“- Um dos rapazes estava a explicar-me … - disse Vidal.
- Aquele das borbulhas?
- Não, o mais novo, aquele com ar de bagre.
- Tanto faz.
- Explicava-me que, por trás desta guerra ao porco, há boas razões.
- Falaram do crescimento da população e de que o número de velhos inúteis está sempre a aumentar.
- As pessoas matam por estupidez ou por medo.
- No entanto o problema dos velhos inúteis não é uma fantasia. Lembra-te da mãe de Antónia, a senhora a quem chamam Soldadote.
Arévalo não o ouvi; num tom monocórdico, declarou:
- Nesta guerra, os miúdos por ódio contra o velho que vão ser. Um ódio bastante assustado … (118)Enquanto o seguia pelo corredor, Vidal comentou:
- Arévalo estava a dizer-me, doutor, que esta guerra é um fenómeno que está a acabar.
- Creia-me – respondeu o médico, sacudindo tristemente a cabeça: - o serviço de psiquiatria não é suficiente para atender os jovens. Todos lá vão por causa do mesmo problema: apreensão de tocar nos velhos. Uma verdadeira repulsa.
- Asco? Parece-me natural.
- A mão recusa-se, meu caro senhor. Há um facto novo irrefutável: a identificação dos novos com os velhos. Através desta guerra, eles entenderam de uma maneira íntima, dolorosa, que todos os velhos são o futuro de um jovem. Deles próprios, talvez! Outro facto curioso: invariavelmente o jovem elabora a seguinte fantasia; matar o velho equivale a suicidar-se.” (203)Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra dos Porcos, Cavalo de Ferro, 2006 (1969), (traducao de Sofia de Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu)
22 de Agosto de 2007 | Adolfo Bioy Casares, Rue Catinat


4 comments ↓
hfm disse…
Bela dica.
11:23
http://www.blogger.com/profile/08099868635372599019
hora tardia disse…
As pessoas matam por estupidez ou por medo.
_____________________
assertivo.
_______________________:tenho e gosto.
18:14
http://www.blogger.com/profile/09134102346466696766
Turma 12 disse…
Como diz Fernando Pessoa, “a literatura , como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Como alunos de Literatura, agradecemos os voos que este blog nos proporciona. Os nossos próprios voos, reflexos do que somos, sentimos e sonhamos, estão em http://12reflexos.blogs.sapo.pt/
12:26
esse livro impressionou-me. até… pensar no «amanhã»…
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