De quando em vez tenho aqui abordado (e em algumas caixas de comentários alheias) a insensibilidade de bloguistas e outros escribas para com causas justas e necessárias. Insensibilidade talvez inconsciente. Mas sempre preconceituosa, com a constante utilização de conceitos, linguagens e quantas vezes imagens que reproduzem os preconceitos e a exclusão que lhes está associada. E nessa irreflexão, nessa linguagem poluída, nesses actos até vis, se vão reproduzindo práticas discriminatórias e silêncios dilacerantes. Acima de tudo estes silêncios, causas e motores de práticas de exclusão. Produtoras de miséria. Sem exagero, assassinas.
Sei que a denúncia de tais práticas (mesmo que apenas verbais) se torna fastidiosa para os “distraídos”, até um ónus sobre quem se recusa a calar a indignação. Mas há momentos em que se torna imperioso exigir contenção. Se os preconceitos não desfalecem ao menos que se exija o pudor na sua expressão. É o que me ocorre hoje olhando o bloguismo luso: que dizer quando até um blog aparentemente responsável como o Bloguítica brinca com esta imagem assim desmerecendo, elidindo, o sofrimento de tantos, apagando a memória da doença do século, a urgência do combate. Apenas porque os sofredores são pobres? Porque não são europeus?

19 comments ↓
O Mundo que conhecemos é o das TV´s ás 08H00. Uma imagem apaga 1.000 palavras. São sacrificadas centenas de milhares de pessoas, um sofrimento que não há palavras que signifiquem, mas não existem para nós , os da tabela dos 30 primeiros do IDH. Á custa deles. Mas como sempre no debacle geral, os pobres sobreviverão.
Publicado por: Carlos Indico às abril 24, 2006 11:02 PM
Tens a certeza que não estás mal disposto? Han? Bolas!…
Um abraço (com cautela),
Francisco Nunes
P.S. Se o homem tivesse posto ali o boneco de um automóvel zangavas-te porque aquele modelo já provocou centenas de mortes? Calma, pá. Já agora aquilo provoca o quê? Tsé-tsé? Malária? Paludismo?
Publicado por: Planície Heróica às abril 24, 2006 11:52 PM
http://planicie-heroica.weblog.com.pt/
É falta de sensibilidade, o que é grave para quem não admite desleixos nos outros, para quem é SPIN. Só isso, caro JPT.
Foi azar no mosquito, na imagem, na malária, na praga de morte dos (milhões) mais desprotegidos do Planeta.
Não tem a leitura que fazes, não pode ter essa outra leitura.
Publicado por: LNT às abril 25, 2006 02:13 AM
http://tugir.blogspot.com/
gajo é calhau.
Publicado por: benjamim às abril 25, 2006 03:09 AM
Tem toda a razão “insensibilidade, preconceitos e exclusão”. E eu acrescentaria que abunda também na blogosfera a frivolidade.
Publicado por: Roteia às abril 25, 2006 05:17 AM
http://ultraperiferico.blogspot.com/
Não é uma questão de má-disposição, FN. Não é uma questão de insensibilidade, LNT. Este gajo talvez seja calhau, mas não decerto aqui, benjamim.
Publicado por: jpt às abril 25, 2006 12:40 PM
JPT. Ultimamente tem andado para aí uma onda do “estou ofendido” que, francamente, já começa a ser fastidiosa. Tem-se nesta blogosfera arranjado sucessivamente formas de auto-ignição, que estou em crer são pactos criados tacitamente para fazer florescer post’s e que passa por uns lançarem uns post’s e a outra metade inteira da blogosfera criticar o seu conteúdo … e são velas, e são comentadores anónimos e sei lá mais o quê, que se há-de arranjar qualquer coisa, e logo hoje neste 25 de Abril, isso será fácil. Esta inflamação, insuflação diria, como é óbvio, torna redundante os seus (da blogosfera) conteúdos e, para além do entretenimento dos projecteis disparados entre blogues, quem perde é o leitor que se vai desanimando nas suas caminhadas ao encontrar sempre os mesmos pedregulhos, as mesmas pedras, as mesmas curvas, as mesmas caras sentadas à beira delas. Tenho deparado com ufanas críticas por tudo e por nada, mas não aqui, que as tuas sempre as achei, sempre te achei, lançam-se porque têm sentido e uma razão por trás, e normalmente estão bem pregadas nos argumentos com que as envolves. Adicionas, muito bem, não replicas apenas, não desferes a ver se apanhas carne, e eu é aproveito, vou atrás das pistas, das razões, é grato encontrar pontos de vista que se opõem, quando estão bem construídos. Os teus estão quase sempre, e nada têm, nunca tiveram a ver com esta maniazinha de “virgens ofendidas”. E por isso te peço vários esclarecimentos quanto ao post que aqui visas, e ao tom que, confesso, muito estranho:
Como é que uma simples imagem de um insecto pode ser interpretada (extrapolada) como o desprezo pelas doenças pelos mesmos transmitidas e que inflamam o mundo pobre como dizes, e disso recair a insensibilidade do seu autor para com os não-europeus? Aquilo que lá está é uma melga. Mesmo que não perceba muito do mundo insectívoro pode identificá-la pelo título da imagem e ver que pelo menos é assim que o autor o entende. Ora bem, (mais uma vez a minha inocência), é a melga transmissora dessas tais doenças que têm massacrado tanta gente? Mas não é mais o mosquito, algumas moscas e outro tipo de bicharada que não a melga? E agora suponhamos que o autor é tão inocente como eu quanto ao poder dizimador da melga - será que ele não pode ter colocado o post “Estamos de Volta” com a imagem de uma melga associada para representar umas grandes melgas que por aí andam, (que naturalmente só ele saberá quem são), que é apenas isso, um suspiro, um lamento em tom irónico, sobre algumas melgas humanas? E se assim for, que cara terá agora o autor ao ver que um post com três palavras e uma melga, afinal é um profundo acto de insensibilidade e preconceito, motivo desta tua exclamação.
