Em Lisboa um assalto a um banco com sequestro. Dois assaltantes, trabalhadores da construção civil ali em part-time. Já identificados (o Expresso entrevista um primo de um assaltante ali em contacto com a polícia durante o assalto). A polícia decide abatê-los. Parece uma medida pedagógica, para que hipotéticos sequestradores pensem bem no que se meterão (“se a moda pega”!). Que custaria deixar partir os pilhas-galinhas, para onde poderiam escapar a médio prazo? O Estado tem o monopólio da violência legítima. Mas não da exagerada.
A televisão pública passa 15 minutos do seu telejornal a mostrar o rescaldo do assalto. Com particular pormenor, e repetidamente, os tiros certeiros. O reality show da morte – afã que a própria blogosfera louva. Um nojo imoral. Uma estupidez. Gente que nem pensa.
Há algumas semanas Portugal parou a discutir uma cena de tiroteio entre ciganos e negros. Foi um aqui d’el rei/ó da guarda. Na voz de muitas boas almas também porque alguns chamaram ciganos e negros aos envolvidos, assim denotando racismo, preconceito. Assim levando a que se tomassem negros e ciganos como globalmente marginais. Agora não se escutam as boas almas protestando com o facto de se chamarem “brasileiros” aos assaltantes abatidos. Melhor prova que as boas almas não pensam, que o verdadeiro preconceito nelas habita (“negro” ou “cigano” parece mal, “brasileiro” não faz mal”). Mero movimento nacional feminino d’hoje.

26 comments ↓
Pilha-galinhas armados e sequestradores. Quem pilha uma galinha sequestrando o galo? Não vale a pena minorar a periculosidade dos homens porque a questão mantém-se: algum homem merece ser abatido? Não.
Se são brasileiros, iam chamar-lhes o q? se fossem ucranianos, eram os ucranianos…logico, não? ou seria melhor chamar os nossos irmãos? lool eles la no brasil a nos chamam-nos padeiros…
No meu entender de jornalista, a televisão pública passou um pouco menos do que o assunto devia, a TVI foi mais equilibrada e a SIC um abuso contínuo: ainda estão a passar as imagens de hora a hora. Um enjoo. Aquilo foi notícia, mas hoje já não é.
O verbo que usou para sintetizar a acção da blogosfera é um pouco excessivo. Nem sequer no meu blogue, que hiperliga, se faz a apologia do reality show da morte. O post propriamente dito descreve sintenticamente os acontecimentos a partir do directo televisivo, explicando eu que fui “retransmitindo” no Twitter — um local espantoso para acompanhar acontecimentos do género numa escala planetária. Não pelo tamanho do planeta, mas pela distância: não era para ter 500.000 a ler-me, era para 5 ou 10 brasileiros e portugueses fora do país (ou dentro, mas sem TV, que tb os há).
Nos comentários seguiu-se uma longa diatribe e nem aí o assunto foi explorado por essa vertente. É certo que pessoalmente classifiquei — e continuo a classificar — a acção policial de certa e globalmente positiva, mas isso não é propriamente fazer a defesa da morte.
Saindo do meu blogue, há exemplos de questionamento da acção policial — ou seja, a blogosfera (pelo menos, a que eu li) foi tudo menos louvaminheira.
E é claro que se escutam as boas almas protestando contra os aspectos xenófobos do assunto. Tanto no discurso televisivo (repetição da nacionalidade escusada) como, e sobretudo, nas caixas de comentários. Recomendo-lhe uma visita às caixas dos comentários das notícias disto no Público, Expresso e sobretudo Sol. Tome antes um calmante. Ou leve uma metralhadora bem carregada.
GAF não é reduzir a ameaça. É discordância – eu, discordando da pena de morte, concordo que em determinadas situações limite as forças militares e policiais abatam indivíduos. Não se trata de eles “merecerem” ou não serem abatidos, não é uma questão de julgamento moral. é uma questão de nós “merecermos” a segurança. Mas são casos limite, que me parece ultrapassar este. Daí o meu pilha-galinhas, talvez exagerado – mas que perigo vinha à sociedade se eles se baldassem num carro não perseguido com uma mala de notas marcadas? Para serem apanhados para a semana?
