
[Augusto Ezequiel, António Vieira, Missão em Castelo de Paiva, Lisboa, Caminho, 2001]
5 anos depois do acidente da ponte de Entre-os-Rios, coisa dramática em Portugal. Pelo inopinado da morte de dezenas de pessoas, mas também pela sua dimensão espectacular. A queda de uma ponte e a cobertura noticiosa, levada à exaustão, levando à exaustão.Talvez seja de regressar (ou chegar) a este livro, as memórias de 35 dias em Castelo de Paiva, o relato da difícil pesquisa dos veículos e recuperação dos cadáveres, todo esse processo que emocionou o país durante semanas. Na voz do comandante Augusto Ezequiel, na época director técnico do Instituto Hidrográfico, e então responsável pela missão, essa em que “Ficou decidido fazer o impossível dentro dos limites do possível” (31), oficial cujos briefings diários via TV de imediato transformaram numa celebridade no país.
Tem as vantagens dos textos memorialistas, escassos em Portugal. Ficamos a saber, em tom seco e nada auto-justificativo ou elogioso, daquele dia-a-dia sob extremas dificuldades de trabalho, gente deste gabarito, tarimbada, que logo de início exclama “Nos meus quarenta e oito anos de vida nunca vira um rio assim” (30), confrontados com o desespero de familiares e vizinhos. Da comoção que se foi instalando na equipa, profissionais veteranos também marejados pela dor alheia. E radicalmente escrutinados para além de todos os limites pelo olhar do público, da imprensa: “A pressão externa para se apresentarem resultados era terrível. Para quem nunca tinha estado perante uma câmara de televisão, toda aquela panóplia de microfones, luzes, câmaras, jornalistas e mais jornalistas ia ser complicada de gerir” (36), e progressivamente criticados por uma mole de “treinadores de bancada”, como Ezequiel os denomina.
Mas nisto tudo não há remoques, nem amarguras, apenas um belo relato da missão de uma vida, com toda a complexidade técnica somada a uma, inédita para ele(s), complexidade político-mediática. E, também, das relações de solidariedade que se foram criando, nesse feixe das diferentes missões de cada um. Uma leitura então (e agora numa mera diagonal corrida, a avivar memórias) muito interessante.
Nessa época Augusto Ezequiel estava envolvido em missões de cooperação do Instituto Hidrográfico com a Marinha moçambicana. E aqui deixou uma excelente (issima, mesmo) impressão, de competência e de articulação. De saber fazer.
Daqueles homens a respeitar. Com R maíusculo.
Adenda: nos comentários surgiu alguma polémica (a cuja é sempre bem-vinda, mas neste caso me foi surpreendente). Sobre o assunto não tenho nada a dizer, sou leigo e na altura não acompanhei. O que penso deixei na caixa de comentários. Mas aqui acrescento uma citação do prefácio, da autoria de António Barreto, que sublinha a importância deste livro (e que contém uma antevisão que me parece falhada), até muito para além deste episódio (os negritos são meus):
“Estou convencido de que este pequeno livro vai durar anos e anos. Vai ser lido e estudado nas escolas, nas redacções e nas instituições. Quem quiser reflectir nos direitos e nos deveres de informação; nos limites à transparência e ao “directo”; no modo de conjugar a eficiência do serviço público com o respeito pelas populações; e, finalmente, na dimensão prática da deontologia na comunicação e na imprensa, vai ter aqui matéria de rara qualidade.Mas o principal interesse desta parábola não reside, como acima sugeri, na demonstração das dificuldades que a opinião, as emoções colectivas e o direito à informação podem criar. De excepcional valor é a prova, aqui feita, de que é possível ser-se, ao mesmo tempo, decente e eficaz. Rigoroso e sensível. Aqueles marinheiros cumpriram o seu dever de modo excepcional, mas souberam acatar todas as regras essenciais da vida em democracia.” (13)
Não vivo em Portugal mas muito suspeito que este “pequeno livro” estará hoje algo esquecido, um mono porventura. E, também pelas razões acima citadas, é uma pena.