Enfim, são mais dúvidas as que aqui levanto … porque para mim aquilo é apenas uma melga que lá está, (pelo menos na fase de pré-extrapolação), assim como quem diz “grandas melgas”, e nisso até concordo: andam de facto muitas por aí.
Publicado por: Eufigénio às abril 25, 2006 01:43 PM
mas o calhau não era o outro.
Publicado por: benjamim às abril 25, 2006 01:57 PM
O anopheles é um criminoso internacional perigosíssimo.
Mas mostrá-lo não me parece sinónimo de apagar a memória da doença do século e a urgência do seu combate.
Talvez, antes pelo contrário…
Publicado por: Boticário às abril 25, 2006 03:00 PM
http://trenguices.blogspot.com/
boticário, obrigado pelo contributo terminológico. eufigénio, obrigado pelas (longas) palavras elogiosas. benjamim, tinha-se percebido o sentido, claro que não era o outro.
Publicado por: jpt às abril 25, 2006 03:51 PM
eufigénio, sobre a “auto-ignição”, algo que ultrapassa este texto. é uma questão que gostava de apartar deste texto, e seus comentários, o qual me é muito particular. Mas aí vai, ainda assim:
parece (e não é a primeira vez que te leio assim) que para ti há uma realidade (Exo-bloguística) sobre a qual é legítimo/positivo escrever in-blog, e uma irrealidade (bloguística) sobre a qual é ilegítimo/negativo escrever. Ou seja, se alguém escreve sobre um livro/tv/filme/notícia/mulher/dor de dentes/filho/etc tudo bem, se alguém escreve sobre algo que leu/interpretou no bloguismo então isso é artificioso, mero mecanismo para obstar ao vácuo intelectual/sentimental/existencial, constante ou episódico, do blogador em questão. Não concordo com essa tua visão, parece que vês isto de blogar como um altar onde se traz algo de impuro lá de fora para sua catarse. Ou, ao contrário, vês isto como uma impureza pecadora, sofrida é certo por mero desvario nosso, mas indigna de ser ela própria motor de diálogo e objecto de reflexão. Oscilo na interpretação das raízes da tua opinião. Mas espanta-me tamanha atitude altaneira. Escrever um post opinando sobre outros posts tem tanta realidade e dignidade do que fazê-lo sobre outros assuntos. E se isto de blogar é um espaço de diálogo directo(Ver o hábito de comentar) por que é que não há-de ser um espaço de diálogo (concordante ou discordante) indirecto (via posts)? Qual a pequenez de escrever um post sobre outro post? Que mais mesquinho é do que escrever comentário sobre outro post?
Pronto, este meu comentário lateral já está
Publicado por: jpt às abril 25, 2006 04:37 PM
JPT, falo da melga bolas, afinal não-mosquito …e que talvez não merecesse o dum-dum.
Ressalvo (outra vez) que se o digo é porque em geral gosto de ler e (as mais das vezes) concordo com as tuas irritações/indignações (mesmo que) apontadas a outros post’s. E sobre isso não vejo nada de mal, apenas divago sobre esta questão de a blogosfera ser um meio criativo que se pode arriscar a ser apenas o “assunto corrente” circulado de centenas de disparos à sua volta. E uso do direito da minha opinião, (mesmo que na pequenez do comentário) de que acho isso redutor, não a crítica, nem necessariamente esta tua crítica, mas o entrechoque permanente sobre o que se posta de original (se é que o há). Terá havido ligeireza na tua crítica?, afinal dura, convenhamos. Se a houve ( e nota que é retórica a pergunta) então aí confunde-se com esta tendência com que introduzi o meu comentário anterior. Talvez altaneiro, e certamente com pequenez. Mas destes assim, só os faço aqui, a coberto de outros mal-entendidos.
