Da origem das palavras

Apeteceu-me hoje deixar uma pergunta aqui aos leitores da maschamba, na esperança de finalmente ser iluminada.

Andei aqui há uns anos pelo Mali, país absolutamente mágico e de gentes afáveis e hospitaleiras. Viajei pelas suas diferentes regiões e, claro, pelo País Dogon, que parece quase um museu vivo etnográfico. Apetece-se ficar por lá, escondido do tempo. Todas as aldeias que visitei apresentavam, num local mais ou menos central, uma estrutura construída por grandes lajes sobrepostas que a elevam do chão e com uma cobertura espessa de ramos e palha assente em pilares de pedras empilhadas. Estas estruturas são o ponto fulcral das aldeias. É lá que geralmente se encontra o chefe da aldeia; é lá que os homens se reúnem para conversar, jogar, debater questões relevantes para a comunidade e aconselhar-se com os mais idosos ou com o chefe da aldeia. Há-os simples e há os pesadamente ornamentados. As mulheres têm as suas casas próprias de que falarei num outro post aqui na maschamba.

Casa-palavra DSCN0922

É um local muito aprazível. O chão de laje, amaciado por anos de uso, é fresco e convidativo. Geralmente, uma das lajes tem as cavidades necessárias para se jogar o que na Ásia se chama mancala e de que não me lembro agora os diversos nomes já ouvidos em África (shame on you AL!!!). Trata-se de um jogo que já vi jogar (e joguei) em diversas partes do mundo; umas vezes com tábua própria, outras vezes com simples covinhas feitas no chão, que vão sendo enchidas e esvaziadas de pedrinhas, conchas, sementes… As regras variam de sítio para sítio, mas o objectivo geralmente é “comer” as peças do adversário.

DSCN0862

A cobertura da estrutura é geralmente muito espessa e protege do sol e do calor; a ausência de paredes permite uma ventilação desimpedida; o pé direito destas estruturas é pouco mais de 1 metro. Pensei que fazia sentido, pois o tecto baixo impedia a incidência dos raios solares, proporcionando uma sombra maior. Até que um dos velhos numa aldeia me explicou educadamente que não teria sido isso que se tinha em mente. Disse-me ele não ser este um espaço para pressas, para um entra e sai desarvorado. Ter que entrar agachado e permanecer sentado lembra a quem chega que ali se fala, mas também se ouve. E com tempo! Mais ainda, sendo a estrutura um espaço de debate para questões importantes da aldeia e sendo a natureza humana aquilo que é, espera-se que durante esses debates os ânimos se exaltem. E, pessoas exaltadas tendem a levantar-se e a gesticular. Sempre que tal acontece o exaltado bate invariavelmente com a cabeça no tecto, acalmando assim de imediato os ânimos. Nada de dizer bojardas e sair porta fora, não senhor!

Agora vem a parte que mais me espantou. O nome destas estruturas é toguna ou casa-palavra. Assim, tal e qual, no mais puro português. Nome que nem sequer sofria de qualquer abastardamento da pronúncia francesa, língua oficial do Mali. Nada de cásá-pálavrá, mas sim cása-palávra com a fonética portuguesa toda no sítio devido. Intriguei-me, perguntei de onde viria tal nome e ninguém me soube dizer. Nem no Museu Nacional em Bamako consegui encontrar explicação. Já “googlei” o nome e nada! Será que algum dos leitores do maschamba me consegue esclarecer?

AL


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51 Responses to “Da origem das palavras”

  1. cg diz:

    fechei o tasco e foi convictamente: farto dele até ao mais idoso cabelo branco que tenho. lá, na vitrine. que, e penso que até já ‘conversei’ uma vez isso contigo, nas casas alheias, portanto nas suas caixas de comentários, acontece muita vez sentir-me tentado a estender um comentário e fazê-lo post-lençol, como agora foi aqui.
    estava sedento de conversar, mas ainda sem vontade de voltar ‘para casa’. e a onda era tão boa que com naturalidade, sem sentir o tal peso, deixei-me ir. por vezes acontece. se daqui a uns meses um visitante cair aqui na caixa e desejar seguir o debate, que o merece, sabemo-lo todos!, não é difícil separar a chicha do intervalo.

    egoistica e abusadoramente também digo que foi dos melhores bocadinhos que tive de net de há uns tempos para cá :-) ….afinal o que procuramos…

    … à custa da tua casa e dos novos senhorios, mas espero, acredito mesmo, que compreenderão…

    abraço a todos, mirones também ;-)

    c

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