Reconheço que é fácil opinar num blog em vez de estar a gerir situações destas, talvez seja injusto ou impensado.
Agora – e com o PQ. Qual o relevo informativo de ver um tiro em directo? Qual o relevo informativo de mostrar a cara do homem e vê-lo abatido um minuto depois? Qual o relevo de vermos a luz incidindo sobre o alvo e depois o tiro certeiro? Rigorosamente nenhum.
(Já agora, os tiros foram sequenciados, qualquer espectador do bruce willis e do clint saberá que foi borreguice, o segundo tipo poderia ter abatido o seu refém no segundo ou dois que lhe deram – isto para falar do patrioteirismo policiário que se seguiu.)
Mar34. exactamente. Que haja imbecis que generalizem é outra coisa. Mas é significativo que tivesse havido tantos pruridos bem-pensantes em chamar “negros” ou “ciganos” a atiradores e eles não surjam ao chamar-se “brasileiros” a putativos atiradores. O preconceitozito está lá, nas senhoras
jpt,
“qual o relevo informativo de ver um tiro em directo?”
Rigorosamente o mesmo que assistir à cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos em directo, ver a final do Mundial de Futebol em directo, ou ouvir em directo o Presidente da República.
Todas as perguntas seguintes decorrem da transmissão directa, pelo que a resposta é igual. Um directo é uma aventura em que tudo (e nada) pode acontecer.
Eu não quero saber dos “podias” e “poderias”. Se a coisa tivesse corrido mal, estávamos a zurzir forte e feio nos snipers. E um bem intencionado que dissesse, “pera lá, o gajo poderia ter acertado”, era corrido à pedrada, primeiro, e zombado a seguir.
De igual forma, não quero saber do patrioteirismo que se seguiu. O ministro esteve bem, a polícia esteve bem, o mais importante é que os reféns se safaram, parabéns a todos. Chega. Não vou na tese do correu a 100%, mas aceito que o ministro diga isso — o homem tem responsabilidades.
Já agora, essa dos tiros sequenciados é especulação? Que não foram perfeitamente sincronizados, sim, mas o tempo que decorreu entre eles significa sequência? Ou significa 2 atiradores, cada um com ângulos diferentes?
Permita-me que lhe roube o seu comentário. Que subscrevo. Para que o tiro certeiro, na mira da morte, não seja um recurso banal na intervenção da polícia. Em nome da Lei.
PQ eu de tiros em rapaziada, apesar da (nada bem sucedida) recruta em Mafra, o que sei restringe-se aos filmes acima indicados (e a mais alguns). Daí que não me ponha a dar notas técnicas e artísticas, qual patinagem artística, ao evento. Do qual apenas vi o telejornal RTP no dia seguinte, um êxtase patrioteiro da excelência da nossa polícia, só faltavam os cachecóis da PSP e compararmos os atiradores ao penalti do Helder Postiga.
Do resto: v. dá um carácter absoluto às notícias, o que eu acho grosseiro erro, e tal não se deverá a ser jornalista. Não lhe interessa, diz, o efeito das notícias apenas a notícia. Ora bolas, a notícia não existe, só existe o efeito delas. E isso é o b-a-ba.
Quando eu vivia em Portugal o tipo do Murcon tinha um programa na TV em que falava de sexualidade. Por mais insupoortável que seja (o blog é a minha irritação de estimação) nunca o vi de pilinha de fora da braguilha para falar de tal assunto. Não chega como imagem? Se a RTP passar uma reportagem sobre prostituição no telejornal e der um grande plano, identificando as pessoas, de sexo oral V. se calhar (ou pelo menos muitissimos dos admiradores da peça que discutimos aqui) acha, como o velho Herman, que “naõ havia necessidade”. Se for uma peça sobre sexualidade conjugal e o casal Silva aparecer nuinho no truca-truca idem. PAra si não tem interesses noticioso uma cena de sexo? Eu acho que Pode ter – só que a hierarquia de valores dos jornalistas inclina-os a considerar mais noticiável abater um gajo do que foder um gajo. Só isso. é uma hierarquia de valores, nada mais. E não é, desculpe, absoluta. É relativa. E fraquinha. Por mais que tenha os prime-time.
