Mandela Terrorista

Via Cocanha cheguei a isto, um protesto ao Nobel da Literatura a Pinter: “Depois que dois terroristas do calibre de Arafat e Mandela foram premiados com o Nobel, podemos esperar qualquer coisa.”. Está aqui a bílis toda, “o calibre de terrorista” de Mandela sublinhado, como forma de invectivar a academia que atribui o prémio.

Posteriormente, decerto para manter um ar “actualizado”, “civilizado”, um jogo retórico a querer-se auto-legitimador, algo que nem justifica contraposição pois aqui o contexto dos textos é evidente. Superlativo de evidência.

Esta coisa, prenhe de desprezo, da tal bílis para não dizer de outra forma, por quem participou e liderou numa luta contra um regime racista (por excelência) e supra-opressivo*, surge agora muito apreciada, louvada e emparceirada no bloguismo português. Dito democrático, algum até liberal. Louvores e parcerias que ficam a quem os faz. Ficam bem se demonstrando-os. Ficam mal, se demonstrando-os.

Para esta coisa a história da política foi dando nomes: “ultramontano”, “fascista”, “fundamentalista” mais agora, “autoritário”. Tudo palavras cujo excessivo mau-uso desvalorizou, poluíu. Já não servem. De facto esta coisa tem um só nome. Lixo.

Depois … há quem viva com o lixo, há quem abrace o lixo. E há quem o limpe. Mera questão de higiene. O chá em criança talvez ajude. Mas não chega.**

*para os mais liberais mas ao mesmo tempo apreciadores de tais simpatias racistas com o anterior regime de apartheid da África do Sul seria conveniente aprenderem, mesmo que apenas para matizar tamanho desapreço com o tal terrorista. Aquele foi um regime ferozmente anti-liberal: não só as liberdades individuais eram na lei e na prática negadas, como o direito à propriedade privada era com a população não-branca a ser impedida de acumular e preservar propriedade. Mais, aquele foi também, imagine-se, arquétipo de um regime de multiculturalismo.

**no ma-schamba já me irritei contra o vácuo da proclamada superioridade moral da esquerda. Mas é óbvio que quem aprecia estes recipientes enferma de uma óbvia “inferioridade moral de centro/direita”. Mal hajam.

19 comments ↓

#1 jpt on 05.25.08 at 3:23

a melhor forma de “invectivar a academia que atribui o prémio” é lembrar que o Borges nunca ganhou o Nobel. ;-) Abraço e bom fds

Publicado por: francisco curate às outubro 28, 2005 02:11 PM
http://www.daedalus-pt.blogspot.com/

#2 jpt on 05.25.08 at 3:24

Caro JPT, apenas para dizer que já não há pachorra! Relativamente a Mandela, o que teria sido (e o que seria mesmo hoje…) o processo de transição na África do Sul, se não fosse ele? Já imaginaram, por exemplo, Winnie e a sua linha no poder desde o início?
Abraços

Publicado por: José Paulo às outubro 28, 2005 02:17 PM

#3 jpt on 05.25.08 at 3:25

Não é apenas um “jogo retórico”; é uma imoralidade!

Para mim, Mandela é, no bom sentido, um dos grandes homens do século XX.

Publicado por: Carlos Azevedo às outubro 28, 2005 04:44 PM
http://thecatscats.blogspot.com/

#4 jpt on 05.25.08 at 3:25

Que nojo! É preciso muita cara de pau.

Estas discussões são de má fé, posso perfeitamente recordar uns tantos Nobel da Paz, que não eram obviamente anti-americanos e formalmete ainda portugueses que seriam incluidos naquela definição de terroristas tal como o “Claudinho ái-tão-moralmente-superior-que-eu-sou” a entende…

Publicado por: Narcisista às outubro 28, 2005 10:16 PM
http://o-narcisista.blogspot.com/

#5 jpt on 05.25.08 at 3:26

JPT,
procure mais um pouco, e encontrara a justificação do Claudio. Não é tão grave como aparenta. A afirmação é forçada sim, mas de acordo com o conceito de “terrorismo”.
A dificuldade maior da blogosfera (para mim)é a necessidade constante dos “porque”. Sera que da para ler alguém de boa-fé? Não estou a acusa-lo a si, é obvio.
A conversa sobre Pinter é outra. Para isso ler O Homem a Dias.

Publicado por: helder às outubro 29, 2005 03:36 AM
http://oinsurgente.blogspot.com/

#6 jpt on 05.25.08 at 3:27

Quase me esquecia. A reacção da Zazie, pelo que pude perceber (perdoem-me se estou enganado), tem que ver com questões anteriores.

