A Idade

Sim, a Idade! Já não se aproxima, pelo contrário, chegou até sorrateira, acampou, capinou, arroteou, feita “dona da terra”, e agora aí está, semeada, pujante, encanecida. Sei-o hoje, primeiro quase sem surdina….Uma pausa longa neste calor de Dezembro, um refresco de meio de tarde, deixando-se disfrutar, langores em esplanada nada habitual, a angústia de hoje a aqui desenfiar-se dos “olás, como vais” de sempre, neste ali à frente da já ruína casa do “ANC”, metáfora tão óbvia de tempos primeiros aqui, mas ainda mais dos de hoje. Enfim, eu descansando-me devagar, até acoitado, e, súbito, um outro cliente, para mim desconhecido, abala e no atravessar para o passeio saúda-me, até respeitoso, que isso o percebo pelo tom do seu “boa tarde, senhor doutor”.

Estremeço, enquanto agradeço retribuindo. Estremeço? Como não? se me é imutável o espelho, quero-o assim, protejo-o assim, esse onde me amiúdo, onde jamais encontrei algum reflexo de um qualquer alguém que assim possa ser saudado, um desconhecido de bairro boatardando-me num caminhando para o reverente. Foi, sei-o, tremor mais ao som do que ao dito, uma angústia brotada (e neste hoje sublinhada) no tom ouvido. Ali a aquecer-me (ainda mais) a coca-cola.

Sendo assim fujo dali, fujo de ancião, fujo do respeito alheio. Encalorado de novo, parto às minhas obrigações do dia, as finais, estas agora familiares. Uma breve passagem pela loja-armazém de brinquedos chineses, no longe do fundo da Luthuli, num carregamento destas pechinchas alegria dos meninos, e eis-me na direcção da Baixa, essa nova baixa tão tipo sul-africano, assim a baixaram os donos daqui. É a minha Carolina que lá está, em aniversário de amiguinho, melhor dizendo dois anos faz o já namorado Martim, e eu pai ali a encontrar a família. Aproximo-me, aquilo que mais não é do que uma mísera bomba de gasolina com o obrigatório pula-pula onde gritam algumas dezenas de miúdos, entre refrescos, óbvios pulos, batatas-fritas, choros e gritos, mães embevecidas e pais fotógrafos, e tudo já está exausto e eu ainda estou a chegar. E é então, aí no degrau da porta, que a menina primeira, dois anitos também ou talvez mesmo menos, vendo-me chegar com o saco dos presentes, o singular para o rapaz e mais toda a tralha para a minha menina, coisas do “já agora…”, mas essa menina primeira dizia eu, vendo-me chegar deixa no gume da estridência gritada desses seus dois anos e com a infinita sinceridade da idade o aviso, em total êxtase: “Mãããããe, o Pai Natal!!”

Segue-se a gargalhada geral, sim a terrível, indiscutível, crueldade dos adultos, esses sim monstros, e a essa hei-de, heróico, responder cópia do sorriso e até laivos de ironia. Até poder regressar ao meu esconderijo. Aí sim, esmagado.

(Dezembro 2003)

2 comments ↓

#1 jpt on 06.14.08 at 9:56

Texto magnífico, não sei porque raio está escondido na extended entry.
A idade pesa a todos os que a sentem: o que é preciso é enganar o tempo com o espírito. E tens a sorte de teres uma Carolina pequena (eu também tenho essa sorte, a de ter quarenta e tal e conseguir apreciar o mundo através de um olhar cristalino e fresco). Count your blessings e desatrofia-te, homem! (acho que nos podemos tratar por tu, não? Já que temos os dois blogs com alguns cabelos brancos).

Publicado por: catarina às maio 18, 2005 04:55 PM
http://100nada.weblog.com.pt/

#2 jpt on 06.14.08 at 9:57

O Ego manda agradecer o elogio. Ele e o resto concorda com a “sorte” (que é uma bela palavra popular para “filho/a” - e é preciso a pater/maternidade para perceber a aqui “infinita sabedoria do povo”). O “tuar” vai bem, e nestas coisas quem manda são as senhoras. Principalmente nestas nossas idades. Até breve

Publicado por: jpt às maio 18, 2005 05:36 PM

Leave a Comment