O erro é o outro

Descubro que Rui Bebiano, dono do excelente A Terceira Noite, integrou o Arrastão tal como já o havia feito o bom do Bruno Sena Martins. Supreende-me, o Arrastão que conheci no seu início era um sítio horroroso, de uma demagogia até dolorosa e não o imaginava como o local para bloguistas deste teor. Mas porventura com estas entradas será agora um local a seguir, apesar do seu fundador. Descubro isso através do texto “Do Outro Lado do Tempo” [reproduzido no Arrastão], que se refere ao ma-schamba, enquanto local de “cegos ou preconceituosos”   [ligando directamente a um texto do ABM que também foi referido no Bibliotecário de Babel, ainda que em termos neutrais (a ligação foi retirada, quero crer que por causa dos problemas de servidor que ontem aqui tivemos)]. Tudo isto devido à mais longa polémica sobre livros que este blog já conheceu.

No seu texto Rui Bebiano afirma a complexidade da sociedade colonial e os processos de construção da sua memória (silêncio por um lado, mi(s?)tificação por outro) em Portugal. Quasi-termina, e muito bem, com a clarividência que lhe é habitual: “Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado ...”. Posto isto deste lado “lado/blog” - onde habitam a “cegueira” e os “preconceitos” – ocorre-me opinar.

Entendo que a construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então) que por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa, e que está para além das memórias dos ex-colonos, da sua visão. A primeira é topológica: é notório que alguns sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do “bom colono” até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do “português” (ainda que esta concepção resvale transversalmente – e surpreendentemente? – na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos).  Noção que casa, em comunhão de alimentos, com a nostalgia mitificadora que Bebiano identifica.

Mas também é certo que desde o retorno das comunidades portuguesas em África houve um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do ”explorador dos pretos”. Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, da muda mágoa da derrota. Mas, fundamentalmente, nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a “sociedade colona” e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados). Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana, uma higienização homogeneizadora e auto-mitificadora que a apresentava como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo) - o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi assim torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um “Outro” (pouco)interno, o colono. O silêncio memorialista de décadas da população retornada que Bebiano refere, a sua rápida e silenciosa integração no Portugal de então (“supostamente indolor“, como bem diz) terão sido também (é minha mera opinião) respostas a essa aversão concidadã (e, evidentemente a necessidades socioeconómicas, de não ficar “a viver no passado”).  Mas a aversão foi e é também ideologicamente produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que assim simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.

Assim sendo falar dessas memórias tem sido desde esse tempo  não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos “neste” ou “naquele” lado. Quase sempre encastrados na areia.

Parece-me pois normal que a produção de discursos sobre o passado colonial e, muito em particular, a produção de discursos de recepção aos discursos sobre esse passado levante reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas fundamentalmente porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.

Mas para além dessa fractura “sistémica” entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse “luto colonial” como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona. Por um lado a afirmação da sua ”sobreportugalidade”, por parte das vozes mais saudosas da “gesta nacional”, considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.

E  a da sua “importugalidade”, a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. Esta imagem é gerada num contexto político-discursivo (e de investigação) que valoriza a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade (melhor dizendo, valoriza os discursos sobre a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade), por isso mesmo desapaixonando-se de um contexto colono, sempre ou elite ou intermédio na sociedade colonial exploratória. Essa excentricidade, esse verdadeiro ”expatriamento” dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da “sobreportugalidade” não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da “bestialização” apenas poderia provocar um tribalismo “pied-noir” ou, como foi o caso, o desenlaçamento comunitário – salvo alguns núcleos convivenciais, até tardios, mas sem repercussões de índole socioeconómicas e, muito menos, políticas. Incrementando os mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.

Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, seja pela sua sobreportugalidade seja pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas.

Ao falar-se do livro de Isabela Ferreira, ao ler-lhe o blog inicial, ao ouvi-la agora, o que encontro é exactamente o mesmo tipo de operação intelectual: a generalização (culturalista? ontológica?, há que ler o livro para lhe entender as forças motrizes, muitas vezes apenas discerníveis na retórica) produtora de desconhecimento. Uma generalização aposteriorística (como já em texto anterior aqui disse). Para quem diga que isso é inultrapassável no discurso (literário ou outro) importa sublinhar/repetir que o aqui se trata é o da projecção no passado de questões ideológicas e políticas actuais, um passado imaginado (literário que seja) para falar do hoje, do fincar o respectivo posicionamento – e daí as adesões e efusões que tanto tem provocado. Seja a autora sejam muitos dos leitores.

