Tabaco e afins

Ao fim de uma semana a Moção por Salas de Fumo nos Aeroportos que coloquei teve 125 apoiantes e a simpatia explícita de 22 bloguistas. A todos agradeço. Não é um número esmagador mas são 125 pessoas que se interrogam sobre a justeza de uma lei que prescreve a inexistência de locais de fumo nos aeroportos (não é mero laxismo, é obrigação legal) – ao contrário do que acontece em tantos aeroportos internacionais, ao contrário do que um mero bom senso concordante com o espírito da lei implicaria. 125 pessoas e 22 bloguistas que se solidarizaram com a minha irritação face a quem quer obrigar-nos a viver (e a morrer) de determinado modo – sem que para isso tenha sido mandatado. O mandato que têm é o de incrementar as opções, não de as restringir. No meu caso – e aqui já não posso aventar que seja a opinião de quem co-assinou – uma irritação com um ambiente em que os quadros do Estado sentem que têm acrescida tutela sobre as “coisas da vida” do cidadão. Há excitados que exageram sobre este ambiente, é claro. Não é de “fascismo” que se trata, mas é com toda a certeza “irritante” e “intrusivo” – e não é só de tabaco que falo.Há quem desvalorize estes “clic-clics internaúticos” (ponho um elo, evito a transcrição dos emails nesse sentido) – porque não têm valor legal, porque não servem para nada. Deve-se criticar o amarelo por não ser verde? Tem algum tino criticar um “tenham tino” colectivo por este não ser um documento oficial?

A este propósito há uma outra questão, e que me surge a propósito desta minha irritação mas que não se liga à “moção” [isto não é uma explicação porque não se assina, era o que faltava] – a “inutilidade” dos “clic-clics internáuticos” associa-se muito à sua “deselegância”. Bobbio escreveu um dia ["Considerações Sobre os Manifestos dos Homens de Cultura Dirigidos às Autoridades Políticas", em Os Intelectuais e o Poder, S. Paulo, Unesp, 1997, pp. 57-65], criticamente: “A ideia mesma de um manifesto de intelectuais às autoridades políticas parte do pressuposto de que aquilo que os intelectuais pensam e dizem tem um valor exemplar e, como tal directivo. Os intelectuais como guias morais da nação, ou mesmo da humanidade” (62). Muitos contestam a possibilidade deste exercício – o que não será, por si só, “anti-intelectualismo”. Mas também muitos – aceitando ou não a possibilidade do púlpito intelectual – sentem com desconforto a proletarização do “manifestar”, este qualquer um de nós poder fazer um “clic-clic internáutico” expressando, sem efeito plausível, a sua opinião, por mais tresloucada ou infundada – “ao menos se fosse alguém importante …”. Há nesse blazeísmo muito do velho “respeitinho” estatutário, das hierarquias sociais, das primazia ao “senhor doutor juiz” “sô engenheiro” e alguns outros. Reaccionário, entenda-se. Repito, não é uma invectiva a quem não assinou a “minha” moção (“quixotesca” e “ridícula”, referi). É apenas a minha reacção a algumas mensagens recebidas, do tentar entender do “porquê” delas.

Finalmente: será este o ano no qual conseguirei deixar de fumar?

Adenda: um leitor, Paulo Ferreira, teve a gentileza de aqui deixar um comentário transcrevendo uma notícia sobre este assunto no boletim da TAP -

Com a entrada em vigor da lei nº 37/2007 a partir de dia 1 de Janeiro, passa a ser proibido fumar em todos os recintos fechados, salvaguardadas as excepções previstas naquele diploma legal.A ANA Aeroportos de Portugal SA divulga em comunicado que “decidiu adoptar, com a excepção a seguir indicada, a medida de absoluta proibição de fumar nas áreas públicas e restritas dos aeroportos.”

“Ainda assim, e tendo em conta a dimensão e o tipo de tráfego do Aeroporto de Lisboa (tráfego de transferências), a ANA decidiu autorizar a disponibilização de áreas para fumadores neste aeroporto, preferencialmente destinadas a passageiros, considerando a permanência destes, por vezes prolongada, numa zona sem acesso ao exterior”, informa a empresa.

A ANA acrescenta ainda que “estas áreas, devidamente assinaladas, estarão disponíveis a partir de Fevereiro de 2008, na zona internacional de Partidas e de Transferências (junto à área do Busgate Sul e no Pier Norte, após o Controlo de Passaportes). Até à entrada em funcionamento daquelas áreas de fumadores vigorará a proibição absoluta de fumar no Aeroporto de Lisboa.”

Um outro leitor enviou-me uma mensagem. Nela informa que trabalhando no projecto de reabilitação de parte do aeroporto da Portela me pode confirmar nele estar prevista a instalação de zonas destinadas ao consumo de tabaco.

