Stassen

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Riqueza de ser alvo de empréstimos, conheço este Deogratias de Jean-Philippe Stassen. Belíssimo na forma. Rude no desenho da gente. O caso do Ruanda.

Do argumento oscilo entre o apreço pelo canino das personagens, o monstro que nelas habita, e o desagrado pelos laivos de “remorso de homem branco”. Este a aparecer no confronto com o missionário afinal nada casto, assim na sua hipocrisia feito corruptor. Mas também no militar, lúbrico desrespeitador. E feito guia do genocídio. Surpresa pelo papel desta denúncia dos europeus na economia ficcional, dedicada ao período do genocídio, o must do morticínio mundial.

Ou seja, uma ânsia anti-europeia, imputando responsabilidade pela decadência humana e pelo próprio genocídio aos (pós)colonos - neste caso “record” de intensidade sanguinária o autor afirma que “só os brancos perguntam essas coisas” (grupo étnico de pertença), coloca a protagonista prostituta como originalmente vitimizada por outro europeu, os padres fornicadores das jovens raparigas (deixando entrever uma idade maior para as relações sexuais no seio da população circundante), e finalmente coloca os grupos activos na matança sob as ordens de um francês.

Para além de um olhar autocentrado (etnocêntrico: interessa-lhe acima de tudo como é que “os seus” se comportam alhures, e como se afastam das “boas normas” recomendáveis) o que o livro afirma (distraidamente) são dois argumentos fundamentais: a perenidade (necessidade?) do papel líder do europeu; a inferioridade da capacidade malévola do ruandês (africano). Assim cristalizando o racismo, afirmando a a superioridade branca: “povo” (raça, pois no fundo é disso que se fala) mais líder, mais corruptor, mais mau. Mais homem, não é assim?

Ou seja, um belo livro mas com as armadilhas da demagogia bem intencionada. Claro que, assim mainstream da mentalidade “bem pensante” europeia, ganhou o Prémio Goscinny. Decerto que não apenas pelo belo desenho. Mas pela sua conformidade com o dominante racismo de esquerda na bela Europa.

Ainda assim, o melhor é semicerrar a mente e ler. É bonito.

Tronchet

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[Didier Tronchet, Anne Sibran, Lá, em África…, Edições Asa, 2006]

Baseado no romance autobiográfico que Anne Sibran - aqui argumentista - Bleu Figuier dedicou ao próprio pai.

É talvez a sensação de ser já um pied-noir (ou, melhor dizendo, um pós-pied-noir), é talvez por constantemente ouvir o letal “já lá não te adaptarás” que tão tocante me é a história da decadência deste senhor Mercadal, pobre homem no fluxo, feito mera e inútil sobrevivência,

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a quem a História retirou da sua Argel encerrando-o num sítio Paris onde nada mais é do que uma minudência desadaptada, ridícula e ridicularizada. E da óbvia dor, carinhosa, com que a filha o assim vai descobrindo.

Hugo Pratt e James Eduardo de Cook e Alvega

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As coisas que se aprendem (em casa). Numa já velha revista Selecções BD (Maio 200, nº 19, 2ª série) descubro que, afinal, Hugo Pratt foi um dos que desenhou o Major Alvega, um episódio “O Ouro Precioso” [Battler Britton and the Wagons of Gold] até publicado em Portugal, no saudoso Falcão (nº 417).

Eis a fantástica junção de ícones: o valente ribatejano Major James Eduardo de Cook e Alvega (vergonhosamente conhecido na pérfida Albion por Battler Britton) por Hugo Pratt.

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Jacob Zuma

Aqui ao lado, “lá em cima” como se costuma dizer, é a era de Zuma que chega. Amigos meus, gente boa e culta, dizem-me e repetem-me, à mesa, com bonomia, do seu “zumismo”. Gente, boa e culta, que continua a crer numa cartografia sacra, numa iconologia topológica - Zuma “é de esquerda”, afiançam-me(se) e nisso potenciam esperanças, e até nem tão parcas estas.

