicam-se …

E, para além do futebol, diz-me o tal leitor do ma-schamba “então o sena que eu te meti no blog? Está aqui:

Os poetas publicam-se todavia.”

Os poetas se publicam todavia. Chegam-
-me os livros de alguns, doutros não. Mas nem tudo
o que recebo leio inteiramente. E às vezes
vou lendo com cuidado uns outros que não chegam.
Não posso humanamente, dia a dia, ler
a toda a gente em Portugal: não tenho
já quase sequer tempo para ir lendo o que
se lê para ensinar a gente distraída
o Portugal de outrora, o que houve ou vai havendo.
Sempre temi, de resto, o tão comum
português jeito de não ler senão
as obras dos amigos ou de quem nos busca
num gesto – que é tão grato – de respeito
pelo que o termos sido represente. Mas
– tão estranho que pareça – ainda os poetas
se escrevem, se publicam. E neste instante
é disso que medito me escrevendo.
Que somos todos? Que se pensam eles?
Como é possível continuar-se poeta
sem que por mais que um hábito perdido
daquele tempo em treva de que fomos luz
inerme e pobre, mas que iluminámos,
se bem que alguns da treva não soubessem,
ou outros se pensassem mais que luz faróis
daquela madrugada clara tão sonhada,
que o sonho se faz noite, ou faz hipocrisia,
ante um real clamor em que não sonhos restam,
mas um estrondear de luzes que se chocam
em gritos e pavores num espaço sem poesia?
Não é que o desabar de máscaras decrépitas
nos faça João-Sem-Terra: todos bem sabíamos
não ser a nossa terra em que vivíamos
(em corpo ou espírito, tanto faz, é o mesmo).
Mas é que alguns de nós – e os outros sem pensá-lo
já que poetas se enganam, a poesia não –
neste amor-ódio a um Portugal tão triste-
mente, amargamente, secular mentira
que era preciso desfazer inteira,
nunca pensámos (ou sequer deixámos
que tal suspeita em nós fosse visão)
que um povo quase inteiro se odiasse tanto
na frustação de não saber o que era,
e ao descobrir-se a sê-lo. Que esse povo
tamanhamente odiasse o ter antigos mortos
dispersos pelo mundo. Que esse povo odiasse
a própria terra e o pó dos seus maiores.
Ou que esse povo apenas desejasse
guardar o seu quintal, roubar o do vizinho,
ou menos refazer um Portugal de sempre
que dividi-lo em postas de pessoal vantagem,
com a mesma avidez sôfregacom que
tentou fortuna noutras terras ou
defendeu à sachola o seu caneiro de águas.
Nunca outra vida, outro país lhe deram.
Mas porque digo povo? O povo não tem culpa.
Quando estalou a liberdade um dia
que eu já pensava não viria nunca,
deram-lhe só paixões desencadeadas,
deram-lhe lutas de politicagem
deram-lhe só receitas de revolução
deram-lhe chefes e chefões tentando
(ah como sempre em moscambilhas surdas)
menos fzer a terra da justiça
do que jogar no povo o jogo dos seus jogos.
Honestamente muitos, há que crê-lo.
Mas como sempre sucedera antes
traíram todos de maneira ou de outra
a radiosa aurora que os lançara à frente
(e nas sombras da esquina uns outros se preparam
para trair bem mais). O que fizeram
de mais terrível foi ter dito ao povo
que eles eram o povo antes que do povo
(a não ser muito poucos) viesse quem
fosse em verdade o povo em toda a parte.
E mais: quem escrevia e quem falava não
soube ou não quis subir-se além do ódio
a quanto fosse o Portugal que somos,
como se houvesse de que ter vergonha
de havermos sido o que existiu por séculos.
Por muito tempo o clebrar das glórias
(que o povo nem sabia) nos encheu de náusea.
E de mais náusea ainda quando isso servia
não para defender restos do império
mas para proteger quem os comia.
Mas o que pensa e escreve deveria
saber ou ensinar que a falsidade estava
em isso ser usado mas não nisso.
E ao povo dizer quanto fora sua a História
que sempre só de heróis e aristocratas
imperialmente se cantou.Voltar
às antigas fronteiras, sim, mas tendo-as
não como os muros de um egoísmo sórdido,
e sim como uma casa aberta a todos
que se quisessem portugueses ou
forçados foram pelas forças que
regem o mundo a decidir que o eram
porque nem tempo ou escolha lhes foi dada
para ficarem brancos onde o negro morre
de nem saber que liberdade seja.
E os poetas publicam-se, e não choram,
como deviam, que em Portugal se faça
odiando-se e negando-se a si mesmo.
Ou nem saem gritando que nos cumpre
abraçar os novos povos libertados
(e já de abraços se gastou demais
num cómico ridículo de falar mais neles
do que no Portugal que é que nos resta),
mas sempre de cabeça levantada e pura,
sem um bater no peito em contrições
que muito são cheirosas de outros tempos beatos.
Se pelas Áficas se derrubam estátuas
dos Gamas e Albuquerques e outra tropa igual
(e um dia virá em que esses povos todos
voltarão a repô-las no saber que a História
de séculos antigos não foi só conquistas,
quando se ouvirem cantando noutras línguas
as canções populares do velho Portugal),
a nós cumpre silêncio, entendimento amargo:
jamais subscrever, o que no mundo inteiro
raivosa inveja em séculos existe
de Portugal ter sido quem, para bem ou mal
(César foi mau, ou Alexandre o foi?),
transformou de uma vez a face inteira
do globo em que vivemos. Isso nunca:
fazer de novo um Portugal inteiro,
mas tendo em nós, por nosso, o Portugal
que a heróis, trabalhadores, ou simples viajantes,
roubado sempre foi no Terreiro do Paço.
As pátrias velhas não se inventam: vivem-se
– e temos mais razões de respeitar Jerónimos,
Batalhas, e castelos pelo mundo adiante
em ruínas comoventes da Amazónia à China,
do que os soviéticos possuem quando
– e sabiamente – conservam por tesouros
palácios imperiais de czares bandidos
que nunca em povo russo se apoiaram.
A única vergonha é não amar a pátria,
e não dizer ao povo o quanto amá-la importa
para que um povo seja a pátria que se adora
no conhecer do mal e no saber que nunca
um rei construiu castelos cujas pedras não
fossem sagradas pelas mãos do povo
que as pôs de pé, defendendo a fronteira do país
ou marcando a presença portuguesa
pelos cantos do mundo, em toda a parte
onde gente da nossa cometia crimes
mas deixava também a marca dos seus passos
ou do seu sexo pronto a toda a raça.
Chatins, ladrões e miseráveis fomos
– mas fomos também grandes. Sê-lo-emos
ainda outra vez, na casa lusitana,
se orgulho de possuí-la não for mesquinhez
de tê-la como umbigo do universo
em piolhos concentrado entre Melgaço e Vila
Real de Santo António. E que ninguém
venha cuspir-nos, muito menos nós.
E que poetas escrevam disto tudo,
mergulhando no fundo de si mesmos
(lá onde encontrarão sombras de séculos
como as de um povo que resiste a tudo),
e erguendo a fonte altiva em frente ao mundo,
urgentemente, sem pensar em mais
que dizer que somos e queremos ser.

