Julho 3rd, 2008 — Anésia Manjate, Arte Moçambique, Gemuce, Jorge Dias, Marcos Muthewuye, Tembo

Catálogo, portanto memória, da colectiva “Lisboa-Maputo-Luanda“, acontecida em Lisboa em 2007, na Cordoaria Nacional, associando trabalhos de artistas angolanos, moçambicanos e portugueses. No caso dos artistas moçambicanos demonstrando até algumas peças entretanto tornadas emblemáticas - o meu particular apreço pelo “Conselho de Anciões“, de Anésia Manjate, bela peça com conteúdo muito polémico, e cuja contraposição com a “Máscara” de Marcos Muthewuye é aqui particularmente feliz, indiciando as tensões existentes na leitura artística do actual..
Mas para além da memória (invejosa) de uma exposição o catálogo mantém-se particularmente interessante pelo que dele se recolhe nos textos enquadradores. A justificarem uma reflexão (provavelmente já realizada) sobre as concepções ali representadas e até sobre os efeitos - potenciadores e constrangedores - da integração dos artistas (das várias nacionalidades e contextos) neste circuito internacional. Mais ainda, as próprias contradições entre os textos denotam as contradições existentes entre os agentes que actuam (controlam?) a recepção artística em alguns cenários internacionais e, assim, algo influenciam a produção.
Um esclarecedor texto de João Lima Pinharanda, “Cabo Não“, reflectindo sobre a história dos ambientes sociopolíticos de produção artística na África aqui representada, traçando uma breve geneologia analítica da emergência de uma autonomia artística. E, lateralmente, deixando algo que parece óbvio mas que é constantemente posto em causa, por consumidores e por oradores: “Nenhum nacionalismo cultural pode estabelecer como objectivo a recuperação de qualquer pureza ou genuinidade original (quer dizer, pré-colonial).” Uma “Evocação de Luanda“, de Alberto Oliveira Pinto, realçando a plasticidade e entrecruzamento das topografias e das simbologias (da topografia simbólica, melhor dizendo), deixando intuir como são (ou podem ser) constantementes reapropriadas (reconstruídas) no discurso artístico.
E ainda dois outros textos, em aparente contraposição. Um interessante “A Geografia do Encontro ou o Re.Desenho do Mundo: Curiosidade, Mercância e Fé“, de José Monterroso Teixeira, que busca recentrar o olhar sobre as artes plásticas internacionais na continuidade do olhar português sobre o mundo, nascido da expansão. E isso assente na recuperação da dicotomia entre o olhar épico de Camões e o olhar negocial (efabulatório, também) de Fernão Mendes Pinto - por outras palavras, a dicotomia entre a “expansão” e o “encontro”. Sendo (devendo ser) o olhar de hoje devedor da verve de Mendes Pinto. Se este debate português é já algo antigo torna-se interessante vê-lo explícito no palco da recepção artística actual, e enquanto proposta de sustentção de um pólo central. [E, num outro plano, é sempre interessante perceber como a reflexão ideológica portuguesa se centra na influência do seu Renascimento, apagando séculos de experiência histórica posterior, dos seus feitos e dos efeitos que os feitos tiveram nas concepções da alteridade. No fundo, uma exigência de depurarmos a memória].
Mas mais importante ainda - até porque os conteúdos específicos da reflexão intelectual portuguesa sobre a sua história (e “identidade”) não serão particularmente importantes para a actividade artística que nos é estrangeira -, pois demonstrando dimensões fundamentais na gestão das interacções artísticas internacionais, é o texto introdutório do próprio comissário da exposição Victor Pinto da Fonseca. Deixa uma declaração de princípios, que parece pacífica, amável até: “… porque só a arte parece ter o poder de inscrever ligações entre países, como verdadeiras pontes.”*
Entenda-se, não estranho apenas a sua difícil (possível?) fundamentação empírica:
1. afirma uma irredutibilidade “negocial” entre os contextos nacionais, que parece exagerada;
2. afirma uma característica (ontológica) “conversacional” à arte que exige conceptualização fundamentadora, bem como a do deficit das outras actividades neste âmbito.
Mas muito mais do que isso aqui se explicita uma secundarização da arte. E a vontade, a actividade, da sua instrumentalização. Uma arte ao serviço da tal “ligação entre os países”, uma sua politização não no sentido do capital de questionamento que encerra, sim nos efeitos apaziguadores que proporciona.
Enfim, arte pela arte não, sim arte para o diálogo. Um diálogo que se quer apresentar sem ruídos, por via de uma descontextualização radical. Porque sendo “O enfoque do transnacional é o novo paradigma na arte contemporânea, substituindo o pós-moderno.”, o argumento surge como o da sua desterritorialização. Melhor dizendo, associalização: “A exposição não reinvindica um contexto socio-político, antes, convida o espectador a pensar na singularidade de vida de cada artista presente …”. O indivíduo (artista), local e global, em trânsito comunicacional. “Toca algum sino”?
*[Citar trechos de textos é quase sempre deturpá-los à vontade do citador. Infelizmente não os encontrei disponibilizados na internet, para os ligar, permitindo uma leitura nunca truncada. De resto, sobre os textos de que me afasto: a exposição transposta no livro é óptima, donde o comissário fez um bom trabalho, muito para além das frases que aqui pico e pilho. E o texto de J.M. Teixeira é muito interessante e fundamentado, um prazer de leitura.]
Enfiim, não será fundamental discutir os artefactos intelectuais de uma exposição já acontecida há um ano. Mas é interessante visitar o conjunto das obras e atentar nestes caminhos. Enquanto se espera pelos próximos.

