Abaixo deixei que me repugna o proselitismo. O das minhas ideias e o das outras. Ele vai-se encontrando, muito quase constante. E muito nesta última semana.
No blog-em-blog sobre New Orleans lá se ouve o troar dessa qual seita evangelista: a desses que acreditam, com vigor, que a sociedade não existe. Crendo na solidão, pureza, do indivíduo, e na inexistência de algo específico que brote da sua associação em grupo. Dizem-se “liberais”, e sê-lo-ão à sua maneira e suas leituras.
Nestes mesmos dias aqui aconteceu a campanha de vacinação. Em Sofala e Tete, principalmente, soou forte a igreja de Joahn Marangue. Apelando aos seus seguidores, e muitos são, a que não fossem vacinados. Mais radicais ainda que Testemunhas de Jeová, e outras igrejas, no que ao manuseamento médico do corpo é permitido. Crendo numa solidão, pureza, do indivíduo, do seu sangue, e na inexistência de algum bem que advenha da sua transfusão ou enriquecimento. Dizem-se “cristãos”, e sê-lo-ão à sua maneira e suas leituras.
O esclarecimento das pessoas fiéis a este tipo de seitas é sonho velho, antes dito “iluminismo”, coisas de quem ainda persegue o “desencantamento do mundo”, no fundo um “optimismo pedagógico”. Ideia, talvez sonho, dita “modernidade”. Hoje, tanto falhanço nesse caminho, tanta crítica já feita, é tempo de deixarmos esse sonho, talvez mera miragem, é tempo do que alguns chamaram “pós-modernidade”.
É tempo de saber que temos que viver com estas seitas, ser um pouco relativistas, eu diria que temos que professar um multiculturalismo matizado no aceitá-las. E nisso até aceitarmos o seu proselitismo, sempre exarcebado, coisas de quem crê, violenta e acriticamente. Pois o bom crente não interroga.
Ser assim consciente de que estas seitas, liberais ou cristãs (e outras que por aí pululam) não se limitam ao obscurantismo. São-no é certo, mas também têm um lado positivo, reconfortam os indivíduos. Guiam-nos, enquadram-nos, dão-lhes um sentido para a vida, uma “visão do mundo”, algo sempre precioso, particularmente em tempos tão conturbados. Se pacíficas nos seus objectivos e práticas devem-se aceitar. Integrar.
E, nessa integração, devemos aprender. Algo sobre essas gentes, sobre as suas ideias mas acima de tudo seus anseios, decerto algo legítimos, ainda que traduzidos neste tipo de discursos. E nesse esforço de compreensão, tradução, talvez possamos conseguir transmitir algumas ideias, nem tanto valores mas pelo menos práticas. Que vacinar é fundamental, que uma transfusão de sangue é importante, que a sociedade existe e influencia, que o preservativo protege. Coisas assim.
Sei que, de certa forma, isto é o regresso do “optimismo pedagógico”. De uma qualquer “modernidade”. Ainda que muito humilde. Mas ambicioso, a ambição dos pequenos passos. Crendo, claro. Com a crença que “isto” pode melhorar. Apesar de parecer obscuro.

2 comments ↓
Gostei!
Publicado por: Laurindinha às setembro 4, 2005 08:50 PM
http://abrigodepastora.blogspot.com/
Muito, muito boa reflexão sobre a tolerância e a con-vivência.
Parabéns!
Publicado por: legendas às setembro 7, 2005 12:48 PM
http://apor.blogspot.com/
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