Da origem das palavras

Apeteceu-me hoje deixar uma pergunta aqui aos leitores da maschamba, na esperança de finalmente ser iluminada.

Andei aqui há uns anos pelo Mali, país absolutamente mágico e de gentes afáveis e hospitaleiras. Viajei pelas suas diferentes regiões e, claro, pelo País Dogon, que parece quase um museu vivo etnográfico. Apetece-se ficar por lá, escondido do tempo. Todas as aldeias que visitei apresentavam, num local mais ou menos central, uma estrutura construída por grandes lajes sobrepostas que a elevam do chão e com uma cobertura espessa de ramos e palha assente em pilares de pedras empilhadas. Estas estruturas são o ponto fulcral das aldeias. É lá que geralmente se encontra o chefe da aldeia; é lá que os homens se reúnem para conversar, jogar, debater questões relevantes para a comunidade e aconselhar-se com os mais idosos ou com o chefe da aldeia. Há-os simples e há os pesadamente ornamentados. As mulheres têm as suas casas próprias de que falarei num outro post aqui na maschamba.

Casa-palavra DSCN0922

É um local muito aprazível. O chão de laje, amaciado por anos de uso, é fresco e convidativo. Geralmente, uma das lajes tem as cavidades necessárias para se jogar o que na Ásia se chama mancala e de que não me lembro agora os diversos nomes já ouvidos em África (shame on you AL!!!). Trata-se de um jogo que já vi jogar (e joguei) em diversas partes do mundo; umas vezes com tábua própria, outras vezes com simples covinhas feitas no chão, que vão sendo enchidas e esvaziadas de pedrinhas, conchas, sementes… As regras variam de sítio para sítio, mas o objectivo geralmente é “comer” as peças do adversário.

DSCN0862

A cobertura da estrutura é geralmente muito espessa e protege do sol e do calor; a ausência de paredes permite uma ventilação desimpedida; o pé direito destas estruturas é pouco mais de 1 metro. Pensei que fazia sentido, pois o tecto baixo impedia a incidência dos raios solares, proporcionando uma sombra maior. Até que um dos velhos numa aldeia me explicou educadamente que não teria sido isso que se tinha em mente. Disse-me ele não ser este um espaço para pressas, para um entra e sai desarvorado. Ter que entrar agachado e permanecer sentado lembra a quem chega que ali se fala, mas também se ouve. E com tempo! Mais ainda, sendo a estrutura um espaço de debate para questões importantes da aldeia e sendo a natureza humana aquilo que é, espera-se que durante esses debates os ânimos se exaltem. E, pessoas exaltadas tendem a levantar-se e a gesticular. Sempre que tal acontece o exaltado bate invariavelmente com a cabeça no tecto, acalmando assim de imediato os ânimos. Nada de dizer bojardas e sair porta fora, não senhor!

Agora vem a parte que mais me espantou. O nome destas estruturas é toguna ou casa-palavra. Assim, tal e qual, no mais puro português. Nome que nem sequer sofria de qualquer abastardamento da pronúncia francesa, língua oficial do Mali. Nada de cásá-pálavrá, mas sim cása-palávra com a fonética portuguesa toda no sítio devido. Intriguei-me, perguntei de onde viria tal nome e ninguém me soube dizer. Nem no Museu Nacional em Bamako consegui encontrar explicação. Já “googlei” o nome e nada! Será que algum dos leitores do maschamba me consegue esclarecer?

AL

51 comments ↓

#1 cg on 11.09.09 at 17:32


o jogo chama-se n’tshuba em Moçambique. pelo menos no Sul. obrigado pelo post. este e outros. a Ma-schamba com estes ‘reforços’ está um espectáculo! avé JPT, que criaste e manténs este cantinho!

#2 jpt on 11.09.09 at 18:33


Mau, agora começam a gostar mais dos outros do que de mim …

#3 AL on 11.09.09 at 18:35


E isso mesmo CG. E eu para aqui as voltas e so me vinha a cabeca Tschova, que naturalmente nao tem nada a ver com o o jogo. Dizia para mim que pelo menos o nome em Mocambique (no sul como bem aponta) tinha a obrigacao de me lembrar. E… nada! Kanimambo pelo esclarecimento!

#4 AL on 11.09.09 at 18:36


Nao sejas ciumento! Nada do que eu escrevo pode alguma vez ter a profundidade e a qualidade do que tu produzes. Eu sou mais… bolos, acho eu

#5 cg on 11.09.09 at 18:39


:-) )

#6 candida on 11.09.09 at 20:36


:) bolos de berlimbimbim

#7 Jaime Alves on 11.10.09 at 1:31


Como menino “colonialista”, filho de pai “colonialista e mãe “colonialista”, (nasci e) vivi jogando n’tsua, de cócoras, a preceito, com os amigos de infância (negros e brancos), lá para as bandas da Gorongosa. N’tsua, assim se chama esse jogo em língua/idioma sena (ou t’shi-sena). Desculpem-me a irritação “colonialista” mas acabei de ler umas “bacoradas” anti-”colonialistas” num outro post do ma-schamba (bacoradas essas que, pensava eu, já tinham sido lavadas de certas mentes pela tanta água que correu nos últimos 35 anos!)… e ainda estou debaixo do efeito do choque. Mas, também não tenho porquê “portar-me bem” e deixar de desabafar o que me vai na alma! Era só o que faltava!!!
Kanimambo e… desculpem qualquer coisinha politicamente “incorrecta”!

#8 AL on 11.10.09 at 1:46


JA, grata por mais um nome para este jogo tao popular. Eu continuo com uma amnesia persistente e nao me consigo lembrar dos outros nomes que ja ouvi. Quando estive em Mocambique tinha uma amiga com quem jogava mais ou menos regularmente o n’tshuba ou n’tsua, trocando confidencias ao sabor do movimento das sementes na nossa modesta tabua de madeira. Era ja (bem) adulta, mas penso que o prazer seria o mesmo que o JA teve na sua infancia. :)

#9 jpt on 11.10.09 at 2:22


M’Palé (ainda que duvide da pertinência da acentuação) em macua do litoral – com as mudanças em macua não tenho a certeza que seja o nome universal em macua. Mas pelo menos em nahara e em seu torno é assim que se chama

Vê aqui:

http://ma-schamba.com/ilha-de-mocambique/1417/

#10 jpt on 11.10.09 at 2:29


Jaime Alves sou grande adepto da discussão in-blog. Mas convém dar os nomes às coisas, senão como se pode contra-argumentar? O ma-schamba tem, com toda a certeza, muitas bacoradas qu’isto são anos a debitar. Mas fui ver nos últimos tempos onde terá encontrado tamanhas bacoradas anti-colonialistas e não vi nenhuma entrada sobre o assunto. Poderá identificar o local do crime para que algum(ns) de nós, se assim o entender, diga de sua justiça, confirmando ou negando?

Já agora, e se me permite, vindo na sequência de uma caixa de comentários de há um post relativamente recente. É sua consideração, e não a poderei negar ainda que me pareça que não é exactamente isso que quer aqui dizer, que o senhor seu pai e a senhora sua mãe são (eram) “colonialistas”. Agora que o tal menino que evoca, jogando n’tsua de cócoras, joelhos esfolados, o fosse é algo que não creio. Poderá (deixo a hipótese) ter vindo a sê-lo, mas ali seria quanto muito um menino “colono”.

Não julgue que estou a torcer palavras, acho que a distinção poderá fazer algum sentido e até, quem sabe, matizar essa irritação – mas nada mais poderei avançar, até me (nos) fazer o favor de esclarecer sobre o bacorismo (se contextual se estrutural é questão basto importante)

cumprimentos

#11 jpt on 11.10.09 at 2:30


AL agora vou aproveitar o feriado para ir a correr tresler o Griaule

#12 AL on 11.10.09 at 2:39


N’tshuba, n’tsua, m’Pale… ora bem, isto esta a compor-se: 3 ja ca cantam!

Boa, boa, le o Griaule e ve se ele diz la alguma coisa sobre a origem do nome casa-palavra. E que era consistente em TODAS as aldeias Dogon que visitei (e acredita que as visitei quase todas, mesmo as que nao constam dos guias). Em Bamako, Severe e Mopti ouvi-o repetida e consistentemente, que me pareceu ate mais em uso que o tradicional toguna.

#13 ABM on 11.10.09 at 4:55


Lembro-me do jogo pefeitamente porque toda a gente (menos eu) jogava-o nas ruas. Eu preferia jogar xadrez. Quanto à casa palávra, bem, o Mali fica um pouco longe de Maputo… e à partida não se conhece visitas dos portugueses para aquelas bandas, mas … “casa palavra” cheira a português.

#14 jpt on 11.10.09 at 9:38


O Jaime Alves e o ABM deixam uma questão engraçada. Porque o m’pale – que é espalhado em tanto local, sob algumas versões (tabuleiros diferentes, numero de casas diferentes mas regras iguais), não entrou nos gostos europeus (apesar do contacto existente). É aquilo a que se pode chamar “etnocentrismo lúdico” (um pouco como a exima/uchua[será que é assim que se escreve] não entrou numa população que come puré de batata). Ainda que o jogo seja interessantissimo para o espírito lógico, matematizado.

Talvez – será que alguém conhecerá textos sobre o assunto? – tenha algum tipo de ligação (divergente) sobre as “Damas”.

É engraçado, já quando adolescente recebi um jogo [daqueles cartonados que nós associávamos à Majora] que me parece ser isto (lembro, mas nao afianço, um tabuleiro pentagonal com orificios e bolas. Nunca lhe liguei muito – não terá sido um produto de sucesso e eu nao estaria na idade para esse tipo de jogos. Só quando cheguei a Africa é que me lembrei daquilo e me pareceu semelhante.

Ou seja, o tal etnocentrismo lúdico ter-se-á matizado mas já tardiamente? Quem sabe por influència das gerações de ocidentais (daquelas das socidades onde havia indústrias de jogos) dos Jaimes Alves que cresceram jogando?

Ora aí está um tema para paper de história cultural. Se calhar já feito, claro

#15 jpt on 11.10.09 at 9:38


Gostaram do termo “paper”, assim como quem não quer a coisa? …

#16 AL on 11.10.09 at 10:53


Eu diria ainda mais: para um pais que se clama com 500 anos de colonias Portugal tem notavelmente pouquissimos “entrosamentos” com as culturas que clama ter dominado. No campo culinario isto e obvio como aponta o JPT. Foi preciso vir o 25 de Abril e a descolonizacao (sim, ja sei, so lhe chamo assim por uma questao de facilidade semantica) para os portugueses (da metropole, entenda-se) saberem o que e uma manga, ou uma papaia… Mercantilismo anyone?

