Portugal e África: A televisão pública portuguesa enceta a esse-eme-esseização da história de Portugal, a “escolha popular” do maior português de sempre. Alguns grãs-blogs portugueses já quase esgotaram o assunto, o da pertinência de algo como isto, centrando-se em particular nas práticas censórias (explícitas e implícitas) dos organizadores desta “história de portugal”.
A este propósito Pacheco Pereira refere ainda algo fundamental: o da produção de um padrão de “portugueses” que irão votar. Outras questões surgem sobre esta forma da tv pública construir uma imagem da história: a própria ideia do voto em personagens históricas; o peso da actualidade (quantos votos teriam Fernando Lage ou José Travassos numa iniciativa para escolher os melhores futebolistas portugueses?); o que é “grande”, o que é que constrói a “grandeza histórica” (o Mestre de Aviz é maior ou menor do que Fernão Lopes?), o que é “português” (vá lá que Fernão de Magalhães está, mas Miguel de Vasconcelos [ainda para mais dono monopolista de uma palavra em português], Tiradentes ou Cervantes poderão caber? Ou, como provoca o A Destreza das Dúvidas, não será Obikwelu o maior de todos?).
Independentemente de tudo isso, e da pouca pertinência de um passatempo televisivo deste tipo (e por isso da pouca pertinência de tanta atenção bloguística), surge algo a realçar. Em 250 “candidatos” propostos quase inexistem figuras ligadas ao esforço colonial português em África - Ivens e Serpa Pinto surgem, mas são exploradores, integráveis como Bento de Góis, na abundante galeria de “heróis identitários” de descobridores marítimos e exploradores terrestres; Spínola, Galvão, Costa Gomes ou Champallimaud surgem, mas sem referência às suas actividades em África, estão ali por razões outras.
Na prática a inflexão colonial portuguesa em África, pelo menos 90 anos bem recentes, é-nos trazida nesta “reconstrução popular” da história por apenas 3 nomes. 2 deles por razões absolutamente secundárias: Gago Coutinho, referindo-se-lhe a actividade de delimitação de fronteiras africanas, mas obviamente uma condição secundária na sua biografia, e Sá da Bandeira, ainda que fundamentalmente por ser responsável pela abolição da escravatura (algo muito discutível, mas enfim, não é aqui que vou discutir tal). Um terceiro por razões conjunturais, pois não creio que Henrique Paiva Couceiro fosse lembrado antes da recente publicação da sua biografia por Vasco Pulido Valente.
Enfim, a propósito de um passatempo televisivo, as marcas do luto português quanto a África. Uns saudosismos “patrioteiros” mais exaltados, mesclados com o silêncio. Gritante, como nestes casos.

7 comments ↓
“Uns saudosismos “patrioteiros” mais exaltados, mesclados com o silêncio. Gritante, como nestes casos.”
Como sempre, JPT.
Muito oportuno este seu texto.
eu cá acho que vai ganhar o Mourinho…
o maior português de sempre, canta por mim (que sou a voz da miséria), dança comigo (que estou na rota do sucesso e apareço nas revistas sociais)… que mais nos irá acontecer?
e se é mais do que deprimente pensar no padrão de portugueses que não só existe como se cultiva, apetece antes dançar na ilha, na de moçambique, no meio de tantas mulheres, de tantas tonalidades de chita!
seria também interessante também perceber quantas mulheres a famigerada lista designa, perceber porque é que ganham mais depressa os homens um concurso por meio dos votos femininos, porque é que a ana sousa dias entrevista tantos homens com o seu tom reverente e intimista… estou cansada de ver tantos homens por todo lado (excepto nas secretarias)
desculpa o desabafo. já não há pachorra para tanto do mesmo.
ps - eu adoro os homens, note-se.
bem … é apenas um passatempo, não podemos criticá-lo por o ser e depois protestar por não ter uma visão “objectiva” (seja lá o que isso for). Fui ver a galeria exactamente para ver o que ela dizia sobre hoje, não para ver quem lá estava.
quanto aos homens, francamente, o espaço público (a história) foi deles e ainda o é, na sua maioria. Não surpreende
quanto à inexistência de figuras coloniais também não surpreende, foram varridas para debaixo dos aparadores - anacronismo puro. Mas é um passatempo, que se há-de querer
A mim não me interessa a colecção de cromos (aliás só consegui acabar a do Mundial-74) - mas a votar em alguém votava no Almirante Reis, que é uma figura fantástica, o cúmulo do panache ridículo, tanto que trágico
É APENAS UM “FORMATO” IMPORTADO E PAGO MUITO CARO, PARA UMA MERDA SIMPLES, FÁCIL E ÓBVIA. NÃO É HISTÓRIA É O “PREÇO CERTO” QUE TB FOI IMPORTADO. É FATELA, VICIADO, GRUNHO, TUGA, MARIA ELISA, ETC.
ATÉ SE ESQUECERAM DO SALAZAR, MAS NÃO DA MARIA DE MEDEIROS,JOAQUIM ALMEIDA, OU DO SAUDOSO LIVRAMENTO.
DE QQ MANEIRA ESTAMOS BEM ACOMPANHADOS POIS OS FRANCIUS, INGLICHES E ALEMÕES TB SE ESQUECERAM DA HISTÓRIA. NISTO, APESAR DA CORREÇÃO ESTAMOS MELHOR.
(AS MAISCULAS NÃO SÃO INTENCIONAIS, AS MINUSCULAS SÃO DIFICULTAVIVAS ELA QUANTIDADE DE CINZA DE SG LIGHT QUE ESTÁ ACUMULADA NO TECLADO)
I think teenagers shouldn’t be allowed here. They don’t have a clue about life, why are they trying to look smart?
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