Uma das características do crescente bloguismo em Moçambique é a inexistencia de picardias inter-blogs, uma placidez que tambem vem de quase todos se conhecerem, ate via vizinhanca e amizade. Ainda bem.
Mas quando Carlos Serra eleva o extremo normativismo que vem habitando o seu blog ao ponto de dar ordens a deus (”Nenhum deus tem o direito de excluir quem quer que seja da sua casa.”) eu, ainda que sendo ateu, confesso que tenho saudades do “porradismo bloguistico” que vigora na minha terra.
Ja agora, Serra da tambem instruções ao bispo de Maputo: “Assim, D. Francisco Chimoio, crítico tenaz da homossexualidade, deve aprender a levar os homossexuais a gostar da Bíblia. E de Deus.”. Eu, nao catolico (e ateu) dispenso-me, apesar de dela poder discordar e criticar, de instruir a hierarquia catolica. Mas aceito que um catolico, nessa condicao (e so nessa condicao - a igreja catolica nao e’ vinculativa, portanto todos podemos opinar mas nao podemos exigir) se arrogue ao direito de o fazer. ‘E nessa condicao catolica que vejo o esclarecido Serra intervir neste tom. Que quero ver, melhor dizendo.
Mas se assim for, espanta-me esta originalidade teologica. A de um bloguista ordenando a Deus (maiscula apropriada a quem nele cre) o que fazer.

21 comments ↓
Boa tarde moçambique.
Pena não ser da zona da Manga(Beira)
Mesmo assim lindo país
Excelente observação JPT.
Vejo, mesmo, que não basta ter os olhos abertos para ver.
Os olhos da crítica e da observação perspicaz são também necessários. Pulula, entre nós, um certo dever ser à vez da simples tentativa de recuperar o que a realidade é para cada um de nós. Use cada um o instrumento analítico que quiser, para tal fim. Penso que urge a identificação dos autores dos nossos textos. Há textos de ambientalistas que passam por de sociólogos, de Deuses (pretensos) que passam por de defensores de direitos cívicos, de sociólogos que passam por poetas ou vice-versa. Afinal, quem é o autor dos nossos textos?
hehehehe…esta cena ta a animar. abraços
convido a visitar: http://holocausto-shoah.blogspot.com/
Urbano, eu sou mesmo da zona dos Olivais (Lisboa). … um belo pais.
E tambem este (ja agora, estive ha pouco na tal Beira, uma bela cidade, acho).
PL, daqui acho que ‘e normal, donde legitimo, que facamos (escrevamos) coisas variadas, de registo variado, sem que seja preciso de cada vez se assine em determinada “condicao” diferente, a “adequada” a cada conteudo. Mas, e eh ai que vou consigo (parece-me, se estiver a interpretar mal, desculpe), acho complicado assumir-se um estatuto profissional, escrever sobre um determinado estatuto, e sobre essa “autoridade” exigir isto e aquilo. Eh um mecanismo comum em Mocambique (o que tem a ver com a escassez de quadros, “Doutor”, “dr.”, e etcs ainda valem no pulpito - a festa que aqui foi no advento dos catedraticos foi elucidativa). Mas isso complica as coisas - eu opino seriamente como cidadao mas nao no meu estatuto(zito) profissional, tipo “o senhor dr. antropologo P.T. acho isto sobre o tal quadro, o tal politico, a tal situacao”. Eh mais o tal jpt acha isto e aquilo sobre …
Nao eh uma divisao artificiosa. E neste registo lembrar-se-a da meu incomodo com as questoes do tal “academismo” nos blogs. Nao um mal em si mesmo, mas um obstaculo ah leveza de registos. Principalmente quando os estatutos academicos (profissionais) sao reclamados de inicio para legitimarem o disparar de opinioes, o postular do “dever ser”.
cumprimentos, ate breve
anonimo, isto tem andado pouco animado, confesso, ate desalentado
mj, obrigado pela gentileza
JPT peço desculpa mas pensei que se encomtrava em Maputo, pois a sua localização esta Maputo, quando esta nos olivais(Lx)
urbano, estamos num desencontro filosofico, o da distincao entre “ser” e “estar”. Ser de um sitio, como V. referia no seu comentario (muito aprazivel, a Beira, e terra de alguns bons amigos, ja agora)) ou estar num sitio.
