Uma das mais enigmáticas questões na vizinha África do Sul é a retórica (e a prática?) do seu governo face ao sida. A consideração da pobreza como causa da doença - o que sendo, em determinado registo, uma verdade é absolutamente letal em termos de campanha de prevenção. E a valorização da dieta “africana” como curativa - mais uma vez, é uma verdade relativa, mas suicidário em termos de estratégias dilatórias do inimigo principal, a morte.
É muito reduzido o que conheço do “ambiente moral” do poder ANC, esse que implica a recorrente afirmação destes argumentos, e a recusa em matizar as declarações públicas. É pois nesse registo de superficialidade de conhecimento (e de rapidez de escrita e reflexão) que associo estes discursos a alguns factores ideológicos, que não se encontrarão apenas na RAS mas que ali assumem particular visibilidade.
Por um lado o anti-ocidentalismo/anti-americanismo, produzindo o mito da doença como causada pelos ocidentais, para destruição de África. Ainda recentemente, e para espanto geral, ecoado pela Nobel da Paz, a queniana Wangari Maathai, e algo que tantas vezes se ouve no seio das populações. Como seu corolário a desvalorização (prática) das causas efectivas da transmissão da doença, assim obscurendo os métodos de prevenção. Associando-se-lhe um anti-capitalismo (e até, por vezes, uma ideologia anti-industrialista, confusamente ligado a um necessário “regresso às origens” auto-valorizador, auto-indutor de desenvolvimento), talvez algo retórico, mas que conjuntamente com o factor anterior se prende com o profundo mal-estar com as questões da notória dependência político-económica de África (e o regresso, nada encapotado, das teorias dependentistas - essas que, paradoxalmente, esvaziam de humanidade “agencial” os próprios africanos, no fundo um reaccionarismo ocidentalocêntrico, um altercentrismo, que escapa aos seus locutores). Anti-capitalismo/industrialismo esse que, neste caso, implica a desvalorização dos medicamentos em prol dos produtos biológicos (a dieta).
E, sem de tudo isso estar desligado, um endogenismo, a reclamação do primado das forças próprias. Um paradigma, claro que válido para tantas dimensões da realidade, mas que submerso neste caldeirão ideológico surge como valorizando a (certo que benéfica) batata-”africana”, et al, contra os anti-retrovirais químicos-”ultramarinos”. Um endogenismo que, amíude, alimenta um, surpreendente (?) regresso do “nativismo“, a valorização dos saberes locais, indígenas. Mais uma vez uma verdade relativa, uma ideologização do reconhecimento, utilização (e salvaguarda, já agora) da pluralidade cognitiva. Assim substituindo uma histórica subvalorização (e perseguição) por uma desejada sobrevalorização, de contornos muito dúbios. E muito do discurso público (e até académico) sobre as relações entre a medicina formal (dita biomedicina) e medicina(s) tradicional(ais) encerra-se neste amplexo esganador.
Um outro (e aqui último) ponto, também ideologicamente ligado. A afirmação do ocidentalocentrismo da(s) ciência(s) e da necessidade de erigir conceitos, problemáticas (metodologias) africanas. Reconhecido o carácter histórico, social, contextual da produção científica, das relações de poder que esta encerra, que as constituem (e poluem) reclama-se ciência local - a medicina africana, a sociologia africana, os etcs africanos. E quem reclama da universalidade (tendencial) do discurso científico, localmente aplicável, localmente reformulável, sempre actualizável, afronta-se com o muro de beco constítuido pela afirmação (acusação) da característica também ocidentalocêntrica desse universalismo pretendido.
Enigmática questão, iniciei eu, esta a da conceptualização do poder sul-africano sobre o sida, esse que vai devastando o país e o continente. E das similitudes que se encontram no discurso público alhures - entenda-se que um discurso sobre o sida com estes contornos não se encontra nas altas esferas políticas moçambicanas (e se, por mera hipótese, existir pelo menos não tem expressão pública). Enigmática questão pois parece-me que a conjugação de um conjunto de questões todas elas válidas (entenda-se, questionáveis, discutíveis), acima elencadas, se torna húmus para um inconceptualização. E que, ainda por cima, não parece corresponder a qualquer interesse passível de ser confrontado, associado, com o drama da sida.
Entretanto neste caso como em tantos outros, na África do Sul muitos destoam destas posições afinal simplistas (ainda que não simples). Com eles, claro, Nelson Mandela. O Homem…

6 comments ↓
Mandela, o Homem, sim.
muito admirado, mas pouco copiado infelizmente.
Conheço o problema superficialmente. Se é assim como diz, isso não configura um cenário de genocídio? Os responsáveis não poderão vir a ser acusados em tribunais próprios?
credo, nem tanto ao mar…há políticas de distribuição de medicamentos (criticadas, mas sobre cuja realidade desconheço). e gigantescas campanhas de prevenção. Mas há estas retóricas e discursos cuja razão me escapa, apenas consigo esta superficial, e “posteira”, abordagem. Incongruências até inexplicáveis [não interessam a ninguém, mais que não seja] Dái ao genocídio vai um giant canyon - não diria o mesmo da distância até À demissão, mas isso já era meter a foice (política) em seara (política) alheia
Sempre que ouço estas notícias fico de queixo caído. Ainda bem que o jpt deu esta visão mais próxima da coisa, é que por cá parece simplesmente surreal - a atitude política dominante na AdoS.
Um abraço.
http://www.mg.co.za/articlePage.aspx?articleid=281912&area=/breaking_news/breaking_news__national/ pelos vistos há, naquela seara, quem tenha acertada foice
http://www.mg.co.za/articlePage.aspx?articleid=281912&area=/breaking_news/
breaking_news__national/
é preciso juntar os dois - o sistema de comentários é chato quando se trata de endereços, corta-os
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