O Metro de Londres excluíu um anúncio contendo esta pintura que publicitava uma exposição de Lucas Cranach na Royal Academy. O argumento foi explícito, o nu feminino pode ofender sensibilidades: «Devemos ter em conta os milhões de viajantes diários do metro e procurar não ofender ninguém», justificou-se a empresa de Metro (gente decerto parida de um bolbo).
Nisso estou completamente de acordo com o Francisco: isto é medo (e pouca vergonha) de ofender os passageiros “multiculturais”, aceitar o ponto de vista de quem pode achar “blasfema” esta pintura. Acima de tudo concordo que “Mais do que uma vergonha, é uma filha da putice”.
Muito menos apreciáveis são outras iras sobre o assunto. Ainda que ache piada à retórica do Lutz afirmar «É impensável que um quadro clássico possa chocar» - que tem vindo a ser desenvolvido no …bl-g- -x-st - é uma falácia. Intelectual e politicamente pior do que os argumentos timoratos do Metro de Londres.
Afirmar que a arte clássica não pode chocar é um argumento à mão de semear para esta contestação. Mas é censório, irracional. Aceitá-lo implica afirmar limites racionais para a leitura intelectual do passado, sua compreensão, para o “diálogo” com o passado (um diálogo mitigado, é óbvio). Ou seja, afirmá-lo implica dizer que pode haver interacção sensitiva mas não reflexão abrangente. Afirmar que o passado artístico não pode chocar (”não pode”, o registo do dever-ser) significa que nos desperta, porventura, o eros, o sensitivo, o emocional (e este nem tanto, pois é chocável), um tanto de espanto. Mas não a razão.
Isto é a exotização do passado. A infantilização do passado. Nisto o Passado é o Outro, só compreensível e analisável nos seus valores, olhável de longe com apreço ou menosprezo consoante o feeling do dia. Isto é, em absoluto, o discurso “multicultural” impensado. Típico da esquerda europeia mal-pensante dos nossos dias (já agora, filha do apartheid boer).
A arte passada pode chocar - ainda que tenham mudado os valores e os contextos. É (também) essa a sua grandeza. E (também) por isso mesmo é preciso manuseá-la, pendurá-la, observá-la. Chocarmos. A nós e aos outros. Sem censores - fundamentalistas islâmicos ou esquerdalhada europeia correctista. Ou melhor, também por causa deles.


5 comments ↓
“Quinhentos anos depois, os bigodudos do Metro de Londres proíbem uma pintura de Lucas Cranach com medo de ofender os passageiros multiculturais que andam nas suas carruagens – essa é a notícia. Porque o fazem? Por medo. Por medo e pouca vergonha. O medo é, neste caso, vergonhoso, porque acha aceitável a reacção de gente que pode achar blasfema a pintura que Lucas Cranach compôs há quinhentos anos e que a Royal Academy exibirá a partir de 8 de Março. O medo instalou-se nas nossas ruas e nas nossas casas. Já não basta temer as ofensas que se causam, é preciso prever que alguém se ofenda e apedreje as nossas ruas e as nossas casas. Mais do que uma vergonha, é uma filha da putice. Assim mesmo.
Francisco José Viegas no Correio da Manhã.
Lucas Cranach (1472-1553), pintor da reforma luterana, destacou-se no retrato e nos nus femininos de tema mitológico, evidenciando um sentido naturalista da beleza pouco relacionado com o classicismo romano.
A Batalha de Alexandre, pela sua cuidada composição, é considerada a sua obra mais importante.
O nu feminino proibido pela Transport For London, uma Vénus (Venus 1532.) de sorriso matreiro, que veste uma gargantilha e segura uma gaze transparente que mais não faz que realçar os seus atributos, é o quadro com que a Royal Academy pensava anunciar a próxima exposição, dedicada a este grande pintor renascentista alemão, contemporâneo de Dürer, que pintou de tudo: temas mitológicos, retratos de cortesãos, animais, paisagens, santos e demónios, sempre assinados com uma serpente alada.
Publicado por PiresF 23 comentários
Etiquetas: Expressão Artística, Fundamentalismo Islâmico, Lucas Cranach” :::::
adorei a coincidência.
o que significa similitude e inteligência.
________________abraço. bem cordial.
(if I may).
infantilizar o passado…logo condenar o presente…que o futuro…esse é sempre uma incógnita…
esperemos que “feliz” e “melhor”.
e saio. antes que se zangue…
Obrigado por me fazer espreitar o Espreitador.
Zangar-me porquê? cumprimentos
Desculpa a resposta atrasada - o trabalho - mas quero ainda rcorrigir um malentendido: Nem eu nem o João Pinto e Castro partilhamos a opinião do tal deputado britânico que «É impensável que um quadro clássico possa chocar». Os nossos quadros são a tentativa de provar a falácia desta afirmação.
Estamos de acordo, então. E também no resto:
Ao aceitar os filtros que se costuma aplicar, intencionalmente ou subconscientemente, à leitura de obras de arte antiga ou exótica e assim deflectir a sua mensagem inerente (erótica ou outra) constitui a recusa de se expôr a ela no plano em que ela foi intendido comunicar.
O antropólogo e não só este deve fazer exactamente o contrário.
Ainda bem - que eu não compreendera pelo teu post …
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