O Paradigma da Loba Má

A propósito da transformação do modelo de casamento que acontecerá muito em breve em Portugal o Quase em Português apresenta uma entrevista em filme dedicada aos contos infantis – que recolheu no O Cachimbo de Magritte -, agora necessariamente apresentáveis em registo homossexual.

Eu tinha saudades do QeP. E por isso acampei por lá com o estatuto de comentador residente. Nesta entrada temática dedicando-me à apresentação do novo contexto, esse já acima referido: o Paradigma da Loba Má.

jpt

13 comments ↓

#1 AL on 11.26.09 at 19:20


Fui aos blogs ler os posts e os comentarios e estou chocada com a baixaria que por la vai. Claro que no meio daquilo existem comentarios bons, mas a maioria deixou-me de boca aberta. Tenho que dizer ja que o casamento ou nao dos homossexuais nao e’ uma questao que me mova, nem para um lado nem para o outro. Tenho em relacao a esta questao muitas perguntas e duvidas, nenumas certezas e poucas conviccoes. Percebo as suas implicacoes e impactos e sei que, se calhar, deveria preocupar-me, mas tambem acho que ha coisas que sao inexoraveis e esta sera tambem uma delas, mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos polemica; daqui a 50 anos ja sera um non-issue. Nao me repugna que duas pessoas do mesmo sexo que se queiram devotar uma a outra usufruam os mesmos direitos e responsabilidades dos casais de um homem e uma mulher. Mas em relacao a adopcao de criancas, confesso que tenho sentimentos bem mais ambiguos. Acho que o risco de se usarem criancas para fins de consolidacao identitaria e grande, mesmo que essa motivacao seja inconsciente; mas a realidade e’ que de certa forma criancas podem e sao usadas para fins mais ou menos questionaveis, ainda que socialmente aceites. Quando as socialites expoem as suas criancas como se estas fosse acessorios de moda, nao e isto auto-promocao? Nao se trata tambem de uma instrumentalizacao da infancia? Nao para fins identitarios talvez mas a diferenca e assim tanta? Existem tantas criancas abusadas, negligenciadas, indesejadas. Porque entao interditar a adopcao por duas pessoas que as desejam e lhes querem dar afecto so porque sao do mesmo sexo? Alem de que e’ impossivel hoje em dia evitar que criancas sejam criadas e educadas por homossexuais. Num dos muitos casos em que a ciencia se adianta ao social, moral, etico e legal, as maes de aluguer permitem um filho a quem tiver dinheiro para o pagar, independentemente do putativo progenitor(a) ser casado ou nao, homossexual ou nao… Quanto ao que parece estar a acontecer nas escolas e nos curriculos escolares vamos la a ter bom senso! Uma coisa e ensinar-se a tolerancia e ensinar-se educacao sexual; outra completamente e fazer-se a apologia desta ou daquela orientacao sexual. E infelizmente nesta questao dos casamentos homossexuais parece andar ai pelos blogs uma autentica Mossad sexual que nao da treguas! Para quem exige tolerancia sao bem fundamentalistas; mais um caso de vitimas a virarem carrascos? Ja em relacao as historias infantis nao tenho qualquer duvida e so tenho um comentario – vao-se catar! Era o que faltava! Ja la nos idos dos anos 70 vieram com essa marmelada das historias infantis serem demasiado violentas/eroticas/estereotipadas/ou-nao-sei-o-que. Devia ler-se as criancas (na altura as minhas filhas pequeninas) as versoes sanitizadas e politicamente correctas. Faco agora o que fiz na altura: um grande manguito!
No meio disto tudo congratulo-me com a dignidade e a decencia com que a maschamba ficou representada no debate, aqui pelo nosso jpt.

#2 Pedro Silveira on 11.26.09 at 19:33


Não existe nada mais hipócrita que alguém querer afirmar a sua diferença mas querer que a essa afirmação seja dado o mesmo nome daquilo que se pretende ser diferente.

Não pode haver casamentos de pessoas com o mesmo sexo. E por isso, quem lhe quiser dar o nome de casamento está a deturpar à partida o assunto. Pareçe que afinal é uma forma envergonhada dessas pessoas se assumirem.

Nem as uniões de facto servem. Tem de ser mesmo casamento. Impressionante!

#3 ABM on 11.26.09 at 20:47


Eu creio que há pouco dias já disse o que tinha a dizer sobre o assunto.

Acho que temos aqui um Muro de Berlim.

#4 AL on 11.26.09 at 21:07


Pois, mas o muro de Berlim tambem caiu.. E tudo uma questao de tempo, nao e?

#5 Lutz on 11.27.09 at 14:14


«Uma coisa e ensinar-se a tolerancia e ensinar-se educacao sexual; outra completamente e fazer-se a apologia desta ou daquela orientacao sexual. E infelizmente nesta questao dos casamentos homossexuais parece andar ai pelos blogs uma autentica Mossad sexual que nao da treguas! Para quem exige tolerancia sao bem fundamentalistas; mais um caso de vitimas a virarem carrascos? Ja em relacao as historias infantis nao tenho qualquer duvida e so tenho um comentario – vao-se catar! Era o que faltava!»