17 comments ↓
Mais um pato bravo a aproveitar-se da desgraça alheia. Ainda por cima são incompetentes.
Publicado por: Joaquim Baptista às março 6, 2006 01:28 PM
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ó Joaquim Baptista esse é tipo de argumento que pode muito bem ser verdadeiro, mas que a fazer convém sustentar. Explique lá do porquê.
Publicado por: jpt às março 6, 2006 01:44 PM
Depois da exaustiva narração televisiva e jornalistica do facto, tenho tudo demasiado presente para que nos próximos 5 anos consiga ler o memorial do trágico acontecimento.
Coisas da idade, a memória do meu computador interno já faz seleções.
Boa semana.
Publicado por: paperlife às março 6, 2006 02:36 PM
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Inteiramente de acordo com o que está escrito no post.
Tenho bem presente a(s) imagem(ns) do Comandante Augusto Ezequiel, e das expressões faciais que, só por si, diziam quase tudo.
Se para mais nada serviu todo o esforço e empenho nesta missão para o total conforto de familiares e amigos das vítimas, julgo que terá, minimamente, reduzido os danos colaterais.
E após ler o comentário primeiro, continuo a achar que a dor de corno continua a marcar presença, ou é pato bravo (sujeito à gripe) ou é corno manso e por aí afora.
Há nas Forças Armadas de Portugal organismos que são exemplos a seguir: no Instituto Hidrográfico e Instituto Geográfico há do melhor capital humano que este país tem em termos de conhecimento científico.
Publicado por: JAzevedo às março 6, 2006 03:30 PM
Caro JPT, primeiro afastaram os mergulhadores dos Sapadores Bombeiros, para a Marinha ter protagonismo, quando efectivamente se tratavam de águas internas. Depois toda a gente viu em directo pela televisão as tentativas falhadas e quando chegaram ao autocarro prenderam o cabo ao pára lamas. Resultado desprendeu-se. Toda a gente gozou. O Guterres foi lá de propósito e foi um fiasco. Antes ainda conseguiram fazer confusão com uma barcaça afundada já há alguns anos e o autocarro. Não sou técnico, mas sei o que, o que li. Em meu entender é um protagonismo parolo
Quanto ao senhor jazevedo, vá chamar nomes…
Publicado por: Joaquim Baptista às março 6, 2006 03:53 PM
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Bem, contrariamente ao que diz “paperlife” eu não tive indigestão noticiosa. Estar fora tem vantagens, só via rtp-A/I é que chegavam informações e é fácil fugir-lhes. Passei ao lado do aparato. E li o livro (conheci o homem aqui,[superficialmente] antes dos eventos, repito, gostei e conheço quem tenha gostado), até por curiosidade pessoal.
JB, como há-de calcular, não posso (e quereria?) discutir se aquilo lhes correu bem ou não - isto em termos técnicos. Sou totalmente leigo. Sim, aquilo foi uma epopeia, se bem feita ou não, repito, quem sou eu. MAs há um ponto em que opino e muito discordo consigo - acho muito interessante que quem atravessa coisas (eventos, missões, trajectos, sei lá) relativamente únicos os ponha em papel (até para contraposição, quando é o caso). E isso é raro em Portugal - este caso, claro que potenciado pela visibilidade e pelo desafio do jornalista co-autor, é uma excepção. E a mim agrada-me esta “vontade” de deixar registo (não somos nós bloguistas, algo diferente, mas também a querer passar palavra?).
Reduzir a ser “patobravo” e “querer ganhar com a miséria alheia” acho que é pouco. Poderá ser injusto com o homem (homens, já que o jornalista António Vieira acompanhou os acontecimentos e co-escreveu o livro). Ou não. Mas, e desculpar-me-á o assertivo, é decerto insuficiente enquanto curiosidade (não exactamente sobre esta missão, talvez como se diz acima, exaustivamente abordada, ainda que em termos imediatistas; mas curiosidade sobre agentes em momentos cruciais e sobre os seus enquadramentos).
