Cidadania-clic

No facebook é frenética a utilização da “aplicação” “Causas”. São às dúzias, o elogio dos percebes, a salvação dos golfinhos, a alimentação das crianças africanas, o apoio às ONG’s (normalmente católicas) e aos departamentos mais “descentralizados” da ONU, e até a vigorosos grupos anti-doenças cancerosas e respectivas metástases … Ser cidadão de corpo inteiro está agora ao nosso alcance, em troca de algumas dezenas de clics. É a cidadania-clic.

Acho muito bem. Existindo as redes sociais para prover à boa disposição é normal que a esta acedamos por via da solidariedade virtual. Nem acho inútil toda esta clicadela global – pois será que tudo no mundo terá que ser “útil”? Nem tampouco vejo a via clicante como perfídia alienante, afastando as pessoas da efectiva acção. Pois não creio que na ausência do cliquismo pró-boascausas as pessoas fossem actuar de um qualquer outro modo. Como tal, tudo bem quanto a esta “Age of Clic“!

Ainda assim há dias por resmunguei, cansado com os avisos para que apelasse ao presidente dos EUA para apoiar a causa tibetana durante a sua recente visita à China. Acontece que sou português, não tenho que andar a pedir ao presidente americano para tutelar as “minhas” causas e, muito menos, torná-lo meu representante. Nada tenho contra Obama – homem de mérito, bem acolitado pelos seus “directores de fé” (ainda que alguns um pouco racistas, e logo contra os brancos para meu azar), bom pai (as duas meninas lindas e muito bem educadas, discursando com qualidade na conferência democrática, uma profundidade política assinalável, bem para além do teleponto). E ainda por cima mulato – uma fantástica qualidade moral, intelectual e política, ainda que me pareça que o próximo presidente americano venha a ser um pouco mais pálino, coisa que não me encanta, digo-o. Nada contra Obama, repito, nem contra o seu país (pátria deste homem). Apenas não é o meu presidente, nem meu representante, coisa que a internetização multiplicada pela obamização tem feito esquecer a muito boa gente (ainda que haja por aí muita “pública obamice, privada ahmadinejadice“).

Pois logo essa minha recusa à cidadania-clic, um atrevimento “careta” vs “The Age of Clic”, implicou a convocatória. Somos cidadões do mundo (desta aldeia global, perdão, desta rede social), temos que agir como tal. A China é colonialista? Ocupa o Tibete? Cliquemos ao “nosso” presidente, “estamos juntos”. Recuso-me? Estou em défice.

Nas coisas da nossa freguesia, dos nossos representantes? Aí já não é preciso ser cidadão do mundo, utente da rede social, aliás eles são tão pouco influentes, para quê incomodá-los, incomodarmo-nos? A nossa junta de freguesia apoia declaradamente a ocupação do Tibete nosso vizinho? Não ligamos. Aliás, não clicamos.

Apenas votamos. Não no Obama. Votamos nestes nossos. E depois, todos lampeiros, vamos clicar alhures. Sem perceber que em cada clic menos somos.

“Porreiro, pá!”

jpt

15 comments ↓

#1 AL on 11.23.09 at 23:57


Hmm acho que houve aqui um mal entendido JPT. Cada um e livre de escolher as guerras em que quer lutar, mas tambem acho que nao deve ser a geografia a delimitar o campo de batalha. Pessoalmente confesso um cepticismo crescente nas ditas boas causas humanitarias; talvez ja tenha ajudado a abrir demasiadas caixas de pandora e tenha visto muitas vitimas viarem carrascos. Ou talvez tenham sido estes ultimos 15 anos a trabalhar na industria da pobreza. Seja la a razao qual for, a minha capacidade de “engagement” parece diminuir ao ritmo do crescimento do meu cepticismo…