[Anésia Manjate, “Conselho de Anciões”, 2005; Cerâmica e Corda de Sisal]

[Gemuce, “Deixa-Andar”, 2005; Esculturas, chapas de zinco, video]

[Jorge Dias, “Neocasulo”, 2005; Camisete, arame, tecidos]

[Marcos Muthewuye, “Máscara”, 2000; Metal]

[Tembo Dança, “sem título”, 2006; Arame farpado, madeira, tecido, plásticos, rede metálica, papel]
Julho 2nd, 2008 — Arte Moçambique, Sónia Sultuane

Poetisa publicada e artista plástica Sónia Sultuane apresenta a sua primeira individual, agora no “Camões”, dentro de algum tempo no “Camões” da Beira: “Palavras que andam“, um desenvolvimento de uma instalação que apresentou na recente oficina “Muyehlekete“, ocorrida em Abril no Museu Nacional de Arte.
Ora foi exactamente nessa oficina que a artista apresentou o seu trabalho plástico que mais me interessou: a instalação “Más-línguas“, uma série fotográfica sobre seu texto realizada conjuntamente com Mónica Miranda, onde com arreganho pontapeou a imagem hiper-lírica que a acompanha, construída sobre a sua poesia e a interacção que vem realizando desta com as expressões visuais. Foi um momento cujo vigor e radical auto-questionamento excitou a curiosidade para esta sua primeira aventura a solo.
O risco é louvável e o resultado colheu agrado geral. Mais, dizem-me que agita as consciências do meio local. Fá-lo-á com certeza até porque uma individual do género é ainda aqui raridade, mais ainda quando de alguém que não é consagrado - no caso até sendo uma “amadora” (no elevado sentido da palavra).
Ou incompreendo ou Sónia Sultuane propõe-nos uma adesão ao conjunto, uma conjugação que apela a uma fruição estética explicitamente intelectual. Bem para além da consideração peça-a-peça - esse um registo no qual uma obra como