O livro aborda a realidade colonial. Bebiano diz-nos que esse passado “conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas.”, uma “violência latente ou explícita do quotidiano“. Com toda a certeza. Para além da violência colonial (que era e é a essência de uma situação colonial, sistémica) é notório que essas são características que todas sociedades históricas contêm, sejam as ameríndias que Rousseau não conheceu seja a rotineira “república dos relógios de cuco” de Orson Welles. Descrever essas experiências assente em generalizações, em imputações culturalistas, em negação da multiplicidade histórica, postulando um qualquer “nós”, bom ou mau, para além das empirias? Não me ofenderá se houver génio (seja lá o que isso for) literário. Por isso muito estou curioso em ler o livro. Há genialidade? Fantástico, não interessarão as generalizações empobrecedoras. Mas se não a houver, se estivermos apenas diante de uma prosa ((boa, média, má) mortal que pretende descrever um passado, imputar e invectivar esse passado assente em generalizações preconceituosas então isso é, quanto muito, panfletarismo. Mais ou menos catártico, mais ou menos teatralizado. Produtor de cegueiras, reprodutor de preconceitos. Des-conhecedor. Do tal mundo expelido de Portugal. E que assim não é reintegrado, auto-compreendido, pese a retórica “desveladora” que anuncia e que o recebe. E, como tal, des-conhecedor do próprio objecto Portugal.

A expulsão do mundo colonial, da sua voz, do encontrar as nuances para além do pólos “beleza tropical” / “violador de pretas”, é uma incapacidade de olhar a multiplicidade colona – e, frise-se, nisso também se afirmando a incapacidade epistemológica ou literária (consoante o discurso) de olhar a multiplicidade colonizada. Mas essa coisificação do colonizado (que aliás é o que mais me interessa nesta trama toda), esse desinteresse analítico por África que é estruturante em Portugal é questão que, ainda que ligada a todos estes factores, exigiria um outro texto. Essa incapacidade, esse desinteresse (ideológico?), pelo “mundo” colono (e, por arrastamento, pelo “mundo colonizado”) denota-se no próprio texto de Bebiano. “Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.”. Ou seja, o que Bebiano anuncia - com toda a certeza en passant, como é normal no registo blog, ainda que ele seja um bloguista de excelência - é que o olhar sobre África sobre o qual atenta é o olhar metropolitano sobre África, dos soldados (na sua esmagadora maioria metropolitanos, e é notoriamente a eles que o autor se refere). Se pegarmos na sua excelente obra “O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60” (Angelus Novus, 2003) este movimento já se encontra. A juventude portuguesa em África (pp. 156-160), as suas práticas e imaginários, sua ligação com o sistema português, são brevemente lidos através dos olhos dos letrados (oficiais?) metropolitanos ali deslocados. Entenda-se, a sociedade colona como tal inexiste na reflexão, como se ela não pertencesse à dimensão portuguesa da ”cultura-mundo” (p. 13) ou, pelo menos, fosse verdadeiramente significante para a reflexão [poder-se-á dizer, e concordarei de imediato, que todo o trabalho tem os seus limites de objecto. Mas aqui parecem-me inditos e/ou provocados por este contexto intelectual. Ou a memória está-me a trair muito].

Entenda-se, também aí ela – a sociedade colona – está expulsa do que é o objecto (Portugal). É certo que o movimento colonizador foi tardio (como mostra Claudia Castelo em “Passagens Para África.”, Afrontamento, 2007), mas nos anos 60 havia já uma enorme população não-metropolitana, na maioria de primeira geração mas também de múltiplas gerações em África. E como tal, basta(s) juventude(s) e seus discursos. Não chamo isto para criticar Bebiano, misturar o registo de blogs com livros profissionais, apoucá-lo, menosprezá-lo. Pelo contrário, friso que muito gostei deste seu livro (e quem seria eu para o questionar, se fosse caso contrário). Apenas convoco essa dimensão para referir que até num intelectual possante como Bebiano se encontra (pelo menos nesta sua obra e, secundariamente, neste seu pequeno “post”) a matriz estruturadora destes preconceitos ideológicos sobre o mundo colono, desta “outrização” colona, da sua expulsão do verdadeiramente significante, de um higienismo societal feito projecto ideológico no regime democrático português. A qual assenta, repito-me até à exaustão, na mera utilização de generalizações a la carte. Talvez por isso agora este agrado, a defesa entusiasmada, com a obra aparecida. Que é mais-do-mesmo, afinal. Só que, agora, do “lado certo”. Para aquele “lado”, claro.