#17 jpt on 11.10.09 at 11:06


Mas ao mesmo tempo comemos imensa batata e banana e ananas e piripiri. E até importámos o sarapatel de Goa que antes tínhamos para lá exportado. O mundo da gastronomia /culinária é ainda mais complexo

#18 AL on 11.10.09 at 11:20


Sim, e verdade, mas acho que as bananas e os ananases vinham da Madeira e para 500 anos de historia colonial as influencias gastronomicas parecem-me muito poucas. Lembro-me da minha surpresa, quando em 75 fui viver para a Alemanha, ao ver a quantidade de especiarias utilizada na (excelente) cozinha alema, um pais quase sem historia colonial.

#19 umBhalane on 11.10.09 at 13:06


AL

Não sei se vou ajudar.

O meu Pai foi para Moçambique, com uma cunha de um Sr. Bispo (verdade, verdadinha) em 1941.

Minha Mãe, creio que em 1943.

Meu Pai esteve, e viveu Moçambique/África, em Moçambique/África, até 1970, quando lá se finou.

Minha Mãe passou por África, e de lá regressou em 1971, viúva, à sua “Metróplole”.

Não sei se compliquei?

Não sendo antropólogo, tentei ajudar com um exemplo conhecido, simples.

#20 AL on 11.10.09 at 14:01


Caro umBhalane nao complica nada e os comentarios/historias/memorias sao sempre bem vindos. E nao e preciso ser antropologo… :)

#21 jpt on 11.10.09 at 18:21


Sobre a mobilidade alimentar, flora e gastronomia, proponho assim à mão de semear.

http://ma-schamba.com/historia/alfredo-margarido/alfredo-margarido-as-surpresas-da-flora-no-tempo-dos-descobrimentos/

http://ma-schamba.com/historia-mocambique/exposicao-as-plantas-na-primeira-globalizacao/

A viagem dos sabores, de Rui Rocha, de edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses ou da INAPA – não sei por onde o livro cá em casa.

#22 Nita on 11.10.09 at 18:50


Bons dias, eu não me lembro do nome do jogo que jogei em criança, no Bairro do Fomento / Matola.
Mas onde eu moro, em Cabo Verde, chama-se Uril.
É assim que as culturas são enriquecidas.
Hambanine.

#23 ABM on 11.10.09 at 19:26


Como acordei há bocado e estou fresquinho, dá nestas coisa.

Vejamos: e se virarem o disco ao contrário e se perguntarem o que é que os haitantes desses pontos distantes por onde andaram portugueses aprenderam? que impactos houve? por exemplo, da minha curta visita a Angola (de dois anos) reparei que em Luanda fala-se português melhor que em Portugal nas classes mais abastadas, e a maioria do pessoal tem nomes de matriz portuguesa, no Natal comem bacalhau e bebem vinho tinto, são católicos de forma mais pronunciada e não assumem como totalmente exógena a cultura portuguesa, uma parte muito substancial fala português desde o dia em que nasce.

Mas não deixam de se considerar angolanos de gema.

O que é que nós que crescemos num contexto africano colonial temos de africano? o que é que não temos de “português”? bem, isto tudo daria que pensar e talvez dois “papers” o facto é que nunca, até este dia, me considerei europeu, nem americano, identitária e culturalmente.

Mas também nunca me deu para andar vestido de capulana e armar em “nativo” a dançar a marrabenta como alguns por aí.

Acho que conheço a cultura portuguesa “por dentro” mas, perpetuamente, vejo-a “de fora”. Os anos de Moçambique ensinaram-me a ver o infinito, a natureza, a beleza, as possibilidades e de como concretizá-las, a enorme força do que é querer fazer e querer ser.

A exposição à cultura portuguesa tende a transmitir-me o finito, o limitado, o absurdo de querer mais, o insustentável peso do que vem de trás, que nos persegue e cerceia.

O contraste entre as maneiras de pensar e estar, daquilo que os intelectuais alemães chamam “weltanschaung”, muito mais do que nomes e se se fala assim ou assado ou ainda se se come bacalhau ou caril com mandioca, foi o que desde sempre me demarcou do ser português de “cá”.

Curioso porque, sendo Moçambique no essencial colonial, pobre e quase medieval enquanto crescia, e a família BM não particularmente abonada (dos meus cálculos, tudo o que foi espremido de 26 anos de Moç pelos meus pais não chegou aos 10 mil dólares, de entre tachos, discos, mantas, alguma mobília e um dente de elefante) esta sempre achei de longe a maior riqueza que trouxe da “minha” África.

E que riqueza essa tem sido, não tem preço. Permite-me, como o mais pobre dos Moçambicanos, rir perante a adversidade, ser optimista e ir à luta quando é preciso, sem aquele fatalismo ácido e derrotista de merda com que os portugueses (muitos, ou seja, regra geral) enfrentam a vida. Quantas vezes estou com os meus amigos portugueses, deprimidos e quase à beira do suicídio, a obrigá-los a sentarem-se e a sair daquele torpor imobilizante e a contarem as coisas boas que têm na vida: a família, a saúde, o tempo, o sentido de humor, a capacidade de se levantarem no dia seguinte da cama e de novamente irem à luta.

Sobrou-me uma enorme empatia com os africanos em geral, onde me sinto mais em casa que com os europeus, mais anal-retentivos, distantes e sempre prontos a julgarem e rotularem com o propósito de mandarem abaixo e se possível lixarem. O que mais me impressiona nos portugueses é a inveja, a inveja do que os outros são, do que os outros têm, da sua felicidade, do seu sucesso, das suas diferenças. Em parte é cultural, mas em parte creio que resulta de este ser um país sem mérito e sem oportunidades e em que as oportunidades surgem resultantes de critérios perfeitamente arbitrários – de cunhas, de ser amigo do ministro, de meramente estar no sítio certo na hora certa, de ser da família A ou B.

Daí a importância, na cultura portuguesa, do “fado” – não a canção chamada fado mas do que esta palavra traduz em termos de uma visão de fatalismo quanto à indeterminabilidade de um destino que não podem nem conseguem moldar – muito suportada por séculos e séculos de um catolicismo rígido, tradicionalista, retrógrado, conformista e redutor.

Bem, fico por aqui senão isto deixa de ser achega para ser “descarga”.

#24 jpt on 11.10.09 at 19:43


Como tenho dito, sou adepto da discussão in-blog e da canelada que nela surge (e até, repito-o, do direito ao insulto). Mas, e continuo em maré de repetição, isto das interpretações são mais do que tudo decisões. Indepentemente das generalizações que fazes sobre os portugueses e os africanos, que não vou discutir, eu interrogo-me sobre o teu início, que é muito significativo, que é um “ponto de (tomada de) vista”, que é (ou pelo menos muito aparenta ser) um “local discursivo”:

“Vejamos: e se virarem o disco ao contrário e se perguntarem o que é que os haitantes desses pontos distantes por onde andaram portugueses aprenderam?”

Qual disco? A pergunta deixa entender que há um disco a tocar, e que a música entoada é contrária à tua pergunta. Onde está ela? Com toda a certeza não no texto da AL, que até indica uma particularidade linguística interessante.

Ora se não está aí coisas sobre fluxos cognitivos, aprendizagens, apropriações intelectuais, só eu opinei aqui. Por que é que um jogo não entrou no corrente portuguès, europeu? Ainda para mais se foi jogado amplamente pelas populações europeias aquando do período colonial? É uma questão interessante – não será a fissão atómica, é certo. Dei outro exemplo, há coisas que não entraram no alimentação (a mandioca, por exemplo). E dei, tipo rodapé, très livros porreiros que mostram como as nossas actuais paisagens gastronómicas / culinárias, as paisagens naturais (plantas – e até animais em menor incidència) sáo feitas de entre-aprendizagens, exportações e importaçóes. Por que raio entraram uns alimentos na dieta alimentar e outros não? É uma questáo deliciosa (até para o palato, esse sentido intelectual por excelència) e é também fantástica pors desnaturaliza a ideia da paisagem natural, típica de determinada área, afinal produto de importação de flora exógena e sua disseminação. É história cultural, económica, política, biológica, etc e tal. De inter-adaptações, de opções diversas. Umas coisas entraram outras não. Porquè? Para além das condicionantes climáticas (hoje muito esbatidas com a indústria agrícola) houve outros condicionantes. Quais …

O frisbee (será assim que se escreve), esse boomerang de plástico, entrou na economia lúdica. O mpale não? Porquê? É isso, nada mais, nada menos, que perguntei (retoricamente, porque não estou à espera que aqui surja a resposta – mas se surgisse seria um must in-ma-schamba)

Que raio da música unilinear se pode ouvir aqui? Que rewind te enjoou?