Para esses meus caros amigos “zumistas” com os quais, ao longo dos anos, tantos elogios cruzei ao grande Zapiro, insuspeito de costela direitista ou de revanchismo malaniano - julgo eu, que se calhar agora feito herege cartográfico -, aqui deixo os seus dois últimos cartoons. Sobre o ANC de hoje, sobre a África do Sul que aí vem. Mas mais do que tudo, sobre isso “da esquerda” …

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Zimbabué

Em vésperas de “eleições” - as quais a SADC se prepara, com toda a certeza, para considerar “free and fair” ainda que com alguns problemas, assim actualizando o conceito “as nossas limitações” - e enquanto Tsvangirai se refugia numa embaixada Mugabe ordena a prisão do espelho mágico.

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[pressionar a imagem para a aumentar]

Uma imagem vale mil palavras? Não, mas diante do patético silêncio cúmplice dos poderes vizinhos - até de Mandela, até de Mandela … - assume contornos cruciais a contestação sul-africana ao desvario ditatorial mugabiano: a da intelligentsia local (onde os cartonistas têm sido um monumento de crítica política e social); a do lumpen local, com a recente jaquerie pró-nazi a elucidar sobre o gigantesco magma à disposição do mais vil populismo. Esse que está a chegar …

Adenda: no ma-blog estão a abundar as entradas (opinativas e/ou noticiosas) sobre o desenrolar da situação zimbabueana.

Dia histórico

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 Asterix, Asterix e Cleopatra por René Goscinny e Albert Uderzo.

Pois dia da introdução. Antes de dormir as primeiras páginas, a primeira leitura de Asterix. Este. - Depois, quando eu saio do quarto fica a adormecer com um outro livro, de princesas. De outras princesas, não da Cleopatra.

Mugabe

nos ícones do Mail & Guardian: Zapiro e Madam & Eve (pressionar as imagens para as aumentar).

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Mourir, Partir, Revenir. Le Jeu des Hirondelles

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Fim-de-semana iluminado por mais algo vindo da Flandres. De Zeina Abirached, “Mourir, Partir, Revenir. Le Jeu des Hirondelles” (Éditions Cambourakis, 2007). Uma noite “em família”, magnífica recriação do Beirute da década de 80, o (auto)concentracionário da guerra civil. Formas e ritmo angustiantes. Livro que exige ser lido …

Riyad-sur-Seine

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De Frederik Peeters e Pierre Dragon, Riyad-sur-Seine (Gallimard, 2007). Excelente policial, anunciado como o primeiro de uma trilogia sob a personagem de Pierre Dragon (homónimo do pseudónimo co-autoral). Que bela prenda que me chegou lá da Flandres.

Uma prenda para Ana Sá Lopes

jornalista por ora em Maputo.

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[Stephen Francis & Rico, Madam & Eve, Bring me my (new) Washing Machine, Johannesburg, rapid phase, 2007]

Adenda: complementar com esta notícia (via Índex)

O último soldado da I G.M.

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Naturalmente a televisão francesa atribuíu um grande destaque à morte de Lazare Ponticelli, o último combatente da I Guerra Mundial [a Grande Guerra, como se dizia em Portugal]. Para além do espanto da resistência - um veterano das trincheiras a chegar aos 110 anos (e a CFI passou emitiu ainda trechos de entrevistas realizadas nos últimos cinco anos com vários veteranos) - este recordar da Guerra de 14 lembrou-me o livro Kináni (Quem Vive?), de Cardoso Mirão, um espantoso relato da I Guerra em Moçambique, merecedor de leitura (já agora, Cardoso Mirão que aqui combateu essa guerra é tio-avô do Miguel Silva).

A homenagem nacional que agora em França foi realizada ao supra-veterano Ponticelli, e através dele a todos os combatentes da I Guerra Mundial - das mais irracionais existentes -, fez-me ainda lembrar uma velha entrada aqui, de Fevereiro de 2005, dedicada a um facto social total: O cemitério militar de Pemba.

Mas, honestamente, a minha reacção à notícia do final do contingente de 1914-18 foi ir ler o Tardi. Nada melhor para evocar a carnificina.

 

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“as coisas estão a mudar …” (?) (!)

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Hergé retoma pela terceira vez a aventura americana para a edição publicada em 1973. O texto será comprimido para evitar os cortes de palavras no fim das linhas. Mas, sobretudo, fez uma importante concessão aos editores americanos: em três quadradinhos retira os negros que entram na história. Com efeito, os americanos opunham-se ao facto de negros e brancos figurarem lado a lado numa história destinada a um público jovem.

