Maio 30th, 2008 — Cinema Moçambique, Mia Couto

Ontem aqui houve estreia - num aparte: não seria altura de acabar com a pinderiquice das “ante-estreias” a la xenon?, meia-dúzia de vestidos compridos, um ou outro grilo andante, tapete vermelho já algo acinzentado e os tipos da inenarrável tvzine a coleccionarem minifotos de pessoas a quem não conhecem o nome? e o resto da rapaziada em dia normal, na chamussa e afins (sofríveis) e no vinho (mui decente), (sor)rindo destes sem-propósitos? Ainda não deu para ver que não pega o modelo? para aligeirar a coisa?
Adiante ontem houve estreia do Terra Sonâmbula, de Teresa Prata, co-produção luso-moçambicana - a primeira verdadeira co-produção luso-moçambicana, discursou o co-produtor moçambicano Camilo de Sousa, o que nele é significativo. Camilo é um tipo muito afável mas convicto, como o anunciou na TVM nas comemorações dos trinta anos de independência, que a maioria dos portugueses ainda está em guerra com Moçambique. Nesse registo é agradável ter notícia de que encontrou algum(ns) patrício(s) que dessa já desistiram (”maus fígados, jpt …” hão-de resmungar ao ler, “o caraças!” [ou aparentadas fonias] seria a minha resposta se ouvindo os resmungos).
O filme é de festival, objecto bonito, sensível, até mensageiro. Certo que quando vou a um filme português todas as minhas expectativas baixam. Mas também por isso posso ser surpreendido como ontem. Lento como um livro - e por demais preso ao texto, um tricô de analepses que é questão de argumentista, mas são opções. Estéticas para os autores, dolorosas para os espectadores. Mas bonito, que a beleza pode ter a dor lá. Vive também dos actores - excelente Aladino Jasse, excelente mesmo, idem para o cameo de Filimone Meigos tal como a grande Magaia. Mas também muito frágeis outros, de cá e de lá. Em registo que exige autores isso desiquilibra.
Finalmente, em filme que se anseia objecto estético não tem qualquer justificação um registo sonoro tão pobre, a exigir uma supra-atenção para entender os diálogos, a requerer legendagem imediata. Inenarrável descuido.
Estrelas (a la crítico de cinema)?: três (uma retirada por causa do tal não-som, outra por incongruências de realização - um cabrito que se desloca no ar, gente que não corre no mato por terror das minas e no plano a seguir faz o oposto, minudências assim). Portanto? A ver.
Maio 1st, 2008 — Ilha de Moçambique, Literatura Moçambique, Livros Moçambique, Mia Couto

Ilha de Moçambique
Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.
A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
(Mia Couto, idades, cidades, divindades, Maputo, Ndjira, 2008)
Abril 30th, 2008 — Literatura Moçambique, Montaigne
Esplanada de fim de tarde em lenta conversa até cíclica. Face a interlocutores literatos, e até comigo algo concordantes, vou remoendo a minha surpresa, relativa é certo, da continuidade da edição, por via das editoras oficiais e dos prémios institucionais - até “obrigados” por tradição universal à produção de um tal de “cânone” literário cujo defeito será(ia) exactamente esse tom oficial-institucional -, de alguma prosa literária muito fraca. Fraca de monotonia temática, de pobreza formal mas acima de tudo fraca por grosseiro psicologismo.
As razões para tal, sempre me avançam, são os mecanismos de edição e premiação - fragilidades dos juris de selecção. E o sempre anunciado, ainda que (quase)nunca provado, amiguismo. Mas de tão repetidos esses argumentos nada me dizem - explicarão o aqui e ali, mas não a continuidade da produção. Fala-se também da falta de leitura de alguns publicados escritores, talvez escritores não leitores. Aí já vou alinhando, mas não me chega.