#25 Jaime Alves on 11.10.09 at 20:02


Estimado JPT,

Obrigado por dar-se ao trabalho de comentar uma parte do meu “post” (sobre o jogo das covinhas no chão), no relativo à minha irritação sobre certa terminologia que julgava completamente “demodé”, desactualizada, uma vez que os tempos do PREC já vão loooonge.
Há muito que deixei (fisicamente) Portugal para trás, com os mesmos sintomas de asfixia que experimentou o Senhor (com S) meu Pai, anti-salazarista convicto, nos longínquos anos 50. A minha irritação prende-se com o despudor com que certos senhores (e senhoras!) continuam a usar certos termos – certa terminologia como lhe chamei mais acima – para se referirem a certas situações ou contextos do passado colonial. Quando se deu o 25 de Abril, os portugueses da chamada metrópole, incluindo aqueles que (já) eram de esquerda – comunistas incluídos – conheciam tanto das distintas realidades sócio-culturais das diversas colónias como eu (hoje) conheço da realidade dos povos da Ásia Central. Mas, se há algo para perdoar, será essa enorme ignorância – sã, de uns – acompanhada da terrível “ignorância” (com aspas) de outros – supostamente esclarecidos e informados – mas que era manipulada por interesses que hoje estão bem sepultados debaixo dos cinzas do Muro de Berlim.
O Senhor meu Pai, nascido em Portugal, acabou por ser mais vítima dos abusos e arbitrariedades do regime português em Moçambique, que o foi alguma vez na metrópole. E porquê? “Apenas” porque defendeu uns camponeses (negros, entenda-se) que estavam a trabalhar nos seus campos de algodão, e que o administrador local (lá para as bandas do interior de Tete) pretendia ver trabalhar numa qualquer estrada que ele estava arranjando/consertando/tapando buracos. Há que agregar que o meu Pai denunciou este abuso do dito administrador na sua condição (dele, meu Pai) de técnico do Instituto do Algodão de Moçambique. Resulta que o Sr. Administrador era xamuar (amigo, em t’shi-sena e em t’shi-nhungué) do Exmo Sr. Governador do Distrito de Tete, o qual por sua vez pediu a “douta” opinião do Exmo Sr. Sabino, Inspector da PIDE do Distrito de Tete (de cujo filho eu era amigo de correrias e bicicletadas pelas ruas empoeiradas da cidade mais quente de Moçambique… ironias da vida…)… e a família Alves acabou contando as mangueiras do desterro, a mais de mil e picos kms, lá para as bandas de Espungabera.
Mas, perguntará o estimado JPT, a que propósito vem tudo isto? Vem a propósito de que Gente (com G) como o meu Pai existiu um pouco por toda a parte nas distintas colónias, Gente Decente – Muito Decente! – mas de baixo perfil, a quem não só nunca se fez justiça no passado, como se continua injustiçando, colocando no mesmo grande saco colonialista, de cada vez que se fazem certos comentários ligeiros, leves – levianos – sobre o período colonial e os seus agentes/partícipes. Como se todos fossem farinha (podre) do mesmo saco salazarista-colonialista!
Dou-lhe razão, JPT, quando diz que há que chamar os bois pelos nomes! Assim deve ser, assim devia ser, sempre! Mas como tenho sobejas razões para continuar a sentir amargos de boca (ou seja, amargos de alma!) com relação ao facilitismo das palavras de certos senhores (e senhoras!) mui letrados, intelectuais, pensadores e teorizadores do período colonial (eu, pobre “mwana”, nascido na época das chuvas lá para as bandas da Gorongosa, sem caminhos transitáveis nem veículo 4×4 para a senhora minha Mãe poder ir parir-me à Beira, a “apenas” 150km), e não tenho pachorra para alimentar polémicas que (já) não levam a nada, “refugiar-me-ei” na realidade do meu enooorme cantinho sul-americano, cheio de espaço – como em África – enquanto os cães ladram e a caravana passa. Porque, como dizia Jacques Brel, “gosto de ser mal-educado”… mas – digo eu – “no tengo ganas de serlo” (como se diz aqui em “tierra pampeana”)!
A propósito: o número de buracos/covinhas de cada fileira do jogo de “n’sua” era par ou ímpar? Quem sabe? :)

Um abraço cordial desde a mesopotâmia argentina,

Jaime Alves (luso-moçambicano e cidadão do mundo… e mwana da Gorongosa, também!)

#26 Jaime Alves on 11.10.09 at 20:36


Tínhamos a mesma idade, corríamos, saltávamos e subíamos às árvores com (quase) a mesma facilidade… mas, quando os meus adversários do jogo de “n’tsua” eram meninos negros, eles aguentavam sempre mais tempo que eu estar de cócoras, sem se moverem, sem se levantarem para desentorpecer as pernas. E às vezes o jogo era renhido, ou tinha muitos buracos (o número de buracos era à vontade dos “fregueses” e da paciência ou da vontade que se tinha para escavá-los caso não existissem nesse lugar)… e nunca mais terminava! Às vezes ganhava… outras vezes também! :)

#27 cg on 11.10.09 at 20:50


gosto de vos ler.

ao que me lembro o jogo tem um nº par de covinhas nas filas, JAlves

joguei-o algumas vezes. e agora dou a minha visão pessoal acerca da não-apropriação do jogo pela população colonial. é um jogo, e até bastante aliciante pois obriga a cálculos matemáticos. porquê o desinteresse, então?_falo na zona urbana, na capital, que do “mato” nada sei além do que contam ou leio.

durante algum tempo eu e uma colega/amiga fazíamos as folgas dos fiscais, aos fds, no recretumanete do pessoal eventual da estiva. a porta nº 5 do cais, na praça Mac-Mahon_uso a toponímica antiga, a que a memória me diz. era feita no início da madrugada e, claro, não nos levantávamos para esse complemnto de vencimento (+ 1.400$00 mensais, mesmo nada mau): marchávamos directos da discoteca para lá, um primeiro pequeno-almoço no bar da estação (ricas ’stouts’ com sandochas de ovo!) e, finda a escala dos estivadores, ou um novo pequeno-almoço no Continental, com os capatazes e conferentes, um belíssimo meio-bife com ovo a cavalo, ou cirandávamos pelo nascer do dia por onde calhasse. muitas vezes seguíamos directos para a praia, um belo banho e uma sorna na areia para recuperar. jóia.

mas, algumas vezes, dávamos, dava, uma volta pelo cais. os ‘Maru’ eram uma atracção, que eram sempre quiosque de revistas pornográficas – só quem foi jovem mangusso naquela época sabe do valor da posse dumas páginas daquelas, dum filme cof-cof em 8 mm, essas raridades e preciosidades que tornávam-nos o gajo mais procurado do bairro! – ou dos famosos relógios Cauny, que facilmente se compravam por mil paus e se vendiam por um conto e tal. julgo que em LM nunca ninguém comprou um Cauny no relojoeiro, embora fosse um relógio de pulso afamado e popular!. benefícios do job, e tudo prescrito inclusivé na minha consciência.

ora é aqui que entra o n’tshuba e o meu esforço em tentar lobrigar porque é que um jogo bem nice não era jogado pela população branca – o nome aos bois e aos personagens. aprendi-o com estivadores e guincheiros-portalós e não com capatazes e conferentes. a pigmentação de pele era aquela que estão a pensar nestas classes profissionais. aiás, as manchas discordantes eram para cima e não para baixo: havia uns poucos capatazes negros ou mulatos, e um chin~es, o Paulo Ahing, que era o maior contrabandista do cais, já agora. esse man, certa vez em que lhe falei se arranjajaria umas coisitas especiais para desenjoar da suruma, fez-se intermediário dum pacotão duma massa tipo alcatrão em bruto, que depois soube ser ópio e provavelmente do melhor. vi-me grego para sacar uma lasca a título de amostra ao dseconfiado filipino (?) que queria vender-mo por um balúrdio, o man era louco ehehe _já agora, não deu moca em especial: éramos “trinta” ao niquito, experiência daquela cena nenhuma, ficou a memória da experiência. voltando ao n´tshuba:

portanto nunca vi um capataz ou conferente (use-se o paint para clarificar…) a jogá-lo, ou até especialmente interessado a observar o jogo. era “jogo de pretos”, tout court.

desculpem a franqueza e as vistas provavelmente curtas.

regresso ao início: adoro ler estes debates. sou leitor de blogs_do ma-shamba_ há sete anos e, se muito aprendo lendo-’vos’ acredito que acontece em partes iguais na superfície e aqui, nas caves. aprendo, porque estes debates levam-me a reflectir por comparação enter as vossas e as minhas memórias, saindo muito enriquecido, claro. obrigado

#28 cg on 11.10.09 at 20:53


onde está em feminino é erro: era um amigo e colega, lá no sindicato. o Luís de Brito, na realiadde o meu maior amigo na adolescência. infelizmente já não está cá

#29 ABM on 11.10.09 at 22:35


Ainda estou engasgado com o texto de Jaime Alves, que expande a minha percepção da diversidade do que foi o século XX “português” em Moçambique.

Mas, antes de jantar, uma nota ao JPT. A minha participação neste debate internético entre interessados que presumo procuram alguma luz e confronto e debate nas suas ideias e mundividências tem um componente mais pessoal e menos académico. Portanto não procuro fazer ciência nem sequer outra verdade que não a minha – e a nossa. E é nesse contexto que vou dando os meus contributos e tentando interpretar. Como temos a sorte de ter em ti e na AL académicos “a sério”, vou ganhando dessa verve. Bem hajas.

Bem, eu posso propor-te uma teoria sobre porque é que certos costumes das respectivas comunidades – a originária indígena e a de origem portuguesa para ali migrada – não passaram de um lado para o outro. Há duas razões de base:

1. Número. A esmagadora maioria dos portugueses que foram viver para África era demasiado pequena para ter impacto a este nível na comunidade moçambicana. Angola tinha metade da população nativa de Moçambique e tinha cinco vezes o número de portugueses em 1974, e uma parte significativa desses vivia no mato e há muito mais tempo que os portugueses que migraram para Moçambique. Se em 1974 os portugueses e seus descendentes chegaram a ser 20% da população angolana, em Moçambique nunca passou dos 2.5%. Agravado pelo facto de uns 75% desses 2.5% chegaram a Moçambique entre 1960 e 1974.

2. Geografia. A esmagadora maioria dos portugueses e seus descendentes viviam em cidades e centros urbanos onde na maioria dos casos o convívio era uns com os outros. O resto era excepção. E nessas áreas urbanas – se se exceptuar o experimento do engenheiro Trigo de Morais no Limpopo – o propósito estatal era prolongar Portugal, não o de fazer África entrar pelas portas adentro dos centros urbanos. Quando muito, essa simbiose ocorreu mais nas periferias de LM como o Xipamanine, Mafalala, etc, que eram meios híbridos. Só tarde nos anos 60 é que de repente todos acordaram para a exuberância e valor do que estava ali à porta e à vista de toda a gente. E mesmo assim no contexto de uma administração colonial importada e de uma ditadura que fiscalizava e censurava tudo o que lhe parecia suspeito.

Não se subestime, no entanto, algumas das “contimanções culturais”. Moçambique, por exemplo, tem hoje um problema sério de importações de trigo porque a população gosta e está habituada a comer pão de trigo – cereal que não se produz em Moçambique. Tem havido alguns esforços para se mudar isso, mas boa sorte aos senhores que têm esse propósito em mente. O futebol, o básquete e outros desportos eram atributos “coloniais” que foram adoptados como “da casa”.