Finalmente. Pode o meu caro ABM ter caído no caldeirão laurentino dos “preconceitos” e, pese embora o seu riquíssimo trajecto biográfico, não passar de um irremediável “cego” com prosápias. Posso eu mesmo, pela minha biografia, ininteligência ou até pela raiva contra tudo contra o que me parece neo-comunismo europeu de fachada libertária (ainda que, concedo, às vezes nem o seja), estar viciado em goladas dessa poção preconceituosa que me condena às trevas da “cegueira”. [A nossa AL está isenta pois não concorda connosco no olhar sobre a produção de Isabela Figueiredo]. Mas é nestas trevas pre-conceituosas em que vegeto que me ocorre que Rui Bebiano, e talvez alguns outros, sofrem de uma ligeira miopia. Ou melhor, de um pequeno astigmatismo, que é coisa bem diferente. Nada que não se possa resolver, facilmente, com umas meras próteses oculares. Isto se não continuar(em) a pensar que o erro é o outro.

Depois há os outros que o(s) seguem. Mas esse é o comboio descendente. Vêm à gargalhada. “Uns por verem rir os outros. E outros sem ser por nada.” E não há óculos que lhes sirvam. Estão como hão-de ir. Assim como eu e o ABM, pelos (in)vistos!

ADENDA: em comentário Rui Bebiano esclarece que no seu texto apenas ligou explitamente ao ma-schamba o termo “preconceituosos pelo que a consideração de “cegueira” não foi sua intenção. Aqui deixo a nota, agradecendo o esclarecimento e lamentando a minha extensão interpretativa.

jpt

[Não sou capaz de escrever numa tarde algo deste tipo que seja mais legível ou coerente. A própria arrumação peca. Mas o "tempo bloguístico" implica a sua colocação agora, senão perderia a sua justificação. Daí o tamanho e sisudez, a repetição e o esburacamento. E, temo, a ilegibilidade. Ainda assim está botado.]

ADENDA SEGUNDA: uma semana depois de ter escrito este texto ouvi toda a entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo, feita por Carlos Vaz Marques. Após isso deixei neste texto do ma-schamba um comentário nela baseado. Mas ficará melhor arrumado aqui, como será óbvio a quem ainda aqui volte. Abaixo fica a sua transcrição:

Ainda que em contradição com o que disse acima regresso aos comentários deste texto sem ser em diálogo directo com outros comentadores. Mas só ontem ouvi toda a espantosa entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo realizada por Carlos Vaz Marques. E como não escreverei nenhum texto (post) sobre o assunto [outros machambeiros resmungariam, estou certo, devido a cansaço] quero, pelo menos aqui, deixar alguns pontos: um, que já tinha referido, mas que nunca é demais lembrar, é o do seu absolutismo intelectualmente incontrolado: “todos os homens eram como o meu pai [aka, horríveis], alguns até piores”, algo surpreendente – e não é uma expressão literária, é uma opinião, portanto não tem requebros retóricos ou formais que a defenda. [as "citações" são aproximações ao discurso oral, mas procuram ser o mais fieis que me é possível].

Depois há a sua recorrente, e “lamentosa”, afirmação “eu estava lá, eu era colonialista, eu fui colonialista, eu assumo”. Para uma pessoa que viveu em Moçambique até aos doze anos (por mais que tivesse dado uma estalada numa outra) isto é surreal. Ou seja, denota uma teatralização do seu estatuto, uma sobrevalorização pessoal que apenas – só pode – quer funcionar como instrumento de legitimação empírica do discurso. Pobre afirmação e legitimação. E, entenda-se, a reclamação de “colonialista” para uma menina de 12 anos, ainda para mais reclamada 35 anos depois, é de uma indìgència intelectual, de uma ignorância pungente sobre tudo o que é reflexão sobre aquele sistema histórico, e não apenas semântica – algo pouco aceitável para quem afirma ter passado as últimas décadas envolta nesta sua característica biográfica (alguém me poderá vir dizer que IF quer ser a Gunther Grass portuguesa, mas nem sorriso isso provocará).