Jorge de Sena (1976)

O Acordo Ortográfico

Sobre o Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa (já mais de 62 000 assinaturas) deixei aqui sobre o meu relativo desconforto ao assinar o documento. E ficou-me algo a remoer. Fica a minha relativa discordância com o texto (que não com as preocupações) mais explícita assim:

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lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.

ruiu a casa que és do nosso ser
e ese anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.

[Vasco Graça Moura, Uma Carta no Inverno, Quetzal, 1997]

A “mafia” de Tete recebe amanhã o escritor José Rodrigues dos Santos em Maputo: avisa o apaniguado Daniel da Costa.

agora transcrevo eu

Speech after long silence; it is right,
All other lovers being estranged or dead,
Unfriendly lamplight hid under its shade,
The curtains drawn upond unfriendly night,
That we descant and yet again descant
Upon the supreme theme of Art and Song:
Bodily decrepitude is wisdom; young
We loved each other and were ignorant.

(W.B. Yeats)

Envelhecer! Sentimos dia a dia
A idade aniquilar-nos lentamente,
É vermos um deserto à nossa frente
E atrás de nós, exausta, a poesia …

É ver fugir aos poucos a alegria
Que a vida nos trouxera antigamente;
É nem saber se acorda o sol ardente,
Quando a alma dorme escurecida e fria.

É começar a ter, nalguns instantes,
Saudades de alguém que fomos antes,
Viver lembrando aquilo que morreu …

É perguntar, em busca de conselho
Fugindo à voz fatídica do espelho,
A si mesmo e com medo: Quem Sou Eu?