[”Sou Poesia“, 2007, fotografias]
dificilmente sobreviveria. Pois se aparenta um jogo, até irónico, uma auto-”pin-upização” da poetisa plástica, essa aventura com múltiplos sentidos não surge nos passos seguintes da exposição, assim desiludindo as intenções analíticas, desnudando-se superficial.
Para mais - e a artista é inocente dessa intenção - a sua apresentação (por Calane da Silva, com concordância geral) invocou-lhe, como se antepassadas, outras figuras femininas do meio artístico moçambicano de meados de XX, desde então tutelares e entretanto ideologicamente apreendidas no processo de construção identitária nacional. O que, se não implica uma comparação valorativa imediata, incorre na valorização (na proposta para o a posteriori) do pacote de ideário veículado pelo meio artístico a que Sónia Sultuane vem pertencendo, e o qual me parece sumarizado nesta individual.
É neste registo que o resultado me é desconfortável, não só pelos trabalhos apresentados mas também pelas leituras alheias que adivinho em formação. Pois o conjunto sublinha questões que algumas das iniciativas da arte actual local me vêm suscitando.
A exposição tem o cunho da encomenda - é um desafio ao abrigo do “Ano do Multiculturalismo” (Ano Europeu do Diálogo Intercultural), algo porventura potenciado pela aparente tutela de um curador português, Pedro Campos. É legítima a opção da artista de não se interrogar sobre o que se lhe propõe como temática - encarando-a talvez como um mero “guarda-chuva”. Mas isso implica que o produto final não se esgota na visão pessoal do artista, de um momento da sua experiência (auto-)biográfica (se é que isso é alguma vez possível).
Assim, e para além da artista, encontro aqui a apologia plástica da ideologia actual, lisa de básica (”flat“) do multiculturalismo - ainda para mais institucionalmente induzida (em evidente djanovismo aprés la lettre, ainda que adocicado pelo pacifismo das “boas intenções” nem revolucionárias nem sanguinárias dos neo-djanovs). E questiono-me quanto ao sentido da aparente irreverência estética dos novos passos da arte moçambicana e, claro, dos de Sónia Sultuane.

[”Walking Words“, 2008; Ferro, Arame, Letras em Pasta de Papel]
“Palavras que andam” e que portanto dialogam, “palavras andantes” que multissignificam e pacificamente se traduzem, intercomunicam, matéria-prima da comunhão, ainda para mais no “inglês universal”? Será esse o teor da(s) instalação(ões) dominante(s)? - já agora, surpreendentemente modificadas por acção do pessoal técnico do instituição acolhedora, pequeno episódio que não traduz apenas alguma insensibilidade de quem o comete. Pois afirma as relações de poder institucional sobre o artista. E que este incompreende, ao pensar-se vítima particular e/ou atribuindo o facto a in-competência/des-conhecimento alheio, uma individualização, uma “pessoalização”, que assim atomiza o estruturante.
Perdendo assim o artista a visão do que é, afinal, item condicionante da sua actividade, tanto no que lhe baliza as temáticas como no que lhe secundariza as iniciativas. Tanto na acção dos especialistas (as críticas, as encomendas, as “curadorias”) como dos não-especialistas (a alimentação dos egos, os apoios mecenáticos, as “asneiras”). Porventura o incidente, aparente minudência, “natural” para quem anda (ou andou) nisto das exposições [em tempos eu terei feito asneiras similares, friso, não estou numa deriva “denuncionista”], pôs a nu as armadilhas do projecto ideológico a que Sultuane foi aderida.
Ou seja “Palavras que andam” são, afinal, ”palavras que se mudam”, na sua des-autorização?
[Sei que a referência aos factos “privados”, não publicitados, surge sempre como deselegante, inapropriada, até antipática. Mas estou certo de que é a compreensão “etnográfica” dos eventos, artísticos neste caso, extensiva e intensiva, que permite a sua real elucidação. E que é exactamente por isso que o silêncio sobre eles é exigido pelas “normas de conduta”, “de boa-educação”. E que o seu ocasional expressar é intelectualmente desvalorizado pela sua redução a ”má-língua”.]
Em suma, nesta ”Palavras que andam” encontro afirmada a naturalidade da pacificidade dialogante. E logo me lembro, em paráfrase, da célebre frase: “com as palavras nos entendemos, com as palavras nos desentendemos“.* Assim significando que andar com palavras é uma coisa, comunhão é bem outra, e que esta é alimentada até mais pelo silêncio. Esse silêncio que o aparente palavrear produz. E esconde.
[”Mandala poética“, 2008, Prato de cerâmica, tinta acrílica, marcador permanente]
[”Misbaha/Tashib” (Terço), 2008, Esferovite, Tinta metálica de água, fio de nylon]
É neste registo que a proposta de conjugação de abordagens religiosas, sua mera justaposição, - esteticamente apetitosa, em particular o “Terço” -, a confluência das obras acima reproduzidas, me é antipática. Não por negar a óbvia autonomia da artista em reflectir-se e ao seu processo de constituição espiritual. E também não por a reduzir a uma importação do “new age” “lá de fora”. Mas porque a entendo como uma visão acrítica da compita religiosa - nos contextos pessoais, não me estou a referir aos “conflitos geoestratégicos” que nos enchem ecrãs e jornais. Uma confluência de linhas religiosas que será, na actualidade, o grande fenómeno ideal, o grande conflito pessoal, do real circundante, nacional - o grande palco da questão “multicultural”. A qual é dirimida em termos muito próprios, em que as espiritualidades (e seus espíritos) tanto confluem como conflituam em cada um dos crentes.. E que nesta placidez, de legitimação aparentemente autobiográfica mas também de cariz ideológico, se apaga.
Entenda-se, não exijo da artista (ou de qualquer outro) que reflicta sobre o “social”, contemporâneo ou passado ou futuro, que saia do seu “eu” real ou onírico. Mas se a(s) artista(s) me diz(em) que é sobre esse “nós” que reflecte(m), que procura(m) ilustrar mesmo que por indução …

