Nunca fui a uma tourada. Pouco me dizem, mas nada levo contra. Já o mesmo não digo dos seus adversários. Gente de patacoadas, de pequenos frissons. Como não, se num país (num mundo) onde se engordam as aves como se engordam, se alimentam os mamíferos-carne como se alimentam, se transportam os bichos como se transportam, se zoologiza pequena minoria das antes “feras”, se destroem os rios a bem da falsa economia, se rebenta tudo a bem da construção, se esbanja para uma meia dúzia de hectares no sujo rio lisboeta e em outros de futebol e se deixam queimar os milhares de resto sem meios nem norte. Como não se num país do animal pato-bravo? Adversários de touradas? Para mim eram pasto de forcados, nada mais que ervas daninhas inconsequentes.
Largadas de touros? Ok, etnografia, festas populares e isso. Tudo bem. Mas nunca fui, nem na terrinha nem lá em Pamplona. E no tal Hemingway preferia as partes das bebedeiras e as histórias de impotências. Mas não seja por isso, nada tenho contra.
Há anos Barrancos. O poder, o Estado, sem saber o que fazer. Lá o povo do casal a exigir matar o touro, coisa cultural, coisa tradicional. O poder, o Estado a arrastar até ter que fazer. Resistência cultural, tradição comunitária (ninguém falou em folclore, sinal dos tempos). Então, e para não se cansarem mais nem terem que decidir (ah, o tempo de Guterres), respeito pelas especificidades culturais, atenção (e medo, e medo…) às resistências populares. Daí ao multiculturalismo e ao pluralismo jurídico. Excepção à lei, esta deixando de ser universal no país. Matem lá o touro e não chateiem, não prejudiquem o verão, não agitem as sondagens. Ainda que pluralismo jurídico, ainda que multiculturalismo comunitário, ainda que o direito à tradição (seja lá esta de que cimento for).
Eu, na altura, ainda que nada contra as touradas (não as assistindo), nem mesmo as de morte, ainda que nada contra as largadas (não as assistindo), ainda que festas populares, ainda que etnografia, ainda que folclores de alguns, direitos comunitários de outros, turismo para tantos, lá resmunguei em tempos de pré-blog. Era de chamar a GNR, traulitada à antiga. E, se em caso absurdo e até limite, munições reais. Leis diferentes? Segundo a tradição local? A tiro, a tiro, não tem o Estado o “monopólio da violência legítima”? Não é para isto?
Não, não é. Há que aceitar diferenças, multiculturas, histórias diferentes. “Não és tu antropólogo?” ainda me resmungaram.
Tá bem, sinal dos tempos. Ainda que tenha continuado a resmungar, tanta tradição agora proibida e também recuperável. Dar porrada nas mulheres, não partilhar a herança pelos filhos, não os levar à escola, fazer vinho carrrascão, as belas aguardentes bagaceiras, a agricultura sem limites administrativos, construir casas sem casa de banho, um sei lá mais o quê de costumes mais ou menos locais e não universais. E agora proibidos. Então aqueles alentejanos matam o touro e os outros não podem fazer o que séculos os ensinaram a fazer? Multiculturalismos? Respeito pelas tradições? As comunidades. E mais um bocado e lá viriam os cultos a falar de Herculano, o Alexandre, os municípios e isso.
Crucifixos nas escolas. Eu, é claro, desmontem-nos. A lei não é igual para todos? Não é essa “a questão democrática”, não é o não isso que periga a democracia, que invoca ditaduras sidonistas, perdão, sebastianistas? Sem ser à força claro, que ainda temos a Igreja e sua turba em polvorosa, mas tirem-nos. Com firmeza. Com repúdio pela violação da democracia, da igualdade, da constituição?
Tem moral a fábula (história de touros, não é?)? Nada adjectivável. Só gargalhável.

6 comments ↓
Caro JPT
Concorde-se ou não contigo, uma vez mais um grande post.
