Dançarina de trapézio

Hoje derreado e assim embrulhando o desalento, e também todo sóbrio, nisso fazendo tão estranha esta longa noite andando-a sozinho. Uma atleta, a dancarina quase nua, trepidante hora simulando tudo o que se imagina sexo, é-lhe injusto o anonimato público credora que é das palmas devidas a artistas de trapézio ou casino, corresse-lhe melhor a vida. Putas boers saracoteando-se desengracadas, whiskies adocicados, alguém que me apalpa e se ri da minha reaccão, chuva fria e até lama no entre-portas, uma mulher quase anã que se ri disso mesmo quando tanto investe, putas chinesas sempre-em-gupo quase dormindo, porteiros pressurosos com os carimbos nas mãos, uma mais-velha, gorda, que me reconhece de “zé”, uma “reds” por velhos tempos que não lembro, vendedores de chocolates e chuingas, putas tugas rolando-se arritmicamente, na rua uma mulher que me quer pagar (250 contos, diz), “guardas” exigindo dinheiro, uma muito velha enregelada pedindo a ajuda que ninguém dá, nem eu, por estúpida vergonha decerto, putas mocambicanas cabeceando nas mesas, cervejas a morrerem, taxistas exigindo clientes, um aluno exigindo cumplicidade. Forco-me, saio para casa, num sorriso da beleza de tudo isto, vida sem afinal. Pobres, imbecis, os do garimpo do grotesco …

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