(Pedro Homem de Mello)

- post vindo da minha mãe

“Temor reverencial”

Pode-se gostar ou não gostar de José Eduardo Agualusa: o meu desgosto com a última mão cheia de livros (até ao “Zumbi”, livro que inacabei com isso finalmente acabando-me como seu leitor) é até bem menor do que o tido com a personagem. Lembro-o aqui em Maputo há já alguns anos quando havia o Festival de Teatro de Agosto, numa sessão na Associação de Escritores num ditirambo contra os intelectuais, editores e académicos portugueses que opinam sobre a literatura africana assim demarcando-a, uma coisa muito “a la carte” pensei (terá ele pensado também). Para acabar eu a beber cervejas na esplanada com alguns colegas locais dele a gozarem-me: “vocês promovem estes tipos e eles tratam-vos assim”, riam-se nada convencidos do menu apresentado. Resmunguei uns palavrões sobre a geneologia dele, guardei o saco de livros que levara para que ele os autografasse, ri-me com as “minhas” mulheres da ostensiva vaidade do homem (”tanta que o torna feio”, dizia-me uma admiradora, porventura despeitada com alguma desatenção), passei o naco de estante a ele dedicado para a segunda fila traseira (confesso esta minha fealdade) a dar espaço primaz a outros autores de apelido “A…” e segui. Tudo isso nada tem de relevante (diga-se que escritores medianos, homens vaidosos e conferencistas de cabotagem só ofendem quem não consegue escrever, é feio e não tem ninguém que o ouça). Relevante é o indecente torniquete que lhe propõem, o “temor reverencial” a que o querem obrigar. Que seria ridículo se não fosse perigoso. Está narrado aqui: I, II.

Mário Laginha, Maria João e Francisco José Viegas na UEM

Integrando o programa da visita do Presidente da República Portuguesa Aníbal Cavaco Silva na próxima semana estarão em Maputo

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Maria João e Mário Laginha. O concerto será no dia 24, 2ª feira, às 19 horas, no Centro Cultural Universitário (e é gratuito). Que eu saiba será a quarta vez que os artistas tocam em Maputo - lembro-me de os ter visto em 1997 e em 1998, de ambas as vezes em excelentes apresentações e com casa cheia. Agora, com Maria João uma celebridade televisiva, acredito que o eco será ainda maior. E com o apreço de os ver actuar no nosso centro cultural.

No dia seguinte, 25 de Março, realiza-se também na UEM uma sessão dedicada à questão do português como “língua global”, com a participação de um alargado número de membros da universidade. É uma sessão também organizada a propósito da visita presidencial, e sobre isto permito-me registar - ou intuir? - que a passada década permitiu alguma evolução ao alto funcionalimo luso: do pregar o português como língua de chegada (aliás, lusofonia [o incompreendido e descontextualizado “a minha pátria …” pessoano repetido até à exaustão]) ao entender o português como língua de comunicação veicular. Exagero meu? Espero que não - se a educação sentimental é possível também o será a educação ideológica.

Participando nessa sessão estará o

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Francisco José Viegas, não tanto como o grão-bloguista do A Origem das Espécies, mas como belo escritor, homem da imprensa cultural e exemplo de gestor cultural. Também ele regressa a Maputo - onde o vi falar em 1997 -, cidade sobre a qual escreveu este

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Lourenço Marques, muito apreciável livro (consideração com a qual não concordarão os livreiros locais, sempre renitentes em encomendá-lo). Em nada desfazendo dos nossos colegas que estarão presentes vale a pena ir ouvir o homem, que ainda para mais é uma simpatia.

Adenda: Noto que nesse encontro estará também presente Valter Hugo Mãe, escritor (que, infelizmente, nunca li) e também ele bloguista. A conhecer de ouvir, pois então.

Rousseau sem rima

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Os três irmãos cabo-verdianos sentaram-se e pediram uma sopa
um deles gritou: Então, o vinho? …
e comida a sopa, o vinho aos tragos, desataram a rir
e comentaram os acontecimentos da semana
com uma boa disposição que contaminou os mais circunspectos.
Tudo isto, afinal, porque não sabem mentir…

[Ruy Cinatti, “Espectáculo”, 56 Poemas, Lisboa, Relógio d’Água, 1992]

Macaneta

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Tamanho adequado para a praia, na saída para a Macaneta lá foi o “Oriente, Ocidente” de Salman Rushdie (D. Quixote, tradução Ana Luísa Faria), que estanteava já há uns anos. Coisa pouca, assim menos menos. Contos a mostrar estilo, vácuos ainda que a quererem-se tonitruantes (ou seria da areia, mesmo que em dia de nada vento?) em especial o sector ”Ocidente” - quem possa fazer a crítica do poente rushdiano tem isto, que raiaria o insuportável se não se lhe desse a diagonal (”Yorick” - ui, ui, a la Sterne e Shakespeare -, “No leilão dos sapatinhos de rubis“, “Cristóvão Colombo & a Rainha Isabel de Espanha Consumam a sua Relação …“, este último a parecer um exercício juvenil). Dá para a gente saber que o ocidente não é tão apetecível assim (”Um bom conselho é uma jóia rara“). Tudo isto para chegar à última página aí sendo informado “Mas também eu tenho cordas a amarrar-me o pescoço, ainda hoje as tenho, puxando-me para cá e para lá, para Oriente e para Ocidente, com os nós corredios que se apertam e me ordenam: escolhe, escolhe.”

