Nojo pátrio

Há momentos assim. Súbito, e quando menos se espera, a vergonha de ser português.

De vergonha, de repúdio por uma ordem jurídica imbecil, laxista. De uma corja de profissionais e legisladores eunucos, preguiçosos, miserandos. De vergonha de ser daí, de um país incivilizado.

Onde alguém pode estar preso mais que um ano sem ser acusado. E onde, ao mesmo tempo, num extremo de incoerência teórica, filosófica, prática, um qualquer filho-da-mãe pode cometer um público desmando e sair incólume. Garantido no garantismo, nos aparentes direitos do cidadão.

Esse garantismo que logo no caso a seguir será violado à última. Consoante as preguiças do Legislador.

Este indivíduo [abaixo transcrito] vai ter lucros, simbólicos, afectivos e se calhar económicos. Vai lucrar com a sua indecência. Mas acima de tudo vai lucrar com a sua ilegalidade.

Uma ordem jurídica que é incapaz, que está desarmada, de punir severamente um troglodita destes, não é ordem. Durante anos discute-se a violência no futebol, durante anos se preparou o Euro. Ninguém legislou contra uma invasão de campo? Porquê? Estiveram “ausentes do plenário, reunidos em comissão”?

Há dias como estes. Por causa de um quase nada, envergonho-me de onde venho. Da sua incivilização. Da sua falta de amor-próprio.

Imagine o leitor este exemplo ficcional: o jogador Paíto, internacional moçambicano ao serviço do Sporting rescinde contrato e assina pelo Benfica; passados anos vem ao estádio da Machava jogar pela sua selecção, um encontro decisivo (p.ex. apuramento para o CAN, Campeonato de África das Nações). Em momento culminante do jogo, súbito aqui o Zé Teixeira, em acesso furibundo de idiotice, entra em campo, finta a polícia, e vai agredir/gozar/perturbar o jogador.

Se chegaram até aqui, façam ainda o favor de imaginar a trabalheira que advogados variados, embaixada, consulado, amigos, conhecidos e colegas, mais o psicólogo, o psiquiatra e o padre contratados, todos eles juntos, iriam ter para safar o tal idiota Zé Teixeira dos trabalhos em que se tinha metido.

Lá embaixo terminei um texto com uma bela e festiva foto alusiva ao Europeu, e que muito apreciei. Reza ela “ser português é um orgasmo”. Bastaram dois ou três dias para, com este caso, voltar à realidade: é um orgasmo sim, mas precoce.

CATALÃO JIMMY JUMP
De louco a herói bastou um salto

Jaume Marquet, aliás Jimmy Jump, o catalão que atirou a bandeira do FC Barcelona à cara de Figo, foi posto em liberdade pelas autoridades portuguesas e já se encontra em Espanha. Ontem, divertia-se na famosa festa de San Fermin, em Pamplona, no País Basco.

Saiu de Lisboa de carro com uma multa para pagar (a “peña” Juan Gamper, de Santander, já se ofereceu para o fazer) e para já tem escapado aos jornalistas catalães que o querem entrevistar na qualidade de novo herói dos adeptos “culé”.

Apesar das palavras em contramão do presidente Joan Laporta, recriminando a utilização do símbolo do clube naquele tipo de acções, o sentimento geral na Catalunha é de puro agradecimento ao “louco” Jimmy, um saltador de barreiras, como se auto-intitula, apesar de parecer muito pouco provável que tenha entrado no Estádio da Luz sem bilhete, como querem os jornais fazer crer.

Para Jimmy Jump - na vida real trabalha numa imobiliária -, tudo faz parte de uma lenda. “O salto é o meu tesouro, a fama a minha liberdade, a força minha lei, o vento a minha única pátria”. O poema, da sua autoria, serve de introdução ao seu “site” na Internet.

Pai orgulhoso

Na ausência de Jimmy, contactámos o pai em Barcelona, que pediu aos portugueses para não levarem o filho a mal: “Ele não tem nada contra a selecção portuguesa. Só contra Figo. Este plano já estava formado há muito tempo e nunca pensou em fazer mal a alguém. Queria apenas atirar à cara de Figo a sua própria vergonha.”

Contou ainda que este ímpeto anormal de Jaume já vem da infância: “Sempre foi muito traquinas. O que faz é inato. Em pequeno, frequentou um colégio da Opus Dei e os padres não o deixaram acompanhar os colegas a Roma para ver o Papa. Tinham medo do que podia fazer.”

Defende que o filho “não é um louco” e diz sentir-se orgulhoso, “independentemente do que alguns dizem”. “Não faz mal a ninguém e todos se divertem”, sublinha. Pois, todos menos Luís Figo, pelo menos.

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