Agora vou ver o clint – que gosto muito dos tiros. (as cartas …) MAs em ficção
D.d’O. obrigado. Até breve
O interessante que aqui no Brasil, um jornal tambem falou que foram dois “brasileiros”.
http://escaravelhoandarilho.wordpress.com/
E foram. Não vejo problema nenhum em descrever estes assaltantes como “brasileiros”. O problema está em catalogá-los como tal. Diferença essa que as gentes dos pruridos, os ofendidos por se chamarem brasileiros/ciganos/negros às pessoas envolvidas não percebem. No fundo é apenas uma ignorância linguística. Que se traduz no afã do politicamente correcto e na incapacidade de falar.
“Para que o tiro certeiro, na mira da morte, não seja um recurso banal na intervenção da polícia”
Quem não subcreveria. Devo fazer notar, contudo, ter sido este o primeiro tiro de morte da história dos snipers do GOP, tanto quanto sou capaz de me lembrar, e alguém que saiba mais que eu que me corrija. 1 tiro — e falamos no risco da banalização. Está bem. Não estou contra…
jpt, eu vi — e foi sobre isso que comentei — as imagens do directo. Em directo não se edita. É simultaneamente o pesadelo e o sonho. Depois, se 1 televisão vai dar a notícia mais tarde, é natural que escolha as imagens mais significativas.
Num directo não há hierarquia de valores.
Tapar ou pixelizar as caras das vítimas é uma condescendência recente, impelida pelo politicamente correcto. Antigamente qual quê.
Num telejornal, a hierarquia de valores é feita pelos editores em função do interesse de cada assunto — não é ditada pelo que uma pessoa ou grupo acha que é o interesse de cada assunto.
Sobre a qualidade da operação há grande discussão (centenas de comentários, que não li) no Blasfémias. Passo, não sou oficial do ofício. Mas sublinho o patrioteirismo posterior, que já aqui referi. Que nunca é bom conselheiro. Sobre a justeza da operação, idem em tudo.
Sobre o directo – há critérios para definir um directo. Lembra-se de um Subtil encerrado numa casa de banho a dizer que se matava? Aquilo é directável? É directável um directo sobre um assalto a um banco? São critérios, nada mais. Há uma guerra na europa, por que não dar umas horas em directo?
Repetir à exaustão um gajo a levar uma bala nas trombas? Francamente, nem são critérios. Hã “abatimentos” célebres que são ícones (o soldado republicano abatido na guerra espanhola, o vietcong abatido com um tiro na cabeça, etc). Violentos, mas significativos, “maiores do que a more”. Um ladrão abatido significa o quê? É menor do que a morte, na minha opinião.
E, não me querendo eternizar, V. é radicalmente “absolutista”: “Num telejornal, a hierarquia de valores é feita pelos editores em função do interesse de cada assunto — não é ditada pelo que uma pessoa ou grupo acha que é o interesse de cada assunto.” – o que são os “editores”? São pessoa(s), grupo(s) [profissional, cultural - cultura profissional até]. E nao húmus ou metassocial (até divino) como se retira da sua opinião. E o interesse de cada assunto é, obviamente, relativo (relativo às ideias dos tais editores) – concordamos com isso, decerto, na RTP_Madeira na enessima inauguração realizada por Alberto João Jardim, concordaremos por extensão no restante alinhamento.
[Para um pacífico acordar sobre isso o Cibertúlia tem a capa dos tr~es jornais desportivos no dia seguinte à abertura dos jogos olimpicos - reyes e moutinho apagam-na. Critérios dos editores, claro]
jpt, eu não deveria ter dito “merecer morrer”, não é nada disso, trata-se antes do “direito de matar”, o que expandiria a nossa discussão até à pena de morte, às guerras, etc. No caso presente, quero acreditar que os snipers da polícia têm uma função dissuasora e que só disparam em último caso (e foi o que aconteceu, a situação era de uma gravidade extrema,os assaltantes estavam desesperados e sentiam-se no direito de, em última instância, matar).