Finalmente, a cereja em cima do bolo. IF diz que reconhece logo, e ainda hoje, os moçambicanos no meio de outros africanos (negros). Pois eles são lindos, têm uma cor fantástica, especial, têm características emocionais e estéticas únicas, tudo isso por ela (só por ela?) imediata, visceral, espontaneamente reconhecível – sei que os meus amigos moçambicanos (negros e não só) que aqui tenham chegado (ou que a tenham ouvido) já se estão a rir (e, com toda a certeza, a afiarem a língua para os óbvios impropérios de retórica machista que este tipo de discurso provoca). Mas vamos ficar no registo sério: ouvir este discurso é ouvir o típico discurso racialista, a da homogeneização alheia, a da des-individualização alheia (bonitos?, todos? a mesma cor da pele? todos? simpáticos? todos? agradáveis? todos? etc? todos?). É este discurso generalizador que IF utiliza para os colonos (portugueses, brancos, horríveis, infectos) e para os ex-colonizados (moçambicanos, negros, lindos, bem-cheirosos). É este discurso racialista, húmus de todo o racismo, que usa para o contexto moçambicano. Paternalista, desconhecedor. Acima de tudo racista na sua negação da multiplicidade estética, emocional, comportamental, afinal individual.

IF é apenas mais uma das pessoas que pensa assim, mal e pauperrimamente, sobre os outros, neste caso sobre os moçambicanos – já encontrei inúmeras pessoas com este tipo de discurso, o desvalorizador do alheio (neste caso do negro), da sua irredutível diversidade humana – mesmo que, e é uma das versões, disfarçado (até inconscientemente) pelo elogio colectivo, por um olhar “simpático” sobre o magma alheio. O que me surpreende não é que IF assim pense, assim escreva, assim fale. Há tantos e tantas assim.

O que me surpreende (pouco) e entristece (também já pouco) é que no meu país um meio literário, cultural, até jornalístico, que se reclama de um eixo intelectual e político moderno (ou pósmoderno), democrata [alguns até libertários], unanimemente anti-colonial e crítico do conteúdo colonial português, que esse meio acolha acriticamente estes dislates, um discurso neles assente. Elogiam-no, defendem-no e (como em recente artigo no suplemento cultural do jornal Público, de Vanessa Rato) é-lhe até aventado o estatuto de iniciador de um discurso pós-colonial em Portugal. Esta adesão será conjuntural por um lado – um pouco de “estação”, um pouco por efeitos de grupos (blogo)mediáticos – mas é por outro lado indiciadora de um contexto intelectual dominante: está no Público, está nos jornais, está na rádio (o desvelo de Carlos Vaz Marques é óbvio), está nos blogs – até o Respirar o Mesmo Ar do meu amigo, e co-bloguista do Olivesaria, jpn surge a reclamar a excelência disto.

Dislates da autora. Pouco importante. Mas que gigantesco manto de ignorância no meu Portugal todo este pequeno fenómeno vem desvendar. E isso sim é lamentável. Doloroso. Porque estrutural.”

[Numa ida rápida ao Google note-se a recepção entusiástica em blogs bem diversos ideologicamente - assim demonstrando a trasversalidade desta perspectiva superficial, que se pensa crítica, sobre o período colonial português: vejam-se como exemplos os O Insurgente, Elevador da Bica, XicoNhoca, Divas e Contrabaixos, o já referido A Terceira Noite, Irmaolucia, Da Literatura . Para uma diferente postura, leituras acolhedoras do texto literário mas sem subscrições acríticas vejam-se, por exemplo, Defender o Quadrado e Peão (este último é um post de Cláudia Castelo, acima referida e a quem eu desconhecia a prática bloguística). Entretanto A. Teixeira reagiu ao facto de eu o ter integrado no conjunto de leitores entusiásticos (sob este ponto de vista), considerando que desentendi este seu texto, intepretando-o abusivamente. Lamento se o tresli. E aceito que tal fiz, a intenção é a do autor não a do passante: fica aqui a (minha) mão estendida à palmatória.]

12 comments ↓

#1 marta reprezas on 01.22.10 at 18:50


e botaste! agora vou apanhar a catraia, compromisso inadiável, aliás como se tornou este teu botado post ;) porque sim. bj

#2 Daniel Oliveira on 01.22.10 at 20:42


Estive em Moçambique e não tive oportunidade de conhece-lo a si e á sua muito famosa falta de educação e incapacidade de criticar sem recurso ao insulto. Mas aqui posso comprova-las no que à minha pessoa diz respeito e sem que tal venha a qualquer propósito. Não desmerece a fama que tem, o que é sempre uma qualidade.

