Mensagem

Há alguns anos decidiu o Estado agraciar-me com uma comenda em reconhecimento pelo exercício das elevadas funções de que estive incumbido por estas paragens. Também a iniciativa privada nacional aqui instalada considerou assinalar tamanha actividade, tendo-me então obsequiado com um magnífico exemplar da Mensagem pessoana, polissémica obra para quem vasculha a alma lusa e respectivos Impérios e desencantos, neste caso acoplada aos sonhos do grande Pomar, Júlio este, sete vistas da referida lusitanidade.

Reconhecido e respeitoso nem o livro assinei, evitando macular tal artística iniciativa, assim julgando-me bibliófilo. Apressei-me a depositar a obra na nossa estante Altamira, brilho de qualquer sala pequeno-burguesa, e na qual vamos, como se negligentemente, oferecendo às visitas as reluzentes lombadas acumuladas, ali a intervalarem o nosso altar de antepassados, fotograficamente convocados para defesa da paz e sucessos deste lar.

Há pouco, decerto por razões climáticas, assomou-me o fastio e lá retirei o citado livro para um lento e distraído desfolhar no descanso da varanda sobre o Índico, após o qual lhe dei um indevido abandono, impróprio ao pintor e não menos ao poeta.

Nisto precipitou-se a Gata Joana, personagem moçambicana dominadora desta casa, porventura farta de lusófonas construções ou de heteronómicas mitologias, e, no fervor do seu mui frequente cio, decidiu urinar o belo exemplar, talvez reclamando a sua propriedade, quiçá reclamando-se Ofélia.

Agora, e enquanto o livro seca no sol da varanda, questiono-me. Que fazer à comenda?

Setembro 2001

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