A ambos agradeço as informações. Duas notas sobre o assunto: a primeira reactiva, pois não entendo como é que estando prevista desde há meses a entrada em vigor da lei não foi a ANA o suficientemente previdente para proceder aos arranjos necessários – insisto, uma falta de respeitos pelos clientes, suportada na situação de monopólio que disfruta; a segunda, que realmente importa. Por que só no Aeroporto da Portela é que serão instaladas zonas para o consumo de tabaco. Qual a razão legal para tal? Pois outra não poderá haver …

12 comments ↓

#1 claire on 01.12.08 at 21:18


É ficção!

#2 Anonymous on 01.12.08 at 21:44


O senhor, escreva ao papa, valeu?

#3 António P. on 01.12.08 at 23:59


Caro JPT,
O D. Quixote até é uma figura simpática.
Como sabe subscrevi a petição e divulguei-a no meu blog e já fiz um reforço.
Sugrio a todos os blogues que o fizeram que insistam de forma a que o Nº de assinaturas aumente.
Cumprimentos

#4 JPT on 01.13.08 at 0:26


Obrigado aos três. Anónimo, convém informar-se antes de comentar. Para quê comentar sem saber? sem perceber? Não será melhor questionar antes de botar, ainda que anónimo? Tudo isto lhe digo porque é sabido que não vale de nada escrever ao Papa sobre o assunto – D. José Policarpo foi falado como hipotético futuro Papa aquando da sucessão de Sua Santidade João Paulo II. Mas tal hipótese sempre foi aventada com a ressalva do seu handicap, a de ser fumador. Acha que neste contexto vale a pena escrever à Santa Sé?

#5 JPT on 01.13.08 at 1:10


A.P., claro que Quixote é simpático. “Quixotesco” é daquelas palavras que traem o sentido da sua origem etimológica, sublinhando o ridículo

#6 on 01.14.08 at 1:18


irra que mau feitio!
estou a ver que está dificil esse desmame

#7 José on 01.14.08 at 9:57


não vejo – sem ironia nem brincadeira – como aqui podes encontrar algum mau feitio

#8 on 01.14.08 at 12:03


josé,

mas havia aqui, do meu lado, essa ironia e brincadeira – em forma de “piropos” que me habituei a trocar com o estimadíssimo autor deste blog. é um jogo de aleivosias que nos habituámos a travar, às vezes em casa própria, outras jogando fora.

#9 JPT on 01.14.08 at 12:35


sim, mas ironizar atirando aleivosias a quem tão mau-feitio arrisca a provocar apedrajamento

#10 on 01.14.08 at 13:59


calma lá, eu sou o gajo que atira ironias, tu é que és o tipo das aleivosias. claro que por ironia poderia trocar o sentido dos nossos dotes, mas também é verdade que se tiver comigo a mentirosa aleivosia posso bem arriscar fingir que sou eu o da nobre ironia.
E guarda as pedras no bolso que isto aqui não é a mata para o tó!

#11 Anonymous on 01.15.08 at 14:54


A propósito da interdição de fumar nos aeroportos:

Fumo Interdito nos Aeroportos
2007-12-31

Com a entrada em vigor da lei nº 37/2007 a partir de dia 1 de Janeiro, passa a ser proibido fumar em todos os recintos fechados, salvaguardadas as excepções previstas naquele diploma legal.

A ANA Aeroportos de Portugal SA divulga em comunicado que “decidiu adoptar, com a excepção a seguir indicada, a medida de absoluta proibição de fumar nas áreas públicas e restritas dos aeroportos.”

“Ainda assim, e tendo em conta a dimensão e o tipo de tráfego do Aeroporto de Lisboa (tráfego de transferências), a ANA decidiu autorizar a disponibilização de áreas para fumadores neste aeroporto, preferencialmente destinadas a passageiros, considerando a permanência destes, por vezes prolongada, numa zona sem acesso ao exterior”, informa a empresa.

A ANA acrescenta ainda que “estas áreas, devidamente assinaladas, estarão disponíveis a partir de Fevereiro de 2008, na zona internacional de Partidas e de Transferências (junto à área do Busgate Sul e no Pier Norte, após o Controlo de Passaportes). Até à entrada em funcionamento daquelas áreas de fumadores vigorará a proibição absoluta de fumar no Aeroporto de Lisboa.”

http://www.flytap.com/Portugal/pt/Empresa/Imprensa/PressReleases/6768

Paulo Ferreira

#12 Lei do Tabaco e Aeroportos | ma-schamba on 07.23.08 at 10:48


[...] Bloguista amigo pergunta-me se mantenho a Moção por Salas de Fumo nos Aeroportos dado que abaixo fui informado da declaração de intenções da ANA vir a estabelecer zona para fumadores no [...]

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