[”Cocktail dos Sangues“, 2008, Taça de vidro, espuma, arame, pano, esponja, meia de seda]
Corolário de tudo isso é esta peça, “Cocktail dos Sangues”, deixada como símbolo da multiculturalidade moçambicana. Não posso, olhando-a, deixar de reconhecer a presença de itens de um capital cultural muito específico, e de sorrir à sua reinvenção. É um “kitsch” proposto, um transporte, uma invasão da loja de decoração étnico-pequeno-burguesa, aqui prenhe de uma outra intenção. Mas qual intenção?
A de dirimir a conjugação das diferenças através da constante e malfadada metáfora do “sangue”, a raça, sem mesmo a questionar. E a de afirmar a bondade da sua mistura, uma “mulatice” ideológica que é tão perniciosa ao entendimento (que não às “boas intenções”) como o é a defesa da “pureza” “sanguínea/rácica”: o “somos todos crioulos” que pode parecer muito bem mas que trabalha com categorias que não o são (”raças”), com metáforas infecundas (”sangue”) e se presta à tresleitura acrítica (a “mistura” enquanto tal).
Mais do que isso a afirmação do “cocktail de sangues” moçambicano, como se este um específico positivo, implica um desvio ao real empírico: que sociedade nacional não é hoje um “cocktail de sangues”? Mas que “sangues”, que grupos, se misturam (ou batem) no shaker histórico? Num país com a multiplicidade religiosa, social, linguística como o é Moçambique, foco das migrações históricas como o foi e é, claro que houve “cocktail de sangues”. Mas não são esses os sangues que aqui são decorados com fita amarela. Mais uma vez estamos na mera importação da ideologia actual, o que ali se refere - e foi verbalmente explícito na apresentação - é a mistura do “sangue” local (esse não cocktailizado, afinal) com os transoceânicos.
E é essa homogeneização do “africano”, constante nas formas de construção nacional, “patriocêntrica”, e também constante na construções transnacionais actuais, ditas do “multiculturalismo”, que esta ária do “cocktail de sangues” nos traz. E mais, esquecendo, ou melhor capeando, o facto crucial, de que se há especificidade em Moçambique é o facto de que o cocktail dos sangues - esses assim identificados - ser tão reduzido. Que há tão mais aguardente e cerveja. A beber em copos largos. Tão largos como os muros entre-”sangues”.
Na sua energia entusiasmada, na sua beleza, na sua extrema sensibilidade, na sua irredutibilidade lírica, Sónia Sultuane sumariza, simboliza e até extrema algumas das características dos movimentos inovadores na arte plástica moçambicana. É nisso apetecível. Mas também armadilhável. Apreensível. Aliás, apreendida. Como os seus colegas. A ver vamos. Se não se deixam apreender. Pelos ideólogos. E por nós, deles empregados em full ou part-time.
*”em português nos entendemos, em português nos desentendemos”.
Março 28th, 2008 — Arte Moçambique, Malangatana
Março 18th, 2008 — Arte Moçambique, Bento Mukezwane, Eugénio Lemos
Ontem inaugurada a Casa-Museu Eugénio Lemos, sita ali à Machava na actual residência da sua família. Nela fica exposto o acervo de obras do artista que está em posse familiar. Ainda por definir, mas esperando-se que tal será para breve, está o sistema de acesso, calendário e horário, bem como a programação da casa-museu e seu conjunto de actividades.