PQ, sei que as televisões não são todas iguais e que encararam o caso de pontos de vista informativos e éticos diferentes. Quanto aos atiradores especiais, creio que existem há muito e que, felizmente, nunca houve um caso de sequestro por armas com a gravidade deste que os levasse a disparar. Pessoalmente, em casos destes, demito-me: logo que ouço a notícia deixo de ver televisão,e estou convencido de que haverá muita gente como eu. Mas não podemos exigir que as televisões se calem em determinados assuntos sensíveis e se desunhem a falar de outros (às vezes tão sensíveis como um sequestro). Podemos é exigir normas morais (não tenhamos medo da palavra), ou deontológicas, se quiser, que envolvam o jornalismo em geral e que lembrem, por exemplo, que não é por se mostrar imagens dramáticas até à exaustão que se informa melhor e com mais verdade.
“não é por se mostrar imagens dramáticas até à exaustão que se informa melhor e com mais verdade”.
totalmente de acordo. Tenho, aliás, repetido isso. Já desde a Maddie, passando depois pelo telemóvel na aula — as televisões, em especial a SIC mas nenhuma escapa, passaram MUUUTO das marcas morais e sociais (penso que a deontologia não tem nenhum tipo de normativo para o exagero — nunca foi preciso conter este tipo de exageros, só quando a concorrência impactou o processo produtivo do jornalismo).
“Lembra-se de um Subtil encerrado numa casa de banho a dizer que se matava? Aquilo é directável? É directável um directo sobre um assalto a um banco?”
Lembro, mas não segui ao vivo. Agora segui: o vivo maior foi o da SIC Notícias e embora tenha durado horas, a maioria do tempo foi DEPOIS. Isto é: tirando os directos para os telejornais e assim, que são normais e onde em regra não acontece nada senão um jornalista de voz semi-histérica a encher chouriços com balões de ar, a emissão entrou em directo cerca das 23:00, quando os bandidos assomaram à porta e como era lógico adivinhava-se ali o desfecho (eu pelo menos adivinhei, calculo que o gajo na regie da SIC tb). Até ao desfecho foram 20 e poucos minutos. O que, para um canal noticioso, não é manifestamente nenhum exagero.
Exagero, nesse mesmo canal e nos outros, é 48 horas depois, e ainda por cima quando há notícias do impacto de uns Jogos e de 1 guerra, ainda ocuparem o parte de leão dos seus noticiários com — aqui sim — repetições descabidas e informativamente injustificadas das imagens do assalto, com uma estranha e doentia fixação na nacionalidade dos sequestradores.
à posteriori melhor fez a RTP, que eu tivesse visto. Foi mais fundo na análise e mais sóbria no regresso ao acontecimento, já dentro da parte dos noticiários dedicada aos follow ups.
E sim — um caso como outro são directáveis, miam miam, desde que dentro de limites. Esses limites é que é uma foda estabelecer. No Subtil, era a RTP a dona da imagem e da situação, pelo que explorou indecentemente. No BES a SIC explorou até ao vómito o facto de ter estado em directo e mascarou a sua actual debilidade ao nível da Redacção com a posteriores repetições.
Pronto, atenuantes (momento solidário/corporativo do dia): a RTP teve na altura do Subtil em mãos o primeiro directo dramático da TV pós-abertura aos privados, e não saberia ainda ver as fronteiras, e a SIC está sem dinheiro e usa o que tem para manter pressão sobre o share.
GAF aceito: da justeza da acção policial. O princípio choca-me, o contexto será tudo. E como tal, PQ, se estamos a contextualizar então concordo. Mas entristece.
jpt, bom tiro na nuca do essencial: “os brasileiros” e não teria vindo mal ao mundo se os tivessem deixado fugir.