#3 Rui Bebiano on 01.23.10 at 1:25


Começo por uma precisão que me parece importante: linquei Ma-schamba a partir da palavra “preconceituosos” e não da palavra “cegos”. E no plural, sublinho. Referia-me, pois, a diversas posições cujos ecos me têm chegado, embora tivesse sublinhado a sua. Admito no entanto que o processo de “linkagem” da palavra tenha sido pouco claro.

É nela, nessa palavra, porém, que radica a minha leitura da sua análise e a razão pela qual me distanciei da sua formulação. Nada tem a ver com a sua perspectiva em relação ao lugar e ao papel dos retornados, que me parece legítima e com a qual em boa parte concordo. Nem tem a ver com o facto de não ter gostado do livro, o que, evidentemente, é inteiramente legítimo.

O que me incomodou realmente foi o modo depreciativo do qual se serviu para se referir à autora e à legitimidade da sua perspectiva, o qual, ele sim, me pareceu realmente preconceituoso. O Moçambique de Isabela Figueiredo é, ou foi, o Moçambique de Isabela Figueiredo. Tão somente. Podemos detestá-lo, mas não podemos apagá-lo nem apagar a legitimidade que tem a autora de o ter vivido e conservado.

(Agradeço as palavras com as quais se refere ao meu trabalho, embora elas acompanhem outras, sobre o Arrastão e o seu fundador que também me parecem… preconceituosas.)

#4 Rui Bebiano on 01.23.10 at 1:45


Uma adenda IMPORTANTE. Por distracção troquei os autores do Ma-shamba, respondendo a um mas referindo-me ao texto crítico de outro como se fosse do mesmo. Fica a correcção, com o meu pedido de desculpa dirigido a ambos (e a quem tenha lido isto e ficado confuso).

#5 jpt on 01.23.10 at 2:54


Marta, espero que a princesa te tenha dado tempo (algum, menor) para regressares ao teu ma-schamba.

Daniel Oliveira:
1 – espero que a sua estadia em Moçambique lhe tenha sido agradável;
2 – não acredito que a minha falta de educação e incapacidade (não as nego, juiz em causa própria não é vocação minha) seja famosa, quem sou eu para ter fama. Quanto muito será conhecida em meios que ambos cruzemos, pessoas comuns. E a cada um a sua opinião. Eu, creia, também opino.
3 – não há aqui uma única palavra insultuosa a seu respeito, como qualquer letrado o poderá comprovar. V. é um homem público, intervém nos orgãos de comunicação e in-blog, e tem toda a legitimidade para isso. Eu considero-o um demagogo – não é um insulto, é uma crítica, uma rejeição. Radical. Vitimizar-se como insultado é patético, apouca-se até.
4. Vem completamente a propósito referir ser lamentável que pessoas públicas (que publicam in-blog) que nos habituaram a uma dimensáo intelectual se associem a si (ao seu blog). É a minha opinião sobre os passos de gente que, lendo-as ao longo de anos, me parecem (muito) longe do tom que V. pratica. Concordando ou não com elas, mas entendendo-as num outro nível de reflexáo e de expressão- e isto, de novo, não é um insulto. Não é insultar reconhecer a evidència da menoridade alheia e da sua qualidade poluente.

#6 jpt on 01.23.10 at 3:09


Rui Bebiano:
1. agradeço-lhe o esclarecimento sobre a imputação aos ma-schambistas, que levei ao texto.
2. Dado que – com a naturalidade destes processos de leitura rápida in-blog – confundiu o ABM comigo (jpt) esquivo-me a ripostar sobre o que refere sobre a obra literária em questão, algo que compreenderá, estou certo.
3. Sim, a minha ideia sobre o Arrastão e o seu fundador seráo, porventura, pre-conceituosas. Mas não são, com toda a certeza, pre-nocionais. Li e muito desgostei. Nunca sobre isso me dediquei a grande reflexáo (não temos tempo para tudo, como concordará). É, ou era, o histrionismo de uma área política que me desagrada, um competente (é certo) jogo de algo que considero negativo. Agora sabendo-o no Arrastão (não entendi se apenas reproduzindo os seus posts do seu blog ou se produzindo ali também) bem como o Bruno do Avatares – que leio desde que comecei a blogar (e espero nao ter sido ele a divulgar a minha incompetente má-criação, tão desvelado estive quando chamussei com ele por aqui) – deverei voltar. E, quem sabe, mudar de opinião. Sobre o blog, sobre o guevarista fundador.
Cumprimentos, foi um prazer sabê-lo por aqui (mesmo que assim convocado)

