Chegam eles com os seus sotaques carregados, nem precisam de ser ilhéus, portugueses aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões ditas “o vernáculo”, até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe.
Comentar isso, afivelar sorriso público com tais falares? Nem pensar, aceitar a diferença é bom, é valor. Ainda para mais esta, mera herança das gentes, como posso eu sorrir com o falar do povo, tão legítimo exactamente porque do povo, tão legítimo porque herdado, os sons de antanho, coisa imorredoira e nunca estratégia. Natural, pois então.
Mas se me chega a pronúncia de alguns urbanos, carregada, um português aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões, até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe? Toca a rir desse sotaque, a invectivá-lo. Pois não é “natural”. Pois nele não é mera herança, não são os sons do passado, aquela natureza dos simples. São estes sons coisa estratégica, construída, mero modismo.
Pois, e sabe-se, tal como Deus Nosso Senhor o sabe, o povo é passivo, e também nos seus sotaques, é essa a sua natureza. Só os ricos, burgueses, são activos, estratégicos, nada dados ao que neles é puro e são. E, claro, são-no também nos seus sotaques.
Gozemo-los pois, a esses ricos, a essa gente da cidade grande, à sua pronúncia. Construída. Se falsos até no som, quanto mais serão naquilo que entoam.
Sim, gozemos, desmascaremos. É nossa obrigação, nossa missão, nós que nascemos bem, nós os sem-sotaque, reduzir esse linguajar novo-rico e acarinhar os falares naturais e simples, e ainda por vezes a estes elevar, traduzindo-os.
(Por vezes à noite tremo: e se Junot regressa, com as suas guilhotinas?)
Nota: não há nenhuma ligação (vulgo “link”). Pois nós escrevemos vários posts em vários blogs, nós temos muita palavra. Pesada, concisa. E, claro, sem sotaque.

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