[em jeito de sorriso, “e eu que julgava que esta seria uma entrada mais-que-pacífica!!!”]
Publicado por: jpt às março 6, 2006 04:36 PM
Caro JPT, não estava a contar com o feedback. Esse tal senhor pode ser muito bom, mas este tipo de livro faz-me lembrar os dos jogadores e treinadores da bola. Sinceramente.
Publicado por: Joaquim Baptista às março 6, 2006 05:54 PM
http://www.idanhense.blogspot.com/
Tomei conhecimento da existência do livro através de uma pequena peça da RTP, num dos noticiários do dia, onde o assunto foi este:
“Depois ás 15h30, já no espaço do Auditório Municipal, haverá uma cerimónia de homenagem ao Prof. Carlos Zorrinho, ex. Secretário de Estado da Administração Interna, Paulo Teixeira, Presidente da Câmara Municipal de Castelo de Paiva e Comandante Augusto Ezequiel, ex. Director do Instituto Hidrográfico da Marinha, personalidades que serão distinguidas pela AFVTER (Associação de Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios) como sócios honorários.” (fonte: site da CM de Castelo de Paiva, 2006.03.03).
Nunca o tinha visto em nenhum escaparate.
Publicado por: JAzevedo às março 6, 2006 05:54 PM
ó JB, francamente …, entre “como ganhei a taça de portugal pelo moreirense” e isto haverá alguma diferença, pelo interesse acima colocado. Mas, já agora, “como ganhei a taça de portugal pelo moreirense” também poderá dar algum contexto de uma vitória desportiva desse calibre numa zona do interior
JB, temos “plano tecnológico”? (desculpe, não resisti…) - mas, lá está, o livro deve-se ter tornado “mono”
Publicado por: jpt às março 6, 2006 06:08 PM
Ainda o livro:
No site da Caminho vi que teve duas edições.
O site da fnac dá-o como indisponível.
Custa 12,60€
Publicado por: JAzevedo às março 6, 2006 11:13 PM
então não foi assim tão mal, 3000 da primeira, X da segunda, ainda houve quem lesse.
Obrigado pela informação
Publicado por: jpt às março 6, 2006 11:59 PM
Talent de Bien Faire
O trabalho dos Mergulhadores da Marinha foi levar o seu lema até à exaustão.
Para alêm das dificuldades que o rio apresentava, a equipa de mergulhadores contou também com os inúmeros ataques, vindos por todos os lados. Estou a lembrar-me de vários artigos insultuosos, escritos por um certo “professor catedrático” da Universidade do Porto e publicados, sempre em Manchete, pelo Público.
Quanto às opiniões do Sr. Baptista. Não se pode comparar a preparação dos Mergulhadores-sapadores navais, com a preparação dos mergulhadores dos Bombeiros, digo isto sem qualquer desprimor para estes últimos. Alêm disso, nem sequer houve qualquer invasão de competências, pois a Marinha de Guerrra tem, a jurisdição dos rio Douro até à Régua.
Quanto a mais questões técnicas sobre a valia do trabalho da nossa Marinha, os peritos internacionais trazidos por aqueles que procuravam denegrir o trabalho do nosso corpo naval, foram unânimes em elogiar o seu trabalho.
Publicado por: Luís Bonifácio às março 7, 2006 12:26 AM
http://novafloresta.blogspot.com/
Sr Joaquim Baptista:
- Importa-se de se explicar mais? Pois embora não pareça a questão é importante.Apesar de a tarefa tenha sido de recuperar cadáveres, que são preciosos num lugar na terra,o julgamento ainda não foi, e essa negligência não é de ocultar;
-Que culpa tem o comandante e os marinheiros, se for o caso, de terem ido passar dias e noites a quase matarem-se para resolverem a missão que lhes foi responsabilizada, no lugar de quem o Sr considera os “devidos”?
