Dia de lembrar tanta gente a dizer-me, anos a fio Moçambique dentro, que a doença não existe, “coisa dos brancos”, “invenção para não termos filhos”. E do até caústico “é preciso descascar a banana para a comer”.
Dia de lembrar essa noite de distrito fronteiriço com um director local a dizer-me que por lá “entre 50% a 60% estão infectados”, partilhando nós as cervejas quentes do barzeco local, entre as quase putas e seus homens. E da minha bebedeira final, ali aos bordos a imaginar-me entre zombies.
Dia de lembrar os sussurros sobre a ou b ou c ou d ou e ou …, gente conhecida, por aí com a doença, a aguentar-se, a aguentar-se…
Dia de lembrar o que penso(amos), no dia-a-dia, quando passam esses tão mais magros.
Dia de lembrar os medicamentos que chegam em sigilo para as meninas-família, essas que também compram a pílula.
Dia de lembrar a palidez entre-whisky desse amigo acabado de saber os resultados do rastreio nos alunos dos liceus burgueses em Maputo.
Enfim, dia até de recuar a lembrar o Pifo, o primeiro tipo que vi com ela, apanhada nos meados dos 80s em Amsterdam, regressado ao bairro para morrer devagar, e a quem só me restava não o deixar ser o último a fumar o charro.
E dia, também, de lembrar a meia dúzia de “que se foda” de solteiro, fins de noite de imortal, que não haveria de ser daquela.
Dia de dizer que o resto é pó…


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