Quanto ao resto, e o resto é em primeiro lugar as técnicas, as tácticas e as estratégias (embora seja legitimo pensar que se os negociadores conseguem trazê-los para o campo de visão e mira dos atiradores policiais há aqui uma subordinação da negociação à estratégia do tiro) e em segundo lugar a ética, a deontologia dos jornalistas ( como se fosse possível discutir isso quando estamos na eminência do primeiro assalto com tiros em directo na TV portuguesa, quem consegue isso não precisa de ética para coisa nenhuma, discutir ética jornalística nesta altura do campeonato mediático é uma brincadeira de crianças, a ética incute-se na formação, nos bancos da escola, ao vivo e a cores, a ética impôe-se nos articulados politico-juridicos que regulam a actividade) deixo isso
para os especialistas que por aqui tenho lido.
jpn, um dos problemas é o da (necessária) relativização da ética – já o PQ aqui a aflorou (os critérios não se de uma pessoa ou grupo). É um sofisma, pois na prática acabamos encerrados na ética de um outro grupo ou pessoa. A ética incute-se na escola? Talvez. Mas na prática as pessoas que vão vivendo com diversas éticas (ou deontologias) frequentaram as mesmas escolas. Donde … Eu acho que a “ética” (ou, melhor dizendo, a higiene) se incute na discussão do dia-a-dia, no debate, no diálogo conflitual: p.ex. se a tv nunca mostrasse atiradores (estou contigo na recusa da piroseira arrivista do “snipper”) a dispararem se calhar não haveria gente a protestar com os tiros… Se calhar vale a pena mostrarem. O problema é que mostram, e repito-me embevecido com a minha tirada, tudo aquilo como se fosse o penalti do Postiga (lembras-te deste?).
Honestamente só dá vontade de bater nos jornalistas televisivos (eu só conhecço a RTP, o José Rodrigues dos Santos pisca-me o olho no fim – é absolutamente inaceitável, torna algo público numa coisa particular, privada, familiar, de amigo. ninguém lhe diz nada, quanto muito um ou outro criticar-lhe-á o mau gosto. Mas ninguém desvenda a apropriação, ilegítima. Dorme-se, aí!). Mas é compreensível – a esmagadora maioria dos jornalistas tem uma dimensão cultural muito fraca, e vai esbatendo-a ao longo da sua carreira generalista. O hiato é esmagador, e vai aumentando. E nota-se mais na TV, no imediatismo, onde não podem delir (leste esse meu post do “delir”?). Há muita pensador que remete o superficialismo, o histriónico para alguma dimensão dos “media”. Mas, realmente, ele ancora na “cultura profissional” de um grupo cada vez mais “lumpen” – até pelas condições de sub-emprego em que subsistem.
Em suma, ética na escola? ética no corpo jurídico enquadrador? Sim. Mas fundamentalmente ética ao pontapé, ética no apupo.
jpt, sobre ética: é EVIDENTE que estamos sempre sujeitos às éticas alheias. É assim que a sociedade está organizada — e honestamente não vejo outra forma.
Eu tenho um parente no hospital neste momento, para ser operado. A ética dos médicos proíbe-me de ter a informação que eu gostaria no tempo em que eu a queria ter — e acima de tudo proíbe o pobre parente de ser operado JÁ, como eu queria.
É claro que não desejo evitar os debates sobre as éticas de cada grupo profissional: devem ocorrer e sou o primeiro a achar que a ética dos jornalistas está a precisar de uns ajustes, mas nada têm a ver com este episódio, que na realidade nada tem de novo e já está bem enquadrado.
A sua embirração com o piscar do olho de JRS é partilhada por alguns milhares de portugueses, estou certo. Mas há outros milhares que nem ligam ao piscar de olho, nem notam. E muitos mais milhares que apreciam o que lhes surge como uma cumplicidade.
O gesto não é, sequer, único, outros pivots e ancoras por esse mundo fora o usam (e até gestos muito mais exuberantes). Funciona como uma assinatura, um individualismo.
Agora: o piscar de olho é falta de ética? Não.
Choca com a deontologia? Não.
É de mau gosto? Para si (e para mim, já agora), é.
Desde que não descomunique nem ataque as regras, como criticar fora da esfera pessoal?
