Véspera de casório, lá por onde nos aboletámos percorro dois ou três cabeleireiros, esses recantos andróginos que transformaram o simples cortar o cabelo num acto de resistência política. Lá entro, feito colaboracionista, de imaginário chapéu nas mãos para logo ser expulso, qual ralé na pedinchice. Finalmente, aleluia, dou com um velho e raro salão de barbearia, coisa digna de antanho, velhote de bata branca, dois outros velhos só na companhia, o jornal a Bola, o Record e um qualquer sucedâneo do Correio da Manhã, Acqua Velva no ar, creme Palmolive, o império da caspa, a navalha presumida. A liberdade. Avanço-lhe para a cadeira, enquanto lhe digo, sorriso estampado, na felicidade do alívio, “é para aparar a barba!”.
O “barbeiro” abre-me os olhos e, até destilando alguma piedade, condena-me “não fazemos esse serviço”. Estanco ali no meio da pequena sala, petrificado da surpresa. Para logo me retirar, envergonhado de mim mesmo, disfarçando-me como quem não quer a coisa em “então bom dia” repetidos, um para um do trio de velhos.
Até lá fora, onde no ar livre me livro do rubor, agora tornado num “foda-se, isto está um país andrógino”. Melhor dizendo, um país glabro.

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