#30 AL on 11.11.09 at 1:30


Confesso que estou agradada, ainda que um tanto perplexa, com a quantidade e qualidade dos comentarios que este post solicitou. Nita, obrigada pelo Unil – ja sao quatro nomes aqui citados.
Quanto ao numero de “covinhas” ja joguei em tabuas com numero par e com numero impar.
O jogo acho-o interessantissimo e ja disse aqui tinha por habito joga-lo mais ou menos regularmente.
ABM eu nunca me designaria academica; sou mais uma diletante que outra coisa…

#31 jpt on 11.11.09 at 5:47


Jaime Alves, insisto que se torna difícil conversar. V. diz que não se importa de ser mal-criado (ainda que não o queira). Mas não é disso que se trata, não me parece (e dificilmenta a alguém parecerá) que o tenha sido [e mesmo que tivesse sido não era razão para não discutirmos, contra-argumentarmos]. O problema é que V. argumenta e contra-argumenta. Mas não explicita contra o que é que argumenta. Veja, refere que está contra “certa terminologia que julgava completamente “demodé”, desactualizada, uma vez que os tempos do PREC já vão loooonge”, e poderá ter toda a razão. Mas náo nos diz onde a encontrou, nao permite a minha (nossa) concordância ou discordância, aplauso ou contra-argumentação. Assim, tem que concordar comigo, torna-se difícil. Apenas o posso (podemos) ler, mais nada. Não me parece que seja o diálogo …

Quanto ao que refere da biografia da sua família, e se me permite utilizá-la (no bom sentido, respeitosamente) para uma argumentação. O que se coloca neste caso, que é recorrente quando falamos ou lemos os portugueses que foram colonos (e por favor não entenda “colono” como termo pejorativo, é descritivo no sentido de população que colonizou as colónias), é uma constante discussão identitária (veja por exemplo o comentário 23 do meu querido ABM). E é uma discussáo identitária, normal, legítima, mas que assenta sistematicamente no recurso à biografia própria (“eu”/”nós, família” éramos, viviamos assim). E assente nas biografias próprias há uma constante auto-justificação. Identitária sempre, por vezes política. E que remete sistematicamente para um diálogo, uma oposição histórica, com os discursos do tal PREC que refere (os colonialistas que exploravam os pretos, como se dizia em Portugal, etc e tal; os portugueses de segunda idem; ou os exploradores exo-africanos, como se dizia em Âfrica, etc)

Ora honestamente três décadas depois esse é um discurso (pelo menos o portuguès) que não está lá. Sobre Africa e a colonização nem sequer há um discurso vigente, passou de tema. O termo “retornado” desapareceu, os estudos historiográficos não abundam, o seu eco mediático-político, os movimentos da “sociedade civil” (como agora se chama) nao abundam, para além de algum folclore muito politizado de há uma década em torno dos “espoliados do ultramar” [confesso que tenho muita simpatia por aqueles que deixaram as suas economias a cargo do Estado português e as receberam décadas depois segundo o valor facial, uma vergonha. Confesso que não tenho nenhuma simpatia pela postura de "espoliados" pelo movimento da história, mas isso é outra muito mais abrangente coisa]

#32 jpt on 11.11.09 at 5:58


(cliquei pois o texto já estava grande, Continuando)

O que tem piada, pelo menos eu acho, num espaço Amador (que é uma belissima palavra) como um blog é a gente sem grande responsabilidade (a não ser não fazermos muitas tristes figuras, coisa que por vezes nao consigo para mal dos meus pecadilhos) é podermos ir falando – um gerúndio que não obriga a grandes conclusões mas permite trocar impressões.

Ora neste ponto, e como diz acima o ABM, um tipo pode ir sacando a pluralidade dos contornos da presença portuguesa em África durante o regime colonial (e, num outro tipo de registos, antes disso). E também depois, claro.

E que sao feitos das múltiplas vivÊncias, daí o interesse das (auto)biografias (que são sempre reconstruídas pelos locutores, o que não significa que sejam mentirosas, pois todos nos reconstruímos as nossas biografias).

Mas o que acontece quando, como é recorrente, falamos com gente ex-colona é que “exigem” a manutenção do discurso em termos (auto)biográficos. “Eu tenho a verdade”, “em minha casa era assim”, “nós não éramos racistas”, “nós não ganhámos dinheiro”, etc etc. Com toda a certeza que isso explicita uma memória própria, legítima, reconstruída como toda a memória historica. Mas não pode ser obstãculo a uma visão (melhor dizendo, às visões) sobre o regime colonial e as formas de articulação dos grupos sociais existentes. Nao pode no sentido que nao é legítimo que o seja.

Ou seja, as aventuras e desventuras da família Alves (ou da família Botelho de Melo, ou de tantas outras) são muito interessantes historicamente para compreender a riqueza e pluralidade do período colonial. Mas não (me/nos) podem impedir de reflectir sistemicamente sobre o tal período. Pelo contrário, são uma das componentes para pensarmos a sua complexidade.

Ok, isto já vai longo. E não é conclusivo, como se pede in-blog.

Cumprimentos. E se quiser fazer o favor de explicitar onde é que usei (ou outrém) usei a tal terminologia PRECquiana muito lhe agradecerei

#33 jpt on 11.11.09 at 6:05


PS. Tenho que confessar a minha falta de paciência para este tipo de arguemntação: “palavras de certos senhores (e senhoras!) mui letrados, intelectuais, pensadores e teorizadores do período colonial” A cagança intelectual é uma constante, reconhece-se à grande. Mas também é constante a desvalorização dos “intelectuais, pensadores” etc. É um tipo de discurso que tem geneologia, a do totalitarismo. Os que defendem a inevitabilidade de alguns processos e a inutilidade de sobre eles reflectir. Um ponto final parágrafo. O rame-rame vs “intelectuais” continua, e muitas vezes por parte de pessoas que não são exactamente defensores desse tipo de regimes. Mas compram-lhes, avulso, a argumentação.

Pobres das sociedades em que os estúpidos e arrogantes “intelectuais, pensadores” etc não dizem as suas asneiras.

#34 jpt on 11.11.09 at 6:16


ABM, como será evidente muito do que aqui contrapus a JA é também para ti. Mas deixa-me dizer-te duas coisas: a) eu no ma-schamba não sou académico. Sou um tipo nas horas vagas (confesso que algumas não o deviam ser) a perorar. Sou o jpt.
b) o jpt sabe que o trigo é uma introdução na dieta alimentar africana. Mas também viu umas exposições e uns livros (que acho que também conhecerás) em que se mostra que o milho e a mandioca também o foram.

Ou seja, quando me interroga por que é que o m’pale não entrou na “dieta” lúdica europeia não estou a choramingar os complexos colonos do que não aprendemos com os africanos. Interrogo-me apenas porque nao terá entrado este jogo tão generalizado (e matemático) na mancha cultural europeia (dominó, damas, no ocidente, xadrez no oriente europeu). Que obstáculo comunicacional, apenas isso. Ou por outra, por que é que a mandioca americana não entra na dieta alimentar europeia (ok, é muito pobre e de difícil trato) e o milho entra (ok, mais rico). Por que é que o milho (aparentado com o inhame) entra primeiro na dieta alimentar africana (via portugueses, estas a ver, a responder à tua pergunta) e a mandioca só no século XX (via europeus, aqui via portugueses)

Sáo perguntas que se prendem com aquilo que no fundo tu dizias, ver a complexidade e a pluralidade das coisas. Não são perguntas num contexto académico.

São, e aqui insisto, perguntas que não partem de um problema identitário, de auto-afirmação identitária que combate (ou quer contrastar) opiniões alheias que foram historicamente afirmadas (e, quantas vezes, sofridas)

Como diz o JA o PREC já foi há muito tempo. E honestamente não está no meu horizonte, nem da minha parte do ma-schamba. Ou por outras palavras, o meu Vasco Gonçalves chama-se José Socrates. E por mais simplista que isto possa parecer, Vasco Gonçalves ao menos completou o curso da Academia Militar enquanto José Socrates mafiou os seus estudos. E, julgo, continua mafiando o meu país.

A grande diferença, identitária, discursiva e política, é esta.

Que não esgota, claro, as diferentes visóes sobre portugal, sobre o portugual colonial, sobre a africa colonizada, sobre o agora a norte e a sul de ceuta. E isso é que tem piada

#35 ABM on 11.11.09 at 7:27


JPT

Três comentários madrugadores:

1. O Sr Jaime Alves devia escrever um livro sobre algumas coisas que ele viu e porque passou.

2. Foi preciso ler este teu comentário para descobrir que os comentários enviados são numerados (o meu 23…)

3. Já deves ter percebido há muito tempo que há muita gente mesmo por aí extremamente “pissed off” pelo facto de que as suas experiências africanas foram “apropriadas” e tingidas por uma série de rótulos, muitos deles perfeitamente desajustados e que lhes causam dor e ou indignação. E, não sendo académicos ou sociólogos – são gente creio que normal como o Sr Alves, falam das suas experiências pessoais. Acrescido que, da violência que marcou na esmagadora maioria dos casos as suas vidas e das suas famílias logo após 1974 no caso de Moçambique, que passou de um gulag para outro, não houve na maior parte dos casos em trinta e cinco anos sequer uma chance para uma catárse, uma reflexão, um enquadramento. A maior parte das pessoas engoliu esse choque a seco e imediatamente teve que ir para qualquer lado e focar-se unicamente em sobreviver, quase sempre a partir do zero, com filhos menores às costas e sem plano B. Por ser quem sou, conheço inúmeros casos destes. Isto não nem discurso de espoliado nem ressabiado contra ninguém. Mas não estavas como eu em Lourenço Marques no fim do mês de Setembro de 1974 quando, após o anúncio dos Acordos de Lusaka, o governo português mandou escarrapachar na página um do Notícias foi que “os direitos e bens dos portugueses estavam salvaguardados”. Eu tinha 14 anos e lembro-me de ler isso (os BM não tinham nada para salvaguardar, feliz ou infelizmente, para além duns discos do Frank Sinatra e umas fotos velhas). Vai lá ver a Biblioteca Nacional em Maputo que está lá guardado. Para mim, que intelectualizo e contextualizo este período, por que passei incólume no essencial, não me afecta, mas não é o caso com muita gente. Que, creio, vê nestes diálogos nossos que lhes entram pela casa a qualquer hora e em qualquer parte do mundo, por vezes um remexer em assuntos que na maior parte dos casos a geração seguinte já nem sabe do que se trata (a maior parte dos meus sobrinhos nem sequer sabe falar português e basicamente não sabe onde fica África, quanto mais Moçambique). Essas pessoas têm o direito a alguma indignação, mesmo quando tal se torna por vezes chato ou inconveniente. A discussão identitária vira-se para as suas circunstâncias pessoais porque não há mais nada. A comunidade na qual crescemos evaporou-se no espaço de doze meses. Desapareceu. Se olhares para todos os prédios de Maputo excepto os novos, todos estavam cheios de portugueses e dos seus filhos, que já não tinham outra referência que não fosse essa terra. Em muitos casos tinham os pais e avós aí enterrados. Quase de repente saíram de qualquer maneira e parece que acordaram no meio da rua num país estranho. Se reparares este é um tema recorrente com muito boa gente. Eu acho interessante pois conheci vagamente essa realidade e considero que faz parte absolutamente integrante da História de Moçambique – e de Portugal. Independentemente dos considerandos políticos e ideológicos que as acompanhem como lastro. Imagina que os Olivais, onde vives e cresceste, de repente são considerados parte da China e tens seis meses para te pores na alheta, com mulher e cinco filhos, com a roupa que tens em cima e mil dólares. Acabas por ir parar ao Alasca, onde apesar de seres professor de sociologia o que arranjas para fazer é cortar bifes num talho ao salário mínimo e a tua mulher a enroscar latas em part-time. Nada disto hoje tem relevância concreta nem nada a ver com o Moçambique actual. É uma questão quase de forênsica. Acho que os moçambicanos hoje, exceptuando uma mão cheia de pessoas, não sonha o que se passou nessa altura nem quer saber. 80 por cento dos moçambicanos vivos não eram nascidos em 1975.

