Algumas recentes conversas tidas nos comentários do ma-schamba, e também um inenarrável texto reproduzido no Forever Pemba, avivaram o meu desconforto com algo, até generalizado ainda que hoje muito envelhecido, que não passa de negacionismo. O interesse pela história e pelas histórias, pelas suas versões múltiplas, intenta evitar as simplificações, as polarizações encomiásticas e/ou diabolizadoras. Isso implica aceitar como documentos, fontes de saber, todas essas representações, ainda que sejam auto-centradas, quantas vezes auto-legitimadoras (não o é sempre o discurso próprio?). Mas isso não implica obscurecer que muitas vezes, por razões ideológicas e/ou existenciais, o que lhes serve de base é o tal negacionismo. Normalmente associamo-lo aos “herdeiros” dos mais abjectos dos totalitarismos de XX (o pró-nazi, o pró-estalinista). Mas na pequena escala portuguesa também o temos, talvez mais manso na sua expressão pública, talvez menos veemente na sua expressão académica. Mas persistente.
Em 1976 Eduardo Lourenço escreveu “um livrinho … com um título irónico”: “O Fascismo Nunca Existiu“. Que se debruçava sobre o colonialismo e sobre os traços “fascistas” (autocráticos) que a sociedade portuguesa tivera e mantinha. Em cujo caldeirão vai cozendo – quase em banho-maria – este negacionismo, ainda hoje actual, o do “o colonialismo nunca existiu”, sempre casado com a crença no “fardo do homem branco” e dormindo com a “lusotropicalidade” (aliás, lusofonia – que é o quartel onde aquela se acantona hoje).
Contextualizar as vivências, ouvi-las, saber-lhes o interesse, não é nem de perto abraçar o negacionismo que vive em algumas delas. Nem, e aqui o mais importante, respeitá-lo. Intelectual, politica e moralmente.
Aqui a este propósito aqui fica um poema. Datado (1949 – até anterior ao verdadeiro surto de povoamento colonial em Moçambique), na forma e no conteúdo. Esgota o mundo? Não. Mas é muito significativo – e não só pelo seu final.
[Noémia de Sousa, Sangue Negro, Associação dos Escritores Moçambicanos, 2001]
Patrão
Patrão, patrão, oh meu patrão
Porque me bates sempre, sem dó,
com teus olhos duros e hostis,
com tuas palavras que ferem como setas
com todo o teu ar de desprezo motejador
por meus actos forçadamente servis,
e até com a bofetada humilhante na tua mão?Oh, mas porquê, patrão? Diz-me só:
que mal te fiz?
(Será o teu eu nascido assim com esta cor?)Patrão, eu nada sei … Bem vês
que nada te ensinaram,
só a odiar e a obedecer …
Só a obedecer e a odiar, sim!
Mas quando eu falo, patrão, tu ris!
e ri-se também aquele senhor
patrão Manuel Soares do Rádio Clube …
Eu não percebo o teu português,
patrão, mas sei o meu landim,
que é uma língua tão bela
e tão digna como a tua, patrão …
No meu coração não há outra melhor,
tua suave e meiga como ela!
Então porque te ris de mim?Ah patrão, eu levantei
esta terra mestiça de Moçambique
com a força do meu amor,
com o suor do meu sacrifício,
com os músculos da minha vontade!
Eu levantei-a, patrão
pedra por pedra, casa por casa,
árvore por árvore, cidade por cidade,
com alegria e com dor!
Eu a levantei!E se o teu cérebro não me acredita,
pergunta à tua casa quem fez cada bloco seu,
quem subiu aos andaimes,
quem agora limpa e a põe tão bonita,
quem a esfrega e a varre e a encerra …
Pergunta ainda às acácias vermelhas e sensuais
como os lábios das tuas meninas,
quem as plantou e as regou,
e, mais tarde, quem as podou …
Perguntas a todas essas largas ruas citadinas,
Simétricas e negras e luzidias
quem foi que as alcatroou,
indiferente à malanga de sol infernal …
E também pergunta quem as varre ainda,
manhã cedo, com a cacimba a cobrir tudo …
Pergunta quem morre no cais
todos os dias – todos os dias -,
para voltar a ressuscitar numa canção …
E quem é escravo nas plantações de sisal
e de algodão,
por esse Moçambique além …
O sisal e o algodão que hão-de ser “pondos” para ti
e não para mim, meu patrão …
E o suor é meu,
a dor é minha,
o sacrifício é meu,
a terra é minha
e meu também é o céu!E tu bates-me, patrão meu!
Bates-me …
E o sangue alastra, e há-de ser mar …
Patrão, cuidado,
que um mar de sangue pode afogar
tudo … até a ti, meu patrão.
Até a ti …
jpt


7 comments ↓
Não conhecia este poema e é impressionante a verdade que nele se contém
A propósito também de um livro, “EM NOME DA PÁTRIA”, de Brandão Ferreira, Tec-Aviador Ref., também por coincidência lhe deixei um poema de Noémia de Sousa.
