Em “O Jardim de Outro Homem” Sol de Carvalho conta uma história em cinema. Mais do que isso, em tratando-se de cinema moçambicano, Sol tem uma grande vitória, escapa ao cinema quase etnográfico, aquilo da população na tela(genuína, claro, porque é população e portanto verdadeira, porque natural, não poluída, porque povo, ideologia que está sempre presente e que parece mal anunciar em tom crítico), a “representar”, não a representar mas a “representar” um colectivo (será meu deficit cultural, mas nunca vi nenhum filme que tenha posto burgueses a representar-se), coisa muito incensada, até esquecendo as décadas passadas sobre mediterrânicos a fazer bem coisas similares. Enfim, projectos ideológicos que vão obrigando a elogiar estopadas pueris - na recente estreia de “O Grande Bazar” atrevi-me a dizer do paupérrimo que aquilo era e fui alvo de zanga patrioteira dos meus circundantes. Que tinham toda a razão, decerto, pois logo o filme (mais a sua representação e argumento) foram premiados no estrangeiro. Enfim, tudo isto como catarse.
Sol fez um filme de cinema, contou uma história. No fim a acção acelera e aquilo complica-se um bocado (para mim, leigo, devido aos actores, nota-se o hiato entre Evaristo Abreu e as restantes envolvidas nas cenas finais), mas não seja por isso, vale bem a pena. Óptimo.
Fico, sinceramente, à espera de um novo passo, de um argumento sem causa - agora coitada da aluna, perseguida pelo professor conspíquo que não a classifica, impedindo-lhe o acesso aos estudos de medicina (ou seja, a fazer o bem - as burguesas de XIX tratavam das crianças, dos doentes e dos velhos; depois passaram a dedicar-se à enfermagem, o privado tornado público; depois à assistência social, e agora em tempos de igualdade, já são médicas. A ideologia do “género”, cega, fica contente), se ela “não se lhe entregar”, violência da qual se safa in extremis por um rebate de consciência, tudo apoiado por algumas mulheres: a professora boazinha, parece que francesa, noblesse oblige, a amiga, a avó, a irmã da amiga - uma guerra de sexos (a mais o malandro produtor de moda, Luís Sarmento, lúbrico em hotéis de 5 estrelas, e o outro professor a satisfazer-se na sala de professores). No fundo, um preto-e-branco onde apenas destoam, como gente, a mãe (a Magaia, que enche sempre) e o próprio professor, cujo desenho começa por ser complexo, como o são homens e mulheres, para acabar por ser um espantalho, simbolizando o mal. E assim se dedica o filme às mulheres moçambicanas que lutam …
Há assédio sexual nas escolas, e tal é muito denunciado. E um filme destes será uma boa propaganda contra tal. Ainda bem, e espero que tenha efeitos.
No resto, quanto ao cinema, ainda por cima porque sou professor, gostava muito mais de assistir a um filme sobre o erotismo entre as pessoas (e também entre alunos e professores, claro), o “vai-que-não-vai”, algo sobre as complexidades dos poços que somos. E sem dedicatórias.
Até lá hei-de rever este filme. Com agrado.



3 comments ↓
Permitam-me um complemento à descrição da emancipação da mulher com uma curiosidade. Com efeito, no final do século XIX na maior parte dos hospitais existentes quem prestava serviços eram indigentes, que o faziam por alterantiva a penas de prisão. As mulheres existentes normalmente eram mulheres que também tinham sido condenadas muito frequentemente por crimes não muito de acordo com os valores da época. Dificilmente eram burguesas. A enfermagem só começa a ter boa reputação já o século XX corria a passos largos.
Já agora, gostei imenso do filme!
Ainda nao assisti o filme mas, ja ouvi falar muito dele pelos jornais, tv e ate por amigos que ja o viram e gostaram muito. Por ca como sabes tudo chega com…ligeiro atrazo, mas chega, isso e que importa.
Enquanto isso, numa provincia distante…aguardamos!
Bjs meus
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