Finalmente, entenderás que isto é uma coisa de uma geração. Daqui a 20 anos já morreram todos e far-se-á final e definitivamente o silêncio. E então haverá apenas uns estudos sociológicos meio parvos sobre como terá sido o período que antecedeu a independência e uns livros meio tépidos tipo Karen Blixen que começam “eu tinha uma casa em África…”.

Deixa-me concluir com uma perspectiva que na altura achei relevante e que me mostra quão localizado e relevante é para uma geração mas rapidamente desaparece. Enquanto eu estudava na Brown University, o excelente escritor José Rodrigues Miguéis morreu em Nova Iorque. Por essa altura não só li vários dos seus livros mas também me apercebi melhor de quem ele era e do seu percurso pessoal. Ele estudou em Bruxelas no fim dos anos 20 e viajou pela Europa Central, incluindo Holanda e França, tendo-se casado na altura com uma russa que acho que se chamava Pécia (conheci pessoalmente a segunda mulher dele, a Camila, que doou o espólio dele à Brown nos anos 80, onde ainda se encontra). Em parte por causa das viagens e creio que por causa de Pécia, o JRM descreveu sucintamente o mundo penoso e pesado da comunidade “expatriada” russa naquela altura refugiada nas capitais europeias e fugida em desespero da revolução comunista russa e dos sucessivos terrores que lá se praticaram, especialmente na década de 20 e 30. Uma comunidade desesperada, deslocada, com grã-duquesas a servir à mesa, homens de negócios sem negócios, quase todos sem nada, vendiam as jóias para comer, arrumavam-se como podiam, ressabiados e sem rumo, que tentavam esqeucer e não conseguiam. Se ele não tivesse, quase inesperadamente, feito essas referências, totalmente inesperadas para mim, que via nele um lisboeta transplantado, eu nem saberia que isso acontecera, que fora um facto. Porque é que me tocou? porque vi tanto disso na minha estadia em Portugal entre 1975 e 1977. Masi do que a dignidade perdida, vi gente a perder a sanidade e a vontade de viver.

Um dia não longe estes testemunhos desaparecerão e a vida continuará. Faz parte da roda da História.

Se aprendi alguma coisa com isto tudo foi (e vai em inglês, que entretanto tornou-se a minha segunda língua): 1. don’t keep all your eggs in one basket, 2. nothing in life is sure, 3. do your best and have fun. 4. Tomorrow is another day.

#36 jpt on 11.11.09 at 8:08


1. também acho, apesar dos fusos horários, madrugou-se no ma-schamba
2. também acho, o que falta é uma literatura memorialista. Não é muito tradição portuguesa mas seria muito interessante que as pessoas pusessem em texto as suas vivências: como documento histórico, como catarse, para conhecimento actual. Em Portugal vi alguns títulos mas não os comprei (dinheiro cada vez falta mais). Aqui tèm saído algumas memórias dessa geração, seja em registo memorialista explicito seja em ficção (ando a ler um título passado no Niassa, enviar-te-ei referencia). Não é ainda um grande movimento livresco mas já há alguns textos, a ultrapassarem o que o “luto colonial” de que ou o Margarido ou o Lourenço falaram (não me lembro qual foi, se calhar os dois, e não me vou por a aprimorar o comentário com referencias bibliográficas).

Eu acho muito interessante essas biografias ou memórias. No caso de descendentes de portugueses posso, grosseiramente, traçar um eixo ilustrativo das diferentes vivèncias e conceputalizações: das memórias de Adelino Serras Pires às de Hélder Martins ou Jacinto Veloso. Todas são de particular interesse. Ok, dir-se-á que todos pertencem a elites. Mas as dos cidadãos externos a essas elites politico-economicas-sociais são de igual, ou maior (e aqui lá vai o antropologo) interesse.
Estou a falar das memórias de descendentes de portugueses, que também o sejam ou não, mas isso vale na mesma para todos os outros grupos nacionais, culturais ou religiosos integrando o período colonial portuguès.

3. Concordo com o que dizes sobre a inexistència de um palco e de uma reflexão alargada, e dos efeitos que isso tem sobre o discurso avulso, individual. Mas o que referi não implica a sua negação, a negação da sua legitimidade ou pertinència – muito pelo contrário. E também da sua inadequação neste blog (aberto a isso e ainda bem). O que disse é que esse discurso de catarse, de reclamação identitária, de questionamento histórico, de contraposição com discursos que foram (e ainda serão em alguns casos) historicamente dominantes, ancorado no tal auto-biografismo ou endo-biografismo, não pode negar a pertinência de outras abordagens.

Já percebi (bem antes de abrir o ma-schamba) que cada vez que se fala de “colonialismo” há uma série de gente que começa a resmungar, sistematicamente assente na auto-biografia (nós não éramos, nós viemos sem nada, etc) e na contraposição com o processo descolonizador (independentista, diz-se australmente). Ou seja, as reclamações individuais elidem o processo histórico? Desculpa, a catarse é necessária, tanto por bem-estar público como para conhecimento histórico (mostrando a tal complexidade dos fenómenos). Mas não pode impedir discernir os traços estruturais de um sistema e a tentativa de os entender e explicitar.

Ou seja, discussão, contraposição, tudo bem. Agora ilegitimar (“porque eu é que lá estava”) os discursos porque são intelectuais, comunistas, precquianos? Francamente, estamos em 2009. Houve um regime colonial que era, estrutural e ontologicamente, um regime de invasão, apropriação e exploração. Complexissimo, mas com características estruturais. Tenho que pedir desculpa aos africanos todos os dias, e estou impedido de tentar entender essa história, a sociedade é uma pessoa e a história também, e como tal nos devemos comportar? Acho que não – e sobre isso escrevi há anos uma atoarda: http://ma-schamba.com/roupa-velha/mil-desculpas/

E tenho que pedir autorização aos portugueses colonos para falar sobre o assunto, pois nem eu nem os pimentéis teixeiras por aqui andávamos? Era o que faltava. Na mesma. E tenho que pedir desculpa porque ao falar não repito os seus argumentos e as suas preocupações? Era o que faltava. O que eu tenho é o dever intelectual (cidadão, não académico) de atender aos seus discursos, interessar-me pelos seus discursos e suas visões.

Mas não tenho que aceitar ser visto como o Almeida Santos ou Otelo Saraiva de Carvalho só porque não me restrinjo ao que pensam e dizem. Tal como não tenho (e já agora, nunca foi assim visot) que aceitar ser visto como o Kaulza de Arriaga só porque não concordo com visões similares inversas, do “outro lado” de então.

Agora vou ganhar dinheiro. Abraço e bom dia

#37 ABM on 11.11.09 at 8:58


JPT

Falaste bem mas… o Adelino Serras Pires parte da elite?? mas que elite é esta? onde é que foste buscar isso da elite? elite de quê?

Além disso, não creio que tenhas que pedir desculpa a ninguém por coisíssima nenhuma. Era só o que faltava.

Eu costumo dizer aos meus amigos moçambicanos que se eu mandasse alguma coisa em Portugal, teria vendido a colónia aos ingleses e aos alemães em 1892. O sistema colonial era uma merda pelo que era e por quando era. Tinha que acabar e acabou, provavelmente tarde demais e etc. Os culpados disto foram cem anos de masturbação e endrominação colectiva das elites de um Portugal pobre, analfabeto e miserável (discurso que, surpreendentemente, persiste) que “aquilo era nosso” que era herança dos avós, etc e tal. E de um ditador que, por mais admirável que fosse, vivia no século XIX e ilegalizou falar-se doutra coisa que não isso durante os cruciais anos entre 45 e 70. Andou tudo na Lua e foi quase preciso o Marcello Caetano, que não conseguia ter tomates para fazer o que o de Gaulle fez em França doze anos antes, pedir ao Spínola se faz favor se ele não se importava de fazer um golpezinho de estado (fleugmático, ele não quis e tinha outras soluções que em 74 já eram impraticáveis). Foi a um grupo de militares fartos disso que coube dar a golpada e acabar com o regime.

O facto de que África se tornara no anos 60 em mais um palco do confronto Ocidente-Leste obscureceu a dialética do processo e ainda o facto de que quase todos os movimentos independentistas eram geridos e financiados pelos países comunistas não favorecia diálogos. Os únicos líderes de nível que não eram comunistas (Cabral e Mondlane) foram mortos. Da estupidez e postura arrogante de ambos os lados resultou precipitação, erros colossais e mais tarde, enquanto em Portugal se ficou a um fio de uma ditadura comunista, a implantação de regimes totalitários com políticas “socialistas” que, no caso da África Austral, quase certamente esbarrariam, como aconteceu, contra o colosso sul-africano. Que explorou desde logo as suas muitas fraquezas e inconsistências e os manteve absolutamente a ferro e fogo até os submeter e assim ter tempo para proceder à sua própria “descolonização” – esta negociada.

Os brancos que viviam em Angola e Moçambique foram apenas carne para canhão. Quer para os “libertadores”, quer para os poderes em Portugal, tinham apenas o pequeno, o menor azar de estar no sítio errado à hora errada.

