Luis Novaes Tito é um blogoamigo do ma-schamba, desde há anos. Já sofreu exageros meus, que lamento e até bastante. É um socialista mui decente – lembro-me de quando se afigurava a ascensão do governo de Socrates ter aqui perguntado sobre o que aconteceria ao então mui crítico bloguismo socialista português, se não se alinharia no silêncio. E de ele ter respondido qualquer coisa como “estarei cá”. E está! Não só de olho crítico mas também com o mais importante do actual bloguismo português que eu conheço: a espantosa e longa (sortudo, ele) série “Já fui feliz aqui” – uma coisa de reconhecer a vida que me apetece começar a copiar. E, até também, um acto político contra o estrutural gemido português, esse que nada mais é do que sinal de distinção sociológico, um “tão elevado que eu sou que assim tanto sofro”.

Pede-me o LNT novas da visita do Presidente Aníbal Cavaco Silva a Moçambique. Pelo que está acima escrito sinto-me obrigado a ecoar algo. Dizem que a visita correu bem. Acredito. Ontem na recepção à comunidade portuguesa (que o Lusofolia aponta) o presidente ecoou esse sentimento positivo. Ainda bem – todos temos a ganhar com o degelo.

Ainda assim acho que tão poucos meses depois do que aqui aconteceu no dia da transferência de Cahora Bassa, de total desrespeito pelo Estado português nunca, mas nunca mesmo, um Presidente da República ou primeiro-ministro português deveria aqui ter vindo. Pois se as práticas simbólicas identitárias moçambicanas são muito respeitáveis há limites a respeitar quando confrontam as práticas simbólicas identitárias do Estado português. Mas acho isso se calhar porque não sou político nem diplomata. Se a visita correu bem ainda bem – se as relações internacionais melhoraram ainda bem. Muito ainda bem. O meu obrigado, como residente imigrado, ao dignissimo presidente que tenho.

Pontos negativos? Assim para o vulgar cidadão só vi um – alguém sorrirá, eu acho crucial. Na recepção à comunidade portuguesa o coro infantil da Escola Portuguesa de Moçambique entoou os dois hinos nacionais. Toda a gente se comove quando vê criancinhas a cantar – “deixa-me ver a minha filha” ouvi um colega emocionado ali ao lado. A mim repugna-me, e de que maneira, que uma escola paga pelo erário público português (e são uns milhões de euros anuais) tenha professores que põem as criancinhas a cantar a “Portuguesa” com a mão no peito. Não sou nada anti-americano. Mas o hino português não se canta à americano, canta-se com os braços estendidos ao longo do corpo. A ministra da Educação estava presente – espero que mande actuar.

LNT, já agora saiba que aqui o seu blogoamigo teve o desplante de ir incomodar o chefe da Casa Militar da Presidência da República sobre os talhões militares. Que já estava informado, confirmou-me muito simpaticamente. Espero que possa actuar, e que para isso tenha os recursos. Pois continuo a acreditar que que os mortos são o nosso futuro.

Claro é que amigos e família quando me ouvem nestas coisas acham que não tenho razão. Pior ainda quando vêm ao ma-schamba a ler isto. Eu, pelo contrário, acho que tenho toda a razão. Nos modos de cantar o hino. Nos modos de tratar as campas.

9 comments ↓

#1 LNT on 03.27.08 at 21:44


Estou sem palavras. Quando as encontrar, respondo.

Para já só a constatação de que SOIS (lusofonia arcaica) um gajo porreiro, comendador, excelência.

Um grande abraço que agora me vou ao Tivoli assistir ao Trocadero.

#2 umBhalane on 03.28.08 at 1:17


Também fiquei sem palavras.
Há que desenrascar, aproveitando as suas.

“Eu, pelo contrário, acho que tenho toda a razão. Nos modos de cantar o hino. Nos modos de tratar as campas.”

Acrescento apenas, também eu acho, que tem toda a razão.

#3 Giuliano on 03.29.08 at 15:06


É verdade que só o hino americano se canta à americana, mas parece que só nós sabemos isso.

#4 jpt on 03.30.08 at 6:44


LNT, tenho dias … UmBhalana, agradecendo. Giuliano, com toda a certeza que na Escola Portuguesa de moçambique o sabem. Apenas julgarão que é assim mesmo – pergunto-me porque não mudam as estrofes ao hino ou outra coisa qualquer. Apenas pela proposta do mesmo tipo de atitude transformadora do ritual identitário “hino nacional” António Alçada Baptista foi afastado de coordenador das comemorações do 10 de Junho – o stôr de educação musical não o deveria ser também?

#5 Carlos E.P. Sacramento on 04.02.08 at 15:42


O texto é pobrissimo, denota muita indignação e pouca argumentação.
Um presidente português nunca deveria ir mais a moçambique? Espero que o próximo retire todo o financiamento a países palops.

