Manchester City-Charlton, do 1-0 ao 3-1 terão sido uns vinte minutos enquanto pouco-almoço tardio em pós-grande piscina. Se já 3-1, e eu pouco atento, então zapo e na RTP-I, essa do meu Estado, em directo de Fátima, uma entrevista a um cidadão português que se auto-proclama mais-que-todos-os-outros, Duarte Bragança de seu nome. Ele ali, sob que critério nunca sei, bem como tantos outros da televisão pública, todo o dia acompanhando o caixão dessa antiga pastora Lúcia. Um concentrado da indigência, da indigência estatal, da demissão radical.
Que as pessoas acreditem na religião, pronto, que fazer? Que acreditem num deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que esse tal deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem engravidou, por meios espirituais, uma mulher judia há uns milhares de anos, pronto, que fazer? Que acreditem que um judeu qualquer era “filho”, germinado, de um deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que desde então essa senhora, Maria, entretanto falecida, se dedique a acompanhar e a visitar este vale de lágrimas, pronto, que fazer? Que acreditem que, entre as centenas ou milhares de vezes que se diz que a tal senhora apareceu às pobres gentes, algumas são verdadeiras e outras não, pronto, que fazer? Que acreditem que uma dessas verdadeiras aparições da entretanto falecida mãe-virgem do filho do deus construtor mais-ou-menos-à-imagem-do-homem foi aos três pobres patetas indigentes em Fátima em 1917, pronto, que fazer? E que as pessoas desde então se juntem em Fátima, umas de rastos, umas de rojo, outras como muito bem querem, porque as tais criancinhas, contrariamente a tantas outras, viram mesmo a tal senhora fantasma, mãe virgem do filho do tal deus contrutor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Eu posso desprezar profundamente, e desprezo, os aldrabões do clero que promovem estas crendices mais rasteiras, mas pronto, que fazer?
Agora que a tv do meu Estado, laico, laico, passe um dia a transmitir o transporte do caixão de uma velha freira, enquanto apela explicitamente (”estamos a transmitir para todo o mundo”) a que a igreja católica promova a pobre velha lá na sua enciclopédia dos mortos ilustres, já fia mais fino. Que a tv do meu Estado, laico, dê entrevista neste contexto, como se reforçando a tralha, a um pobre homem que se entende mais-que-todos-os-outros, a ele legitimando e não contrários, isso fia mais fino.
Isto é um concentrado de indignidades, um compêndio de imbecilidade? Não só, isto é um projecto, explícito, pensado. Tem causa e causas. Que os pobres crentes acreditem naquelas-tralhas-todas tá bem, que fazer?, pobre gente procurando coito. Que o meu Estado promova tamanha indigência, que passe da notícia ao apoio, então há que fazer. Afrontar de imediato essa cáfila de obscurantistas. A tralha das crendices. E também a tralha monárquica, sempre lá atrás aquando destes estercos.
Há, definitivamente, que impor limites a esta ditadura do multiculturalismo, do relativismo. O facto de pobres gentes seguirem estas crendices, o facto de más gentes promoverem estas crendices, não é razão para que um Estado laico as aceite, as promova, se torne ele próprio arauto de crendices, negue a sua história e a sua doutrina.
Urge a demissão dos responsáveis da rtp. Obriga-se a queda do seu responsável ministerial. E, ou será demais?, exige-se uma desculpabilização do seu responsável-mor.

6 comments ↓
Nem a propósito. Prometo não chatear mais, mas tenho estado aqui ao pc a últimar umas coisitas teóricas eheheheh e vim cá colocar o nariz. Andava eu á volta de Taylor e com esta pergunta de principiante: Como é que havemos de analisar hoje a religião? Se a virmos à luz de Tylor, que a colocava num plano de conforto moral, no séc. XIX, uma vez que a ciência tinha destronado o seu carácter explicativo, ficamos aliviados. Mas quando as intromissões já chegam à modernidade da nossa laicidade? Estalada!!! Só estalada! eheheheh Até apetece achar que o islão é uma religião.
Publicado por: vanrose às fevereiro 19, 2006 06:32 PM
a pergunta, como analisar a religião, é muito pertinente. mas aqui eu não analiso religião nenhuma (ainda que “pobre gente à procura de coito” não seja só neutro) … eu estou a analisar políticas. honestamente é-me indiferente que acreditem em fantasmas ou não. o que não me é nada indiferente é que passem o dia com o material do estado a fazer propaganda não só disso, mas do mais repugnante e enganador que há no aparato todo - fátima campos ferreira estava objectiva e explicitamente a defender a rápida “beatificação” da morta. Isto é totalmente inadmissível. E o Bragança por lá, que história é esta?
Publicado por: jpt às fevereiro 19, 2006 06:44 PM
Estou a ficar com religiões por aqui!!!( o queixo)
Casual não é.
Publicado por: Carlos Indico às fevereiro 19, 2006 09:12 PM
Concordo com essa ideia de que para Estado laico o português não se emenda de ser católico! E os meios de comunicação (pelo menos a televisão pública) continuam a ver os portugueses como uma massa indiferenciada como se pudesse reduzir tudo ao que já foi. E aí acho que o multiculturalismo ainda lhes vai cair em cima. Não me parece que em Portugal as gentes (plural) ainda aguentem muito tempo os insultos à sua cultura e história. Vejamos exemplos: vivemos em república mas dizem que há um duque em Bragança… vivemos em democracia mas se pensarmos o actual parlamento não representa as diversas culturas de que se faz Portugal… vivemos num estado laico onde constitucionalmente existe liberdade religiosa mas o estado continua a apoiar que uma relegião (e só uma!) use as escolas (construídas com o dinheiro de todos) para endoutrinar o que bem entender… o interior desaparece e o governo vai investir a ligar directamente o litoral a Espanha para se poder passar a perna por cima das beiras e deixar tudo como está… e sabiam que nas últimas eleições (Presidenciais) contaram-se 600.000 votos brancos e que comparativamente o PS tem 200.000 militantes? Por certo votos de descontentamento de democratas que não se revêm na actual estrutura partidária.
Pois é… Relegião, comunicação e política… que confusão!
Publicado por: Zampano às fevereiro 20, 2006 03:27 AM
Concordo plenamente, só tenho pena de não ser “cartoonista” (ou já é cartunista?)…
Publicado por: teixant às fevereiro 20, 2006 04:30 PM
Comentários para quê? Se querem saber a verdade sobre o pantomineiro que se julga mais que todos, o tal Duarte basta ver: http://www.duarteotretas.blogspot.com/
Publicado por: Duarte Pio estás feito! às outubro 4, 2006 06:17 PM
Leave a Comment