Os custos, o preço de uma tão almejada liberdade obtida desta forma foram mais do que um milhão de mortos, guerras fratricidas durante mais que vinte anos seguidos, o desmantelar de toda uma infra-estrutura física e de know-how que está a custar os olhos da cara a colocar novamente no terreno, para além de um atraso de várias décadas na criação de riqueza para melhorar o padrão de vida das populações inteiras, a maioria das quais hoje, em 2009, não vive muito melhor que em 1974. Mais de metade de Moçambique vive naquilo a que se acordou chamar de “pobreza absoluta”.

Desculpa, pedir, tu? que eu saiba neste período jogavas ao berlinde nos Olivais. Não mandavas no Terreiro do Paço.

Eles mereciam melhor sorte que isto. Mas hey, c’est la vie. Aconteceu e já passou. Eu acho que Moçambique está mais ou menos no caminho certo e Angola para lá caminha.

#38 cg on 11.11.09 at 14:36


o “Niassa”, Francisco Camacho, é um bom livro. daqueles que se tem raiva ao ver as folhas minguarem…

#39 umBhalane on 11.11.09 at 23:12


CG

Simpatizo muito como , e com o que, escreve.

Sem ironia.

“ou até especialmente interessado a observar o jogo”

E o Sr. fez-me reflectir que nos jogos da malha, que em Esposende uns “populares” efectuam, aos fins de semana, realmente NUNCA vejo os “Nativos” a assisterem sequer, quanto mais jogarem!!!

Eu, por acaso, até fico um bom bocado a assistir, e a também ouvir aquele Português vernáculo cá do Norte, carago, até que o meu filhote, às tantas, diz:

- Vamos embora, pai. Isto é uma seca.

E lá vai o entornado embora, sem re.

Só entornado.

Reflectindo, compreendo, agora, muito melhor Camões:

- “Eu vi claramente visto”.

#40 Jaime Alves on 11.12.09 at 1:04


Para o Sr. ABM, a propósito do seu comentário #35:
1- Li e reli várias vezes as suas palavras sábias e ponderadas, convidativas à reflexão de alguns “distraídos” ou desconhecedores de certos detalhes, pavorosos, vividos por gente de carne e osso;
2- Como “colono” (não colonizei nada, não porque fosse melhor que outros mas porque nem sequer me deram tempo para isso…) identifiquei-me com muitas das situações por si exemplificadas, próprias de quem viveu na carne certas experiências (de medo, de abuso, de prepotência, etc.).
Se hoje se contar, “en passant”, que uma mãe (branca), avisada de que a Frelimo ia passar lá no bairro certo dia, da parte da tarde, e ia revisar arbitrariamente e sem nenhum tipo de mandado judicial – como era a norma revolucionária aprendida na cartilha marxista-leninista – as casas dos brancos (pois!), decidiu queimar uma mochila verde, de tipo militar, do filho adolescente (dessas que se compravam na Feira da Ladra) para não irem todos presos como já tinham acontecido antes (e voltou a acontecer depois), acusados de estarem a preparar um golpe de estado… ou, pelas mesmas razões (do golpe de estado, ou contra-revolução, talvez seja mais coincidente com o “linguajar” da época) ter de enterrar uma pressão-de-ar (carabina de ar comprimido para matar passarinhos, para quem não tenha feito a tropa…) nos fundos do quintal, debaixo de uma secular mangueira… se, como dizia, contar-mos hoje factos deste “calibre”, o mais provável é que nos mandem ir mentir para outro lado! Mas, para quem viveu esse clima de terror que se instalou em determinado momento em Moçambique (vinha o funesto camarada Samora Moisés Machel voando “glorioso” desde o Rovuma até ao Maputo… e em cada cidade onde aterrava espantava de terror os poucos “pássaros” tontos que ainda por lá andavam – os espertos e os que tinham culpas no cartório já se tinham posto a milhas! – e ajudava a TAP a encher mais uns quantos aviões)… para quem viveu esses tempos, dizia, são horas difíceis de esquecer. E, em minha modestíssima opinião, a História faz-se de pequenos e de grandes factos… mas nunca sem as pessoas!
3- Adorei o que o Sr. escreveu sobre os relatos do escritor José Rodrigues Miguéis, a propósito da comunidade expatriada (expatriada, sem aspas, na minha opinião), fugindo dos horrores e da barbárie da revolução comunista russa. Muito obrigado por esses factos que desconhecia! A História repete certas histórias! Amei!!
4- Amanhã será outro dia… e, se é feriado, melhor!
Abração

PS: Faltou-me agradecer a sua sugestão para que escreva um livro sobre algumas das minhas vivências. Esse livro está escrito… mas, para ser sincero, perdi a coragem de ousar/pensar publicá-lo quando, na última vez que estive em Portugal, em 2006-2007, vi a avalanche de “escritores” de sucesso que havia, escrevendo sobre tantos temas de “interesse” para o povão, desde as experiências sexuais e os engates de um “escritor-pescador-guia turístico-sexual” algarvio (que se vendeu como pão quente!), até aos devaneios amorosos de uma “tia” mal fod… de Cascais!
Não há certamente mercado para o que tenho para contar… mas, se o Sr. ABM quiser fazer-me o favor de ler uma ou duas das histórias que escrevi – as quais lhe enviarei com muito gosto – indique-me um mail para onde o possa fazer. Posso ser eu a deixar-lhe aqui uma direcção de correio electrónico minha, mas não sei se isso é correcto ou se está permitido.

#41 AL on 11.12.09 at 1:39


Caro JA, as memorias individuais sao preciosas e tem servido ao longo dos anos como base de estudo para muitos historiadores. Em Inglaterra existe muito o costume de se doarem a bibliotecas ou universidades os diarios, cartas, memorias escritas pelo cidadao comum. Este espolio passa a fazer parte da biblioteca de manuscritos da Universidade ou da Biblioteca, onde estudantes e academicos as podem consultar. Quando eu andava a pesquisar para a minha tese sobre o movimento MauMau foram-me extremamente uteis cartas e diarios escritos por missionarios, oficiais coloniais e simplesmente cidadaos comuns. Se por acaso nao conseguir publicar as suas memorias, talvez seja esta uma opcao que queira ponderar? Quanto aos nossos emails, penso que eles estao indicados no nosso perfil. Nao sei se o acesso e publico, mas se for podera usar qualquer um dos enderecos ai indicados. Basta clicar no link ao cimo da pagina que diz Ujaama e estatuto editorial. Se por acaso nao estiverem abertos ao publico em geral, confesso que desconheco a cortesia bloguista neste aspecto….

#42 cg on 11.12.09 at 2:21


UmBhalane (é prático o 1B, do jpt :-) ), caraças! você sabe- esqueçamos essa coisa dos “senhores”, ok?_como fazer corar um gajo que gosta de se sentar no banquito e desfiar histórias eheheheh ora aí vai já já um abraço, que sei lá se ainda voarão scuds depois de eu desbobinar o que vai pela minha cabecinha pensadora, depois de lhe coçar bem coçado o cocuruto pois vossemecês são uma canseira, porra! a quantidade de vezes que já li isto de trás e p’rá frente para não me sentir a fazer figura de urso, e ir pedir à menina que me empreste uns auscultadores para acompanhar o debate com legendas! ;-)

ora bem, começando pela metáfora da poesia: acho que ela é a literatura da melhor das elites: a da sensibilidade. daí que me atreva a afirmar que nenhum poeta compareceria a este nosso sarau outonal esperando recolher palmas uníssonas, se forçasse a rima entre as várias cidades que LM então reunia. não vou pela fácil dicotomia cimento vs caniço: contraponho, a exemplo, Alto Maé e Polana, e afirmando que o racismo pigmentário era superior naquele bairro que neste. o social é outra fruta e não foi ainda chamado para esta conversa. isto para dizer que a classe profissional da estiva não é um excelente exemplo dum auditório apreciador de poesia, e quanto menos letrada a classe maiores são as suas autodefesas contra “o outro”, o “inimigo” que supõe desejar “roubar-lhe” privilégios. lido daltonicamente é isso mesmo. é que eu às vezes acho que fui “entornado” foi da Lua. ou mais longe! de LM não foi concerteza, penso-o ao sujeitar as minhas memórias à comparação com outras que leio do mesmo período, ou perante críticas que recebo! palavra!

porém nunca o pensei, escrevi, que o racismo em LM, princípios dos anos 70’s, era tal qual um apartheid. os ‘muros’ esbatiam-se a olhos vistos e só um palerma com os miolos (ainda) cozidos dirá que não. porém a estrutura resistia. a mental, o núcleo. estava sedimentada. (em itálico) se eu andasse à porrada na escola, além do “kongoi nhine”, “xitombo xá uaco” e outros etcs em mimos (e sei lá como se escreve!: é p’ra ser entendido e ofender, chega :-) não me coibia de berrar «preto de merda!» se o marmanjo que me estava a enfardar fosse escurinho! em nada. até lho traduzia em francês, que passei com 12!_se deixo de raciocinar o subconsciente manda (fim de itálico). a mentalidade que punha as diferenças raciais como muito importantes estava incutida. racionalmente era rejeitada, enterrada. mas, tal como eu não o sou, nem todos os humanos são devidamente racionais, mais a mais se se sentirem apoiados num sentimento de “clã”, e acontecia. o colonialismo não é treta histórica: aconteceu e tinha uma mentalidade específica.

