1. O Carlos Araújo Alves solicita-me, e a bastantes outros bloguistas, que ecoe um jogo multimédia, o Food Force, Feeding Minds, Fighting Hunger, ao que me parece destinado a educar as novas gerações (”ocidentais”) num espírito mais solidário, lutanto contra os gigantescos abismos entre as populações ricas e pobres deste mundo: “educação contra a pobreza”.
Denuncia ainda o Carlos Araújo Alves: “A tendência para culparmos políticos, governos, Estados poderá sossegar as nossas consciências..” quanto à radical disparidade dos recursos. Concordo, continuo a achar que a culpa disto é mesmo do sr. Silva, da D. Celeste, do amigo Ramos, e de todos nós, a querermos mais 0,2% de aumento ao ano, a protestarmos não mudar de carro de 2 em 2 anos, as taxas moderadoras, no gemido que quando cutucado vem logo falar dos pobres, desempregados e reformados - esses outros que servem, também, de desculpa para a reprodução do contrato social entre ricos e remediados (tal como as hipócritas e miseráveis actuais denúncias do dumping social e do dumping ecológico, fenómenos claro que nos países em industrialização, ameaçadores dos nossos privilégios). É o não charme nada discreto da enorme classe média (mundial).
Ou seja, Carlos Araújo Alves, está ecoado o apelo. Mas eu acho que a culpa disto tudo é sua, não daqueles em que delegou o poder, apesar do post benfazejo. Houvesse um enorme movimento público neste sentido e alguma coisa já teria mudado há décadas [George Harrison era novo quando fez um concerto para o Bangladesh e já morreu há uns anos, à porta de sexagenário; Geldof vi-o há dias, velho como tudo, decerto que também pelo mau uso de rockeiro]. E teria mudado nem que fosse para o candidato eng. X ou professor Y ir ganhando os votitos tetranuais. Mas não é uma causa pública. E, pior, não é uma causa individual (o kilinho de arroz com bicho, o livro mono, isso ainda se dá na campanhazinha da ong eclesiástica, o resto é só o “coitadinhos…”).
[E V., seu filho-da-mãe?, resmungará. Pois com os meus males de consciência fico eu, o meu doriangrayzinho particular vivo-o eu].
2. Li, algures, que uma central sindical portuguesa voltou a criticar a igualdade de direitos de trabalho aos imigrantes. Fiel à longa tradição exclusivista, racista e neo-fascista, implícita e explícita, dessas associações representativas da aristocracia do proletariado tão disfarçado de colarinho branco (aristocracia a nível mundial, para que não me venham gemer de novo com os reformados, desempregados e etc, gente que se conhece do ouvir falar, do jardim lá do bairro e de algumas estatísticas).
E, entretanto, o bloguismo português fala do Papa, à “esquerda” dizendo mal, “à direita” dizendo bem! E depois, se calhar, fazem a cadeia do jogo solidário. Enquanto, falsos ateus ou crentes, apelam à abertura da igreja (com maíuscula, em especial se “ateus”) católica aos pobres e ao 3º mundo (repararam como a expressão regressou neste inter-Papas?)
3. Por falar em Papa, e em igreja, e em imigrantes. Lembro que há um bom par de anos (5/6?) ouvi o cardeal José Policarpo na TV, a sua mensagem de Natal. Então dedicada, em parte, ao tema dos imigrantes. “Explorados pelos patrões”, assim mesmo, desprotegidos por uma sociedade esquecida que de um país de emigração, a-solidária para com quem procura novos lugares para construir a vida. Lembro do meu espanto, pela veemência e pelos termos usados. E pelo inusitado, pois em nenhuma altura tinha ouvido sindicatos ou partidos falar daquela forma, dessassombrada e efectiva, procurando a mudança de comportamentos, públicos e privados, institucionais e individuais. [Sobre o facto da igreja católica ter sido mais efectiva na integração dos imigrantes europeus do que antes, aquando das levas de africanos, seria interessante discorrer].
Lembro-me de então ter dito para o lado, ao jantar, qualquer coisa como “bolas, parece o Carvalho da Silva” [que é um tipo de quem eu gosto porque fala em “modelo de desenvolvimento para o país”, expressão em desuso num país que, hoje, só sabe navegação de cabotagem. Posso discordar do piloto, mas pelo menos esse diz que quer sair da calmaria, essa que produz escorbuto].
É, esse mesmo, José Policarpo que para algum é mero “chico-esperto”. Ou melhor dizendo, para alguns muitos.
4. Pronto, e porque alguns comentadores dizem que eu tenho mau-feitio, vamos lá jogar ao Monopólio dos Pretinhos. Mal não fará, decerto.

3 comments ↓
a do escorbuto foi bem caçada
Publicado por: Carlos às abril 20, 2005 08:08 PM
http://novoxicuembo.blogspot.com/
Excelente prosa, estimado JPT! Está bem, claro que estou agradecido pela referência e talvez por considerar que as emotivas mega-iniciativas a que aludiu não frutificaram.
O pensamento, o gesto o sermos educados de pequenos que fumar mata e o desprezo pelo semelhante também, talvez (mas é mesmo um talvez) os jovens de hoje tenham, em adultos, diária consciência que esbanjam em desejos supérfluos o alimento de outros.
Abraço
Publicado por: carlos a.a. às abril 20, 2005 08:37 PM
http://ideias-soltas.weblog.com/
a agradecer o apreço, pelo escorbuto (também acho que não saiu mal, foi coisa das teclas). E pela não zanga, CAA, que até temi se viesse a zangar
Publicado por: jpt às abril 23, 2005 01:39 AM
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