É em casa - e não na esplanada … -, entre as coisas das minhas aulas que me ilumino sobre o porquê do eco da falha literatura que vai vingando. E da porrada levada (e o silêncio, haverá lá pior porrada a um escritor do que esse silêncio?) por alguns jovens que, mesmo que algo toscamente, tentaram aqui meter a carne e a mente na literatura. Entenda-se, os homens escorregadios e incoerentes. Uma iluminação perigosa, lâmpada a ferir os olhos, com riscos de “evolucionismo”, sei-o. Mas muito apetecível de compreensível … se não ficaramos por aí para entender. E esperando que os “oficiais” olhem para algo mais “moderno” - já nem digo “contemporâneo”.

“Mais sans doute l’établissement provisoire d’une psychologie um peu sommaire, à grandes lignes très arrêtées, était-il nécessaire d’abord pour permettre à un art classique de se construire. Il y fallait des amoureux qui soient bien amoureux, des avares qui soient bien avares, des jaloux qui soient bien jaloux, et des hommes qui se gardent d’être un peu tout cela à la fois. Montaigne n’a jamais été plus perspicace qu’en dènonçant sous cette fausse exigence esthétique, l’entorse qu’elle donnait à la verité: “Je laisse aux artistes, et ne sçay s’ils en viennent à bout en chose si meslée, si menue et fortuite, de renger en bandes cette infinite diversité de visages, et arrester nostre inconstance et la mettre par ordre. Non seulement, je trouve mal-aysé d’attacher nos actions les unes aux autres; mais, chacune à part soy, je trouve mal-aysé de la designer proprement par quelque qualité principalle, tant elles sont doubles et bigarrées à divers lustres“.
[André Gide, “Préface“, (1962) em Montaigne, “Essais I“, Paris, Gallimard, 2005, p. 14]
Abril 28th, 2008 — João Paulo Borges Coelho, Literatura Moçambique

Coisas da Feira do Livro: finalmente chega-me à mão este Histórias em Língua Portuguesa (Porto, Ambar, 2007). Histórias (aleluia, não são “estórias”) de vários autores, quatorze no total, vindos de vários países. O fio condutor é mesmo esse, o da língua, ficando assim o livro uma coisa algo bocado a bocado. Mas válida, em alguns passos mais, noutros menos.
Interesse especial aqui em Moçambique pois integra um conto de João Paulo Borges Coelho (”Maria Ernestina e as Quatro Senhoras“), inédito como presumo seja característica de todos os outros (o prefácio é de tal forma diletante que apenas o deixa deduzir). Dos outros autores referir gente de blogs: Afonso de Melo, que é uma espécie de D. Sebastião neste blog; António Gregório (que infelizmente apagou o Diário Dócil), Paulinho Assunção e Manuel Jorge Marmelo.
Vale a pena ir à Minerva esgotar a remessa.
Abril 22nd, 2008 — Maputo
Sessão comemorativa na Associação de Escritores Moçambicanos. Intitulada “Paixão pelo Livro” consiste numa organização conjunta AEMO, Embaixada de França, Embaixada de Espanha, British Council e Instituto Cultural Moçambique - Alemanha. Anuncia-se como integrando uma exposição bibliográfica de livros dos países participantes, uma outra de artes plásticas e uma discussão sobre a “problemática do livros”. Integra ainda uma “sessão cultural” (enigmática expressão de conteúdo sempre temível). Felizmente “na comemoração, participarão autores, editores, livreiros, educadores, bibliotecários, agentes culturais e outras entidades ligadas à cultura e à literatura em particular“.
Amanhã, 23 de Abril, às 16 h. 15 m. na sede da AEMO (Av. 24 de Julho, n.º 1420)
Abril 15th, 2008 — Bloguismo Moçambique, Daniel da Costa
Abril 8th, 2008 — Inez Andrade Paes, Literatura Moçambique, Livros Moçambique

Inez Andrade Paes, O Mar Que Toca em Ti, edição de autor, 2006.
-A senhora voltou, disse.
Voltei para curar feridas antigas e levar outras.