gostei de ler o comentário do ABM acerca da geração injustiçada pela História, que somos e fomos. assim é. a História pisou-nos, que não olha a minudências quando rola embalada. nós, ‘tugas, laurentinos ou não, éramos enxerto colonial e assim fomos tratados. injustamente tratados, tipo “Campo Pequeno com eles!” para ir buscar em exagero um exemplo bem conhecido. f e nem pagos. morrendo nós acaba um espírito e uma forma de pensar, que ao que suspeito lendo e ouvindo a Maputo actual não é herdeira de muitas boas qualidades que a LM possuía, e os nossos filhos ou netos se a conhecerem será na qualidade de turistas desanimados por não encontrarem nos seus encantos aqueles que o velhote está sempre a falar. encontram outros, mas há um élan que se perdeu_ e a época também tem culpas no cartório que aquela, 60’s, 70’s, foi maravilhosamente irreverente e de tão específica é irrepetível. talvez por isso tudo somos os papagaios incontinentes e resmungões que somos…

correndo risco de abuso e má leitura, de pequenos pormenores de comportamento de grupo extrapolo tendências. acho que as sondagens funcionarão dalguma maneira assim, cientificamente muito bem calculadas até chegarem às borradas que conhecemos. olhe-se as tiragens dos diários e comparem-se-lhes as primeiras páginas, e sabemos do que faz salivar e tremer ao nosso vizinho com boa probalidade de acerto. o jpt comparou o jogo n’tshuba ao de damas, mas isso é ele que é muito inteligente pois eu das poucas vezes que o joguei pensava cá p’ra mim que era o xadrez africano. aquilo não é fácil, não. coisa para Capablancas escurinhos. daí ter ido buscá-lo como incompreensível exemplo de não assimilação pela população colonial, visto ser aliciante pelo grau de dificuldade quando bem jogado e com covinhas “à hóme”: pargas delas, sei lá se par ou ímpar: grande, para dar uma trabalheira de contas, as nossas e as do possível contra-ataque. à época nunca lá vi numa esplanada, ou casa particular, ou onde fosse “no cimento” (ok: a carência prospectiva pode ser minha) um dos tais tabuleiros de n’tshuba em madeira. se vi o jogo foi sempre escavado na areia. fosse lá nas beiras do cais ou na Mafalala. falo “daquela época”, saliento, sei lá hoje se a sua popularidade galgou estatutos. a explicação que encontro, simplista, é a dita: olhado como de “jogo de pretos”, e aqui o receio interiorizado de, jogando-o e não se mostrando um ‘ás’, ver a sua pretensa ‘superioridade intelectual branca’ humilhada. posso estar a “fazer filmes” mas acho que não, e foi sob esta opinião que o referi assim.

este comentário deu-me uma trabalheira do caraças. fi-lo em Word e tudo, vejam lá! que tal uma conversinha mais suave, hein? o Scolari já assinou, o Nani já tá a caminho? lol

#43 cg on 11.12.09 at 2:25


AL, li agora o seu comentário e não me calo numa dica, modesta mas bem intencionada: “Rio de Sangue”, Tim Butcher. certamente soft que não é tese académica, mas achei-o muito interessante que, à volta do seu rio, percorre a história do Congo.

#44 jpt on 11.12.09 at 3:24


1. CG do “Niassa” escrevi para aí que era “southern” legível. Muito previsível (lembro-me que há uma personagem rapariga loura que quando aparece logo disse eu: esta acaba na cama do protagonista). Enfim, para além do estapafúrdio da trama (o que só tem mal ao procurar ser realista) [e mais as descrições dos problemas rodoviários] seria uma boa base para um filme se houvesse indústria cinematográfica em Portugal que comportasse filmes de acção.
Mas se falaste nele a proposito da minha nota de um livro sobre o Niassa eu referia-me a um livro de Graça Torres “Niassa Terra de Mel e Leite Amargos” que aqui saíu para aí há um ano e que só agora recomecei a ler.

2. AL os e-mails são de acesso público.

3. 1B é isso, os jogos (como produtos culturais) são socialmente apropriados (utilizados), e de modo diverso. E isso é interessante entender.

4. ABM concedo que isso da “elite” para o Adelino Serras Pires será um abuso se pensarmos em peso económico. Mas, sem grandes sociologismos, o homem faz parte em sentido lato (a não ser que efabule nas suas memórias) – tem uma vasta rede de contactos, uma grande mobilidade (e casou com uma escritora, co-autora das memórias o que ajuda na competència do livro). Desculpar-me-ás mas faz parte de uma elite cultural da sociedade colona (a não ser que queiras restringir elite cultural aos cultores de uma cultura de elite, no sentido literário do termo). Era nesse sentido, o de estabelecer uma distinção entre os très nomes que referi como pólos de um eixo (já) auto-memorializado que não correspondem exactamente â imagem do “homem/mulher comum”, esse que nós defendemos a necessidade de observar via suas memórias (sistematizadas ou avulsas, como propóe e bem a AL), nem que seja pelo que diz o CG “morrendo nós acaba um espírito e uma forma de pensar,” (ainda que eu ache que é isso e mais do que isso que justifica o interesse). Por falar nisto é importante ver duas memórias escritas pelos “homens comuns” (insisto, gente que não teve particular relevo nos processos político-sociais-económicos), neste caso memórias de juventude – os livros estão aí na coluna do ma-schamba (Carlos Gil, himself, e Isabella Oliveira).

5. Independências. A imbecilidade do Estado Novo, anacrónico. Mas também o facto da real colonização (demograficamente falando) ser contemporànea das independÈncias das colónias dos outros países europeus. Too late, dir-se-ia. Há um outro ponto que não vou abordar mas ao qual torço o nariz: “Eles mereciam melhor sorte que isto.”, sim com toda a certeza. Mas a sorte que houve não deriva do tardocolonialismo portuguès, é construída nos sítios também e fundamentalmente. Mas isso são contas de outro rosário.

6. Registo que JA resolveu, olimpicamente, evitar qualquer resposta aos meus comentários. Poderia ironizar dizendo que o faz por não considerar as minhas palavras “sábias e ponderadas” como as de ABM. Mas seria ironia inútil. Pois o que é de realçar é que o problema das minhas palavras é serem provenientes de um exemplo desses “alguns “distraídos” ou desconhecedores de certos detalhes , pavorosos, vividos por gente de carne e osso” Não vale a pena, dada a recusa no diálogo, contrapor. Apenas sublinho o que bem acima já disse. É o primado da autoridade biográfica, empirista. “Eu/nós estávamos lá” “eu/nós é que sei/sabemos”. É um endobiografismo, um auto-centramento que, como aventa o ABM, é exasperado. Mas é também exasperante para quem ouve. Principalmente porque tem uma extraordinária capacidade para seleccionar os “detalhes” significantes – o que é relevante no sistema colonial é (era) o que se passava na minha casa, comigo, no meu grupo, na minha família, “com a minha pasta”.

Insisto é extremamente importante ver isso (até porque húmus de uma visão do mundo, como lembra aqui o CG). Mas é, enquanto reclamação de discurso de validade única, insuportavelmente arrogante.

7. Às vezes a ideia é que estamos a falar com o passado: JA diz “se, como dizia, contar-mos hoje factos deste “calibre”, o mais provável é que nos mandem ir mentir para outro lado!” É um passado, cada vez mais longínquo. Estamos aqui a falar do interesse memorialista, exactamente para que uma população colona [o aparte sobre isto de "colono" de JA explicita a dificuldade em entender um termo descritivo, e é uma dificuldade que ecoa todo o ambiente reactivo do tipo de discurso. Que é pungente, sensibiliza. Mas que não pode ser responsabilizado ao interlocutor (ainda que este fique a falar sozinho)] deixe memória historica de factos que são de conhecimento público, que hoje não sao negados, que vão sendo narrados. E que entroncam, ainda que sejam diversos, com os fenómenos totalitários dos inícios das independèncias, também eles cada vez mais narrados, até ficcionados. Ou seja, os “distraídos” nao estáo assim tao distraídos.

8. CG ainda bem que elaboras sobre a não apropriação do m’pale. Era o que faltava deixarmo-nos “distrair” face a “alguns detalhes”. Já bem basta aqueles para os quais nos distraímos. Ou por outra, não tenho a mínima paciência (nem respeito) para a arrogância censória, para a delimitação daqueles que podem falar, do que se pode falar, do como se pode falar – assente no domínio dos livros havidos ou assente no “saber de experiência vivida”. Era o que faltava.

#45 ABM on 11.12.09 at 3:33


Boa noite

A nossa Baronesa AL deve estar a olhar para isto tudo que tem sido escrito e a pensar:” mas então eu faço uma notinha sobre o jogo dos buracos e as pedras e pergunto de onde vem esta coisa da “casa-palavra” no Mali e estes gajos descambam para o mais profundo existencialismo lá dos tempos ?!

Pois é. Havemos de descobrir de onde veio a “casa-palavra”. E já agora como é que se joga o tal de jogo. É sempre boa altura de aprender.

Sr Alves,

Não precisa de deixar endereços seus pois estamos sob vigilância permanente dos serviços secretos de várias nações, sempre à procura de renegados e dissidentes e aqui aparecem alguns. Mas o meu endereço de email aparece algures neste sítio e está claramente indicado. Honra-me ao permitir-me ler o que escreveu. Estudo com alguma regularidade o passado e o presente moçambicanos e isto tudo de que falámos faz parte.

O bom e o menos bom.

#46 AL on 11.12.09 at 4:01


CG, kanimambo pela sugestao. Ja li o livro do Butcher e achei-o verdadeiramente delicioso. A unica coisa que lamento e nao poder eu fazer viagem semelhante. Nao hesite em recomendar leituras que lhe tenham agradado.
——-
Digo mais uma vez que estou surpresa (agradavelmente) pelos comentarios que este post originou. Nao deixo de me comover com a dor e amargura que por aqui tem passado; pelo sentido profundo de injusticas sentidas. Parecem-me obvias as feridas ainda abertas e a falta de espaco para as sarar. Os pontos de vista aqui deixados sao diversos, multifacetados e complexos. As historias individuais sao importantes e relevantes? Sim. Sao verdadeiras? Sim. Espelham a realidade como foi? Sim, mas talvez so a realidade tal como ela foi vivida por aquele determinado grupo/familia/individuo. Nao me parece que sejam o todo; o todo parece-me bem mais complexo e nao me parece que deva ser dissociado do contexto em que aconteceu. Mas, nao deve por isso sentir-se defraudado quem tao de perto viveu (e sofreu) essa mesma realidade. Contextualiza-la nao deve diminuir a validade dos testemunhos que aqui foram deixados; pelo contrario, devera enriquece-los. Referi num comentario acima a forma como manuscritos da epoca me auxiliaram na minha tese. Poucos desses manuscritos eram coincidentes na sua descricao da realidade que relatavam, por exemplo. E foi exactamente essa multiplicidade de perspectivas que enriqueceu o trabalho e permitiu o que espero tenha sido uma abordagem objectiva e cientifica ao tema que estava a abordar. Parece-me ser este o ponto fulcral do argumento de JPT e com o qual estou de acordo. Nao se pretendem negar vivencias, mas tao somente ir mais alem dessas mesmas vivencias. E o que pretendo eu com este comentario, perguntarao porventura voces (aqui vem de novo a estrebaria do voce :) ). Nada de mais; talvez somente fazer um ponto da situacao de tudo o que aqui foi dito… E, puxando novamente a braza a minha sardinha: qual tera sido entao a origem do nome casa-palavra?