No sentido que lhe dava sou la dos olivais, e estou no maputo, nao me encontro nos olivais (lx)
embrulhando isto com sorriso, claro
cumprimentos
JPT,
Na evidente falta de massa cinzenta, socialmente critica e interventiva, alguns “dinossauros” da praca deitam a cabeca de fora, recebem uns apoios e auto elevam-se num abrir e fechar de olhos a Deuses.
O grande problema e que estes Deuses quanto mais se colocam em bicos dos pes mais aparecem as pernas de barro. Seja porque as calcas estao curtas a custa de tanta lavagem pos independencia seja porque de o pedestral onde se colocam esta tao alto que ca de baixo se notam os fundilhos rotos.
anonimo
1. eu prefiro os dinossauros criticaveis (com os quais partilho o puido das roupas) do que os criticos anonimos
2. e mais, acho que as criticas (mesmo que esbatidas na pluralizacao dos sujeitos criticados) sao completamente inconciliaveis com o anonimato.
3. (associando a esta serie de comentarios) e, acima de tudo, acho que essa necessidade de “dar a cara” (assinar) o que se diz eh tao exigivel nos olivais,lx como na manga, beira
(Sou o primeiro anónimo)
Estranho que Carlos Serra não responda a isto (ou a outras interpelações nos outros blogs). Está no seu direito, é verdade…mas é estranho.
LPT,
sou o segundo anonimo e nao estou nos Olivais. Sou maputense de adopcao.
Como entendo que quem dita as regras e o dono da casa e os convidados ou as aceitam ou se retiram, e ainda porque concordo consigo no que diz respeito a necessidade de olhar o rosto de, com quem se debate algum tema, apresento-lhe desculpas pela invasao anonima do seu sitio, que continuarei a frequentar de forma militante e participativa.
Um abraco
JPT, se se me permite disentir com pseudonimo…ou mesmo porque havia tanto que eu não disentia aqui que não posso resistir a tentação:
Á jerarquia eclessiástica pode-se e deve-se esigir que seja coherente, quando menos com a menssagem evangélica, desde dentro da própria igreja como desde fóra, da mesma maneira que a qualquer outra instuição.
Outra coisa é o estilo do blog (ou desse post em concreto)um pouco imperativo se calhar, do que você não gosta…porem não negara que tem uma música “divina”.
Espero tranquilamente que me fulmine.
suroeste, eu gosto do blog do Carlos Serra (por ele, que aprecio, pelo blog em si, e pelo impacto que teve no bloguismo em Mocambique). Talvez por/para mal dos meus pecados a minha maneira de gostar eh a de ir discordando e concordando. No caso presente sem deixar de notar que ao academismo inicial, um sociologo in-blog “descascando os fenomenos sociais” e articulando blogs de pendor cientifico (ou reclamando-o) evoluiu para um postura de intervencao civica. Acho muito bem (alias do que eu nao gosto eh de blogs academicos, no sentido estrito da palavra). Mas conviria nesse caso explicitar a diferenca. Depois, claro, discordo de muito da etica/ideologia/forma ali, mas isso eh normal, mal a existir seria o contrario.
Quanto a hierarquia eclesiastica e-me indiferente na maioria dos casos. Ou melhor, e-me exogena. E faz-me especie, aqui e sempre, os nao-catolicos a exigirem isto e aquilo.
Ha ainda muitos argumentos sobre a influencia catolica etc e tal, o dever da intervencao dos cidadaos sobre os discuross catolicos etc, o que transcende a comunidade dessa religiao. Ate posso dar ouvidos a essa lengalenga em paises de efectiva maioria praticante catolica. Mas aqui? num pais onde apenas a minoria da populacao eh catolica? Isto eh um deslize catolicocentrico, etnocentirsmo cultural. Vamos falar dos mwalimos, dos seus superiores? dos curandeiros e do homossexualismo como feitico? dos pastores das igrejas cristas? Ou a porrada na igreja catolica eh so para ingles(bloguista) ver. Em suma, fica a casca do fenomeno com exaltacoes destas
anonimo segundo, agradeco a militancia visitante (que muito agrada). e espero a participacao visitante.