#6 jpt on 04.02.08 at 23:53


Carlos Sacramento, obrigado pela opinião. Não fi com a certeza de qual o texto que considera paupérrimo, se este se o velho para qual remeto. Mas penso ser este. Quanto às suas duas considerações: não, acho natural que os presidentes portugueses visitem Moçambique no futuro; não, não considero que seja desejável que os presidentes portugueses retirem financiamentos aos “palops” – até porque não é deles que depende o delinear da política externa portuguesa, mas isso é até marginal.

#7 Carlos E.P. Sacramento on 04.03.08 at 12:11


“Ainda assim acho que tão poucos meses depois do que aqui aconteceu no dia da transferência de Cahora Bassa, de total desrespeito pelo Estado português nunca, mas nunca mesmo, um Presidente da República ou primeiro-ministro português deveria aqui ter vindo.”

Não percebi bem a frase talvez. De quem é o desrespeito afinal, do governo moçambicano ou português?

#8 jpt on 04.03.08 at 17:17


é, tem razão, a construção da frase é muito pobre, fica enublado o sentido. Rapidamente: o primeiro-ministro (em exercício) português veio a Moçambique para participar na cerimónia de transferência da barragem, a cuja decorreu no Songo (local da barragem) com a presença de 5 presidentes estrangeiros. Foi, artificiosamente, retido em Maputo durante toda a manhã da realização das cerimónias, tendo-lhe sido permitida a partida já no final da manhã. Chegou no final, já todos os representantes estrangeiros partidos, foi enviado para um canto indigno da plateia e ao fim de 15 minutos lá decidiu regressar a Maputo. A imprensa portuguesa presente – oficial – calou, a diplomacia portuguesa calou, o governo português calou. Três ou quatro meses depois o PR vem cá em ambiente festivo. Claro que apaga alguns fogos nas relações – mas em bom português significa que o governo português, o Estado português, não se dá ao respeito, e como tal não será respeitado quando necessário.
se eu pensar que o único representante do estado que lá estava, no songo, era o vice-presidente do IPAD (MNE) que foi à boleia como se fosse mero turista, e que se passeava por lá de barrete da RTP na cabeça, como se fosse um turista labrego, tenho que aceitar que um Estado com esta hierarquia também não será respeitável.

Finalmente, sumo do meu argumento: depois de destratamento institucional e simbólico destes é óbvio que um período alargado de nojo seria exigível. – não tem, rigorosamente, nada a ver com relutância no desenvolvimento de boas relações entre Estados e povos. Tem, sim, com a consciência que assim não se desenvolvem boas relações, apenas se simulam boas relações. Mas não é a política de hoje a mera simulação. Dado o meu respeito pelo actual PR português só posso crer, ou querer crer, que ninguém lhe tenha narrado o que aqui aconteceu então. Mas, se calhar, nem isso
cumprimentos, renovado agradecimento pela invectiva

#9 Carlos E. P. Sacramento on 04.05.08 at 9:21


Ok agora ja percebi. Li ao contrario do que pretendia dizer, as vezes e uma questao de semantica. Concordo 100%, os Palop’s estao constantemente a humilhar-nos mas quando precisam depois pedem dinheiro ao governo portugues para as cheias, a pobreza e tal, dinheiro esse que vem dos conribuintes portugueses, acho isto extremamente injusto. Se algum dia for chefe de estado acabo imediatamente com dinheiro para os Palops a expensas do estado e retiro todos os soldados portugueses em timor e afins.
Estao sempre a queixar-se dos males do colonialismo, nao nego que houve coisas mas mas ja chega. A culpa e so deles, quem lhes manda escolherem lideres comunistas e partidos com ideologia marxista como o MPLA e FRELIMO. O Samora Machel apesar do que dizem acho-o um terrorista, em vez de dar liberdade ao povo da-lhes outra ditadura desta vez de indole comunista como aquela que Portugal ia sofrendo apos o 25 de Abril. Acho a politica em Mocambique uma farsa, razao tem o Afonso Dhlakama da Renamo. Basta falar com pessoas em Mocambique e tira-se logo a prova dos nove. Curiosamente pareceu-me que o Cavaco ignorou isto quando falou com o Dhlakama mas tambem nao surpreende porque tem de dar graxa ao partido no poder. Lamentavel. Por isso nao tenho pena dos povos palop’s, tenho pena sim das minorias que querem liberdade e sao oprimidas pela ditadura da maioria que alias e isso que e a democracia.
O Cavaco tambem me saiu um belo traidor, um politico de direita a defender valores de esquerda, em vez de dar mais liberdade economica e defender liberdades individuais faz o contrario, enfim.
O processo de cahora bassa e tudo o que o reodeou foi um autentico nojo, ainda me lembro de estar em maputo na altura e de ser provocado por uma mocambicana que assim que descobriu que era portugues gritou “cahora bassa e nossa”. “Segunda independencia” dizem…nao admira que nao progridam. Fiquem com o Eusebio tambem, chamem-lhe “terceira independencia”.

P.S.: estou a usar um keyboard com problemas dai a falta de acentos, espero que perceba o sentido das frases todas.

Leave a Comment