-Que culpa têem eles de a TVI espetar cãmaras quase 24 Horas por dia apontadas ao rio, e perguntarem aos familiares dos afogados : “que está a sentir?”;
-Ponha a boca no trombone!
- É muito importante porque este acontecimento foi um massacre tipo “guerra” por incompetência e desleixo de alguém que ainda por aí á solta!
Publicado por: Carlos Indico às março 7, 2006 12:35 AM
Bem, eu não quero censurar qualquer troca de opiniões, estais à vontade … Mas aproveito para sublinhar que não era meu propósito discutir a excelência da missão de recuperação (ainda que as citações escolhidas possam apontar a minha crença, repito, crença na qualidade do trabalho - mas será mais respeito pelo trabalho, dado que, e repito mais uma vez, sou leigo). MAs a troca de opiniões demonstrará, 5 anos depois, o que tudo aquilo marcou as pessoas.
Acima de tudo queria lembrar um livro que acho interessante. Até porque demonstra uma coisa, tendo sido a missão bombardeada pelos jornalistas, in loco e fora do sítio, isso não implicou (em texto pelo menos) ressentimento - lá surge a construção de uma solidariedade (pelo menos com alguns) e inclusive a produção de um livro com um jornalista. Ou seja, mais do que o preto e branco da oposição missão escrutinada - jornalistas escrutinadores; a citação de Barreto é elucidativa pelo lado da missão da Marinha. Mas também se pode afirmar a gestação da confiança e respeito do lado jornalístico. É um livro que mostra as nuances dos relacionamentos.
Publicado por: jpt às março 7, 2006 06:15 AM
Caro JPT, continuo espantado com o feedback desta coisa. Se eu achei que tinha havido incompetências foi em função daquilo que vi na TV. A primeira em minha opinião foi não terem recorrido aos satélites para identificar o local onde o autocarro estava encalhado; em segundo lugar foi a colocação de redes para reter os corpos com bastante atraso, o que deu aso a que fossem achados corpos na Galiza e na França se não me engano; a colocação do cabo no guarda-lamas não lembra ao diabo;
Agora em relação á associação das familias lesadas, o que eu acho e conhecendo o “modus operandi lusitanii” esta só serve para sugar uns dinheiros ao Estado, sempre vão vertendo alguma lágrima, se sincera ou não não sei. E acima de tudo o objectivo será ganhar protagonismo. E por aqui me fico.
Publicado por: Joaquim Baptista às março 7, 2006 12:55 PM
http://www.idanhense.blogspot.com/
Longe de procurar qualquer “troca de galhardetes”,com o respeito devido ao JPT, não posso ficar quieto no meu canto com a argumentação e contra-argumentação do sr. Baptista.
Para que não fiquem dúvidas eu não tive familiares ou amigos vitimados pelo acidente.
Acho execrável que se façam análises superficiais, que se insinuem formas de “modus operandi” e se tirem conclusões levianas com base no que se viu na TV.
Refere o sr. Baptista, e bem, no seu blog na entrada de 2004.10.21:
“costuma dizer o povo que”só sabe o que vai no convento, quem anda lá dentro”"
Fazendo minhas as suas palavras e partindo do suposto que estará fora do convento argumente com factos palpáveis, não se deixe ficar pela rama, procure ser mais construtivo.
Este comentário já vai longo.
Voltarei sempre que achar que o devo fazer (pelo menos enquanto houver caixa de comentários).
Publicado por: JAzevedo às março 7, 2006 02:32 PM
JA não prevejo encerrar a caixa de comentários. Os cujos são muito bem-vindos.
Belo ditado esse que ambos usam…
Publicado por: jpt às março 7, 2006 04:28 PM
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