“Mas é compreensível – a esmagadora maioria dos jornalistas tem uma dimensão cultural muito fraca, e vai esbatendo-a ao longo da sua carreira generalista”
Não sei o que entende por “dimensão cultural muito fraca”. Sei uma coisa porém: nos 30 anos que levo do meio, o grau médio cultural da minha classe subiu uns bons furos. Dê-nos um termo de comparação para podermos avaliar o que é “muito fraca”.
No geral, penso que o jpt confunde aspectos exógenos da profissão (o acelerar da vida, a pressão do mercado, a impunidade dos empresários, as leis de trabalho degradadas) com a actividade específica da profissão.
… “de um grupo cada vez mais “lumpen” – até pelas condições de sub-emprego em que subsistem”
Lumpen your ass. Essa é uma crítica difícil de sustentar. Há 30 anos tínhamos jornalistas com carteira que não sabiam escrever (o formulário para a carteira que eu primeiro assinei, há 28 anos, ainda tinha uma caixinha para a cruz e impressão digital dos analfabetos). A percentagem de doutorados era ínfima e a de bacharéis pequena. Hoje não é assim. Aumentou — e muito. Não tenho números, peça-os ao sindicato se quiser. A mim, aqui, basta-me o olho nú.
Também a origem social e/ou de classe (como quiser colocar; eu nas tintas, só pretendo comunicar) mudou, evoluiu nestas 3 décadas. Gostava que alguém estudasse isso.
Onde lhe dou razão: nas condições de sub-emprego que estão a degradar o jornalismo. Vejo cada vez mais profissionais competentes serem afastados (ou afastarem-se) simplesmente porque são considerados caros. Cortar na massa salarial e assassinar as Redacções tem sido a resposta dos empresários dos jornais à crise — mas os despedimentos não são um modelo de negócio.
Tb acho que a repetição ad nauseum das mesmas imagens, mesmo que para ilustrar um aspecto novo (que os houve, até) do assunto, é um exagero e até afasta alguns espectadores (eu, por exemplo), o que produz maus resultados a prazo. Mas essa repetição, e outros sinais de ligeireza sobretudo na televisãom mas também detectáveis nos jornais, não têm o sinal que lhes atribui. Procure do outro lado.
1. “lumpen” não vai pejorativo, invectivando uma qualquer essência dos jornalistas. está aí usado para referir a inserção no mercado de trabalho – desprotegida, arriscada, eventual. Pelo menos é o que vou ouvindo/lendo dizer, em termos gerais. E, parece-me, subremunerada, tarefeira. Espero que esteja agora explícito. E, nesse sentido, dependente, portanto menos dona da “sua” deontologia.
2. éticas alheias: claro (E ainda bem que é assim, senão alguém com prosápia a Alguém estabeleceria a Ética alheia). É nesse sentido que a disse relativamente conflitual (a tal ética pelo apupo e pelo pontapé) – face a uma ética via Escola e Direito, apontada pelo caro Jpn
3, piscar de olho. Eu não disse que é falta de ética. Sim, é de mau tom. Mas, mais do que um problema ético, é uma apropriação. Comunicação pública, em espaço público, tutela estatal, e é apropriada pessoalmente – uma pró-privatização. Podia deixar-me cair num tom ensaístico sobre isso, semiologia e hermenêutica e quejandos, mas falta-me a verve (e as referências bibliográficas). Fico só assim: não é “natural” (nem desejável) – a gente até acha que ele e outros habituais televisivos são “da família”, por uso capeão – que quem me transmite uma comunicaçaõ que o ultrapasse a enuncie como se ela fosse pessoalizada.
Nesse sentido, político se quiser, JRS viola a ética. Porque simula, porque se apropria. Porque aliena. Nisso violará uma qualquer deontologia. Julgo, sem querer ser juiz (ora lá está o paradoxo, e não só linguístico, do qual quase nunca conseguimos sair quando nestas coisas)
Ética , ética é não passar ( por falta de meios?) em certas tvs, os inúmeros colares de pneus postos á volta do pescoço e ateados de fogo .
Olhar para o lado, fazer de conta que não existe, suponho deve ser muito mais “ético”.
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