Querem sociologizar a bola? Então…olhar para trás que o presente não é tudo.

Na 2ª metade dos 1970s, quando finalmente o país se abriu ao mundo e ao século XX, em Portugal havia ídolos do “lá fora”:


Agostinho, um campeão do povo ainda que parco em títulos absolutos, que a grandeza vinha-lhe da têmpera mais do que das vitórias;

Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho (ou Garrancho), Xana e Livramento, campeões num hóquei a que só nós dávamos toda a importância, mas que até por isso era gigante, porque era “nosso”. Outros tempos, não há dúvida.

De repente veio Carlos Lopes, o primeiro a ganhar coisas grandes. A orgulhar num país pobre e ignorante.

Confundido no fim da longa imbecilidade paroquial/imperial e na curta ignorância revolucionária.

Foi nesse país que Lopes veio mostrar que se podia vencer, veio fazer sonhar ganhar. Que efeito a sua saga teve sobre uma população ainda de “chapéu na mão”: o querer de um homem humilde; o duro, longo, e or-ga-ni-za-do trabalho; a esperança e o sofrimento [o atropelamento pré-Olimpíadas de 1984 tem contornos completamente lendários] ; o mestre-pai sabedor, rigído mas amigo (Moniz Pereira, um ícone da competência humanista); e finalmente, até já inesperada, a recompensa da vitória total, do sucesso, da liberdade.

Um efeito que Mamede quase teve,


afinal campeão odiado por trair as aspirações ao sonho dos portugueses, pois tão igual ao comum era ele, tão pouco enorme parecia no momento decisivo. [A grandeza do falhar não colhe junto de quem sonha subir].

E também o efeito que Eriksson veio ter no início dos anos 80, terminando definitivamente (apesar de Pedroto) o paradigma do “brilharete” :


re?)ensinou o país a competir ao ataque. Matando (em parte) a pequenez circundante, injectando ambição.

E, depois, Rosa Mota, a libertar as mulheres (seria possível que hoje alguém imbecilizasse “quotas para homens” se não fossem todas as vitórias da “menina da foz”?).


E, só depois, as vitórias da bola. Acima de tudo o título de 91, já o crisma dos “meninos de Queirós”, feitos símbolos de um novo país, o da “democracia de sucesso”. Organizámos e ganhámos. Batota claro, todos sabiam, a começar por Queirós, que os avançados eram mais velhos (Toni e Gil eram sobre-21, como o futuro veio a provar, se dúvidas houvesse). Aquilo tudo, visto a frio, foi uma vergonha. Mas foi uma mudança.
Lembro o estádio da Luz, ainda o dos 120 000 lugares, apinhado de um público diferente, não aquele que pouco antes acompanhara as aventuras europeias de Benfica e Porto. Pois a festa do campeonato foi a das cores diferentes, a de um entusiasmo nada doentio, assumido por jovens e mulheres, estas definitivamente fugidas dos carros onde até então tricotavam as tardes de domingo, esperando de transístor ligado o regresso dos maridos “bons chefes de família”.

O mundial de 91 foi o da juvenilização e da feminização do público da bola. A haver uma “revolução cultural” ela brotou aí. E foi, exactamente por isso, um radical impulso na futebolização nacional, sempre em crescendo desde então.

Em 1996, o Euro desses “meninos”, já se vivia a euforia da bola conjugada com as televisões privadas. Nessa campanha inglesa surgiu uma novidade, o da popularização do discurso. A filmagem constante dos adeptos a emoldurar horas e horas televisivas em torno do futebol, o microfone à disposição dos “populares”, a sensação de que todos podem opinar (gritar, balbuciar) na tv, agora sim o ecrã total. E, elevado ao cúmulo, a filmagem ritual das festividades rituais, o supra-boçalismo do “quem não salta é ….”qualquer coisa”". A ilusão do microfone aberto, a encenação da comunhão colectiva.

Os ingredientes estavam aí todos. Daqui de longe não vejo nada de novo. Em natureza, que em grau parece não haver limites nesse país, no meu país. Ou talvez haja, agora traços de um misticismo total, assumido, colectivo. Diferente da promessa individual da romagem mariana. Explicitando agora a crença, num país onde antes sapos mortos e alhos variados seguiam envergonhadamente escondidos nos intra-muros.

Alienação nesta futebolização? Também alienação. Mas muita mudança, que nada é preto ou branco, e as gentes não tão estúpidas que não percebam o fim do jogo.

Mas acima de tudo desruralização. Um povo que deixa de ser pastoril, um povo ainda de fundo lavrador e pastor agora finalmente em “desmacambuzização”*. E, apesar da perfídia da futebolização nacional, isto é muito, mas muito bom:

*”macambuzi” significa pastor em algumas línguas bantús, presumo que por swahilização, assim sendo decerto que por influência árabe. Dizer mais?

9 comments ↓

#1 jpt on 07.02.08 at 1:02

Execelente texto!!!

Publicado por: IO às julho 4, 2004 04:34 AM

#2 jpt on 07.02.08 at 1:02

jpt, já estás na Nipa. ;)

Um abraço

Publicado por: jamiroo às julho 4, 2004 06:50 AM
http://www.a-tasca.blogspot.com/

#3 jpt on 07.02.08 at 1:03

um brilharete

Publicado por: atino às julho 4, 2004 12:13 PM
http://www.food-i-do.blogspot.com/

#4 jpt on 07.02.08 at 1:03

Mai nada!!!! Quando puderes passa lá no meu inferno, tenho lá uma zoocracia organizacional que dá que falar.

Publicado por: Diaba Ólica às julho 4, 2004 01:03 PM
http://www.diabrete.blogger.com.br

#5 jpt on 07.02.08 at 1:03

Homenagem merecida a todas as glórias do desporto português do “antigamente”!!;)
:)

Publicado por: Escape às julho 4, 2004 02:15 PM
http://escapedavida.blogspot.com/

#6 jpt on 07.02.08 at 1:04

Boa retrospectiva a contrabalançar a euforia do momento.

Publicado por: vmar às julho 4, 2004 06:29 PM
http://a_verdade_da_mentira.weblog.com.pt/

#7 jpt on 07.02.08 at 1:04

Belas recordações!!!

Publicado por: Eye of the tiger às julho 4, 2004 08:53 PM
http://www.incomensuravel.blogspot.com/

#8 jpt on 07.02.08 at 1:05

Obrigado pelo teu post.

Publicado por: re21 às julho 5, 2004 12:02 AM
http://re21.weblog.com.pt/

#9 jpt on 07.02.08 at 1:05

passo só a agradecer

Publicado por: jpt às julho 5, 2004 10:15 AM

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