#47 cg on 11.12.09 at 4:10


tá bem: a loira era previsível!… mas o raio do livro… sabes que acho? li-o -e com mais “iguais” aconteceu – com um sentimento especial, o tal da injustiça histórica. é que ele toca, não num toca e foge matreiro, no antes, no durante, e no pós. e há o fascínio de se ler o que se sentiu e hoje se sente quando se reflecte acerca do tanto que correu mal quando podia ter corrido bem. uma amargura. acho que aí estás incapacitado, certamente com uma visão objectiva porque descomprometida, mas falta o palpitar interno com os pensamentos paralelos que evoluem em volta da tram. que, lê-se “o romance”, mas vai-se revivendo pedaços pessoais. em nada ligados à trama, mas sim aos acontecimentos magnos, lá não só décor mas principalmente isso.

…e vou xonar, que daqui a pouco tenho de me levantar.

abraço à Mesa e à Plateia :-)

#48 Jaime Alves on 11.12.09 at 4:38


Estimada AL,
Em primeiro lugar muito obrigado pela sugestão de eu poder doar as minhas memórias individuais a alguma Universidade ou Biblioteca. Entre nós (leia-se em Portugal) nunca ouvi falar de tal costume, o que não significa que tal não se deva a ignorância minha.
Em segundo lugar agradeço-lhe igualmente a “dica” sobre o lugar onde encontrar os mails dos integrantes deste blogue. Kanimambo!

#49 cg on 11.12.09 at 7:32


para AL, e anda no tema: Ébano, daquele polaco com nome difícil como o raio de escrever, Kadinsky ou coisa que o valha. a sua versão de que os tutsis se consideram donos, por direito divino, de todas as vacas que existem, é estranhamente encantadora. há tragédias enorme, genocídio até, nessa história se alargada. por isso é complicado dizer sem mais que sorri ao ler, a imaginar: «olha!… aquilo ali é uma vaca? é! tens cornos e abana o rabo, é vaca! é vaca, é meu!» e toca a levar a vaca, e o dono atrás a abarafustar. claro que não é assim. é terrível, é mesmo terrível. mas por vezes necessitamos de deitar uns toques de simples insanidade, parvoeira, para ajudar a esquecer as insanidades que trazem tragédias. nem é esquecê-las, que é impossível. mas elas entram-nos por dentro de casa, cruzam-se connosco em páginas qu seriam insuspeitas, e temos de accionar defesas. sejam parvoeiras. deixei de ver telejornais, e dum modo muito geral qualquer televisão, já por isso. não quero magoar-me mais, nem deixar que me magoem sem razão. não ignoro as coisas mas selecciono as que deixo realmente magoarem-me, as notícias que acompanho até à última linha. e já não me deitei. daqui a pouco teria de estar de pé, não vale a pena. prefiro assim, voltar aqui e conversar um pouco. livros. estive até agora a escrever mails. a conversar também, um solilóquio é das melhores conversas que conheço, embora tenha este péssimo hábito de me armar em okupa de casas alheias e sem escritos. gostava de ir para aquela descida para a marginal, por detrás da Ass. Académica, quase a lado do Polana ao que lembro, parar a mota e enrolar um cigarro e ficar a olhar o movimento na baía. para onde irão os barcos, se há um destino ineludível quando se navega. voar não gosto. só andeide avião quando vim para Pt e jurei para nunca mais, sabendo que mentia mas até agora cumpri a promessa. quando for aí quero ir de comboio, mas terá de ser no dos magaíças e portanto lá terei de ir até Jo’burg de avião. ferro-me a dormir, é melhor. entar em Maputo pelo comboio dos magaíças deve ser um estalo. quarenta anos depois (arredonda-se…) o regresso de brinco na orelha e mochila às costas, oh yeah! :-) já fui ver o percurso e horários, e é má cena a travessia do Krueger ser feita à noite, bolas!… era um dois em um. ou quatro em um, sei lá. feito num oito, pronto! :-) :-) tem um nome castiço, Shosholoza train! afinal há barcos na baía, olhando. mas já não tenho a motorizada, não engordei mas envelheci a ponto de perdê-la. falam nas acácias da cidade. também recordo os jacaradndás. como era realmente especial apanhar uma avenida sem trânsito e mergulhar o ronco grave da mota no túnel que formavam, no alcatrão milhões de florinhas, as lágrimas voando pela velocidade, e lá na baía às vezes umas velas brincando entre si e com o vento. a palmo, cada esquina ganha a palmo e cada dado com a minúcia de gostar de estar. só se entende quando terminou, quando já não há motorizada nenhuma e se coleccionam fotos de baías gamadas na net. mas o brinco é real, meti-o teria uns 50 ou 51 e sei que o tal comboio existe mesmo, não é ficção de noite mal dormida, insónias de memórias. li que a Matola tem 51 bairros e abismei! 51, que tamanho deve ter a cidade! penso, acho que li u disseram-me, que Maputo e a Machava já estão ligadas, como “LM” cresceu! há tempos, à procura no Google Earth de imagens do autódromo porque li que fora reactivado, vi que a zona dele também está coberta de construções. antes era deserto, era mato. havia os viveiros da câmara lá perto e nada mais. subia-se por aí para ir ter à “recta dos arranques”, uma avenida que estava inacabada e ligava à rotunda grande no final da ex-Antº Enes, acho que é a Vladimir Lenine. e o bairro Triunfo também está gigante. tudo, e nada conhecerei: vou pôr-me a olhar como o burro pró palácio e a tirar fotografias aos sítuos dos monumentos, às casas comercais fechadas ou que mudaram de ramo, e certamente àquelas onde morei. mas tentarei resistir à catedral, porra! há limites, né? porque sinto-me incapaz de voltar a sentar-me e olhar como antes fizera, olhar e ver com os mesmo olhos, queles que choravam de alegria quando o vento lhes soltava as lágrimas sob a copa das acácias. tchintchiva. milha assado. cana de açúcar. amendoim torrado ou com açúcar. camarão talvez, mas a prioridade aproxima-se da catedral e sou tão teimoso como qualquer outro ateu esfomeado pela raridade dos sabores da memória e não pelo arroto fácil, abra-se a carteira e há, aí, cá e em qualquer lugar que faça navegar navios frigoríficos, paisagem feia. não sei se há ainda aquele refrigerante horrível mas que agora recordo. tombazana? será isso? de sabor a morando mas é só corantes. horrível, mas é o que beberia agora com gosto. e tchintchiva. o ácido bom, levemente. azedo. bom. Shosholoza train, não quero esquecê-lo. a minha motorizada, uma Honda SS 50 Z tinha panelão e quanto mais aquecia melhor andava. vantagem das 4-tempos sobre as esganiçadas, as Suzikis e Yamahas que só ganhavam nos arranques, que depois da Matola levavam ratadas a caminho da Namaacha. ou do Bilene. a minha primeira viagem com ela foi à Ponta do Ouro e mal sabia andar nela, que alegria! :-) nunca andara em areia e foi um fartote de cair até aprender que era com quanto mais velocidade melhor, até ao estouro final eheh adorava aquela gaja! tanto que, quando comprei um chasso vendi-a. mas não tardou a voltar a comprá-la, e que remédio teve o desgraçado pois passava o tempo a pedir-lha emprestada para dar uma voltinha! :-) um luxo que recordo, já com o chasso: comprar um frango assado e ir comê-lo para a tal descida, a ver as luzes dos barcos, a Catembe, as dos carros que passavam na marginal. os prazeres simples são os melhores. uma fatia de bolo de chocolate no Canoa. um chá (coisa “exótica”!) no Baú, no Malhanga, música e luzes suaves e o cérebro a mil. as máuinas antecessoras dos fliper’s, em que se devia introduzir a bola em buracos que davam pontos, nas traseiras dos bares da rua do major. as putas, o fascínio daquelas vidas, daquela noite quase sem fim enquanto a cidade dormia. uma tarde passada na varanda do aeroporto a ver os aviões e as caras de quem ia e vinha, outros aventureiros. ainda hoje faça parecido: em noites de insónia – não nesta, pois – vou para uma área de serviço da AE para olhar o movimento nocturno. juro que vi o embaixador da Nigéria! só pode! quem senão ela, às três e tal da manhã, verão do de cá, calor peganhento, de fato completo com camisa berrante, óculos escuros e meio quilo de ouro pendurado ao pescoço? só pode, porra! e eu juro que vi, não é só o Camões que vê ests coisas. acordem, madruguem e procurem locais estratégicos e também verão, que “eles andam aí” eheh
vou fazer um acfé. servidos? não sei se voltarei. posso ir à cata de fotos do pavilhão das tias, das barreiras na zona da João de Deus, ou do melhor dancing-bar da cidade que era o Vasco da Gama (isto não é piada política! era mesmo, que morei lá em frente uns sete ou oito anos, e portanto “essa eu vi!”) tá tá :-)

#50 jpt on 11.12.09 at 10:36


CG é este: http://ma-schamba.com/cat/literatura/ryszard-kapuscinski/

Não gostei muito do Ébano. E o livro sobre Angola – muito bem escrito, no género – é super-datado. Interessante por isso mesmo, mas enrolado na bandeira da época.

Quanto ao resto: a deixares posts nos comentários do ma-schamba? Hum .. vê lá bem o que queres dele(s) fazer!

#51 cg on 11.13.09 at 0:41


fechei o tasco e foi convictamente: farto dele até ao mais idoso cabelo branco que tenho. lá, na vitrine. que, e penso que até já ‘conversei’ uma vez isso contigo, nas casas alheias, portanto nas suas caixas de comentários, acontece muita vez sentir-me tentado a estender um comentário e fazê-lo post-lençol, como agora foi aqui.
estava sedento de conversar, mas ainda sem vontade de voltar ‘para casa’. e a onda era tão boa que com naturalidade, sem sentir o tal peso, deixei-me ir. por vezes acontece. se daqui a uns meses um visitante cair aqui na caixa e desejar seguir o debate, que o merece, sabemo-lo todos!, não é difícil separar a chicha do intervalo.

egoistica e abusadoramente também digo que foi dos melhores bocadinhos que tive de net de há uns tempos para cá :-) ….afinal o que procuramos…

… à custa da tua casa e dos novos senhorios, mas espero, acredito mesmo, que compreenderão…

abraço a todos, mirones também ;-)

c

Leave a Comment