#7 jpt on 01.23.10 at 12:24


Em adenda:

referi que o blog Arrastão é “horroroso” e atribuí-lhe uma característica de “demagogia” devida ao seu autor (fundador), Daniel Oliveira. Como disse em comentário acima não tem ele qualquer razão em considerar-se insultado. Poderá afirmar, qual Flaubert, que “o Arrastão sou eu” – e como tal considerar que lhe chamei (a ele, DO) “horroroso” sentindo-se por isso insultado. Mas por mais identitário que seja isto do bloguismo é manifestamente exagerado confundir o blog (individual ou colectivo) com a pessoa do autor. Não tem razão. E penso que será pacífico aceitar isso.

Mas poderá considerar que é insulto a utilização do epíteto “demagogo”: literalmente (basta ir ao diccionário) a palavra não é insultuosa (“que excita, lisongeia as paixões populares“, ou coisa similar). E semanticamente também não o é (grosso modo: praticante da argumentação infundamentada que procura adesões emocionais).

Mas afirmar a demagogia de alguém poderá ser insultuoso se não tiver o mínimo de base argmentativa pois será uma forma de desvalorização intelectual infundamentada (ou seja, será uma consideração demagógica) – por exemplo, se eu neste post tivesse apelidado Rui Bebiano de demagogo isso, concedo, seria insultuoso pois não assente em nenhum facto que o comprovasse (segundo a minha opinião), dado que nunca lhe li argumentações demagógicas. Para que náo fiquem dúvidas sobre a fundamentação (passível de discordância mas pelo menos discutível) da consideração da demagogia praticada por Daniel Oliveira deixo aqui uma ligação para o que penso ser o meu único comentário no Arrastão, blog que deixei então de ler exactamente pelas características que lhe imputo: http://arrastao.org/…/o-jeito-que-teria-dado-tanta-frontalidade/

(a fotografia já não está visível mas recordo ser de Juan Carlos Bourbon, rei de Espanha, com Francisco Franco, então ditador espanhol. O contexto foi o famoso “por que é que não te calas?” que o rei espanhol dirigiu a Hugo Chavez). O episódio (o post) em si nada tem demais, mas é (ou era, à altura, pois deixei de acompanhar) absolutamente exemplificativo da metodologia comunicacional de Daniel Oliveira. Que é demagógica. E só por extrema comunhão ideológica, amizade ou outra qualquer razão de índole emotiva, se poderá negar essa evidência.

Repito, apesar do bloguista considerar que não tem cabimento neste local, o lamento que bloguistas de argumentação fundamentada como Bebiano ou como Bruno Sena Martins (cujo Avatares leio desde que leio blogs) se associem a este registo. Não tanto porque corram riscos de se modificarem. Mas fundamentalmente porque, com o seu estatuto intelectual (e até bloguístico), acabam por legitimar este tipo de panfletarismo. Nisso, para alguns que os seguem, se apoucando.

Daniel Oliveira, que aqui não foi insultado mas sim criticado, vem a este blog e intitula-me “mal educado” e “incapaz” – não me parece necessário dizer mais sobre esta situação, o tipo de argumentação que o célebre bloguista (e, penso que, jornalista) assume, e o tipo de “educação” (em Moçambique, que visitou como anuncia, ou noutro qualquer lugar) que o conduz.
Que não contagie – na forma e nos modos – os seus “companheiros de estrada” é a minha esperança.