Aqui nascido em 1930 Eugénio Lemos brotou enquanto artista na segunda metade da década de 50, no seio de uma geração artística local (a primeira aqui gerada) formada no Núcleo de Arte, bem se articulando nas modificações sociológicas, estéticas e até políticas ocorridas no Núcleo na viragem da década, e que impregnaram algumas secções da sua geração (bem como a seu irmão Virgílio de Lemos). Posteriormente este discreto artista (dizem-mo assim) veio a ser director do Museu Nacional de Arte entre 1983 e 1989. Sobre a sua biografia poderá ser lido o texto “Eugénio de Lemos. A Geometria de uma Vida entre Cores e Formas“, da autoria de Jorge Dias e Alda Costa, que está incluído no catálogo da nova Casa-Museu - e que poderia estar disponível, é também para isso que existem blogs: especializados ou não.

Sobre o artista aqui transcrevo parte do texto “Transparência Eugeniana“, escrito em 1996, por ocasião de uma homenagem póstuma realizada no Centro de Estudos Brasileiros:
“De pequeno achei-o grande tal que em grande era gigante, e fomos crescendo nesta ordem de ideias.
Mais tarde me custava dizer Mestre ao Eugénio, porque tanta avidez de aprender conhecera eu em escassos viventes, e fogosamente aclamado pela sensatez constantemente sublinhava: “Ensina-me novas técnicas”. Lembro-me que eu era um investimento também dele, afirmava como sendo importante diferença entre o mestrado e o autodidacta. (…) Não disputava lugares de primeiro abstracto, achava estéril este levantamento. (…) Numa das ocasiões diversas em que havia algo por decidir Eugénio já me dizia: Bento, é melhor pintares. Não era não, para forjar em mim vontades supérfluas no futuro e terminar idolatrando-o. Era um ser amigo! (…)” (Bento Carlos Mukeswane)
Março 6th, 2008 — Adelino Timóteo, Arte Moçambique, Literatura Moçambique, Malangatana

