O que aqui se afirma é uma realidade.
E o silêncio em seu torno é demonstração de decadência.
Quando penso nisto lembro-me sempre de Braudel, um livrito excerto, “Bebidas y Excitantes” (acho que depois teve edição portuguesa), que abordava as grandes lutas económicas entre sul e norte, nos tempos de antes. E do como são actuais, com a devastação económica e cultural, com a destruição do gosto, a sul. Com a descivilização a sul. E o domínio dos bárbaros bebedores de aguardentes cerealíferas.
E lembro-me de Monchique, claro está.


6 comments ↓
Caro JPT, vou com frequência a Monchique em visita familiar e não sei se lá passou recentemente. A devastação das queimadas é deveras assustadora. Disse queimadas porque, na maior parte dos casos, os fogos foram provocados por intervenção humana. Sendo os medronheiros arbustos de geração espontânea, houve uma substancial redução da fruta disponível devido ao fogo e os preços da aguardante dispararam. Felizmente há quem esteja a efectuar plantações nas suas propriedades. O silêncio em relação a este produto é idêntico a tantos outros exemplos de produtos tradicionais portugueses, com características únicas a que ninguém liga, quer em termos de dinamização da produção, quer em termos de marketing nacional e internacional. É mais fácil importar ou fazer igual aos outros…
Abraços
Publicado por: José Paulo às novembro 11, 2005 02:32 PM
não vou lá há alguns anos. nem quero, assisto de longe às imagens que o dizem destruído. de monchique, e lembrar-se-ão alguns poucos leitores deste blog bebi a melhor bebida do mundo, um medronho envelhecido como deve ser, coisa hidromel, aliás verdadeira ambrósia que nos fazia deuses.
a questão vem por modismos, é certo. mas vem também de lutas seculares entre aguardentes viníciolas e cerealíferas. hoje, no mundo da industria e tecnologia, pareceriam ultrapassadas - msa quandoo entramos na entao CEE logo cairam os impostos sobre o whisky, logo tornada A bebida, e foram proibidas e/ou desvalorizadas as aguardentes vinicolas. permanencias nas lutas economicas e seus reflexos nos valores
quem oferece uma aguardente aos convidados? quem paga uma rodada de aguardentes? quem põe gelo na aguardente? enfim, pobrezas de espirito nascidas do que se pensa “que deve ser”
Publicado por: jpt às novembro 11, 2005 02:41 PM
Caríssimo! apenas uma correcção: lembro-me de miúdo - ainda nem os animais falavam pela CEE - dos cafrealíssimos uisquis afogados em quilos de gelovestidos de balalaica e com o mata-moscas na mão para afugentar os insectos do fim de tarde tropical. Já na altura era A bebida!
Fora isso, teremos sempre este balanço entre Baco e Dionísio!
Publicado por: fc às novembro 12, 2005 03:52 AM
o carissimo amigo tem toda a razão. aqui este inveterado (e por vezes até invertebrado) bebedor de aguardentes cerealíferas naõ desconsidera essas bebidas menores (a vida é feita de menoridades), nem tão pouco as considera brotadas nos idos de 86 (como aliás a tentativa de erudição acima agitada explicita). o que se pretende aqui referir é que o envolvimento confederacional implicou que em troca da Ajuda Pública ao Desenvolvimento, vulgo cooperação, perdão Fundos Estruturais, [o amigo leitor conhece a terminologia?] se vincou uma visão/política de desvalorização dos bens civilizacionais mediterrânicos (aguardentes vinícolas, vinhos) em favor de semi-bens “civilizacionais” do norte germânico-eslavófilo, cevada fermentada e cereais destilados. Já vinha de trás, de séculos, aprimorou-se.
Nesta plural machamba, ma-schamba claro, defende-se a coexistência, dita cosmopolistismo. Apenas isso. Muito isso.
E o amigo beberá uma sura, um tontonto, uma nipa um dia? Ou negar-se-á?
Pois nestas machambas morra quem se negue
Negar-me nunca, caríssimo (pelo chapéu,ao que ouço, merece este tratamento)! Aliás, fala quem se vê olhado de soslaio nos bares da moda quando pede a sua vinícola e não o destilado… Que aprecio quando é bom como todas as coisas quando boas!
Serve isto só para dizer que o problema não é de ápêdês nem de fêdéres. Antes de gosto, senso e, já agora, de sensibilidade!
Tenha eu a guia marcha e cobrar-lhe-ei, caríssimo, esses suras, tontontos e nipas para enriquecer o arquivo dos paladares. Veja lá se se corta!
Publicado por: fc às novembro 13, 2005 01:30 AM
Está a adega climatizada, expectante
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