Voltei para vos ver e convosco ajudar o meu estar …” (p.9)
Um pequeno livro, reportagem dos sentimentos de um breve Natal em Pemba, um regresso presume-se que algumas décadas decorridas - a autora pertence a conhecida família local. A casa velha que revisita, antigos amigos e seus andares de hoje. Mas o que se sente mais importante: o som da língua que lhe falta desde então, o arrastado tempo do areal. E, ainda mais, aquele mar. Enquanto isso ainda abertura, partilhando-se com as pessoas, ouvindo alguns sonhos avulsos - que outros já nem atentamos. E impressões até impressionadas com o agora. Mas impressões sem tese, nisso saudável forma de acompanhar o hoje do que lhe foi casa.
A mim, que tão breve lá fui e ainda assim me adoptei, lembrou-me a minha última vez em Pemba. Ainda a arrumar as malas no hotel e a Inês: “és diferente aqui!”, “diferente? como?”, “ficas como dantes“. Não sei porquê!
Abril 8th, 2008 — Literatura Moçambique

(pressionar a imagem para ler o texto)
Um perspicaz artigo de António Cabrita sobre o estado da discussão, da divulgação e, fundamentalmente, da apreensão da literatura moçambicana.
Algumas coisas são óbvias, e acho que ultrapassam a questão “geração Charrua”: os escritores não são ecoados pelo “meio literário” (seja lá isso o que seja). Calane e Panguana escrevem romances e são seguidos pelo silêncio. Muianga publica amiude e não é retratado. Mia Couto é discutido pelo que escreve nos jornais. Sobre Borges Coelho há um silêncio - como refere Cabrita - tonitruante, que é coisa assente desde o princípio da sua publicação. Andes Chivangue, que acho o mais excitante dos novos prosadores, desaparece sob o mesmo silêncio. Muiambo que era cronista onde andará, quem o convoca? Aos novos poetas apaga-se-lhes a imagem depois do cocktail inaugural a la Mcel.
Todo este silêncio dever-se-á às práticas editoriais. Mas algo terá a ver com os jornais. O fugaz Meia Noite apostou na recensão e reflexão sobre literatura, mas morreu. A Proler foi incapaz de ressuscitar. Ficou o ainda recente suplemento cultural do Notícias, o qual não deu o salto qualitativo que prometeu - muito provavelmente por ter um espectro de atenção muito vasto para os recursos humanos de que dispõe. O resto da imprensa escrita esvaziou-se. Os especialistas em estudos literários raramente escrevem para o jornal (e não há revistas académicas da especialidade) e quando o fazem quase sempre ficam prisioneiros do jargão e da problemática científica, afastando os leitores leigos. Talvez por isso os jornais procuram a publicação dos textos destinados às sessões de lançamento das obras, que são quase sempre textos de ocasião. Ou seja, a saudável recensão, com ou sem arremedo crítico, inexiste.
Mas o silêncio sobre as obras não se restringe à falta de trânsito entre os pequenos grupos literários ou ao esvaziamento das secções culturais da imprensa - ou a questões identitárias mais vastas. Há uma dimensão sociológica nada despicienda, ainda que aparentemente pueril: o meio literário é muito pequeno (bem mais do que o são outros meios similares, como o das artes plásticas ou da música), qualquer crítica não absolutamente positiva culmina na poluição de relações pessoais diádicas. E o ethos contextual não admite senão a adesão ilimitada - nem mesmo em conversa, quanto mais em publicação.
Finalmente: a própria página cultural do Savana, jornal onde Cabrita (e vários escritores) publica é demonstração da pobreza de abordagem. Há semanas ali se elogiava como “bela prosa” um breve ataque a Saramago - djanovista (o escritor era menorizado por desrespeitar a Igreja Católica, assim se subordinando a literatura às posturas políticas e públicas); algo xenófoba (se por cá há bons escritores para quê lê-lo? O Nobel deveria ter sido atribuído a Craveirinha!) e acima de tudo apelando à não-leitura como critério de avaliação literária: “É que nunca li José Saramago. (…) Há escritores mais originais e criativos (…) Mais bonitas, mais criativas e com conteúdo muito valioso.” Entenda-se, nem discuto o texto de Jorge Oliveira (cujo “Fazedores de Almas”, feito com Panguana, lhe demonstrou conhecimento do panorama literário nacional), o qual até pode ter sido um mero desabafo (a irreverência final do texto é absolutamente rara no panorama jornalístico moçambicano, Fernando Manuel à parte, permitindo-me esta dúvida). O realmente interessante é que tamanho pacote foi elogiado de modo literal no Savana, jornal cheio de literatos ali colaboradores residentes e, que eu tenha reparado, nenhum achou pertinente colocar em discussão o espartilho (aparentemente?) preconceituoso assumido pela redacção do jornal (o texto não é assinado pelo que é da redacção, não é assim?). E, se assim o é, porquê o espanto com o “estado da arte”?