Estou quase completamente de acordo. Não estou de acordo que a introdução, no ensino escolar, de algumas histórias que representam outros modelos de vida conjugal, ao lado das centenas ou milhares que representam o modelo dominante, seja uma “autêntica Mossad sexual”. Concordo plenamente com o repúdio de sanear as histórias infantís tradicionais da sua carga de violência e erótica etc. É aliás algo de que se a Disney se tem encarregue com exaustão e muito ao agrado de pessoas como no vídeo do post do Cachimbo de Magritte.

#6 jpt on 11.27.09 at 14:28


Lutz (e AL) falas da Disney? Nunca me esqueci de já adulto ter ido no início dos anos 80s, e com alguns amigos, ver o Rato Basílio (não me lembro do nome original) [nos velho "multiplex" como então não se dizia Alfas, ali ao Areeiro]. E não é que o “mau” da fita -um mau até simpático – dava pelo nome de Ratagão (“se bem me lembro” inspirado no Bafo-de-Onça de tradução brasileira). Ora ratagão era completamente queer (como entao se começava a dizer). O que nós nos rimos então, a Disney atrevidissima para os tempos que corriam.

Por isso, não há muito de novo sob este céu (muito nublado AL, o verão nunca mais começa a sério)

#7 AL on 11.27.09 at 15:42


Lutz expressei-me mal, como de costume… (suspiro). A Mossad sexual sao os muitos comentaristas insultuosos e intolerantes que por estes blogues abundam e nao a inclusao de modelos alternativos de relacionamentos como parte de educacao sexual e de historias alternativas. Se alguma vez participou em discussoes on-line sobre o medio oriente, ou sobre a questao palestiniana sabera ao que me estou a referir. Nao demora nem 5 entradas ate a Mossad entrar em forca no chat room e comecar a insultar tudo e todos. Quando fui ver o Quase em Portugues e vi aquela serie de comentarios insultuosos foi do que me lembrei…

#8 AL on 11.27.09 at 15:45


Ah! JPT nao vi o filme a que te referes mas as/os personagens da Disney, diz-se, tem uma sexualidade dubia qb. O Mickey e os sobrinhos; o Donald e os sobrinhos; o Tio Patinhas solteirao; as Daisy e as sobrinhas… Nao me lembro de um personagem da Disney que seja “casada” e que tenha a tradicional familia nuclear. Quanto aos filmes mais recentes irei ve-los provavelmente quando o meu neto tiver idade para isso. Entretanto, registo e confesso um hiato de 30 anos em filmes Disney pelo que posso estar desactualizada. :)

#9 jpt on 11.27.09 at 17:07


Digamos que o panteão Disney é (para além da margarida e da minnie, meras companheiras longínquas) completamente “no armário”: don’t tell, don’t ask

#10 jpt on 11.27.09 at 17:09


Quanto À “mossad”: bem-vinda ao bloguismo. Isto aqui no ma-schamba anda muito animado com a V. entrada, nunca foi um local de muitos comentários (mas de comentadores companheiros isso foi sendo). Mas foi sempre um repouso – a gritaria comentatária é um contínuo do bloguismo (em particular o politizado)

#11 Pedro Silveira on 11.27.09 at 18:52


Os muros caem mas nem sempre se muda para melhor.
E não podemos mudar por mudar para tornarmos confuso algo que seria mais simples se devidamente qualificado.
É uma questão de convicção. Só isso.

#12 AL on 11.27.09 at 20:01


JPT vamos trabalhar para isso, para trazer a mossad aos comentarios maschambistas.
Pedro Silveira, tem razao; uma mudanca nem sempre e’ considerada por todos como sendo para melhor, sendo que o melhor muda consoante perspectivas ou, como muito bem diz, conviccoes. E era bom, muito bom mesmo que tivessemos tempo para reflectir e debater antes de se efectuar qualquer mudanca de forma a podermos evitar/minimizar a confusao. Isso, acho eu, nunca acontece. Ate porque quando comecamos a falar de uma mudanca eu acho que ela ja esta em movimento, senao nem a notariamos como tal, como mudanca.
Mas e’ tambem verdade que mudancas a priori consideradas negativas ou impopulares e contra as conviccoes das maiorias acabam a la longue por se revelar positivas. Veja por exemplo o direito universal de voto e a sua extensao as mulheres; ou a abolicao da pena de morte na Alemanha depois da WWII. Respeito as suas conviccoes e agrada-me te-lo aqui a debater questoes importantes como esta (ou triviais como tantas outras aqui da maschamba) e gostei muito do paradoxo que aponta no primeiro paragrafo do seu primeiro comentario. Eu pouco tenho a acrescentar ao que escrevi acima. Volte sempre! :)

#13 Pedro Silveira on 11.28.09 at 2:13


A mudança que referi não é minha mas sim a previsivel aceitação legal do “casamento” de pessoas do mesmo sexo por parte do Estado.

Da minha parte não há nenhuma mudança em funcionamento.

As mudanças que refere são estruturais e não circunstânciais pelo que a discussão, como refere, é sempre de salutar e deve ser profunda porque vamos sempre chegar a resultados diferentes do conceito de familia. Perceber isto ajuda a perceber a argumentação.

Mas acho que com esta mudança, com esta urgente necessidade de libertação dos oprimidos, a humanidade vai esqueçer a “crise”, e vamos todos ser felizes. Ficamos todos no mesmo clube, homos, heteros. Olhe, é a arca de noé.

E pode crer que voltarei pois já tive oportunidade de dizer ao JPT que este blog é excelente.

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