#8 Rui M.P. on 01.23.10 at 12:38


Espanta-me o deslumbramento parolo deste tardo-postmodernismo que descobre, ululante, os malefícios do colonialismo português.
É certo que esse “luto colonial” de que fala jpt (evocando Alfredo Margarido) se arrastou entre nós por demasiado tempo: percorram-se as milhares de entradas dos 2 volumes da “História do Estado Novo”, publicada em 1996 pelos compagnons de route do fundador do Arrastão (F. Rosas e Brandão de Brito) e, por junto, as referências coloniais não chegam a uma dúzia de páginas. Ora, como ignorar a dimensão colonial do Estado Novo, que não sendo a dimensão fundadora foi, após o Acto Colonial de 1930, a dimensão estruturante?!
Depois de 1996, contudo, Fernando Rosas teve a clarividência de desenvolver uma linha de investigação de história contemporânea na Univ. Nova de Lisboa devotada ao estudo do colonialismo português e desse esforço resultaram textos muito clarificadores (jpt evoca o “Passagens para África” da Cláudia Castelo mas o seu anterior “«O modo português de estar no mundo»: o luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa”, de 1999, é mais estruturado). Também no ICS/ISCTE, pela mesma altura, e devido ao impulso de Valentim Alexandre e J. Pina-Cabral muitas outras investigações sobre o colonialismo português começaram a ser publicadas e o Centro de Estudos Africanos (ISCTE) promoveu colóquios e seminários, agregou investigadores e fez publicar dezenas de artigos e teses sobre o colonialismo e o postcolonialismo. Tudo isto ocorria na viragem do milénio, naqueles anos de 1999 a 2004. Estávamos já algo distantes daquela época, no início dos 80, quando comecei a estudar o fenómeno colonial português e no seminário de investigação que então frequentava, na Uni. Nova de Lisboa, sempre que discorria sobre a antropologia colonial ou o império colonial era prontamente corrigido pelos velhos mestres: “antropologia ultramarina”, “ultramar português”.

Não me vou pronunciar sobre as qualidades literárias do romance de Isabel Ferreira, que não li (e não creio que venha a ler), conquanto esteja já suficientemente esclarecido pelos “extra-textos” e “meta-textos”. Reconheço-lhe, todavia, uma qualidade: a de nos revelar a ignorância petulante de uns quantos que se presumem bem-pensantes e na linha da frente da “patrulha-ideológica”.

Enfim, espanta-me (repito) este deslumbramento ululante em torno da descoberta das vivências coloniais recriadas e ficcionadas por Isabel Ferreira.

#9 jpt on 01.23.10 at 13:00


RMP:
a) obrigado pelo frisar da emergência de estudos universitários na última década – olhando o texto que escrevi concordarei que sublinhei em demasia o silêncio sobre esta matéria. Tem vindo a ser ultrapassado, como referes.
b) e também grato por referir o trabalho de Claudia Castelo, que é excelente – e também influente para que se possa entender este episódio literato que discutimos. Eu acima referi o Passagens para África de modo a ilustrar (bibliograficamente) os processos demográficos de colonização, a sua dimensão temporal.
c) penso que concordamos num ponto. Muito mais interessante do que o texto de Isabela Ferreira (que tem toda a legitimidade para escrever e publicar o que muito bem entender) é este fenómeno de recepção e divulgação da sua obra.

#10 conceição on 01.23.10 at 15:15


Digo apenas que só a vivência real permite falar bem ou mal de uma experiência. Neste caso África — cada um de nós têm a sua e se muitos a tentam apagar num arrastão inútil e violento, digo já que não o vão conseguir pq os caminhos da memória colectiva não são acessíveis individualmente.

num outro blog:

“Quem tanto fala do passado, é porque lhe começa a faltar um futuro, um chão para pisar, uma atitude construtiva em vez de destrutiva para a nossa geração. Tendo eu nascido no início dos anos 70, ainda me chamam “um puto”, e torcem o nariz quando se fala do 25 de Abril, considerando aquilo uma coisa “muito sua”. Medem tudo pelos parâmetros da sua época, e não se cansam de afirmar que “no seu tempo”, a juventude tinha valores válidos. no blog http://bairrodooriente.blogspot.com/2009/12/porque-nao-gosto-de-pessoas-nascidas.html

#11 Paulo Baião on 01.24.10 at 3:09


Deixa-te de paneleirices, jpt.
Tenta ser um homenzinho, pelo menos uma vez na vida, assume que não vales nada, seu cabrão de merda e que o teu maior sonho é sentir um grosso e comprido caralhão preto enfiado por esse teu cu gordo acima.
Vai pró caralho.

#12 conceição on 01.24.10 at 14:21


Os retornados, o colonialismo, o racismo e a relação difícil com o pai. Isabela Figueiredo, na conversa «Pessoal e… transmissível», a propósito do (polémico) «Caderno de Memórias Coloniais».

Pessoal… e Transmissível – TSF
tsf.sapo.pt

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