Março 31st, 2008 — João Paulo Borges Coelho, Mia Couto
É o fim da minha bibliofilia. A surpresa, entrar na livraria e ver dois novos livros, um de poesia de Mia Couto “Idades, Cidades, Divindades“, o outro a novela ”Hinyambaan” de João Paulo Borges Coelho.
Deste último ainda lamento o descuido gráfico - as obras dos autores moçambicanos da editora Caminho/Ndjira estiveram durante anos condenadas a serem publicadas com capas de estilo “étnico”, nestes casos um afro-hippie muito anos 60 (não discuto a qualidade do trabalho de ilustração - do qual não gosto, mas isso é apenas o meu gosto - mas sim a sua pertinência ideológica). Assim como se o Roth ou o Vidal tivessem que ser editados sob motivos ameríndios new age ou os latino-americanos com reconstruções pré-colombianas. Finalmente foram libertadas desse espartilho. Mas agora ao ver a capa deste “Hinyambaan” vejo uma tolice - para além de feia basta ler para perceber a preguiça do ilustrador. Ou seja, não leu, nem o resumo. A editora a trabalhar mal. Em época de mudança a começar mal.
Mas o fundamental está noutro local. Custo de ambos os livros: 550 meticais (25 dolares). Em dois ou três meses as novas edições da Ndjira dobraram o preço (preço normal anterior 275, 300 meticais). A excelente colectânea de poesia de Fernando Couto, saída recentemente, bem maior do que o livro de Mia Couto custa 300 meticais. As reedições das obras de Mia Couto e Paulina Chiziane que a Ndjira está a fazer custam abaixo dos 300 meticais. Ou seja, se a Ndjira pode produzir livros em edição moçambicana (não sei onde as imprime) a preços bem mais baixos por que importa as edições conjuntas Caminho/Ndjira, nas quais só muda o logotipo e o nome da editora, colocando os livros tão mais caros?
30 a 50% de aumento no preço de capa em três meses? É uma decisão empresarial, não posso protestar, apenas lamentar. Mas a 25 dolares cada livrinho paro. Se comprava tudo o que saía de ficção e poesia nem pensar em continuar, não posso. É o fim da minha bibliofilia. Alguém me empresta os livros? Nem que seja para reproduzir as capas e colocá-las aqui…
Março 24th, 2008 — Carlos Coutinho, Literatura Moçambique

Alfarrabistas de Maputo: é aí que encontro este “Uma Noite na Guerra” de Carlos Coutinho (Editorial Caminho, 1977). Texto do seu tempo, como já então anunciou o prefácio de Baptista-Bastos, quase letal na apreciação ainda que lhe louvando a “urgência” (à época). Muito datado mas também por isso retrato histórico, não só do que quer denunciar mas também do que dele mostra presente no autor. Trata-se de uma narrativa de uma (improvável?) reunião de militares portugueses no Niassa em meados da década de 60, unindo de soldados a capitão - talvez não tão improvável se se pensar no Cancioneiro_do_Niassa, mas ainda assim muito pouco verosímil - que decorre entre a audição dos ícones de então (Lopes Graça, Adriano, Zeca Afonso, etc.) e maldizeres da guerra por via da sucessão de histórias reais.