E termino a lateralização
Publicado por: Eufigénio às abril 25, 2006 06:44 PM
“all art is useless”
all blogs are useless
Publicado por: Mário às abril 25, 2006 07:10 PM
http://retorta.net/
Só agora, graças aos comentários, percebi o objecto da tua indignação! Ignorância minha? Prova de que o problema da Malária não está devidamente presente nas cabeças das pessoas, na minha e na do PG. Será.
Mas deduzir daí de quem publica sem comentários, e para um fim completamente diverso, uma melga, seja irresponsável e insensível, parece-me duro de mais. Ignorante, sim. Razão para contrariar isso. Como tu o fizeste, indignando-te, temo eu, não será o caminho mais eficaz. Pois a insensibilidade do PG (ainda) é a da grande maioria das pessoas, bloguistas incluídos.
Abraço,
Publicado por: Lutz às abril 26, 2006 11:08 AM
http://quaseemportugues.blogspot.com/
Lutz, está um texto acima, que resume o jogo que fiz. Não há ponta de indignação com o uso da Melga e do jocoso “Ganda/Grande Melga” tão usual em Portugal.
Há a constatação de uma grande secundarização médica na luta contra a malária (ainda que me pareça que haja reforço de esforços nos últimos anos), o que implica a prevalência da doença (sei que aqui transpiro um grande optimismo tecnocrático, como se houvesse uma certeza de que a maior investimento se sucedesse a cura/vacina - trata-se mais de alcançar a vacina do que a cura, esta está alcançada se houver controle adequado). Acho essa secundarização bem mais problemática do que os graves problemas de exclusão (não os estou a desvalorizar) que vivem no seio da linguagem das sociedades (principalmente as “ocidentais”, útero e seio do politicament correcto). Acho ridículo (e perverso) o policiamento da linguagem (o que não implica que não se critiquem conceitos e práticas), e já por aí o escrevi. E acho/espero que este jogo possibilite demonstrar o folclore desse “politicamente correcto” de aparência reflexiva mas intelectualmente inóquo.
Espero, Eufigénio, que te tenha passado o desagrado quanto às minhas melgas. E que seja assim perceptível por que é que queria apartar a conversa sobre o que é que poder ser objecto de bloguismo, que acima encetámos, dos comentários a esta minha blague. Quanto aos temas postáveis claro que tens razão, há a tendência para o auto-encerramento um bocado compulsivo. Mas é normal, as pessoas envolvem-se, lêem-se, contestam-se, aliam-se, contradizem-se, não acho pecaminoso. Às vezes pode ser desinteressante, outas divertido, outras nada mesmo. Mas há aí muito a mania de reduzir isso a vazios de cada um (já pus acima o que acho sobre essas imputações) ou a estratégias de captação de atenção. Acho muito empobrecedor essa leitura das ideias e vontades alheias.
Mário, ando a ler “O desejo de ser inútil” uma deliciosa auto-biografia (em entrevista) de Hugo Pratt [que me parece ser um delicioso mentiroso, já agora]. Mas, atenção, se a arte é inútil o bloguismo também, mas este não ascende àquela. E, o que não é inútil sob este céu?
Publicado por: jpt às abril 26, 2006 12:15 PM
Mesmo tendo fé no que conheço de ti já me começava(s) a desiludir(es). Mas ainda assim não digiro tão depressa o “… mas espanta-me tamanha atitude altaneira … que mais mesquinho é do que escrever comentário sobre outro post?”, que aí amigo Zézé, sei bem que não há jogo, apenas frontalidade, e alguma boa verdade (que não precisava ouvir). Mas ao menos terás de reconhecer a minha honestidade intelectual, embora não me fosse indiferente um certo prazer em te desmantelar a razão do post, convenhamos.
Publicado por: Eufigénio às abril 26, 2006 04:46 PM
já agora, eufigénio, surpreendeu-me que tu (tu) tivesses lido à letra a tralha em questão. quanto à porradita no meu comentário, que queres?, não é só para ti, mas também. Há por aí um economicismo bacoco, sempre pronto a ver e denunciar outros como andando por aqui em busca de atenções, ligações e audiências, daí que metidos nestes diálogos bloguísticos
agora vou andando, em busca de mais “stars” para postar, que isto chama muitos googladores
até breve
Publicado por: jpt às abril 26, 2006 11:33 PM
[…] sobre este meu […]
[…] A tal. […]
Leave a Comment