“Anatomia de Gray” e “Clínica Privada”: por um Parting Pride

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Anatomia de Grey

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Clínica Privada

São duas séries telenovelescas que a Fox Life passa e repassa incessantemente. Volta e meia, ali no meio dos romances e ralhetes entre aquelas beldades todas, algum dos protagonistas alça de um ar mais ou menos compungido e desliga uma máquina qualquer, por vezes até a pedido de um actor convidado ali a fazer de mais-ou-menos moribundo e incomodado com a situação.

As séries continuam a passar (repito, repetidas até à exaustão), a prestigiada Igreja Católica nem sequer se benze, as organizações da sociedade civil (secção paróquias activas) vão para casa ver as beldades em acção, as organizações da sociedade civil (secção guevaristas engraçados) vão para casa ver as beldades em acção, ninguém repara. As organizações da sociedade civil (secção partido socialista) não dizem nada qu’aquilo não lhes rende votos (ainda que aquela Heigl não seja de menosprezar). Nem aos outros, às outras secções.

Agora as associações da sociedade civil do meu país (as paroquiais, as guevaristas, as socratistas, perdão, socialistas), e seus teclistas e oradores, vão debruçar-se sobre essa causa fracturante, a do casamento homossexual. Uma “causa fracturante” legitimada, dizem os mais arreigados dos defensores da “causa homossexual”, pela acção do movimento político-identitário que a defendeu. Que é isso que sublinha a pertinência das “causas fracturantes”.

Do resto, do universal, disso de todos morrermos e do direito à morte, ninguém fala. Não deve ser o momento. Os da paróquia, da vida sagrada (do semen às metástases) vão para casa ver televisão. Os do guevara, das fracturas iluminadas, idem. Os do Largo do Rato, nos entretantos, idem. Os intelectuais, que os há nas diversas secções, oradores e/ou teclistas também, até compram os compactos DVD. Sem pensar, como convém ao seu estatuto profissional (e até bloguista). Que para isto lhes “falta o rancor”.

Não há dúvida, para tirar as pessoas da imbecilidade televisiva (apesar daquela Heigl) é preciso lançar a campanha do Parting Pride. Quem sabe até umas Parting Pride Parades.

Não dará  muitos votos nem maiorias relativas, não se elegerão muitos deputados moribundos, não haverá muitos posts de grandes bloguistas moribundos, muitos “Prós e Contras” entre moribundos e contra-moribundos.

Se calhar não é o momento. E depois, os sacanas dos moribundos acabam por morrer, para quê a chatice?

jpt

10 comments ↓

#1 marta reprezas on 11.05.09 at 14:01


mas caramba, que ás vezes me dá para chorar lágrimas telenovalescas com a parada de beldades. num é só, repito, num é só a Heigle. mas achei engraçada a forma como fundiste (não disse fod…te) a política nesta coisa.! beijos

#2 Ana Leao on 11.05.09 at 15:48


Pela amostra de bandalheira que por aqui vai nao me parece que exista em Portugal capacidade para debater questoes verdadeiramente serias, tais como o direito a uma morte (e vida) digna. Veja-se o que foram os debates da Casa Pia, ou do caso Maddie e oucam-se as barbaridades que se ouvem sobre o casamento unisexual… Nem vou entrar por ai!

Uma das coisas que mais me fascinou quando vivia em Inglaterra foi o nivel intelectual e de “engajamento” nos debates de questoes sociais/legais/tecnologicas que apaixonavam os ingleses. Questoes como, por exemplo, o direito dos pais (neste caso progenitores masculinos) na tomada de decisao (ou nao) da interrupcao voluntaria da gravidez; ou questoes eticas ligadas a avancos tecnologicos, como a crio-preservacao…

#3 ABM on 11.07.09 at 3:42


Eu acho que isto prova um ponto que tento fazer há muito tempo junto de dois amigos meus e que faço aqui: não há nada como ler um bom livro e os textos do Maschamba…

#4 AL on 11.07.09 at 3:59


Tens razao, mas como eu digo, a gente nunca sabe de onde pode vir uma boa ideia, portanto tento nao descartar nada e ate as holas leio! Ve so a qualidade do texto produzido a partir de duas series corriqueiras e sem historia (e que eu vejo sempre que as apanho. Adoro!)

#5 ABM on 11.07.09 at 4:06


Sim mas hoje com a internet, acesso a 100 canais de televisão, rádio (infelizmente subvalorizada) e jornais para tudo e mais alguma coisa, nalgum ponto temos que seleccionar e desafiarmo-nos.

Senão isto tudo é mais um “ópio para o povo”.

#6 jpt on 11.07.09 at 4:10


ABM o auto-elogio nao nos fica la muito bem. Digo eu, que nele caio recorrentemente

#7 ABM on 11.07.09 at 4:13


JPT

Prontos, não leiam… satisfeito?

#8 AL on 11.07.09 at 4:30


Que posso dizer? Sou uma drogada, confesso! Talvez por isso nao retenha metade da informacao… Es capaz de ter razao ABM; vou passar a seleccionar…

#9 ABM on 11.07.09 at 4:41


AL

Claro

Dou um exemplo de 3 bons livros que a minha amiga Baronesa de Lioness me emprestou:

1. Patrick Chabal – Amilcar cabral (1983, reed. 2002)
2. John P. Cann – Contra Insurreição em África (1997)
3. Alberto Vilaça – Diamantes de Angola mas não para Angola (1972)

#10 marta reprezas on 11.08.09 at 15:41


ABM, ler sim. muito. o que se conseguir (apesar de agora vire provar que o cérebro não foi feito para ler – adorei esta), mas não chega. isso não chega. às vezes é preciso sentar à frente da tv olhar e não ver.

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