Eu espinoteio, resfolego, relincho, empino-me, dou coices. Cordas, não escolho entre vós. Laços, peias, não escolho nenhum de nós, escolho-vos a ambos. Estais-me a ouvir? Recuso-me a escolher“. (”O corteiro“, p. 206, ainda assim o mais legível dos contos). Seria bonito se não tivesse tanta página antes.

Lá no meio um pouco de análise social actual, recado a deixar-se cair como-quem-não-quer-a-coisa e em registo anacrónico (que sempre me irrita, a culpa é minha): “Os estrangeiros tendem a esquecer-se do seu lugar (certamente porque o deixaram para trás). Com o tempo, começam a considerar-se como nossos iguais. É um risco impossível de evitar. ( …) Fazer orelhas moucas, desviar os olhos: não há outro remédio. Poucos desses homens representam um perigo real, e só muito raramente vão demasiado longe. Sossegai: a Rainha sabe tomar conta de si.” (”Cristóvão Colombo & a Rainha Isabel de Espanha Consumam a sua Relação …”, p. 112)

À saída ão almoçámos na Macaneta - o restaurante está muito caro, saiba-se. E, diz quem o fez, o peixe sabe a galinha e a galinha a peixe. Coisas da usar a mesma grelha para ambos, para oriente e para ocidente, dir-se-ia.

Difícil fotografar o silêncio
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beira de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
(…)

(Manoel de Barros, “O Fotógrafo”)

Prémio Literário

Para os vizinhos também admiradores de Ruy Duarte de Carvalho (pelo menos tu, P… G.), já agora homem que por aqui viveu no início dos anos 70 e que agora poderia vir de visita (se as “redes da lusofonia cultural” se lembrassem), notícia de Prémio Literário, de homenagem, de ciclo de apresentação da obra cinematográfica, de peça de teatro nele baseada e, mais do que tudo, de novo livro (e aqui um belo texto sobre um seu belo e velho livro). Tudo mais do que merecido - e entretanto lembro a inauguração do ma-schamba.

Sobre Literatura Colonial Portuguesa

Notas sobre literatura colonial portuguesa no Blog da Rua Nove, um interessante blog que descubro via Carlos Sousa de Almeida.

A morte de Luiz Pacheco

Morre Luiz Pacheco. “E agora quem é que “eles” vão entrevistar….?” logo me veio à cabeça. Depois lembrei uma entrada que há dois anos aqui meti sobre o escritor (e sobre o como surgia ele em espírito pre-mortem em alguns blogs literários). Com muito respeitinho, que não sou dos ofícios das literaturas. Mas auto-referencio-me, nem que seja para (me) lembrar como terminei:

O Génio é uma longa paciência(Luiz Pacheco, Figuras, Figurantes e Figurões, Lisboa, O Independente, 2004, p. 178). Ganda Pacheco, faltou-te a dita?”

Mais valia ter estado quieto, leio hoje por todo o lado o evocar do seu génio. Um sapateiro não toca rabecão exactamente por isso - não reconhece o génio alheio. Mesmo quando gosta da melodia.

Quatro anos.

Prémio Camões

Candidatura de Manuel Rui a próximo Prémio Camões. Não há daquelas petições para assinar?

É raro conseguir que as pessoas de mais de 40 anos se convençam permanentemente de alguma coisa. Aos 18 anos as nossas convicções são montanhas a partir das quais tudo contemplamos; aos 45 são cavernas em que nos escondemos.”

(Scott Fitzgerald, Bernice Corta o Cabelo, Europa-América, 18)

Não me parece que consiga estar presente, meus múltiplos compromissos. Mas estaria, se pudesse. Próxima terça-feira, 2 de Outubro, às 18.30 h., no Centro Nacional de Cultura (Lisboa, pois), lançamento do livro “Odília ou a História das Musas Confusas do Cérebro“, coisa nova de Patrícia Portela, uma edição da Caminho.

(Os livreiros daqui encomendarão?).

O Livro que mudou a minha vida

(pois…)