Análise Social dedicada a Moçambique

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Lançamento do número dedicado a Moçambique, coordenado por Paulo Granjo.

SEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA

PODER, PRAZER E GARRAFAS: PISTAS PARA A LEITURA DO 5 DE FEVEREIRO E DOS LINCHAMENTOS

Paulo Granjo

Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

Comentarista convidado:

Carlos Serra

Centro de Estudos Africanos, Universidade Eduardo Mondlane

Sexta-feira, 18/04/2008, 9 h.

LOCAL: SALA 206, 1º Andar F.L.C.S., Campus Universitário

Globalização e Autoridade Islâmica em Moçambique

UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE - D.A.A.
SEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA

GLOBALIZAÇÃO E AUTORIDADE ISLÂMICA EM MOÇAMBIQUE

LIAZZAT J. K. BONATE

Centro de Estudos Africanos - U.E.M.

Sexta-feira, 21.03.2008, 9 h.

LOCAL: sala 206, 1º andar F.L.C.S. (campus)

Notícia de um encontro de Antropologia, a decorrer em breve.


Cidade e Tecnologias de Informação Geográfica em Contexto Africano: modelação das transformações de uso do solo em Maputo”, um trabalho de Cristina Delgado Henriques, base da sua tese de doutoramento, foi ontem apresentado.Para quem quiser apreender um pouco mais sobre a utilização populacional do Maputo, e do como este vem sendo moldado nas últimas décadas - no seio, como frisa a autora, de uma radical desregulamentação implanificadora - aqui se deixa o sítio da autora, onde também abunda iconografia (mapas e fotografias) da cidade: Cristina Delgado Henriques.

Quarta-feira, dia 28 de Novembro, às 18 horas, no Instituto Camões, uma conferência: “Cidade e Tecnologias de Informação Geográfica em Contexto Africano: modelação das transformações de uso do solo em Maputo“, por Cristina Henriques, da Faculdade de Arquitectura de Lisboa. Mais um bom exemplo do regresso ao local para apresentar os frutos do trabalho realizado, neste caso inserido num amplo processo de doutoramento.

Um caso, que não será de fazer cair o prédio Pott, mas que é desagradável. A Imprensa Universitária que vem trabalhando pior do que o que seria desejável (e o menor dos defeitos não será o de não distribuir os livros que edita) deu em auto-plagiar-se. Podemos encolher os ombros e dizer que não é muito grave que o departamento gráfico de uma editora reutilize ideias gráficas que lhe são dadas por um autor publicado? Talvez. Reduzimos tudo a descuido e pronto.Mas sendo uma imprensa universitária, aqui mesmo ao lado, com que cara é que amanhã nós professores vamos dizer aos alunos para não mergulharem na internet em busca de trabalhos para plagiar? Não, não é descuido. É atitude. Condenável, em particular por ser cá em casa.

Diagnóstico de Focos e Origem de Conflitos Sociais nas Comunidades Urbanas e Periféricas

António da Costa Gaspar, Diagnóstico de Focos e Origem de Conflitos Sociais nas Comunidades Urbanas e Periféricas, Maputo, Organização para a Resolução de Conflitos (www.orecmoz.org.mz), 2003

Um estudo patrocinado pela Organização para a Resolução de Conflitos, “associação moçambicana vocacionada a prestação de assistência e advocacia na gestão pacífica e resolução colaborativa de conflitos.” (iv), actuante desde 2000, promovendo os direitos dos cidadãos e reduzindo “a violência conflitual através da criação de um ambiente harmonioso” (iv). Este trabalho procura identificar focos, causas e tipos de conflitos ao longo do país, sob uma abordagem, explicitamente assistencialista, e vem financiada pela ICCO (Organização Interclesiástica para Cooperação ao Desenvolvimento), a EED (Serviço das Igrejas Evangélicas da Alemanha para o Desenvolvimento) e a DIAKONIA (organização não-governamental das Igrejas Livres da Suécia).

