O 10 de Junho que passou deixou-me, português imigrado, uma dúvida. São os agentes do Estado no exterior desprovidos de memória institucional – e assim incompetentes -, ou são desprovidos da mais rudimentar das éticas – e assim incompetentes?
Não é um quizz. É um passaporte. E uma enorme praga, carregada de menosprezo pelas pessoas. Não pelo país. Ainda que este seja elas.

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Partilho o sentimento expresso, especialmente no meu caso que, por exemplo, sei como os americanos celebram o seu dia nacional (hot dogs, música e informalidade) e vivi isso in loco. O feriado nacional português é para mim um mistério e um paradoxo. O seu estabelecimento foi uma decisão de um governo qualquer que celebra supostamente o dia da morte de um poeta, um grande poeta português, precisamente quando Portugal perde a sua independência durante os 60 anos seguintes. A publicação do seu poema-mor é patrocinada por um dos mais loucos reis que a história portuguesa produziu (Sebastião, o último da dinastia de Avis, e que a encerra em total contraste com o seu início). Sublima, à escala da Ilíada, algo que, à altura da sua composição, já estava em avançado estado de decomposição, ou pelo menos em fim de ciclo. E em vez do seu contemporâneo Shakespeare, porventura o mais importante e revolucionário poeta que a Inglaterra pós-medieval deu ao mundo, que celebrou a alma humana na sua plenitude, escolheu fazer um exímio e hiperbólico panfleto a um colectivo já então em avançado estado de decomposição. O efeito foi arrasador: nos trezentos e conquenta anos seguintes o país teve tremenda dificuldade em se modernizar e saltitou de oportunismo em oportunismo, tudo ao molho e fé em Deus (Antero disse quase tudo o que havia a dizer sobre isso no seu panfleto em 1865). Mas sempre havia – e há – o magnífico texto de Camões para recordar ao colectivo que houve uma altura em que éramos grandes e donos do mundo (por assim dizer). Desde Camões que temos uma “cultura do espelho retrovisor”, que quando as coisas apertam só encontra conforto nesses cada vez mais obscuros tempos de Grandeza. E aponta-se, por exemplo, para as ex-colónias e os tais monumentos que irritam e motivam insignificâncias como Paulo Fauvet a dizer que aquilo tudo era uma fraude, como indícios dessa grande Obra. Não há tradução dialéctica para as futuras gerações, pois, assim reza o poema, aquilo foi os Portugueses a fazer a obra de Deus, não a sua. Do grande Gesto não há ilacção para a nossa vida presente e futura. Apenas o olhar para trás, chorar a desgraça, resignar o presente e recear o futuro. Isto é para mim a mensagem de um “10 de Junho”.
O que é verdadeiramente lamentável, pois Portugal tem mil anos de uma história admirável de luta, de sobrevivência, de erros sim mas também do expressar peculiar de um pequeno povo que se afirmou e, de uma maneira ou outra, contra os maiores desafios, logrou sobreviver e manter-se autónomo. Isso é que eu gostava de celebrar, não a neurose induzida pela confrontação entre o sublimar de Camões e um desconfortável sentimento de decadência e de que o futuro é, em vez de uma oportunidade para procurar fazer algo melhor, o perigo de mais e maiores desgraças a vir.
A celebração do 10 de Junho, ainda por cima, não é uma ocasião popular: é essencialmente um evento de Estado. E, apropriadamente, os habitualmente apagados, desmotivados e sub-orçamentados funcionários públicos portugueses que habitam as nossas chancelarias e postos consulares fazem um mínimo politicamente correcto para não se dizer que nada fizeram. Os embaixadores convidam cem “personalidades” locais e uma mão cheia de portugueses do que se apercebem ser a sua elite expatriada local para uns croquetes, pastéis de bacalhau e vinho de gama média. Patrocinam um eventozito cultural qualquer para dar um toque de intelectualidade. E de resto convidam o maralhal todo que acha que é português, por convocatória no jornal (“apresente o seu BI português à porta”). Depois é esperar um ano e repetir. Em Moçambique o evento é particularmente tortuoso, dados as conhecidos anticorporpos locais, que estes não parecem conseguir negociar. Aliás em Moçambique era mais bem tratado pelos diplomatas americanos e brasileiros que pelos diplomatas portugueses.
Felizmente que a minha concepção de que é ser português (que sou via pais, avós, bisavós, trisavós, etc até antes da fundação em meados do séc. XII – açorianos ainda por cima) é totalmente imune a tudo isto e a toda esta gente. Eu por exemplo, acho que o futuro é onde estão os desafios e que é melhor. O passado é uma referência.
Mas apenas isso.
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