#2 Zé Paulo on 11.24.09 at 0:33


Esta questão de clic’s em certas causes de algumas causas nobres já fez algo. Ao contrário de afastar-nos de posicionamentos mais efetivos, afastando-nos de ações de facto, não afastou com toda a certeza aqueles que se envolvem mais efetivamente de certas causas como também trouxe para debate um tema que não é, ou não deve ser, tão supérfulo assim. Já estamos ganhando só por aqui estarmos a falar do assunto.
Por outro lado, o tal clic que deu motivo para este debate, não tem nada a haver, no meu ponto de vista, claro esta, com o de cobrarmos posicionamentos de presidentes de outros, e sim cobrar um posicionamento de um presidente de uma ainda potencia que é a USA nestes assuntos internacionais, e que ainda sendo ele um Nobel da Paz não se posiciona claramente sobre a questão do Tibete. Talvez grande parte de quem ali clicou esteja mesmo decepcionado, o que não é o meu caso pois nunca achei que o Obama era ou é o “cara”…talvez a maioria que ali clicou, como foi o meu caso, esteja batendo no Presidente Obama, que queiramos ou não, como presidente dos USA tem sim influência nas nossas vidas e no restantes das vidas deste planeta.

#3 AL on 11.24.09 at 0:51


Hear, hear!

#4 jpt on 11.24.09 at 1:21


1. Cito-me, porque me parece que não foi explícito: “Nem acho inútil toda esta clicadela global – pois será que tudo no mundo terá que ser “útil”? Nem tampouco vejo a via clicante como perfídia alienante, afastando as pessoas da efectiva acção. ”
2. Referencio-me porque idem: a verborreia causística é eunuca
3. Completo-me: isto de um cidadão andar a fazer apelos a que um político eleito de um outro país tenha acções bilaterais é explicitamente o esvaziar (“alienação” é uma velha e óptima palavra) do seu sistema político.
4. Atrevo-me: se é para protestar com práticas coloniais e com os apoios e silèncios que elas provocam então nada melhor (vide elos in-post) que canelada nos meus (sublinho, MEUS) representantes, naqueles que eu elegi (E não é uma parvoíce nacionalista, é a substància do poder democrático, quem vota é representado)

Em adenda: a minha “relação” com Obama é simples – é o presidente de um grande (enorme) país democrático, para o qual as democracias e os democratas tèm uma enorme dívida (sim, eu sei que quando o Tocqueville escrevia loas eles exterminavam os índios e enquanto combatiam o comunismo apoiavam os videlas todos -a historia é bem complexa e suja). Sim, é fantástico que em quarenta anos se passe de um KKK para um presidente mulato. Ainda assim preferia o McCain (o Clint apoiava-o; e não tinha nem directores de fé nem falava com o Espirito Santo ao fim da tarde enquanto bebia(m) chá, como a Hillary. Aliás, a ideia de que a ministra dos negócios estrangeiros americana conversa com o Espírito Santo assusta-me um bocado quando se tecem loas à influència dos EUA no mundo)

#5 Zé Paulo on 11.24.09 at 2:55


1- Penso que foi sim explicito, inclusive ao deixar claro na sua visão que não é este o conceito, de não inutilidade total, que voce buscou reforçar no seu post.

2- Não aceitar na argumentação que não se está a falar de qualquer um, no tema em questão, quando se questiona o Obama, ou outro qualquer presidente americano em tempos atuais, ainda mais tratando-se neste caso de um Nobel da Paz, é não querer deixar agregar ao contra-argumento um posicionamento no minimo razoável… se por ventura não quizer concordar plenamente…

#6 ABM on 11.24.09 at 19:10


JPT

Permite-me elogiar o vídeo acima. Cinco estrelas. A música é marcante na minha vida e ainda por cima sou do mesmo signo. Bom som de fundo para a leitura.

Pois eu acho estes esforços internéticos quase perfeitamente inúteis mais pela sua inconsequência e falso sentido de se ter feito alguma coisa pelo próximo. É na melhor das hipóteses uma mais ou menos simpática declaração pessoal de intenções, feita em nossas casas no computador, sentadinhos no conforto quentinho das nossas vidinhas de classe média, média-alta, entre o fim de um dia de trabalho, um jantar utilitário e um serão que inclui algum diálogo electrónico entre gente de carne e osso com alguns interesses em comum (como é este espaço).

Dá a sensação de se ter feito algo apesar de nada se ter feito. Apazigua a consciência social com meia dúzia de toques de teclado. Já se dorme um bocadinho melhor, sendo esse, para o menos avisado, se calhar um benefício real.

