Este homem passa décadas a ler isso da epistemologia, da metodologia. Mas não aprendo. As leituras não me resolvem a dúvida: um tipo desonesto com quem contacta, que aldraba a empiria que o rodeia, poderá ter análises sociais válidas? Um tipo que rouba o vizinho não manipulará, obrigatoriamente, o real (a amostra, se for disso caso) para embelezar as conclusões, arredondá-las ao gosto do freguês?
Gosto da indução, assente em minudências, ajuda a pensar, evita as grandes teorias [Grandes Narrrativas, chamaram-lhes]. Nisto lembro sempre um ilustre, para aí há uma década. Uma semana de trabalho bem paga, mais estadia e pocket money. Por inerência acompanhei-o, almoço e jantar, jantar e almoço, almoço e jantar. Nem uma menção de ir à carteira. Eu, até envergonhado com aquilo, a pagar do meu bolso. No fim, finalmente, segue para Mavalane. E eu a passar pelo hotel para que o recepcionista me avise, até atrapalhado: “doutor, tem uma conta no bar em seu nome” “O quê?”, “pois, aquele hóspede disse que o doutor viria pagar“, uma coisa de 60 dolares, uns whiskies com os amigos, o teixeira – que nem ali esteve – que os pagasse. Paguei, claro, tamanho o nojo. Académico.
Será isto o tal ponto de vista hermenêutico? Deste lamaçal sairão boas análises, a ler e ouvir?
Talvez. Não esqueçamos que a merda é adubo.

9 comments ↓
Se o analista for desonesto e o cliente pagar bem e quiser aqueles resultados (com potenciais futuros negócios com aquele mesmo analista que lhe dá os resultados que quer) tens alguma dúvida?
Nem todos os “clientes” querem determinados resultados – em particular há um “cliente” difuso que deixa investigar [bem, isto é um bocadinho a ideologia, mas não é totalmente falso]. Também assim?
Deixa investigar…mas e as conclusões, aceita-as?
(esta “conversa” é que é difusa! É tão difusa que nem sei se estou a tirar as conclusões certas! Diabo de homem, tu, não sabes ir directo ao assunto?)
1. (desculpa, não vai pessoalizado) “Para bom entendedor meio post chega” … tem alvo tem
2. mais geral: que um tipo venda “análise” a um fregués que encomenda, acho que quase todos – o leite da Carolina, o carro que está velho, o seguro de saúde, o computador novo, o ipod (já chegou, ainda não tenho), essas coisas
Mas que um tipo seja “académico”, investigue, pense, analise criticamente um qualquer real e depois (ou melhor, e durante) seja um aldrabãozeco – que confiança, que atenção a ter na relação que ele terá com o tal real e com as conclusões? Um cabrão que me rouba 60 dolares respeitará os dados da amostra? um matreco assim é “intelectual”? (aquela coisa que os franceses inventaram, e fartaram-se de escrever sobre isso)
Fui directo?
Ora bem, agora que nos estamos a entender melhor (lol, posso escrever lol no teu blog ou tem que ser *risos*?), eu diria que um aldrabão é sempre aldrabão. Um tipo não é desonesto por um lado e honesto por outro: ou é ou não é. Não há cá nuances que acabam na conta do bar do hotel e começam na análise dos dados. Mas também admito que aí uns 90% da humanidade discorda comigo nisto.
[há anos inventei aqui qualquer coisa como "suave sorriso" e coisas assim - lol é horrível, quase tanto como os bonequinhos amarelos] Eu vou por aí, não há nuances. Mas 99% dos “analistas” discordam connosco nisto …
Ainda para mais acho que os homens (as mulheres é diferente, por causa da velha etiqueta) dividem-se em dois: os que pagam as contas dos copos; os que vêm pagar as contas dos copos. Não há outro critério de distinção tão importante como este. [Valor axiomático que me conduz há muitos mais anos do que a memória que aqui estamos a tagarelar]
Nao foi por causa disso que o “peer review” foi desenvolvido na ciencia? Para se avaliar a validade das metodologias usadas? Ou posso estar completamente fora do alvo, mas isso e culpa do JPT que escreve muito bem mas e incapaz de fazer um post rectilineo e claro, e sempre tudo opaco e sinuoso.
Tem toda a razão: a) nisso do peer review, do controle corporativo sobre deficiências (e malevolências) metodológicas. Ou seja, isto não é uma actividade moral, uma catequese, onde os tipos “que pagam os copos” são bons (competentes) e os que “não pagam os copos” são maus (incompetentes). Daí a minha tal dúvida persistente, para além das habilidades (habilitações) metodológicas a dimensão ética é uma alavanca intelectual ou não? em conversa, como aqui, logo começo a dizer que sim; mas no “a frio” reflectido não consigo concluir – tal como coloca aqui
b) sobre isso do opaco e sinuoso. também me parece – mas não será isso do “escreve muito bem” [muito obrigado] uma forma (já agora, muito corporativa] de rodear a opacidade incompetente da compreensão própria? Ponho-me (e vejo outros também) com rodeios e mais rodeios (e V. vê-me no blog, escrita imediata, o resto é tão pior): a gente não percebe é nada, só de embrulhos
a minha hermenêutica: POST(A) DO CARAÇAS!
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