Assim:
(Ao Sr. Brandão Ferreira)
DESCOBRIMENTO
Ao J. Mendes)
Quando a tua mão macia e serena de branco
se estendeu fraternalmente para mim
e através Índicos de preconceitos
apertou com carinho meus dedos mulatos enclavinhados;
quando teus olhos inchados de compreensão
pousaram no mapa doloroso do meu rosto de África;
quando a piroga do teu amor e fez ao mar
e veio aportar ao meu peito ensangüentado e céptico;
ah, quando a tua voz doce e fresca como um lanho
me trouxe a bandeira branca da palavra “IRMÔ,
é que eu senti, profunda como um selo em brasa
verrumando a carne,
a força terrível e única do nosso abraço fraterno,
a inquebrantável cadeia das nossas mãos enfim juntas,
a indestrutível resistência da muralha erguida
por nossas maravilhosas juventudes unidas.
Ah, amigo, quando a tua mão certa e serena de branco
procurou o desespero da minha mão sem rumo…
(NOÉMIA DE SOUSA)
Poesia Africana de Língua Portuguesa
Antologia
Livia Lapa
Arlindo Barbeitos
Maria Alexandra Dáskalos
(transcreveu: umBhalane)
Posted by: umBhalane | 29/10/2009 at 21:54
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2009/10/em-nome-da-p%C3%A1tria-de-brand%C3%A3o-ferreira-1.html#comments
JPT,
Presumo que esta entrada seja tua (esqueceste-te de assinar) mas o estilo é inconfundível.
Sem tempo para grandes comentários, já que estou ‘agarrada’ ao colonialismo e ao seu (a)pós (Ai que isto ainda vai dar polémica
Como bem dizes, reunir histórias de vida não implica simpatia pelo que elas nos narram em tom justificativo (simpatia será a minha terminologia, deixo o respeito moral e político de fora, para já!) mas implicará sempre a nossa atenção, nem que seja para vomitar de seguida.
A auto-representação apresentada no ‘Forever Pemba’ é, enquanto objecto de análise, um excelente material de trabalho, mas nunca terá a minha simpatia pessoal.
Já o poema (fantástico) poderá ter a minha simpatia, mas enquanto relato histórico deverá ser colocado no mesmo patamar de análise e ter exactamente o mesmo valor das histórias que me fazem vomitar.
Várias vozes fazem a história…como já referi algures neste blog, repudiar a história é abandonar o presente. Negá-la é destruir a possibilidade de construir um futuro.
Há quem o faça e só nos cabe analisar esse facto (com mais ou menos simpatia).
Belissimos os dois poemas! Nada mais tenho a acrescentar as opinioes de JPT e VA que subscrevo.
1. 1B obrigado pela partilha, complementar, do poema de Noémia de Sousa. Permita-me, porque me parece explícita a vontade de contraposição ainda que não escrita, citar a minha entrada: “Não esgota o mundo? Não. Mas é muito significativo – e não só pelo seu final.”
2. VA, só para sublinhar a minha concordância, que me parece já estar contida no tom do meu texto (e anteriores), contigo no afirmares que o poema “enquanto relato histórico deverá ser colocado no mesmo patamar de análise e ter exactamente o mesmo valor das histórias”.
Frisei vê-lo datada, em forma e conteúdo. Diga-se que o meu apreço pela poetisa é mais documental do que outro (meu gosto, minha estética, se quiseres).
Mas há um ponto que me parece importante neste poema-documento, mais do que o denuncionismo que lá está. É o facto de indicar um conjunto alargado de características estruturais do modelo colonial – permeadas pela multiplicidade de práticas, como as indicadas no poema que 1B convoca, multiplicidade essa que nos acompanha, aqui no ma-schamba, nestas charlas sobre a virtude de serem estas histórias colectadas, transmitidas. Mas essa multiplicidade (a qual em registo auto-biográfico é muito selecccionada, filtrada) não deve servir – como sistematicamente surge – como um véu sobre as estruturas coloniais.
(e sim, tinha-me esquecido de assinar, obrigado pelo aviso)
Bom fim-de-semana
Dado que hoje estou numa onda “Epitetiana”, gostava de adicionar as seguintes frases que ele escreveu há dois mil anos:
1.”É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.”
2.”A felicidade e a liberdade começam com a clara compreensão de um princípio: algumas coisas estão sob nosso controle, outras não. Só depois de lidar com essa questão fundamental e aprender a distinguir entre o que você pode e o que não pode controlar, é que a tranquilidade interna e a eficácia externa se tornam possíveis.”
Nessa base, torna-se enfadonho argumentar na base do epíteto e do politicamente correcto.
Onde é que estava Noémia quando ela escreveu o que escreveu?
JPT
Contraposição?!
De modo algum.
Mera coincidência, apenas.
Noémia como recurso para “ilustrar” 2 perspectivas diferentes.
Como verificou a contraposição foi ao Sr. Brandão Ferreira, à sua visão bélica (com a ressalva de ainda não ter lido o livro).
Nem tudo o que de mim sai, são scuds.
Às vezes, também versos de autores.
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