Do futuro

Num Portugal que se expandiu e bastante guerreou ao longo da sua história há um pensar sobre os que morreram nessas guerras longínquas que, assim grosso modo, oscila entre dois polos.

Um deles, dito mais conservador, valoriza a identidade comum, indiferencia um interno, baliza um projecto nacional unânime (por vezes chamado patriótico), e saúda objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chamou-lhe gesta ou epopeia, e nisso costuma aplicar-lhe várias maísculas, estas como se fortalezas de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, os célebres e os anónimos, vistos como agentes de um desígnio. Nisso se respeitam e se recordam os nossos mortos. Símbolos do que somos, heranças para os que se seguem nesta História que se quer perene pois orgulhosa.

Um outro, dito mais progressista, lembra uma identidade comum sobre um diferenciado interno, de poderes e de classes feito, baliza os projectos nacionais (quase nunca chamados patrióticos) como se plurais frutos dos conflitos entre diferentes grupos, e assim contextualizados critica objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chama-lhe expansão ou descobertas, e nisso costuma aplicar-lhe várias aspas, estas como se vassouras de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, mas mais atento aos anónimos, até vistos como vítimas de poderes mobilizadores. Nisso se respeitam e recordam os nossos mortos. Símbolos do que fomos, heranças para os que se seguem na História que se quer perene pois reflexiva.

Será demasiado simples chamar a isto a persistência das religiões dos ancestrais. É mais, qualquer que seja o poiso de onde se fala, olhar e usar o(s) (ante)passado(s) para imaginar o presente e construir o futuro. Mais ou menos criativamente, consoante o paladar.

Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial

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Pemba, Talhão Militar Português

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Um país* que não cuida dos seus mortos desistiu de o ser.

*ver comentários.

16 comments ↓

#1 jpt on 03.18.08 at 22:30


Para os leitores mais apressados, mas interessados, será de reter a palavra “país”.

#2 jpt on 03.18.08 at 22:30


Deixamos de honrar os mortos e de cuidar dos vivos. Envergonhámo-nos do que fomos e não olhamos para a vergonha do que somos. perdemos as raízes e agora, surpresos, percebemos que já não damos frutos…

Publicado por: Bastet às fevereiro 10, 2005 07:29 PM
http://bastetbastet.blogspot.com/

#3 jpt on 03.18.08 at 22:31


Muito honestamente: quem está enterrado no talhão portugês?
Porque existe esta discrepância de arranjo, lado a lado presumo? quem cuida dos talhões?…antes de tomar uma opinião gostaria de ver esses pormenores esclarecidos….
Um abraço do Morfeu

Publicado por: morfeu às fevereiro 10, 2005 09:13 PM
http://www.anomalias.weblog.com.pt/

#4 jpt on 03.18.08 at 22:31


Belo contraste, de facto. Por notícias vindas de Angola, sei que o panorama não é melhor… Entre 1961 e o final do conflito colonial, as transladações tinham de ser pagas pelas famílias e/ou outros interessados.
Será que a nossa reconciliação com o passado/história não passaria por repensar esta situação? Transladação dos restos mortais dos nossos combatentes?
Um abraço, Zé.

Publicado por: LE. às fevereiro 10, 2005 09:35 PM
http://oceanus-occidentalis.weblog.com.pt/

#5 jpt on 03.18.08 at 22:31


LE, isto é a I GM!

#6 jpt on 03.18.08 at 22:32


E um blog que fecha e do qual gostamos independentemente da assuidade é algo que leva um pouco de nós e nos morre um pouco. Foi um dos meus 1ºs blogs desde 7 de Junho do ano passado. Não gosto de dizer adeus. Até já.

Publicado por: vague às fevereiro 11, 2005 02:02 AM

#7 jpt on 03.18.08 at 22:32


Ei, companheiro, que é isso…?! Agora que te descobri é que te vais embora…?! Como é bom recordar África, Moçambique em especial, nos teus textos e imagens.
Pois é…, que país o nosso… não, não admira que eles não recordem os mortos (nem os respeitem), quando já de nós, os vivos, andam esquecidos.
Um abraço e um rápido regresso.