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Na prancha 1, o bandido negro, à direita do grupo ao qual Al Capone se dirige, é substituído por um malfeitor de origem porto-riquenha. O porteiro da Petroleum & Cactus Bank na prancha 29 passou a ser branco. O mesmo tratamento foi aplicado ao bebé que chora e à mãe deste, na prancha 47.”

(Michael Farr, Tintim. O Sonho e a Realidade, Lisboa, Difusão Verbo, 2005, p. 38)

Falso post-scriptum: antes que algum desses “semiólogos” fascistas de extracção marxista por aqui passe e erga a habitual catana: “Mas nas três versões (…) Hergé persiste na condenação do linchamento e do habitual racismo das pequenas cidades americanas“. (idem)

Já agora, sobre os pobres tontos que aderem a Obama porque ele é “negro” - triste impensamento - já a “Ana” pôs o ponto final parágrafo adequado.

Brand New Madam & Eve

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Bring me my (new) Washing Machine! Inútil ir a Neilspruit?

Prever (e até planear) o futuro é um desejo de quase todos, metafísicos, filósofos ou cientistas (a acreditar nesta tripartição). Desejo que de tão inalcançado se vai traduzindo em impossibilidade.Prova que é possível antever e que se o pode fazer de modo acurado e belissimo é este livro: Bilal e Christin em 1983, a perceberem que tudo ia mudar.

(entrada colocada em Maio de 2004)

(Quase) Uma semana de Pretória.

1. Das medicinas privada e pública. Na privada (sul-africana) douta opinião do tira-tudo, acompanhada da lista de honorários - nem grande coisa diga-se. Na pública (santa terrinha) douta (e fraterna) opinão do espera-e-não-tira, sem honorários claro. Os óbvios malefícios do Serviço Nacional de Saúde. [O casal paterno, talvez porque óbvio socialista, tira nada.]

2. A Exclusive Books [entenda-se, a hiper-FNAC lá do sítio] de Neilspruit é melhor do que a Brooklyn Mall (Pretoria) e quase do que a de Sandton (JHB).


Onde vive a “elite” de lá, afinal em Trás-os-Montes?

3. Decadência sul-africana.

Não há novo livro de Madam & Eve.

4. Qualquer coisa sul-africana.

Cheira a Zuma.

5. Maputo (no regresso, mas antes também). No BB (belo blog) Solvstag cita-se Miguel Esteves Cardoso. Ler e comprovar que no Shamwari (ao talho Polana) se serve a melhor cerveja de pressão (aka “imperial”) da cidade.

6.
Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). O meu ex-Presidente (e por isso sempre respeitado) Pedro Santana Lopes muito bem, baldando-se por ter sido trocado pelas malas da família Mourinho. E a minha surpresa com alguma da muito minha gente a não perceber, tamanha lhe é a clubite rosa, de que se trata mesmo da “a infantilização assassina que nos assola como uma praga …”, diga-se neste caso a futebolização.

7. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Por falar em bola, eis o sossego da sociedade civil, a “auto-estima” lusa, a exigir outro Trapattoni “campeão”. O apito rubro? Sócrates (o inventor dos dez estádios do Europeu, então o arauto da sociedade [da construção] civil]) agradecerá.

8. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Mentira pura nas palavras de Ruben A. Há imensa gente que atende o telefone. Portanto, pois

9. Maputo. E então, muito caro leitor frequente, deseja algum comentário face à polémica relativa às afirmações do arcebispo de Maputo sobre o Sida e suas origens? Menezes, meu caro leitor, Menezes …

[ainda que … em estando gravado se poderá dizer “nada de novo sob este céu” - os brancos de tudo têm culpa (sua condição semi-divina, dir-se-ia); e o preservativo como a arma do deboche não-marital. É o pacote habitual, amancebando-se (não sacramentalmente, já agora) com as ideias populares, de que é na camisinha que mora a doença e que são os brancos que a trouxeram para ficarem com estas belas terras. Contudo a Terra move-se, ainda que a Igreja Católica se atrase.]

10. E falando de coisas bem importantes. “Old age”, diz-me o mecânico, meneando a cabeça até pesaroso, face às múltiplas mazelas do meu

Musso. O nosso fim avizinha-se? Que será de mim?