Interesse para hoje? Uma breve descrição física da Vila Cabral. E o tal retrato do tempo, como era visto pelo autor e como transparece no autor, e nisso a colectânea de estereótipos que se detectam. História a história de denúncia colonial - a corrupção do oficialato português; a maldade dos colonos; a antinomia entre colonos e militares; a maldade boçal destes últimos. E as histórias do sofrimento dos africanos, eles apresentando-se como inocentes (no sentido de cândidos) - um espartilho conceptual bem para além das ideologias, como o demonstra que a repulsa pela indignificação colonial surja associada à afirmação de uma incapacidade dos moçambicanos, representados a falarem incorrectamente entre si como se na sua língua (presumivelmente ajaua) fossem incapazes de correcção gramatical, de um estado de maioridade linguística. Algo tradicional na literatura colonial, menorizador é certo, mas acima de tudo significando a inconsciência da dimensão linguística do retratável, inconsciência que veio a perdurar em mais subtis formas, diga-se.
Num texto já velho de trinta anos, de óbvia rejeição do colonialismo e da guerra seu estertor, será hoje mais interessante reparar nos modelos de apresentação: o mundo português denunciado em episódios descritos numa escrita em tom seco, qual crónica jornalística, como se adequado à fealdade do objecto. Para logo surgir o mundo africano narrado em tons bucólicos (uma caçada camponesa ao hipopótamo) ou líricos. Para dois mundos, ali esquemáticos, dois sons, estereotipados - e nisso o exemplo máximo surge no episódio da belíssima filha de régulo violada, e por isso suicida, pelo repugnante administrador - uma transposição inconsciente da princesa vitimazada das histórias europeias (porquê filha de régulo e não mulher da população? porquê belíssima?). E porquê lembrar isso agora? Lembrá-lo também pois o este tom, de candura e elevação, bem como os requebros adjectivantes continuam a surgir em alguma literatura moçambicana, em particular quando se refere ao mundo rural, “os camponeses”. Uma continuidade estilística mas também de olhares.
Finalmente, uma demonstração crucial de algum pensar da época, do Portugal de então, o terrível posfácio “Dez anos depois”, já episódio lisboeta de 1976, no qual os “retornados” são apresentados como em absoluta osmose com os “chulos” do Intendente.
Viria a sarar o país. Alguns anos depois.
Março 23rd, 2008 — Literatura Moçambique, Vanessa Guerreiro

Um breve livro em registo memorialista, desprovido de quaisquer pretensões literárias mas de interesse sociológico: “Inquérito em Moçambique” (Lisboa, Editorial Minerva, 2002) de Vanessa Guerreiro (pseudónimo de Gertrudes Mendonça). A autora, técnica de saúde, narra as peripécias em torno da realização de um inquérito sobre a saúde materno-infantil nas províncias de Cabo Delgado, Inhambane e Niassa, decorrido nos anos da penúria e da guerra civil, tudo indica que na década de oitenta.
Neste episódio pode-se entender (e até intuir) o percurso da autora no processo nacional. Lusodescendente - o pai, arquitecto responsável pela edificação do edifício da então Câmara Municipal de Quelimane, é emotivamente evocado (p. 27) - V. Guerreiro insere-se no aparelho de Estado moçambicano e é enquanto seu quadro que adquire a sua formação profissional. Nisso não será exactamente uma figura típica, tanto pelas suas aparentes origens sociológicas como pela sua idade (é já avó) na época que narra.
Três são as dimensões mais interessantes que o livro desvenda. Em primeiro lugar a que respeita ao peso das delimitações socioculturais nos processos de interacção pessoal. Com efeito à excepção de uma autoridade de Inhambane, surgida em socorro da equipa dados os episódios da guerra, as personagens significantes individualizadas são estrangeiras - a amiga cooperante italiana, o colega cooperante sueco, o pensador cooperante africano (maliano?) evocado e, até, o intrusivo e arrogante investigador americano - este um caso muito típico aqui, seja o indivíduo em causa seja a reacção da autora: “Estes estrangeiros, que vêm para aqui colher material exótico para as suas teses e ainda por cima prejudicam o trabalho dos nacionais” (38). Ligando este feixe de relações individuais significantes às queixas face ao funcionamento do funcionalismo existente pode-se intuir a solidão profissional (e social?) da memorialista, algo associável à exaustão que vai indiciando (a pobreza dos netos, os preconceitos sofridos internamente e seus efeitos em termos profissionais e pessoais, a refutação da pertinência dos cooperantes estrangeiros, a descrença radical nos modelos assistencialistas de desenvolvimento).