Publicado por: helder às outubro 29, 2005 03:38 AM
http://oinsurgente.blogspot.com/

#7 jpt on 05.25.08 at 3:28

Devo esclarecer que a definição de terrorismo não é tal como EU a entendo. Basta ler o texto com a devida atenção e deixando falsos moralismos de lado para compreender isso. Escrevi logo no início:

“A United Nations Office on Drugs and Crime propõe algumas definições para o terrorismo.”

Desde quando Claudio Téllez = UN Office on Drugs and Crime?

Fiz questão de utilizar essas propostas de definição de terrorismo exatamente para ter um ponto de partida pragmático e afastar-me de eventuais juízos de natureza moral.

Também escrevi:

“As qualidades de Nelson Mandela como estadista e o valor das conquistas que ele proporcionou a seu povo são inegáveis, porém não apagam o fato de que ele liderou um grupo que praticou atos de terrorismo – o que o define como um terrorista.”

Sim, Mandela foi um homem importantíssimo no desenvolvimento da história sul-africana, lutou contra um regime opressor e injusto, disso não há dúvidas. Mas reitero que não parto de juízos morais, minha opinião pessoal (e acredito que a de ninguém) não apaga o fato de que ele liderou um grupo terrorista. Aliás, utilizei as definições das Nações Unidas também para evitar eventuais refutações relativizantes, já que coloquei em destaque (do texto da ONU): “The lack of agreement on a definition of terrorism has been a major obstacle to meaningful international countermeasures. Cynics have often commented that one state’s “terrorist” is another state’s “freedom fighter”.”

Dessa maneira, quem estiver descontente, pode fazer sua reclamação diretamente ao SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) da ONU.

Quem vê “jogos retóricos” ou “imoralidade”, apenas demonstra que não consegue interpretar devidamente aquilo que lê, ou que não consegue seguir um raciocínio sem ofuscar seu processo intelectivo com ímpetos passionais. Também demonstra uma leitura fortemente parcializada, com a devida seleção e descontextualização de trechos “convenientes”.

Publicado por: Claudio Tellez às outubro 29, 2005 05:47 PM
http://claudiotellez.blogspot.com/

#8 jpt on 05.25.08 at 3:28

Helder, acho que se pode discutir a tal definição de “terrorista” da ONU. É um texto, portanto histórico/contextualizável/criticável. E pode-se aceitar. Não é disso que o meu post trata. Acho que fui explícito. Não discuto o nobel da literatura, acho o prémio sacralizado, e estou de acordo com o Homem A Dias (aliás liguei o seu post na altura), que aliás não é original na atitude (o que não é uma crítica, é apenas referir que o HaD não está só na sua visão do Nobel; está aí um comentário acima, Borges foi um caso paradigmático).
O que acho denotativo é o comentário abominando Mandela do seu blogoparceiro: segundo a formalista definição da ONU também Cabral seria terrorista mas não ganhou o Nobel; também vários activistas sionistas depois lideres israelitas o seriam; também Pastora o terá sido; etc etc. Podemos discutir um-a-um, podemos discutir as realidades etc, podemos discutir a definição. Agora abominar o quilate de terrorita de Mandela que até ganhou o nobel da paz, desvalorizando este, é por demais explícito quanto às simpatias para aqueles que Mandela combateu. Não há formalismos subsequentes que o escondam. Não há aqui má-fé, creia, há apenas ler e compreender quem escreve. É livre de escrever o que quer, são livres de gostar e de associar. E eu sou livre de continuar a pensar que um centro ou uma direita políticos que dão o (a)braço a este tipo de sentimentos/concepções se infecundam democraticamente. Melhor, se infecundam civilizacionalmente.

#9 jpt on 05.25.08 at 3:28

Helder, se há “razões anteriores” entre os bloguistas que referi isso desconheço e, como há-de concordar, é completamente alheio ao que penso disto.

#10 jpt on 05.25.08 at 3:29

Não é parcialidade, é mera questão de leitura e de honestidade (aqui também se liga à tal moral ou ética). V. contesta o Nobel a Pinter (o que é aqui irrelevante) deslustrando o Nobel (idem quanto à irrelevância) porque foi atribuído a um “terrorista do quilate de Mandela” - não há descontextualização, é um comentário que apenas diz isso (e refere também Arafat - o que não é irrelevante para o caso, mas que não discuto).

Depois, porventura devido a críticas, faz um post dizendo qualquer coisa como “não sou eu o que o digo, é a ONU” e apresenta a definição de terrorista. Essa definição da ONU, boa ou má, não o obriga aos dizeres anteriores, nem à concepção anterior. Está tudo explícito.

