Um velho texto lembrando um jantar por cá. Coisa refeita, donde requentada (e até já posta num velho ma-schamba) nisto de andar a juntar tralha.
UM JANTAR EM MAPUTO
Ao Fernando Veloso, amigo e co-comensal
Já passaram muitos anos, mais até do que deviam, desde o jantar que agora recordo. Eram tempos outros aqui, eu ainda quase-chegado, nos quais se apregoava o “regresso dos portugueses”, dizer então por tantos ecoado, movimento talvez aspirado lá na minha longínqua terra e por cá decerto muito suspirado. Mas tudo isso era, e no acima de tudo, coisas do grande exagero, cá e lá, lá e cá. E já na altura o era fácil adivinhar, quanto mais no hoje então futuro.
No entrementes desse corropio de conversas e aviões aportou a Maputo uma célebre jornalista patrícia, pronta a reportar o referido regresso, suas possibilidades e os já sucessos nesse caminho. Não era raro este tipo de visita, não era raro tal trabalho, era até agenda colectiva, colegas a tinham precedido outros a perseguiram, teores e tons tão iguais. Rara seria, era mesmo, a fama agora companheira de viagem. E a grandeza do jornal acolhedor. Assim sendo, logo que anunciada a próxima chegada, foi a visitante esperada, comentada em murmúrios, nas antevisões da sua presença, até preparativos de obséquios, alindamentos generalizados. Sonhos até de ficar na fotografia. Ou, pelo menos, no texto.
Durante a breve estadia compareci a um seu jantar, este mesmo que aqui recordo, eu procurando não borrar imagem própria, entremeando um conjunto de individualidades moçambicanas, bem pensantes todos elas, ali pontificando jornalistas, médicos renomados, escritores, professores, guias de movimentos sociais, qual corte geológico na elite nacional. O objectivo do repasto era explícito, que à (boa) mesa refogasse ambiente amigo, que durante a degustação, palato acalmado, os reputados locais pudessem ecoar o quão bom aqui se considerava esse tal apregoado nosso regresso e até quais os anseios que este vinha colmatar. Decerto esperava o anfitrião, e também o desejava eu, que fosse amigável o diálogo, sublinhado pelo informal do ambiente, positivas as conclusões mesmo que transparecendo, aqui e ali, alguns “mas…”, esses “mas…” obrigatórios em conversas francas e inteligentes. Mas “mas…” minúsculos, com certeza.
No entanto o futuro, mesmo esse do curtissimo prazo, é aberto, caminho minado. E, mal-grado as expectativas, o encontro foi um desastre! Não estou certo sobre o que terá acontecido, males do repasto não terá sido, apreciável a cozinha, impecável a garrafeira, cavalheiro o “dono da mesa”. A causa do mal, concluí-o depois, terá sido o efeito de toda aquela fama à mesa, a própria da jornalista mas também a do seu jornal, súbito, no decorrer da conversa, ali brotado, sonhado, desejado, como caixa de ressonância, e poderosa, microfone óptimo para ecoar as não tão óptimas vontades no por cá, o agitar do “nem pensar” no regresso, mesmo que matizado, aos tempos antes. Enfim, o jantar foi qual caixa de Pandora a abrir-se, velhos estigmas e novos desconfortos a saírem das travessas da conversa, e a cada prato a azedar ainda mais. No fundo, ainda que rodeados de elegância nos trajes, ali ouvíamos um tonitruante “suca”.
Sobre os portugueses aqui presentes, esses nossos patrícios (e talvez nós mesmos, comensais), só malfeitorias e perversões se afirmavam. E se um dos convidados dizia “expulsem-nos” logo outro gritava, ainda que à mesa, “matem-nos” para de imediato alguém lhe somar um rubicundo “esfolem-nos” e ainda, já em estertor, se ouviria um “queimem-nos”. Eu, remexendo o prato, mais para o vazio, lá ia achando aquilo tudo uma catarse e, já agora, também uma provocação, lamentando-me de ali ter caído. Pois não era só a fama lusa, nem o microfone português, era também, e talvez o mais de tudo, a aparência da nossa elite, tão perto ali à mesa, a ser bombardeada, alvo de hipérboles, ainda que denotativas, reafirmações, talvez anacrónicas mas incisivas. Isso ia resmungando eu, ainda que me tentasse distrair de tudo aquilo, divagando-me debaixo da mesa a cavar buraco onde me escondesse de tudo aquilo.
Súbito a jornalista, constrangida e decerto estupefacta com tamanhas opiniões, tão contrárias ao seu esperado, interrompeu-as, enfática no murar: “mas…(um “Mas” Maísculo, este) não gostam de nós...?!?!”, “depois de tudo o que fizemos por vocês!”.
Confesso que após esta de nada mais me lembro. Abdiquei da sobremesa, mergulhei para o tal buraco e tapei-me.

3 comments ↓
Excelente texto jpt. Tal e qual.
Publicado por: Miguel S. às junho 1, 2005 04:33 PM
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lembras-te? é do teu tempo
Publicado por: jpt às junho 2, 2005 03:39 AM
o raio do paternalismo mais as micoses mal tratadas. Má ementa, haja sais de frutos suficientes.
Publicado por: Carlos Gil às junho 2, 2005 03:19 PM
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