É um livro exemplar e daí o seu especial interesse: o ecoando os resultados de uma pesquisa de terreno transpira o caldo ideológico que a organizou: a anti-globalização (anticapitalista?) com o extremo conservadorismo do olhar sobre a realidade. Um conservadorismo moralista, entenda-se, que molda problemática, objectos e assumpções assumidas. Se olharmos o enquadramento evangélico patrocinador não surpreenderá, mas não é com olhar de denúncia que a ele me refiro. É que raramente em livro se encontram firmadas estas balizas da normatividade desenvolvimentista, de modo tão cristalino.

Na pesquisa transposta a livro concluiu-se que “Os principais focos de violência localizam-se, essencialmente, em locais de exercício da economia informal que servem de base de sobrevivência da maioria das famílias a viver nos centros urbanos e seus arredores (…) Estes factores, estão de alguma maneira, associados aos efeitos da liberalização económica e das politicas macro-económicas vigentes no pais. Os efeitos nefastos da globalização, igualmente, têm estado a influenciar a atitude e comportamento dos cidadãos residentes, tanto nas zonas urbanas, como das perurbanas.” (viii). Está explícito, os focos de conflito alojam-se na economia “informal” donde dela brotam - do que é ela, enfim, não se discute. Sabe-se que é fruto da liberalização/globalização e daqui concluo ser a conflitualidade social fruto da desestatização da sociedade - correlação indiscutida: economia “informal”=conflitos.

Entre as principais origens dos conflitos (p. 40) estão os factores económico-financeiros (p. 42) no seio dos quais avulta o adultério, que “semeia a instabilidade no seio das famílias e nas relações inter-familiares. … Por exemplo, em Boane, a pratica de adultério é mais comum entre os homens adultos e mulheres cujos maridos se encontram a trabalhar na Africa do Sul. A prolongada ausência destes homens e justificada como estando na origem destas praticas agravadas, em algumas situações, pela insustentável e crescente carestia da vida. (…) Como se pode depreender, a pratica de adultério por parte de certas mulheres deve-se, em parte, a procura de alternativas de sobrevivência face ao elevado índice do custo de vida. (…) Este cenário descreve uma das origens da prostituição infantil, o que acaba se tornando numa base de sustento de algumas famílias vulneráveis.” (46-47). Comentar? O adultério é cometido por mulheres. O adultério é fonte de conflitos por causa das práticas das mulheres. O adultério (numa população onde os homens são [e]migrantes) é causado pela pobreza das mulheres, já ela provocada pela liberalização e globalização. Para quem conhece a concepção popular de “adultério” a sul do Zambeze (sociedades patrilineares, tendencial mas diferentemente patriarcais) como sendo equivalente a “prostituição” (”putaria” nos portugueses locais) fica-se com a sensação de que a análise fica presa às concepções morais populares, assumindo a sua moralidade.

Outros factores de eclosão de violência são os sócio-culturais (p. 50). Entre eles estaria a poliandria “um fenómeno que consiste numa mulher possuir mais do que um marido. Felizmente não e ainda uma prática aberta e publicamente exercida no seio da sociedade moçambicana. (…) No entanto isso não impede que algumas mulheres “forcadas pela carestia de vida” se envolvam na pratica do adultério numa base permanente ou temporária com vários homens, o que e, por sua vez, uma prática condenável”. (51-52) [meu negrito].

A resolução da conflitualidade doméstica, a análise dos mecanismos do pluralismo jurídico e seus valores condutores é fundamental. O assistencialismo enquanto patrocinador e financiador das análises sociológicas não é, por si só, condenável. Mas o laço evangélico, consciente ou inconsciente, não implicará a mera reprodução de santos valores e boas intenções?

Universidade Eduardo Mondlane
Departamento de Arqueologia e AntropologiaSEMINÁRIOS DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIACo-Esposas Desesperadas: A Ilegalidade da Poligamia na Nova Lei da Família
em Moçambique


CARMELIZA DO ROSÁRIO

University of Bergen, Faculty of Social Sciences, Department of Social AnthropologyQuinta-feira, 11/10/07, 10.00 horas
LOCAL: SALA CP 2501
Novo Complexo Pedagógico, Campus Universitário Principal

Os Senhores da Floresta

Um verdadeiro acontecimento editorial. O lançamento em Portugal do trabalho de Eduardo MedeirosOs Senhores da Floresta. Ritos de Iniciacao dos Rapazes Macuas“. Medeiros aqui foi durante longo tempo (praticamente duas décadas) professor cooperante e hoje em dia ensina na Universidade de Évora.