Discordo amigavelmente em relação ao Obama ou a qualquer outra pessoa: faz parte do exercício da tua liberdade escreveres a quem quiseres e dizeres o que quiseres, seja a políticos, padres, arquitectos ou ao vizinho do lado. Eu que conheço os EUA um bocadinho melhor que tu posso-te afirmar com alguma certeza que, se escreveres uma carta dirigida ao Presidente Obama (Endereço: White House, 1600 Pennsylvania Avenue, Washington, DC, EUA) e a mesma carta dirigida ao Presidente Cavaco Silva, no primeiro caso receberás uma resposta, não sei se, mesmo sendo o “teu” presidente e essa história toda, receberás uma resposta de Belém. Mas em qualquer dos casos será um exercício inútil, mais no caso do teu, que não é executivo enquanto que o outro é.

Vivemos numa era de massas: democracia de massas, imprensa para massas, comunicação para massas, e tudo a uma rapidez que quase torna a nossa ritualista participação através do voto num voto cego em alguém que depois usa o “mandato” para fazer quase o que quiser. Em muitos sentidos, a democracia é uma ditadura em que periodicamente ajudas (vagamente) a decidir quem vai mandar a seguir. Em Portugal só para presidente é que podes escolher a pessoa, no resto é um jogo de percentagens em que os partidos põem lá os ilustres que quiseres – e sobre os quais nem tens a chance de perguntar o que é que o senhor pensa sobre o Tibete (e o mais provável é, se tiveres a chance de perguntar, ele ou ela pensar que é um restaurante novo na zona).

#7 Ana Leao on 11.24.09 at 20:45


A mim parece-me que estamos todos mais ou menos de acordo excepto na relevancia da intervencao do Obama ou qualquer outro presidente americano for that matter. Reconhecer que decisoes tomadas nos EU podem ter repercursoes a nivel global nao e’ o mesmo que tecer loas a influencia que putativamente possam ter. Ha muita coisa que me assusta nas politicas americanas, sejam elas inspiradas ou nao pelo espirito santo, mas reconheco que em termos de influencia os presidentes americanos batem qualquer outro aos pontos. Sou parcial em relacao ao Obama – gosto do man! Gosto da sua retorica, gosto dos valores que esta a trazer para dentro da politica, gosto do facto de poder quica depender menos de lobies pois teve uma campanha maioritariamente financiada pelo ze povinho dos 2 dolares aqui e 5 dolares ali, gosto da sua boa figura, gosto dos seus discursos… gosto dele p…a! Dai a ver nele um messias vai um passo muito grande e que nao estou disposta a dar. Reconheco o peso dos EU em termos de politica mundial e acho mesmo que todos os cidadaos do mundo deveriam ter direito de voto nas eleicoes americanas – afinal eles tomam decisoes que acabam por nos afectar a todos e seria justo que todos tivessemos alguma voz nessa materia…

#8 ABM on 11.24.09 at 21:01


Depois do Reagan (pela positiva) e do Bush II (pela negativa) deixarei avaliações de presidentes norte-americanos para depois do mandato…

#9 AL on 11.24.09 at 21:20


JPT estas com artrose nos dedos ou com gaguez digital? Ja e’ a segunda entrada que acab

#10 jpt on 11.24.09 at 21:24


ZP/ABM – entendamo-nos, eu também acho que somos livres de escrever a quem quisermos. E que não é “incorrecto” escrever a quem quer que seja, para mais o presidente de um país democrático (ou seja, um tipo que tem poder porque foi eleito). O que acho, e aqui a minha condição biográfica sendo diversa da vossa (presumo, no caso do ZP, sei no caso do ABM) alimenta a minha reflexão de modo diverso, é que esta “estadounização” da reflexão (a febre obamista ou bushista nos jornais e blogs nos últimos anos é disso exemplo) tende a esvaziar os campos políticos nacionais. Concordo convosco (e com a AL) que tentar que o presidente americano faça algo por algo será mais efectivo (caso ele o faça) do que se for o presidente da Galiza. E que há campos em que seja Obama ou (ainda será o Fraga Iribarne?) o tipo de Vigo são interlocutores adequados – mas, e pela última vez aqui o repito, a histeria portuguesa a “escrever para” o Obama paralela ao esquecimento com o “falar com S. Bento ou Belém” significa um inconsciente desistir, por melhor que sejam as causas.