Desenhos de Prisão, de Malangatana exposta na Beira, no Centro Cultural Português, avisa o Beira-Amar.
E lançamento do livro Mulungu, de Adelino Timóteo, presumo que hoje. Para quando em Maputo (ou escapou-se-me?).
Adenda: dizem-se ser a primeira vez que Malangatana expõe individualmente na Beira. Incrível demora. Urge, então, o Norte.
Dezembro 13th, 2007 — Anésia Manjate, Arte Moçambique, Fotografia Moçambique, Gemuce, Rui Assubuji
(excerto de “3 Tempos” de Gemuce)
(excerto de “Intolerance“, de Abdoulaye Konaté)
(excerto de “Cuba Livre“, de N’dilo Mutima)
Malhas que a “cooperação” tece … Uma pequena caixa intitulada “Art Invisible”, contendo três volumes cada um dos quais dedicados a um país: Moçambique, Angola e Mali. Uma edição da ARCO 2006 (Feira Internacional de Arte Contemporânea) procurando divulgar artistas inovadores destes países, gente incluída no movimento artístico contemporâneo africano. O critério das opções nacionais é político-diplomático, o patrocínio é assumidamente destinado a países com os quais Espanha tem “estreitas relações de cooperação”. Refiro este ponto para sublinhar que não será fácil encontrar alguma coerência no projecto, trata-se da justaposição de autores artistas africanos que procuram a expressão contemporânea, essa talvez etnia cronológica ou atitudinal. Não obsta isso a que os pequenos objectos em questão seja muito interessantes. O pequeno volume dedicado a Moçambique contém um texto de Jorge Dias (ideólogo-mor do Movimento de Arte Contemporânea local) e uma representação de artistas que se vêm salientando. Neste particular campo parece-me que a referência mais feliz se centra nas iniciativas de Gemuce, em especial o seu “jogo da democracia” cuja patente tarda em ser realidade - não como realidade “industrial” mas como corolário da atitude da instalação. E cuja provocação tem passado ao lado, tamanha a surpreendente placidez com que as “aventuras contemporâneas” artísticas têm aqui sido recebidas.
(Anésia Manjate, “Passaste por Aqui”, 2006)
(Rui Assubuji, Maputo 2004)
(Gemuce, Jogo Democracia, 2005)
Dezembro 13th, 2007 — Arte Moçambique, Suzete Honwana
Na Fortaleza uma bela exposição de artesanato, peças da autoria de Suzete Honwana. Bonecas trajadas de capulana, percorrendo vários estilos de indumentárias na história das populações moçambicanas - o catálogo vem acompanhado de um pequeno, mas informativo, texto de Benigna Zimba sobre a história da capulana em Moçambique.

Como lisboeta logo imaginei um desenvolvimento desta exposição - talvez um pouco mais trabalhada, um catálogo mais consistente graficamente e, até, historicamente mais profundo - a ser apresentada no Museu do Traje. A ver se alguma instituição assume o assunto. E se tal corresponde ao interesse da artesã.
Dezembro 8th, 2007 — Gemuce, Naguib
Dezembro 4th, 2007 — Blogs, Cahora Bassa
Novembro 30th, 2007 — Arte Moçambique
A exposição anual de artes plásticas do Museu Nacional de Arte, organizada em forma de concurso foi desfalecendo. Outros tempos, múltiplas ofertas num mercado meio caótico e todo empobrecido - de tal modo que nem “mercado de arte” me arrisco a afirmar -, alguma fragilidade do próprio Museu na sua dinamização, um conjunto de causas para a perda de importância do concurso.Este ano decidiu o Museu alterar a modalidade da Anual MUSART, reforçando as possibilidades de interacção entre as carreiras actuais e a instituição. Assim sendo em Dezembro a Anual MUSART acolherá uma colectiva de cinco artistas convidados, procurando realçar trajectos que sejam janelas, independentemente de gerações e estilos. Consagrando e arriscando. Consta que o juri escolheu, esperemos a sua divulgação.
Novembro 28th, 2007 — Mankew
34 anos depois eis a segunda exposição individual de Mankew em Moçambique - pelo seu caminho aconteceram outras duas, na então RDA. Se tamanha discrição surge surpreendente, tal ainda mais o é se recordado o facto do artista ser sempre referenciado como um dos vultos cruciais da “primeira geração” de artistas moçambicanos. E de ter sido vulto querido da política cultural nacional. Tanto tempo sem se apresentar a solo, coisas de uma personalidade recatada e auto-crítica, dizem.
“Realista” apresenta-se. E explicitado no texto do catálogo, de Júlio Carrilho: “… imbuindo a sua obra de um imaginário nacional (se é que tal existe como facto geral)…”. Mas tais ideias poderiam induzir em erro - pois assim o sendo há neste seu universo um despojamento silencioso, um tenso ar que alguém dirá poesia, que (me) equivale a um murro na alma. Uma grande exposição. Enorme.

