Casamento

Sobre o casamento unissexual (ou homossexual) em Portugal já nos alvores do ma-schamba me fartei de escrever. Honestamente hoje em dia interessa-me menos isso do que aquilo que sobre o assunto se vai dizendo. É um barómetro. Do que vai sendo dito. Do como vai sendo dito. E do que valerão as opiniões quando sobre outras matérias.

O bispo do Porto defendeu um referendo sobre a nova legislação. Alguns blogs (perdi-lhes a ligação, até entediado) logo se levantam contra o facto da igreja católica se imiscuir nos assuntos administrativos. O tribunal europeu dos direitos humanos manda tirar os crucifixos das escolas em nome da liberdade de culto e a mesma mancha blogal apoia. Entenda-se, liberdade de culto implica não haver símbolos religiosos alheios (cristãos) nas escolas – mas muito provavelmente implica também a liberdade de utilizar símbolos religiosos próprios (não cristãos), como cada vez que uma petiza agita um véu diante de um contínuo vilmente europeu se nota na tal mancha blogal. E liberdade de culto significa também que os católicos, e sua hierarquia, têm liberdade para falar mas lá dentro das igrejas, capelas e sacristias. Que sobre a sociedade nada devem opinar. Claro que contrariamente a quaisquer crentes em outras religiões, e respectivas hierarquias, sempre defendendo as injustiçadas minorias.

Mais, isso de a “instituição” igreja opinar sobre a sociedade é, até, inaceitável. Como se vê aqui: “Claro que se trata, de novo, de tentar que o Estado, as “Instituições” e o colectivo interfiram de forma inaceitável em comportamentos, decisões e opções meramente individuais.”. Entendamo-nos: o casamento que é uma instituição social, cujos múltiplos conteúdos contratuais são enquadrados pelas instituições estatais de modo sufragado pelo colectivo (pela sociedade) não deve (sublinhe-se o “não deve”) ser interferido pelas instituições estatais nem pelo colectivo (sociedade).

Em tempos foi muito difícil ser ateu. Por causa dos católicos (e outros), das suas perseguições, das suas fogueiras – com ou sem garrote, literais ou metafóricas. Hoje é muito difícil ser ateu. Por causa dos ateus. Por causa disto tudo …

jpt

5 comments ↓

#1 AL on 11.06.09 at 11:27


Pois… eu percebo e nao percebo muito bem a polemica. Do ponto de vista juridico o casamento nao passa de um contrato entre duas partes, onde se regulam deveres e obrigacoes. Nao vejo portanto que tal contrato nao possa ser celebrado entre quem assim o quiser… A Igreja tem toda a legitimidade para se opor a celebracao RELIGIOSA de tal contrato, mas nao pode estender a objeccao a toda uma sociedade multi religiosa e multi cultural. E ja agora, porque nao a poligamia?

#2 jpt on 11.06.09 at 11:55


Então a Igreja não opinar sobre … droga, canibalismo? Juros bancários ou construção civil. Estado das maternidades ou dos cemitérios? Ou só pode opinar sobre tais questões na sua dimensão religiosa? Tipo, não se devem comer os outros seres humanos aquando nas imediações das capelas mas tudo bem a partir dos 150 metros?

A igreja pode opor-se ao casamento e sobre isso falar. Tem liberdade para isso, e existe para falar sobre os assuntos terrenos. O que não pode é impor a proibição – e essa “pequena” diferença é a diferença entre o terrorismo dos prides parades guevaristas (ou socratistas de pacotilha) e os democratas. Ou, para falar bem e depressa, entre o mínimo de decência e a radical desonestidade

#3 AL on 11.06.09 at 11:59


opinar pode e deve; o seu rebanho e isso que espera dela e pode ate opor-se a celebrar o casamento unisexual na igreja. Nao pode e, como dizes, impor essa oposicao…

#4 jpt on 11.06.09 at 14:44


Pois mas o que os “defensores da liberdade de culto” actual querem é que a igreja fale dentro de sua casa sobre os seus assuntos, circunscrevendo-lhe a possibilidade opinativa. Isto é totalmente inenarrável, contrário a qualquer princípio democrático. E a palhaçada retórica continua, cheia de arrogância. Não há saco …

#5 Auto-elogio | ma-schamba on 11.07.09 at 19:28


[...] o ecoar aquilo que já não lembro onde li. Ainda assim estou, privadamente, muito ufano daquela “Mancha Blogal” que me ocorreu. Ok, ninguém notou, se calhar já leram em (muitos) outros sítios. Ainda assim vou [...]

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