Fica a resposta por questão de boa-educação. Mas é claro CT que V. não é bem-vindo aqui. Isto sim é parcialidade. A parcialidade da decência, essa que é um valor político fundamental.

#11 jpt on 05.25.08 at 3:30

O Claudio Tellez é um demagogo e só não o topa quem o não conhece de há 3 anos a esta parte na blgosfera. Vem agora com paninhos quentes para sustentar a bocarra que mandou mas esquece-se do que ele próprio defendia a propósito da ditadura de Pinochet. Uma vez, nas caixinhas de comentários dos Marretas decidiu contar os traumas de infância por causa do Allende (coisa em que acredito porque também sei o que foi o Allende) e, ás tantas falava das batatas com pregos dentro, atiradas aos famintos. Depois contou o que foi a vingança de Pinochet e, entusiasmou-se de tal modo que até começou a desfilar uma série de torturas legítimas que se deviam fazer a todos os anteriores.
A coisa foi de tal modo bárbara que toda a gente ficou enjoada e a pensar que felizmente que somos atrasados mas ainda sim desconhecemos essa barbárie.
Até o Statler, que foi quem o trouxe para a blogosfera lusa, deixou cair enojado.

Por isso, este paleio imbecil acerca dos critérios de terrorismo, que até parece que vem da parte de um menino de coro, não passa da maior hipocrisia.

Publicado por: Zazie às outubro 29, 2005 07:47 PM
http://www.cocanha.blogspot.com/

#12 jpt on 05.25.08 at 3:31

Agora em relação a esse grande homem que foi o Mandela e que o caso serviu para o homenagear como há muito o desejava.

Só mesmo gente sem coluna vertebral, gente de tal modo amoral que deixou de entender o que é uma causa digna e o que é a vida para além da vidinha é que não entende a grandiosidade da figura.

Porque chamar terrorista, neste caso, e com todos as imbecis justificações que se foram buscar, limita-se a dizer o seguinte: a dignidade humana não é nada, deviam ficar quietos e subjugados porque liberdade é coisa que só importa para quem tem o poder.

Mandela simboliza a luta mais digna que algum ser humano pode ter- a da dignidade. E simboliza-a da forma mais limpa que se pode ter. Sem nunca se corromper, sem nunca se vender, sacrificando uma vida no cárcere e saindo de lá para dar o grande salto em frente, conciliando da forma mais inteligente o aspecto político da luta que iniciara.

Se há gente que se diz liberal e não entende isto é porque é gente para mim totalmente desprezível. A não profiram a palavra liberdade porque nem sabem o que isso é.

P.S.

não há aqui qualquer factor ideológico em jogo. Mandela lutou por uma causa que não tem ideologia. Só os imbecis são capazes de fazer associação entre uma causa de gente esppezinhada com revolta “proletária”.

No fundo, se calhar, eles lá sabem porquê…

Também é raro existirem questões que que me tirem do sério. Mas esta é uma delas. E está muito para além do racismo. Faz apenas parte de algo de que nunca abrirei mão- a admiração pelas grandes figuras exemplares. Por tudo o que a vidinha burguesa e a adulação do capital ainda não conseguiu matar na nossa alma.

Publicado por: Zazie às outubro 29, 2005 08:01 PM
http://www.cocanha.blogspot.com/

#13 jpt on 05.25.08 at 3:32

já agora, para o Helder e para quem ainda caiu na esparrela “da jusitificação teórica” desse energúmeno:

Ele nem estava a debater Nobel nenhum. O sujeito é mongo e funciona por reflexos pavlovianos. Ouviu falar em escritor a dizer mal do Bush e desatou logo a salivar. E vai daí e manda a bocarra “Depois que dois terroristas do calibre de Arafat e Mandela foram premiados com o Nobel, podemos esperar qualquer coisa”

foi isto que fez. E não disse mais nada nem havia qualquer enquadramento porque um mongo saliva, nãp pensa.

Depois eu é que não deixei passar e fiz-lhe a pergunta. E então ainda salivou mais e veio o reflexo condicionado da praxe” se esta está aqui a questionar o preto terrorista é porque deve ser “anacleta comuna” e vou já atirar-lhe com o Che Guevara à cara.

Foi isto. Estes tipos não têm cérebro. Só depois de os encostar à parede é que o Miguel lá disse com toda a correcção que não concordava com esta afirmação.
Mas o AAA sentiu-se tocado (vá-se lá saber porque motivo) e foi logo a correr fazer um post por causa dos insultos que não se admitiam no Insurgente. E depois vem a tropca fandanga do politicamente correcto à direita a xoramingar que eu estava a querer que houvesse censura lá no blogue.

