É um verdadeiro exemplo de Coluna Vertebral a atenção e eco a este texto [abaixo transcrito] denunciando a imbecilidade amoral.
Eu bebo mas noutras paragens, e por exigências de cidadania, passarei a beber
ou, e cantando o “Apesar de Você”,
Por DAVID RODRIGUES
Sexta-feira, 12 de Novembro de 2004
o século XIX o fascínio pela diferença, conjugado com o triunfo da ideia de que tudo tem o seu preço e se pode negociar (ideia cara ao capitalismo nascente), deu origem a um tipo de espectáculo que hoje consideraríamos bem estranho. O espectáculo era muito simples: consistia na exibição em feira ou circos de pessoas com características corporais excepcionais ou com deformidades ou anomalias físicas. Os espectadores pagavam, assim, um bilhete para ver “o homem mais pequeno do mundo”, a “mulher mais alta do mundo” ou a “mulher com barba”. O negócio da exibição incluía também e com assinalável sucesso pessoas com deformidades físicas, com deficiências, fetos, nados-mortos, siameses, cadáveres, etc. A exibição destas pessoas, designadas na cultura americana por “freaks”, tem sido abundantemente documentada em livros e filmes (ref. o filme “O Homem-Elefante” contando a história de Joseph Carey Merrick) e dá-nos conta de que por detrás de um negócio de exploração do “mercado da curiosidade” se encontravam sistemas brutais e impiedosos de exploração das pessoas exibidas. Estas práticas não se passaram só em tempos recuados ou fora de Portugal. Lembro-me de quando era criança ter visto na Feira Popular na cidade do Porto uma tenda onde se exibia o “gigante de Moçambique”, um homem excepcionalmente alto que veio a falecer pouco tempo depois desta exibição.
Os espectáculos deste tipo foram gradualmente desaparecendo, porque se tornou cada vez mais óbvio que são degradantes para quem vai assistir e para quem é exibido. É hoje consensual que fazer da exibição de uma pessoa com deficiência um espectáculo pagante prefigura um voyeurismo perverso e indicia interesses económicos da mais indisfarçada exploração.
Por outro lado, sabemos que a economia está mal, que é preciso aumentar as vendas, cativar novos públicos para novos produtos, criar consumo. Sabemos também que a publicidade se tornou uma forma de desequilibrar as modorras e criar novos eldorados de consumo. Apreciamos a criatividade e o profundo conhecimento sociológico dos publicitários que sabem o que devem mostrar e dizer para criar necessidades e tornar produtos inicialmente “neutros” em inevitáveis desejos.
Vêm estas duas considerações anteriores, sobre os “freaks” e sobre a publicidade, a propósito da campanha feita por uma cerveja que, para chamar a atenção dos consumidores, compara a cor preta da cerveja com o humor negro. Para isso, conta, entre outras, a história da notícia do nascimento de uma criança com deficiência, sem membros e reduzida a uma orelha surda. E faz “piada” disto e quer ganhar dinheiro com isto, motivando-nos para beber a cerveja negra como o humor da campanha.
Esta publicidade é indigna e aviltante para as pessoas com deficiência e para as suas famílias. Faz regressar em pleno século XXI o riso alarve de troça sobre as pessoas com deficiência, lembra a exploração dos “freaks” para ganhar dinheiro.
Sabemos que a forma como as pessoas com deficiência são consideradas depende da construção social que fazemos à volta da sua condição. Vemo-las como autónomas? Vemo-las como dependentes? A deficiência é, antes de mais, uma construção social. E, se assim é, qual é o contributo que esta campanha publicitária dá para um entendimento solidário e cidadão da deficiência? Nenhum, porque a “piada” são as próprias pessoas com deficiência e o riso é suscitado pela exibição das suas deficiências, exibição esta que faz outros ganhar dinheiro (dinheiro não para eles, mas à custa deles..).
A campanha desta cerveja já nos tinha habituado a “slogans” sexistas, mas agora passou as marcas: está a rir-se boçalmente do nascimento de uma criança deficiente; boçalmente, porque a piada está na crescente angústia do pai, boçalmente ainda, porque a piada só tem sentido porque a deficiência vai aumentando com o correr da história. Quanto maior é a deficiência, mais nos rimos…
Convido os leitores a serem sensíveis a esta campanha publicitária. Quando lhes apetecer uma cerveja, lembrem-se desta marca e… peçam outra cerveja qualquer. “Só alguns apreciam”, não é verdade?
Vamos seguir as regras do mercado livre: há escolha? Então, eu não bebo cervejas que para vender gozam com a dignidade humana. E você, amigo leitor? professor da Universidade Técnica de Lisboa





0 comments ↓
There are no comments yet...Kick things off by filling out the form below.
Leave a Comment