Barrancos, desde que foi “legalizada” e as TVs deixaram de dar o espectáculo de GNRs vs. populares, a assistência é agora menos de metade. Os toiros são em mesma quantidade só porque não sabem que já não terão os seus 15 minutos de fama. Se soubessem também deixariam de comparecer. Quanto ao crucifixo, simbolize o que simbolizar (eu sou cristão e tolerante - “perdoai-lhes senhor…”) ou exija a presença paralela da burka ou de buda ou um retrato pintado por Julio Pomar de Martinho Lutero, daqui a uns meses ninguém mais vai falar nisso. O futuro do meu país passa por coisas muito mais importantes. Um abraço.
Publicado por: Alves Fernandes (Pre para @s amig@s)
http://predatado.blogspot.com/
Se é para uns, é para todos! Viva o multiculturalismo (seja lá essa badana o que fôr…).
Mas, (eh pá agora esta mania de escrever à Lobo Saramago deixou-me os neurónios em coma histérico) ah! dizia eu, multiculturalismo quer dizer exactamente o quê? Isso tem um princípio? Tem um fim? Tem um correcto ‘modus faciendi’?
Será uma coisa assim a que modos de um proselitismo, mas ‘mais balofo’ que o das cruzadas porque paternalista?
Será um tolerantismo disforme, porque ao sabor de conveniências inconfessáveis?
Será filho de uma escala de valores ‘a la carte’? como diz o franciú.. o católico, aquele… sim! esse mesmo!
Cáspite! Mul-ti-cul-tu-ra-lis-mo. O que é isso?
Vamos ser menos inteligentes e mais comezinhos… um pouco mais boçaizitos sem caganças, portanto!
Pá! (não é excesso de ‘cófia’, é figura de estilo) sempre ouvi dizer ‘em Roma sê romano’. E isso faz-me todo o sentido (a mim que sou uma besta de terra de touros, atenção! enquanto forcado!… -é mentira, mas fica bem bem a um alentejano definir-se como ‘do Alentejo e homem de touros…- .
Acredito (cá está a minha provinciana mentecapciosa) que as fogueiritas de Paris são fruto de alguma forma do ‘multiculturalismo’ (entre aspas, claro) a que se chegou… Mais do género: -Tudo bem! OK, sejam lá diferentes aí nesse gulaguezinho pacholas c’a malta não se chateia.
Quero dizer: até que ponto o multiculturalismo não é uma forma de não integração? Um barreira?
E ainda te atiro esta: ao fim e ao cabo a aculturação (sim! sei que isto é politicamente incorrecto cum’ó caraças) não é mais justa, se houver educação, claro, do que o multiculturalismo da moda?
Como é que se insere numa sociedade um emigrante de 2ª geração com uma (aahhrgghhh) educação multicultural? Pomos o tipo a vender pizzas e hamburguéres aos 17 anos e despedimo-lo como ‘inempregável’ aos 22?
Lembro-me, a este propósito, que aí há uns tempos o Dalai Lama ’se passou dos carretos’ com umas daquelas californianas histericamente univesitárias e doentiamente à procura de um meaning para esta badana toda. O homem viu-se na obrigação de dizer mais ou menos que a melhor religião é a religião dos nossos pais, porque a vivemos, porque a sentimos, porque nos acompanhou enquanto crescemos…
Conta o Eça que a Rainha Vitória disse o mesmo a alguns sires e ladys que, sem mais nem quê, acharam que era cool converterem-se ao catolicismo.
Pá! o mesmo digo eu… Não vamos espetar c’os crucifixos no toutiço de nenhum Ali… mas porra!… Os para aí !!17 crucifixos 17!! já lá estavam antes da ‘lei da polémica’ ter sido aprovada.
Desculpa-me o tamanho da posta…
Um abraço,
Francisco Nunes
Publicado por: Planície Heróica
http://planicie-heroica.weblog.com.pt/
Pre, FN, abaixo já botei o que acho sobre isto: “Envelhecendo” e “Etnografia”, e também deixei ligação para texto do Canhoto e para uma animada caixa de comentários no Quase em Português onde também discuti esta questão. Acho que de todas (excepto no canhoto) se retirará a ideia que PD também deixa: as questões relevantes estão bem longe desta. Isto é uma mera excitação passageira, o bloguismo (e o meu também) cada vez mais é reactivo (o pessoal tem que escrever sobre alguma coisa para ir mantendo o blog actualizado). Como diz o insuspeito (até algo anti-cristo) food-i-do “Crucifixos: uma treta de polémica. Caguei para a ideia assim como sei que quase todos os não cristãos se estão a cagar para o assunto. Ninguém morre por ver um crucifixo numa sala de aulas, exceptuando Drácula.”
