Estou sempre a lembrar-me de uma jovem colega, espanhola de Estado, de região muito autonómica de coração. Aqui colegámos algum tempo, ela centrada nas questões do género, feminista até mais não. Ríspida na conversa, e até nos actos. Rispidez do radicalismo e de juventude, diziam alguns. Comigo a negar, a pensá-la ao contrário, coisa decerto crescente com a idade, uma rispidez onde lhe adivinhava eu o desprezo por nós, portugueses, coisas colonialistas, por nós, conservadores, coisas de antanho. Acima de tudo por nós, coisas exploratórias. E tudo isso misturado com toque de má-educação, esse mesmo que há quem pense ser o tal radicalismo. Não se pense que a desgostei. Bem pelo contrário. Descobri-me no beneplácito sempre devido às mulheres bonitas, ainda que neste caso algo mitigado pela minha ocasional impaciência. Mas logo redobrado no prazer que sentia quando a via invectivar de conservadores/reaccionários os meus colegas, em especial os patrícios, tremelicando-lhes as belas auto-imagens de pensadores críticos e, até, radicais. Já disse, lembro-me muito dela, do seu delírio do “correctismo”. E do arquétipo deste. Certo dia referi, não lembro a que propósito, a “minha mulher“. Fulminou-me, um esgar mortífero, o desprezo vincado, a contraposição ridicularizadora “tua mulher? pertence-te? compraste-a?” e eu, a imaginar-me a cara espantada (por esta nem dela esperava) ainda ali a matizar “ouve lá, ela também diz “meu marido”” mas isso já nem lhe interessava, nem ouviu, tão na raiva contra a incorrecção, o verme machista/patrimonialista que eu ali era. Lembro-me imenso dela. Aliás, estão sempre a lembrar-me dela. Nos blogs e lá fora. Por vezes, em silêncio, solidário, até brindo ao homem dela. Perdão, ao “homem que vai estando junto dela”.
Do “correctismo”
28 de Março de 2005 | Politicamente Correcto, Roupa Velha

9 comments ↓
“colégamos”.
Influência de Mia ou da voz corrente?
Esta invenção de verbos e adjectivos delicia-me.
Publicado por: Carlos Indico
c. indico, v. apanhou-me. aqui no esconso dos comentários, que quase ninguém lê posso dizer, à sua pergunta - será influência da voz corrente, até porque estes textos pequenos são escritos a correr, deve-se ver nos erros, gralhas, faltas de concordância, sintaxe, etc. Aqui há muitos “ismos” que não há aí, e não há razão nenhuma para que não existam. O exemplo máximo, e já aqui escrevi sobre isso, é o riso tonto que os portugueses têm com o moçambicano “desconseguir” e depois enchem a boca com “desfazer” “descontruir” “desmontar” “desiludir” e passava aqui meia-hora sem ir ao dicionário
Influência do Mia? Humm … talvez, mas sem me pôr em bicos dos pés (tal como no acima). Ainda para mais porque, (Schhiuu), eu não sou grande apreciador. Gosto muitissimo do intelectual (PensaTempos, que agrega alguns textos, é provavelmente o melhor texto sobre moçambique dos ultimos anos), ainda que discorde de alguns pontos de vista. Tenho uma enorme admiração para com o cidadão (foi comovente de sentimento e admirável de coragem moral e física o que mia falou no velório de Carlos Cardoso, texto que aliás está nos Pensatempos, mas que precisará da envolvência do momento para perceber da estatura do mia; e isto é mero exemplo). Tenho uma grande simpatia para com o homem, que é delicado e nada emproado. Em suma acho muito o Mia Couto. Mas aquele mundo de prosa não é nada o meu: um pouco por causa do estilo, sim; e acima de tudo por causa da simpatia, a ternura, pelas personagens. Daí que aqui prefira o JBorges Coelho (pela forma, ainda que tenha também essa coisa de gostar das personagens que inventa) e do Khosa, que caralha (está a ver? que belo verbo … e este nunca o ouvi, li [já agora, tal como o colegar]
Depois há uma questão filosófica, se me permite tamanho atrevimento. Quando leio quem sabe escrever prefiro alguém que descreva a merda do que invente a língua (ou o design das páginas, que é moda chata nos portugueses)
Mas isto são os meus gostos. E é uma chatice falar de gostos quando se conhecem as pessoas, parece que tudo é traduzido para amizades.
Uma mais nota (última não, que haverá imenso para dizer sobre isto). Muito do jogo com o português estava também no Craveirinha. E, regressando ao magnífico PensaTempos (pois é uma colectânea de textos, alguns já aqui lidos ou publicados) o Mia tem um belo texto sobre a origem da prosa dele e Guimarães Rosa
[imagine que há um ano uma visita do ma-schamba comentou num texto sobre o natal em pemba que parecia guimarães rosa, num tom de agrado. eu fiquei à rasca, por várias razões, até por vergonha. mas acima de tudo porque aos 40 anos nunca tinha lido o autor - não há dúvida, vai passando sem que o saibamos.
Eu também inventei outro termo, “miacoutar” - há muitos. E se calhar eu também, ali e aqui.
vaneço com este teu comentário (pode-se também inventar assim? a tirar os “des”?)
Saudades “à tua” mulher (a possessão neste caso é a forma mais natural de lançar a intimidade implícita, mas lá por isso ponham-se aspas)
Publicado por: Eufigénio
podes, são sinónimos
beijos à “tua”, até ao natal.
que tal uma bi-festa no 30.12?
Chegam por cá nessa altura? Boa. Eu alinho, a organizar a tal dita para o Bill. Darei, à “minha”, os beijos e a notícia
Publicado por: Eufigénio
Podia ter dito que a tinha comprado na Venda das Raparigas.
Publicado por: Mário
http://retorta.net/
sim, belo nome
mas acho que ela não apanhava o toque
Então JPT, condescente perante a beleza dela? A rapariga impunha-se pela beleza ou pelas ideias?
Que sociedade esta que nos permite às belas tudo desculpar e às menos belas nada perdoar. A rapariga se calhar sabia da pele que vestia…..
Publicado por: xipamanine
a rapariga não se impunha, retirava algum beneplácito, até mitigado, por essa razão. como vê operação intelectual neste caso destruidora da argumentação alheia
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