ABM eu também sorrio à clicadela generalizada, e também me parece que tem como efeito a perda de efeito das causas, petições e isso tudo (o ZP refere que algumas tiveram efeito, e com toda a certeza, e acredito que algumas ainda o venham a ter). Mas isso não é em absoluto negativo pois representa uma outra coisa – se antes os signitários (ou signatários?) costumavam ser “influentes” cidadãos (intelectuais, elite económica) nas últimas décadas – e não falo de Portugal – a democratização social implicou a generalização do direito à assinatura, à petição, e portanto à multiplicação destas (até histriónica). Por um lado isso reduzirá o efeito das propostas, mas por outro significa a tal muito salutar democracia social, o esbatimento de hierarquias.

AL quanto a Obama não puxo da pistola: a) o ser mulato é muito interessante no campo da democratização da sociedade americana e dos seus reflexos no mundo, e isso é óptimo; implica, apesar dele, uma vaga de revanchismo racialista e até racista – qualquer tipo que viva em áfrica sabe isso. Mas espero que isso passe em função de uma desracialização futura; b) parece genuinamente (para além do teleponto) interessado num conjunto de questões interessantes – segurança social (onde é muito “europeu”, o que só lhe fica bem), ecologia, etc. c) E, sua qualidade fundamental, não é George W. Bush.

Aquilo que “nele” me irrita (para além da “rainha africana”, dos pastores racistas e das filhinhas nas conferèncias) é a obamização provocada alhures, em particular no meu país. Será relativamente irreponsável dessa maluquice. Mas a adesáo inintelectual dos estrangeiros a um candidato americano (e que estrangeiros, muitos são os mais reaccionários dos neo-comunistas) faz-me alguma comichão

#11 jaime on 11.25.09 at 0:27


Companheiros, adorei o video.
<e estou de acordo em existir instituições de caridade.
O mal é não se ensinar a pescar. Em vez de se estar a dar o peixe.

Provérbio chinês " Julgo eu" se estiver errado me corrigem. : "Não dês o Peixe ensina-o a Pescar"

#12 ABM on 11.25.09 at 1:04


JPT

Realço, da tua nota, um aspecto: a relativa curiosidade cultural/racial de que, na lusofónica cultura, Barack Obama é visto como mulato. Mas que, para os americanos, ele é “black”.

Nos primeiros anos de vivência americana, lembro-me que os portugueses durante anos foram considerados “hispanic”. E mais tarde “white non hispanic”. E que os nossos brothers Cabo-Verdianos, que até dois anos antes eram portugueses, depois passaram a ser considerados “africans”.

Vá lá um tipo entender isso dos rótulos.

#13 jpt on 11.25.09 at 1:20


eu sei que ele é “afro-american”. E que em África, contrariamente aos locais filhos de um progenitor de ascendència europeia, também é “negro” (ou “black”). Mas escrevendo eu em português, e não sendo contratualmente obrigado a aceitar as desvairadas categorias raciais dos EUA (uma-gota, não é assim?), utilizo o conceito que a minha língua e a minha história conceptual tem para caracterizar racialmente (queira lá isso dizer o que queira) o indivíduo.

#14 AL on 11.25.09 at 1:26


Jaime, correndo o risco de soar professoral tem razao: trata-se de um proverbio chines e a versao exacta e’: da’ um peixe a um homem e das-lhe comida para um dia; ensina-o a pescar e das-lhe comida para toda a vida. E agora correndo o risco de soar insensivel, nao acho que esteja assim tanto a favor das instituicoes de caridade, ou como se diz hoje em dia, instituicoes de solidariedade social (esta e’ para os rotulos do ABM). Nao me interprete mal; eu percebo que tenham a sua funcao mas assusta-me a capacidade destas instituicoes para se perpetuarem a si mesmas…

#15 Zé Paulo on 11.25.09 at 2:37


Passei aqui rapidamente, pois já não é cedo mas o dia hoje ainda não acabou para mim…`
Não consigo é deixar de dizer que adorei ler o que por aqui se escreveu, com as devidas distancias e sintonias de argumentos e visões pessoais.

Rótulos…xiii…rótulos…como isso faz mal!

JPT, é claro que só posso concordar consigo sobre uma incoerencia se buscamos “falar” mais com presidentes de outros países do que com os nossos.

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