Publicado por: Molungo às fevereiro 11, 2005 05:17 PM

#8 jpt on 03.18.08 at 22:33


Contraste de civilizações ou de civilidade?
Até já…

Publicado por: jotakapa às fevereiro 12, 2005 01:53 PM
http://jotakapa.blogspot.com/

#9 jpt on 03.18.08 at 22:33


Não são necessários quaisquer comentários; segundo soube em Angola é a mesma coisa!!! logo…
Quem devia ver isto é o snr Ministro da Defesa que tanto fala e enaltece os militares portugueses; e que tal lhe enviar este blogue para ver e meditar????
Um forte kandandu.
Eugénio Almeida

Publicado por: Eugénio Costa ALmeida (Pululu) às fevereiro 13, 2005 08:53 PM
http://pululu.blogspot.com/

#10 jpt on 03.18.08 at 22:34


Acabei de tomar conhecimento deste post através do Abrupto.

Sinceramente não tenho palavras… é triste e desolador demais!! Simplesmente penoso.

Estas imagens atingiu-me no meu “eu” mais profundo. Como é possível?

“Um país que não cuida dos seus mortos desistiu de o ser.”

Publicado por: f_miranda às fevereiro 15, 2005 04:59 AM
http://turresveteras.blogspot.com/

#11 jpt on 03.18.08 at 22:34


Sem palavras.

Publicado por: david ponte às fevereiro 16, 2005 01:45 PM
http://www.raizdotempo.blogspot.com/

#12 jpt on 03.18.08 at 22:35


JPT, deves ter visto passo “gigantesco” dado entre Portugal e Moçambique hoje, ao ser assinado o protocolo para a conservação dos arquivos. 100 mil$ custo para moçambique 600 mil$ custo para portugal. Faltam as campas certo?
Um beijinho, já voltaste lá do horizonte?

Publicado por: Passada às fevereiro 16, 2005 11:45 PM
http://www.passada.blogspot.com/

#13 jpt on 03.18.08 at 22:36


Este seu texto ficou antológico. E a postagem, texto + fotografias, uma das melhores coisas de todos os tempos na blogosfera. E eu, brasileiro, (e só para clarear, integrante do segundo grupo…), fico pensando em como tudo isto explica também o Brasil, em como é viva ainda entre nós a herança portuguesa… E, no desconsolo, chorando a dolorosa verdade (para mim)de que os começos dificilmente se alteram, de que os grilhões de ferro com que somos acorrentados na infância dificilmente se podem romper, de que “pau que nasce torto nem o diabo endireita”, de que este é o destino que nos foi traçado pelos deuses, de sermos uma gente que só sabe fazer lambanças. Desculpem todos o pessimismo. Mas é o que penso. Portugal e Brasil são uma lambança só (embora seja obrigado a reconhecer no que nos diz respeito, a nós brasileiros, e no que toca ao detalhe, pelo menos aí nos safamos: os nossos mortos da II Guerra foram todos repatriados, estão num belo monumento junto à baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e o antigo cemitério em Pistóia, Itália, está sempre limpo e bem conservado.Mas no resto…)
Vale.
Tristão.

Publicado por: Tristão às fevereiro 17, 2005 12:24 AM
http://sarapalha.blogspot.com/

#14 O último soldado da I G.M. | ma-schamba on 03.19.08 at 0:17


[...] As homenagem nacional que foi realizada ao supra-veterano Ponticelli, e através dele a todos os combatentes da I Guerra Mundial – das mais irracionais existentes -, fez-me ainda lembrar uma velha entrada aqui, de Fevereiro de 2005, dedicada a um facto social total: O cemitério militar de Pemba. [...]

#15 Do futuro (reprise) | ma-schamba on 03.19.08 at 0:36


[...] refiro que agora me lembrei de uma velha entrada do ma-schamba (10.02.2008), dedicada ao cemitério militar de Pemba, referindo-o como facto social total. Pensando melhor acho que este é um bom momento para a [...]

#16 O bloguismo serve para alguma coisa? | ma-schamba on 07.17.08 at 12:47


[...] que aqui coloquei (se aqui é bom ou mau é critério alheio, mas dentro do aqui é o melhor): este. É um ensaio sobre Portugal e sobre os portugueses, assim eu a alcandorar-me a Lourenço ou Gil, [...]

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