Bem, isso do multiculturalismo como explicação da França é só uma (eu liguei um texto no Office Lounging), ainda que mero excerto avançava outras ideias. De qualquer forma o multiculturalismo não é bem aquilo que a moda vem dizendo (e já dizia aquando Barrancos). Isto começa a ser uma enciclopédia mas sobre a questão houve recentemente (por causa das jacqueries) bons textos (eu liguei-os) sobre o tal de multiculturalismo no Canhoto (mais uma vez, o Pena Pires tem dado muitos e bons contributos para um bloguismo inteligente, ainda que sisudo) e no Os Tempos que Correm do Miguel Vale de Almeida [isto a propósito dessa questão do que é a badana]. Ou seja, FN, não me atira multiculturalismo à cara nada, acho que as leituras (e as práticas que o defendiam) eram, na maioria, bem intencionadas (infernais, não é?), mas mal (in)formadas. MAis uma vez padecendo do defeito do muito do “politicamente correcto”, falta de reflexão profunda, seja sobre fenómenos, seja sobre os principios
(presunção e água benta cada um toma a que quer, este “touros e crucifixos” tenta à minha maneira olhar para os princípios que tanta gente agita, furiosa e candidamente) - agora há uma coisa, os crucifixos devem sair das escolas. MAs, como é óbvio, daqui a uns dias (quais meses qual carapuça) ninguém se lembra disso. Até porque estas excitações não têm consistência, ecos do republicanismo dos avós (ou bisavós) à ceia de natal, nas rabanadas e aguardentes
Muito bom post. E belo. Só que é um destes que tenho de ler três vezes até poder achar que percebi tudo. (Uma das razões que não comento aqui é exactamente essa: demasiadas referências acessíveis só de quem a tua cultura - nos dois sentidos. Mas isso não é nenhuma queixa, claro.)
Descobri que concordo mesmo com tudo (que percebi do) que escreveste. Barrancos, o espanto e indignação que a lei não é imposta - não sendo a questão os touros mortos - o quase querer as munições reais, o cair em si, não só pela lembrança da proporcionalidade como pelos escrúpulos perante o arrasar a diversidade.
Hoje não são os tiros que arrasam a diversidade. Pelo menos já não na Europa. Mas está a ser arrasada na mesma. Com ou sem “muliticulturaismo”. Este, no fim, conta pouco. O que conta são as condições de vida, reais. (O meu materialismo.) Os jóvens magrebinos dos subúrbios franceses não se revoltaram por ter outra cultura, mas por perceberem que não tem nenhuma, nenhuma o que é o mesmo como ter uma que é generosamente concedida e não pode ser mais, por não poder ser raíz da sua vida real e quotidiano, do que folclore.
Assim, concordo também com o Filipe Nunes, mais vale uma aculturação, do que o multi-culti que não passa de ser uma atitude chique.
Tem no entanto o pequeno e provavelmente insuperável problema prático de que uma aculturação não se faz em poucos anos com milhões de migrantes.
Publicado por: Lutz
http://quaseemportugues.blogspot.com/
o multiculti é mesmo uma atitude chic. nos dias de hoje. impensamento. a aculturação pode fazer-se ou não, mas acima de tudo acontece.
não comentas aqui? vá lá. aqui que poucos lerão também vou dizendo que do que mais invejo no QeP, não só mas mais, são as playmates (que repertório!) e as salas de chat. aqui não há tanta animação
“[…]ecos do republicanismo dos avós (ou bisavós) à ceia de natal, nas rabanadas e aguardentes”
Gostei da imagem. Só acrescentava a este republicanismo as expressões ‘jacobino’ e ‘anticlerical’…
Um abraço,
Francisco (e não Filipe) Nunes
http://planicie-heroica.weblog.com.pt/
Publicado por: Planície Heróica
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