“Este poço não tem água” (oleo sobre tela, 95X70 cm, 2007)

“Vamos à produção” (acrílico sobre tela, 95X70 cm, 2007)
No Museu Nacional de Arte, até 16 de Dezembro, com debate alusivo a decorrer no próximo dia 6.
Novembro 25th, 2007 — Arte Moçambique, Bela Rocha

Bela Rocha em individual no Espaço Joaquim Chissano (rua Joaquim Lapa, para os mais distraídos). Se a memória não me falha é um regresso oito anos após a sua última exposição em Maputo, radicada que está em Portugal desde há cerca de uma década. Sobre a exposição apetece-me citar o texto de Rocha de Sousa, que a acompanha: “A autora destes cenários impossíveis, e contudo quase realistas de certa maneira, tem dentro de si a enorme quantidade de memórias e símbolos, coisas que, como diria Juan Gris, atestam a qualidade da arte produzida, em aprendizagens que comportam o vómito das derivas pelas terras dos outros e o valor intrínseco dos personagens significantes espalhando-se pelo espaço da tela, na imitação da aldeia ensandecida proposta por Durrenmatt em “A Visita da Velha Senhora“.”
Novembro 21st, 2007 — Arte Moçambique, Banda Desenhada
O Instituto Camões apresenta esta deliciosa exposição - World Press Cartoon, ali colectadas obras dos últimos três anos (2004, 2005, 2006).
Lamento a ausência de elementos informativos, tanto sobre os autores como sobre as obras - e sabendo-se que o cartoon vive muito da compreensão do contexto é óbvio que em muitos casos a inteligibilidade fica amputada.
Mas ainda assim a mostra é mais do que recomendável. Apetecível. No local pode-se adquirir (e a preço bastante decente) o livro aqui mostrado, “Os Autores World Press Cartoon 2007“, uma edição Expresso. Neste surge uma colecção bem mais vasta de obras, correspondentes a trabalhos de 2006 - infelizmente de 2004 e 2005, os outros anos expostos, não há aqui registo bibliográfico. E digo infelizmente pois no livro surge um vasto número de obras que não estão expostas e que ombreiam em qualidade com as restantes.
O conjunto é, e tal não será de estranhar, muito dedicado à política da actualidade. Mas ultrapassa-a. Desde esta verdadeira pérola, realmente política
[”Futebol”, de Dalcio, publicado em Correio Popular (29.06.06), Brasil]
até à grande caricatura
[”Fellini”, de Luka, publicado em TV Mir (27.12.06), Ucrânia]
passando pela crítica social (e neste caso muito actual, pois obra belga)
[”Discriminação + Exclusão”, de Quack, publicado em Terzake (01.06.06), Bélgica]
A exposição encerra no próximo fim-de-semana, ainda há tempo.
Novembro 20th, 2007 — Idasse

Que fique como memória, ou para conhecimento de quem não acompanhou. No passado mês decorreu em Madrid, em organização da embaixada moçambicana local, a comemoração dos 30 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Para a ocasião agendou-se um conjunto de actividades culturais, uma “embaixada”, na qual se inseriram a Companhia Nacional de Canto e Dança, Ghorwane, Sónia Mocumbi, José Mucavele e Wi.
Ídasse comissariou uma exposição de pintura que integrou obras de dez artistas - algumas das quais abaixo retratadas.
Diz quem acompanhou a sucessão de eventos que tudo correu a preceito. Entenda-se, agrado geral.

Novembro 19th, 2007 — Arte Moçambique, Vasco Manhiça
Mão amiga transportou-me esta oferta. O catálogo da última exposição de Vasco Manhiça
(”Selfportrait” - Pencil on paper; 34 x 48 cm, 2004)
Decorrida na Kunsthaus de Haven, Alemanha, onde o artista está emigrado. Pelo que deixa adivinhar urge que ele se apresente em Maputo - onde a sua influência, em particular no desenho, é notória no contexto da nova geração de artistas.
(”Fisherman”, Pastel and pigments on paper; 70 cm, 2005)
(View back II”, Pastel and pigments on canvas, 80 x 60 cm, 2007)