A ideia é sempre a mesma- trata-se de uma opinião. logo qualquer crítica é querer censurar. isto é básico porque no caso nem era crítica quanto mais censura- era perplexidade por haver um blogue que tivesse admiitido esta avantesma (coisa que de há 3 anos a esta parte ninguém se atrevera- nem o Statler que foi quem lhe deu trela).

Para o caso estou-me nas tintas. A questão apenas me serviu para chegar à mesma conclusão que o Maschamba: como se já não bastassem estas tretas entre a esquerdalhada temos agora clones direitalhos…

Publicado por: Zazie às outubro 29, 2005 08:16 PM

http://www.cocanha.blogspot.com/

#14 jpt on 05.25.08 at 3:32

yyh

#15 jpt on 05.25.08 at 3:33

Zazie eu não conheço este CT, honestamente dele apenas retive um muito recente post em que referia Polanyi (e Marx). Fui lá ver por curiosidade, Polanyi no bloguismo era-me inédito - interesse pois sou professor de antropologia económica, modesto que seja dá para gemer face ao dogmatismo e ignorância de tanto liberal-bloguista (e não só) quando falam de coisas assim. O texto era ingénuo ou indigente, por lá comentei mas não voltei. Não conheço mais da lavra (eu não leio esse marretas, nunca calhou). Isto tudo para dizer que não sei se o homem é “mongo”, “cão pavloviano” ou outra coisa, nem tampouco interessa. Mas é um espécimen de um antigamente. V. refere uma polémica ou desacordo entre bloguistas sobre este bloguistas que desconheço. Ainda bem que existe, pois o que realmente irrita é, tal como V. o diz, “como se já não bastassem estas tretas entre a esquerdalhada temos agora clones direitalhos…”

#16 jpt on 05.25.08 at 3:33

pois o que importa é mesmo esse aspecto final.

De resto o que eu sei não é nada de particular. É o que se sabe na blogosfera para quem já cá anda há um bom tempo.

A polémica com ele nunca existiu. Apenas houve a que se seguiu a esse comentário e foi com os Insurgentes.

Quanto às reacções pavlovianas é que são sempre iguais e nem estava a pessoalizar alguma coisa. É uma tipologia, infelizmente.

Publicado por: Zazie às outubro 30, 2005 02:28 AM
http://www.cocanha.blogspot.com/

#17 jpt on 05.25.08 at 3:34

já agora esclareça-se com a história com os Marretas (que é blogue da minha estimação) foi uma brincadeira muito engraçada por alturas do 1º de Abril de há 3 anos atrás. Simularam um rapto do Animal pelas forças de esquerda e depois vieram os libertadores- altura em que ele também entrou- e daí a formação da tal UBL. união dos blogues livres do perigo marxista e totalitário. Foi um gozo e há muita gente que até pensa outra coisa.

A partir daí essa personagem começou a aparecer na blogosfera e teve uma carreira um tanto triste no seguimento de provocações gratuitas ao domicílio. Uma delas consistia em dar vivas a Pinochet no dia 11 de Setembro. E isto um pouco por todo o lado.

Depois caiu no esquecimento e desapareceu.
Foi com grande surpresa que dou com ele na equipa do Insurgente. E isso no dia em que mandou esta bocarra.
E pronto. A história é apenas esta e tudo o resto não é da minha conta. Apenas a admiração pelo novo credo liberal quando ainda atrás era ultra-conservador…

Publicado por: Zazie às outubro 30, 2005 02:37 AM
http://www.cocanha.blogspot.com/

#18 jpt on 05.25.08 at 3:35

afinal o homem é um histórico. confesso que julguei que se tratava de um neo-bloguista.
há uns tempos aqui escrevi um texto que era mais ou menos isto, o anacletismo não tem cor política, “ele” anda por aí. muito. confesso as minhas profundas limitações, não tenho humor para anacletos. na dita conservadora (átila não era conservador, era mero bárbaro, a erva passava a não crescer), na dita revolucionária (átila não era revolucionário, era mero bárbaro, o capim não melhora nada). são uns bárbaros, os guevaristas do neo-alter, os velhos comunistas, estes velho-fachos. O pior é que depois ficamos no meio a olhar para os coelhos e santanas, os socrates e os portas. mais vale ir pescar

#19 jpt on 05.25.08 at 3:36

ah, discordo completamente que Mandela lutou por uma causa sem ideologia. mas isso ultrapassa um comentário

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