A segunda dimensão é a do desalento, da des-ilusão ideológica e moral. O livro abre com a denúncia da corrupção (a individualização dos interesses, seria melhor chamar-lhe assim) desde os alvores do período nacional (p. 8), com a denúncia da ausência de uma ética do trabalho (pp. 28, 68) e, inclusivamente, com a recusa da ideologia de então, essa do moldar de um “homem novo” (típico dos regimes de extracção socialista): “para se ser honesto não é preciso estudar, não achas?” (p. 8), epítome de uma absolutização da moral. Enfim, esta é uma crónica do desencanto, de uma adesão moral (não é explícito se também ideológica) desfeita pelo real. Um desencanto moralista subjugando o apreço telúrico que se assume sempre como marca e vínculo identitário: “Quem me dera ser poeta, para passar toda esta cena para um poema” (p. 43), diz diante da natureza que pode fruir, e também diante do “verdadeiro povo moçambicano” (p. 69), assim como se que inconscientemente naturalizado. No fundo, a estética lírica como vinculativa.
Finalmente o para mim mais interessante pois mais original. A forma como a técnica de saúde procura, face ao real e agora sim tentando libertar-se dos seus preconceitos morais, entender as dimensões positivas (ou pelo menos como se abre à possibilidade da sua existência) dos regimes polígamos no domínio da saúde infantil (e maternal), a forma como deixa a hipótese das vantagens da poliginia nas dimensões dos direitos das mulheres e da saúde de mulheres e crianças. Uma reflexão prévia à dominação extrema da ideologia do género, aqui sim sob o primado do real, deixando ainda interrogá-lo.
É elucidativa esta aparente contradição de olhares - tão recorrente, diga-se. Como os pressupostos, até preconceitos, se afirmam e reafirmam no discurso sobre o político global quando assente numa ideologia moralista. E como eles, pelo menos entre aqueles que mais atentos olham, acabam por ser questionados face ao que acontece na área profissional, na realidade real conhecida.
Março 16th, 2008 — João Mosca, Literatura Moçambique

João Mosca é autor de já vasta e importante obra sobre o processo moçambicano. Autor de referência no domínio da história económica (chame-se-lhe assim) do processo nacional.
Mas neste seu breve livro de poemas “Vou-me Embora Ficando” (Lisboa, Instituto Piaget, 2001) é uma outra dimensão que se lhe desvenda, ainda que não totalmente desligada da reflexão de contornos científicos. Não lhe discuto os méritos poéticos. Ainda assim surge-me como um livro exemplar. Por lhe reconhecer, na sua linearidade, um carácter de espelho de um muito específico meio social e de uma era histórica que a este provocou e formatou, de tudo isto um breve mas acurado retrato. Ali se ouve o eco de tantas outras biografias vividas na complexidade identitária brotada da etapa nacional em Moçambique. E, em particular, das formas assumidas de “moçambicanidade” por um núcleo formado por jovens à época da independência, alguns de ascendência portuguesa como o autor, outros de outras e bem plurais ascendências. Neles o húmus identitário conteve uma dimensão telúrica, uma “africanidade” de reclamação biográfica e também poética, mas a qual foi ainda fermentada pela adesão, mais ou menos explícita, mais ou menos madura, a uma ideologia igualitarista, também esta envolvendo poeticamente o real: “Fico / aqui nasci cresci e trabalho / o que amo é aqui […] Quero transformar transformando-me / quero ver florir o homem novo / e ser um deles“.