Esta é uma pérola etnografica, e a sua edição, ansiada, acontece na editora Campo de Letras, com apoio do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Deixo ainda a nota do incompreensível atraso da Imprensa Universitária aqui - há cerca de seis anos que tenho fotocópia do “burro” do livro, o cujo nunca veio a ser editado. O autor numa sã e nada vaidosa atitude a querer editar no país da recolha (bem ao contrário de tantos antropólogos “relativistas” e “contestatários” que depois tudo se negam no santificarem hierarquias simbólicas por via dos nomes e pesos das respectivas editoras …) e a editora da universidade perdida em desmandos e atrasos. Há coisas que se torna necessário dizer.

Um abraço a Medeiros. E um alerta aos livreiros: encomendar, encomendar sempre.

E já nem digo da hipótese dos antigos empregadores de Medeiros o trazerem cá para apresentação do livro/trabalho.

Lido ao vento. O meu texto de apresentação do livro de Rafael da Conceição, “Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano. Construções no Mar, em Terra e no Ar …)”, lido hoje ao vento no campus universitário, e assim não ouvido nem pelo autor do livro, fica aqui.

Lied Para Yonnis-Fred e Maelle, de Rafael da Conceição

Lied Para Yonnis-Fred e Maelle (Paternidade, Morte e Quotidiano, Construções no Mar, em Terra e no Ar…)”, novo livro de Rafael da Conceição, um texto sobre (antropologia d)a morte. Será lançado na próxima terça-feira, 18 de Setembro, pelas 10 horas da manhã. Na Universidade Eduardo Mondlane, campus universitário, anfiteatro 2501 do novo Complexo Pedagógico.

O livro será apresentado por Carlos Serra e por José Teixeira. E esta entrada serve também para vos convidar à comparência no momento.

Dois textos fora de blogs.

“O Preço da Sombra”

A antropóloga portuguesa Ana Benard da Costa veio a Moçambique apresentar o livro “O Preço da Sombra. Sobrevivência e Reprodução Social Entre Famílias de Maputo“, proveniente do seu trabalho de doutoramento em Estudos Africanos, apresentado em Lisboa - já agora aproveito para saudar o inusitado da atitude, a maioria dos investigadores estrangeiros acaba por nunca vir apresentar in loco o fruto sistematizado e completo do seu trabalho.

A apresentação do livro acontecerá na próxima quarta-feira, dia 29 de Agosto de 2007. Às 18.00 horas, no Instituto Camões - Centro Cultural Português (na Av. Julius Nyerere, 720). A autora falará do seu trabalho e também da questão da reprodução e dissolução de valores familiares. O livro será apresentado por mim (a Ana é minha amiga e honra-me deste modo. Eu, corado, farei o melhor que puder).

[Agradecendo o eco]

livros

Palmira F. da Silva, do De Rerum Natura, José Carlos Matias, no O Sínico e o FNV do grão-blog Mar Salgado desafiam para que aqui bote das minhas últimas leituras. Como leio vários livros ao mesmo tempo não sei bem a ordem das conclusões (e abandonos). Mas aqui vai(ão) resposta(s), com agradecimentos pela curiosidade. E como foram várias os desafios junto às respostas requeridas a lista das prendas e compras de primeiro dia em Lisboa:

Narrativas, Crónicas, Memórias:

1. Niassa (Francisco Camacho): um “southern” inofensivo, até aprazível se em zapping;
2. O Aprendiz (Miguel César): as memórias de um moçambicano de ascendência portuguesa, com ênfase na adesão pós-independência. Imenso interesse pelo empenho emocional, mas nulo em (auto)análise - o que só lhe incrementa o interesse (releitura);
3. O Fio das Missangas (Mia Couto): tenho imensas dificuldades na leitura do autor, o que muito vai para além do respeito, simpatia e admiração pela pessoa, e pela sua coragem moral (e até física). Daí o ter-me atrasado na leitura deste pequeno livro, obra formalmente menor. Mas que é uma surpresa - muito contrariamente à imagem que tantos têm de Mia esta colecção de pequeníssimos contos é pura provocação, suaves como o exigem as provocações eficientes. A ler e a recomendar.
4. Aventuras de um Nabogador (Onésimo Teotónio Almeida) - o habitual gosto de vida do autor, agora com um toque pícaro (para mim) surpreendente; sou fã (ou fan?).
5. Avenida Paulista (João Pereira Coutinho): cronista célebre em Portugal após a minha saída, e dado que não leio os jornais da terra desperta-me curiosidade. Há tempos tinha aqui comprado o “Vida Independente”, que me deixou francamente desiludido, incompreendendo do seu sucesso - ou antevendo que já estou eu demasiado longe para aderir. Este conjunto de textos é bem mais interessante, talvez porque “para fora”. Mas o tom é algo recorrente, parece-me que as gerações anteriores tiveram maiores idiossincracias.

Narrativas com rodapés:

1. Comunidades Imaginadas (B. Anderson) - relendo um já clássico sobre nacionalismos;
2. A Diferença (Michel Wieviorka) - outra releitura profissional (e também para aferir as tralhas sobre os multiculturalismos, que servem para tantas blogosuperficialidades);
3. Marxist Modern. An Ethnographic History of the Ethiopian Revolution (D.L. Donham) - uma fabulosa (e invejável) história etnográfica da “revolução” etíope. Imperdível.
4. A Persistência da Raça (Peter Fry) - Fry é interessantíssimo a falar das comparações entre os colonialismos inglês e português, muito para além das tropelias intelectuais marxistas dos 60s em diante. E é crucial no anti-correctismo em linguagem antropológica. Mas acima de tudo neste livro tem um artigo que me é fetiche - cristalino ali o paradoxo do antropólogo opinativo. Obrigatório ler, para nunca repetir.
5. Junod e as Sociedades Africanas. Impacto dos Missionários Suíços na África Austral (Patrick Harries) - um livro competentissimo, sobre o ambiente de formação científica na Suíça oitocentista, sobre o caldo moral e científico que construíu a antropologia tardo-oitocentista. E sobre a obra espantosa deste “pai fundador” da Antropologia e seus fantásticos trabalhos etnográficos nos actuais Moçambique e África do Sul.

Prendas recebidas à chegada:

1. Ana Martins, O Nono Brasão - livro publicado pela filha (14 anos) de uns queridissimos amigos (dela seria “tio” se nós fossemos pirosos arrivistas). A partilhar o orgulho pela cria que medrou;
2. Lewis Wolpert, The Unnatural Nature of Science
3. Rogério Ribeiro, Desenho
4. Mark Twain, Contos Satíricos
5. Carlos Gil, Xicuembo

Compras de primeiro dia:

a. narrativas:

Fiódor Dostoiévski, Gente Pobre
Fiódor Dostoiévski, A Submissa e Outras Histórias
Samuel Butler, Erewhon
Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra dos Porcos
Eduardo Pitta, Cidade Proibida
Luís Carmelo, Máscaras de Amsterdão
Luigi Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil
Tolstoi, Anna Karénina

b. narrativas com rodapés:

Emmanuel Levinas, Da Evasão
Rui Bebiano, O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60
José Policarpo, Cardeal Cerejeira (fabuloso)
Luís Carmelo, Anjos e Meteoros. Ensaios Sobre a Instantaneidade
Pascal Bruckner, A Euforia Perpétua. Ensaio Sobre o Dever da Felicidade
Michel Foucault, É Preciso Defender a Sociedade
S. M. Eisenstadt, Múltiplas Modernidades
Amartya Sen, Identidade e Violência

Nota: como estes desafios já foram de algum tempo não os vou reproduzir, pode ser que já estejam fora-de-moda. Mas se algum dos leitores habituais do ma-schamba quiser assumi-los será um prazer - sejam bloguistas activos (de blog próprio montado) ou passivos (então deixem aí nos comentários, eu subi-los-ei a texto).