anonimo primeiro, eh claro que cada um tem o direito a hastear a couraca da indiferenca
A obrigada neutralidade dos não crentes no que tem a ver com a Igreja (católica) é uma discussão que mantenho com certa frecuência com familiares crentes. No meu pais a Igreja sempre teve um poder inmenso e não aceita de bom grao perde-lo. Eu manteria-me á margem dos seus assuntos se eles conseguissem manter-se á margem tambem e não pretendessem impor as suas convicções ao resto da sociedade. Mas, desde o momento em que seguem a estar subvencionados generosamente polo Estado, tambem com os meus impostos, e de que estam exentos de impostos acho que tenho todo o dereito a criticar as suas declarações e actuações e mesmo a pedir que se fagam públicas as suas contas e nao discrimenem a ningum cidadão pela sua opção sexual, por exemplo.
Acho uma enorme diferenca entre uma “obrigatoria neutralidade” face ah hierarquia catolica e uma exigencia sobre as concepcoes que esta veicula. Eu discordo da demonizacao sodomista, como eh obvio. Mas que tenho a ver que uma agremiacao privada de pendor iniciatico nao aceite homossexuais no seu clube? Desde que nao impeca outros de o serem alhures …
Ah, mas as pessoas catolicas e homossexuais, coitados. coitadinhos … deixemo-nos de merdas, sejam outra coisa qualquer, arranjem outra religiao. Ou alguem os obriga a serem uma coisa dessas. Diga-se assim, tal como nao os quero obrigados a serem heterossexuais nao os vejo obrigados a serem catolicos. O resto eh um problema deles, de pacotilha.
E irritam-me os radicalismos academicos de fachadas socialista, como dizia alguem. Aqui e alhures. Esse que impensa, na vertigem dos ventos e das ondas
Com todos os respeitos, parece-me que trata muito ligeiramente a questão: Elegir entre ser homosexual ou católico?
Elige-se ser homosexual? E, en certa medida, elíge-se ser católico? A identidade de cada pessoa não se decide com tanta frescura, (im)penso eu. Eu não posso deixar de ser o que sou, em tal caso poderia intentar dissimular.
Um homosexual ferventemente católico pode opor-se á condena que se lhe fai desde as hierarquias eclesiásticas. Uma mulher pode demandar o sacerdócio. um sacerdote questionar o celibato. A Igreja é “ecclesia”, ou não?
Fóra dos dogmas de fe, toddo poode serr negociável, suponho, ainda que não sou experrta. Um teólogo da minnha terra escribiu algo assim como “Deus é negra”.
É máis: estou convencida de que a terra se move arredor do sol.
repito o que disse, a questão é-me estranha. nao sou catolico nao tenho o interesse de impor regras a essa igreja que tenham a ver com o que ela faz no seu interior. como tal é-me indiferente os sentimentos dos homossexuais catolicos. nao quero que optem, digo apenas que é uma questão de catolicos. ninguem obriga ninguem a ser catolico, ou pelo menos eu nao obrigo. Em suma, posso simpatizar com quem é catolico e homossexual e seus hipoteticos dilemas. mas nao me compete dizer a igreja dita o que fazer
mas, honestamente, nao vou continuar a discutir isso, o post era mais sobre a arrogancia teologica e o catolicocentrismo (forma nada velada de etnocentrismo). de resto cada tenha o seu deus e a sua libido. Pouco arrogante, apenas
cumprimentos, obrigado pela discordancia
JPT, está você dándo-lhe voltas ao mesmo argumento.
Galileo teve que elegir entre ser católico e a evidência científica. Tanto tinha o que elegira: queimaram-o igual.
De todas formas eu já me retirava…
Cumprimentos da minha parte.
1. nao estou a dar voltas a um argumento. O post tinha um argumento, ponto final. V. quer protestar contra a igreja, protesta. Mas eu nao vou arranjar outros argumentos por causa de uma vontade externa.
2. Galileu etc e tal, mas já foi há alguns séculos
3. e, entenda, nao o queimaram
AMEN!
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