Mosca transparece esses percursos, gente que assumiu rupturas familiares e sociais (ou, talvez, que deixou os seus assumirem essas rupturas - a formulação depende do ponto de observação de quem as indexa), e nesse seguimento desde cedo assumindo responsabilidades administrativas, a sua juventude inexperiente esquecida na urgência imposta pela inexistência de quadros no pós-independência. Um mergulho no real, às vezes romanesco outras vezes dramático, um real então desejavelmente moldável sob preceitos bem determinados - e moralistas -, que tanto marcou as biografias, pelas acções e andares havidos mas também pelos efeitos triturantes impostos pela força desse mesmo real efectivo, sempre ele escapando-se ao quadro moral que se lhe quis impôr: “Um dia, disseram-me que tinha poder / acreditei / mandei / ordenei / parecia mesmo grande / apesar de pequeno […] Concluí mais tarde que quem me mandava / não mandava / era mandado / nunca descobri por quem […]”.
É assim o testemunho, pungente até, do longo e lento processo de des-encantamento, essa desilusão individual tão recorrente alhures mas que aqui assume constantemente a dimensão de uma desilusão ideológica - silenciado o projecto igualitarista o qual era, afinal, apenas a cor do projecto nacional. Uma dor individual como o processo é amiude sentido, uma dor de contornos éticos, e que em muitos assumirá uma recusa existencial mas não um despojamento identitário, ainda que este seja uma questão de recorrente discussão, até de conflitualidade (”… donde vens Tivane / Venho da terra / da minha mãe e do meu pai / Como eu / Não / o senhor vem de outra e é branco“), questionamento de imputação racial, claro, mas não só, produto da dimensão visível do círculos sociais: “Somos iguais […] Não / não somos iguais / eu não tenho nada / e o senhor não sabe o que é nada“.
Deste longo processo, que acampa para além da experiência individual, é este livro arguta e sentida testemunha. Do estertor dos ideais face ao real, este bem menos moralista e moralizável do que era sonhado e foi pensado. Um estertor que é também, e até dramaticamente, o da recusa do hoje. Daí até à angústia do pró-exílio, algo sentido como exaustão, ainda que ele próprio recusando a negação. Entenda-se, uma dolorosa recusa não da identidade sonhada mas sim a da sua negação: “25 anos de ficar e não fico / não fico pelas mesmas razões que fiquei / já não vejo os horizontes da liberdade e justiça / foi uma miragem / Pretendia ser um do povo pasei a um da tribo / tentei lutar por ideais fiquei elite …”
Para além do livro e dos caminhos aí endereçados dizem-me que o autor, cumprido com todo o sucesso um longo programa académico no estrangeiro, regressou ao país. Que testemunho do futuro nos deixará?
Março 8th, 2008 — Bloguismo Moçambique, Eduardo White
Anos depois do encerrar o seu Apassarado o Eduardo White, por ora em Lisboa, deixa aviso de que regressa a estas blogandanças: abriu o Meu Quintal Dividido. Um abraço!
Março 6th, 2008 — Adelino Timóteo, Arte Moçambique, Literatura Moçambique, Malangatana

Desenhos de Prisão, de Malangatana exposta na Beira, no Centro Cultural Português, avisa o Beira-Amar.
E lançamento do livro Mulungu, de Adelino Timóteo, presumo que hoje. Para quando em Maputo (ou escapou-se-me?).
Adenda: dizem-se ser a primeira vez que Malangatana expõe individualmente na Beira. Incrível demora. Urge, então, o Norte.
Fevereiro 26th, 2008 — Eduardo White, Ilha de Moçambique, Literatura Moçambique
De Eduardo White não tenho notícias há muito - em Portugal, sussurram-no alguns conhecidos comuns. Aqui deixo um texto dele (ele que, infelizmente, se desmaschambou) sobre a Ilha de Moçambique. A lembrar-me que o conheci em tempos de abrir janelas sobre o Índico …
A ILHA
Um pássaro revolve as asas por dentro do azul esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas sobre a espuma amarelecida dos navios cargueiros, que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas. A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha. As redes que sobre o chão encontramos estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode por dentro a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nossa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg, porque Deus descansa aqui ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que por teimosia não quer morrer. Vão longe a navegar os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros democráticos reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que os poemas não dizem, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem, entretanto, entender o que eles explodem e dóiem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores. Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e talvez será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives e os olhos aluadores e viajantes das suas crianças. Por isso o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá talvez aqui amado seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável, de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que aqui, até hoje, não sabem ler.
Eduardo White